Nos últimos meses, esteve muito em voga uma discussão em torno do aborto. Muitas pessoas são a favor, muitas outras são contra. Essa discussão não é recente, mas nos últimos tempos houve novos elementos envolvidos pelo fato de ter havido algumas decisões governamentais relaxando as regras permissivas do aborto ao redor do mundo e, em contrapartida, no Brasil, uma maior ressonância da voz que se expressa contra o aborto como um direito inescapável das mulheres (na esteira de uma maior proeminência do pensamento conservador no debate público). No meio de toda essa discussão, muitos textos foram escritos e muitos vídeos foram publicados para defender ambas posições. Este texto não é mais um contra ou a favor do aborto.

Dissipando qualquer curiosidade, afirmo de pronto: sou contra o aborto. Minha questão é outra, é uma crítica a quem se diz contra o aborto, mas não se expressa de forma coerente com o que diz acreditar. Antes de abordar essa crítica de forma mais específica, pretendo expor o que me parecem ser os elementos formadores do meu posicionamento acerca do assunto, aplicáveis a qualquer pessoa. Irei chamá-los de elementos pístico, empírico e teórico. Essa ordem não é sem propósito, ela representa a sequência de formulação da convicção a partir da minha vivência. Nada impede que outros sejam primeiramente convencidos por categorias teóricas ou tenham primeiramente experiências que moldem suas convicções. De minha parte, a fé falou primeiro.

Portanto, em primeiro lugar, o elemento pístico. Decorrente da fé, esse elemento possui bases religiosas evidentes, pois é como cristão que creio no estabelecimento da vida desde a concepção, que a vida de um bebê não nascido é tão valiosa quanto a de um bebê nascido, que é o bebê dentro do útero é uma pessoa tanto quanto qualquer nascido. A Bíblia não deixa a mínima margem para dúvida. Os textos que embasam o pensamento nesse sentido são fartos.

No Salmo 139.16, Davi afirma que Deus já o via quando ele era “substância ainda sem forma”, de modo que todos os seus dias foram escritos no livro divino, todos os dias, quando nenhum deles ainda havia. Jó 31.15 não deixa dúvida sobre a ação de Deus na formação do bebê dentro do ventre (“Aquele que me formou no ventre não fez também o meu servo? Não foi o mesmo que nos formou no útero?”). Em Jeremias 1.5 temos o próprio Deus dizendo ao profeta: “Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que nascesses te consagrei e te designei como profeta às nações”. Imagine que estranho seria se Deus consagrasse um amontoado de células como profeta, que só depois se tornaria um ser humano.

No mesmo sentido, Isaías afirma não apenas que Deus o formou, que Deus o conheceu ou que Deus o consagrou, mas que Deus o chamou pelo nome! Sim, “O Senhor chamou-me desde que nasci, fez menção do meu nome desde o ventre da minha mãe” (49.1). Amontoado de células não tem nome, só pessoa. O texto de Êxodo 21.22 é emblemático, pois a palavra utilizada no hebraico para se referir a um bebê ainda no ventre é a mesma para se referir a filhos já nascidos, demonstrando que não há qualquer diferença entre eles, exceto o fato de um estar fora do ventre o outro dentro (ainda). O mesmo padrão linguístico é encontrado em Gênesis 25.22, quando relata os filhos gêmeos de Rebeca lutando dentro do ventre. Ainda eram crianças dentro do útero, mas não são referidos como outra coisa que não crianças, apenas.

No Novo Testamento, o padrão é o mesmo. Paulo afirma que “desde o ventre da minha mãe me separou e me chamou pela sua graça” (Gl 1.15), demonstrando profunda convicção de chamado intrauterino, o que é possível apenas se bebês não nascidos forem pessoas e não coisas ou um amontoado de células. Assim como no hebraico, no grego não há distinção entre criança que esteja fora ou dentro do útero. A palavra utilizada para bebês, nascidos ou não, é a mesma (Lc 1.41 e 2.12). Aliás, o texto de Lucas é simbólico, pois mostra que não somente um bebê é gente dentro do útero tanto quanto fora, como é possível que ele tenha reações e interaja com o mundo externo: “Quando Isabel ouviu o cumprimento de Maria, a criancinha saltou em seu ventre; Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (1.41).

É evidente que a convicção acerca da qualidade de pessoa do bebê no ventre, não importa qual seja a idade gestacional, não torna mais fácil lidar com problemas de gravidezes que sejam decorrentes de estupro ou de bebês que tenham malformação, mas muda radicalmente a forma de tratar esses problemas, muda os referenciais éticos. Afinal, não se está apenas diante de uma mulher que tem direito sobre seu corpo, mas diante de um bebê que tem direito à vida, tanto quanto qualquer outra pessoa. Não creio que a resposta a esses problemas por parte de quem é contra o aborto deva ser um frio e simples “abortar é errado”, é necessário apoio à mãe que não desejou nem planejou estar grávida, está enfrentando um trauma incomparável e precisará aprender a enfrentar uma situação de dor e sofrimento. O apoio às mães nessa situação passa necessariamente pela educação acerca do valor da vida e pelo estabelecimento de uma rede de apoio que lhe proporcione condições de ter segurança material e emocional para criar seu filho.

Vale mencionar que o posicionamento contra o aborto não ignora dilemas éticos de situações em que a vida da própria mãe corre risco. O que esse posicionamento faz é justamente manter isso como dilema ético, uma escolha entre duas vidas, não como algo fácil que é escolher a vida da mãe em desfavor de uma coisa sem identidade ou significado.

Também não é tão simples dizer que abortar não é uma boa opção a quem enfrenta a dor de saber se seu bebê poderá sequer sobreviver fora da barriga. É necessário que se demonstre compaixão pelo bebê e pelos pais, muitas vezes enlutados e não empolgados com a chegada daquela criança. Entendo, portanto, que não deve ser ponto de discussão entre cristãos o posicionamento contra ou a favor do aborto, mas é possível que haja dificuldades no enfrentamento de situações que envolvam gravidezes traumáticas, de modo que as conclusões sejam diversas, muito embora a premissa de respeito à vida seja a mesma.

Diante disso, é fácil perceber que o desafio não é pequeno. Com efeito, o desafio para quem é contra o aborto é ainda mais difícil, e expressa, na verdade, mais valor pela vida da mãe, pois buscará contornar seus traumas e aflições sem matar seu filho; sem, portanto, desprezar a vida do bebê nem da mãe.

O dilema relacionado a como lidar com a família que está diante de uma gravidez fruto de violência ou de um bebê que tenha pouca ou nenhuma chance de sobreviver fora do útero leva ao segundo elemento formador do meu posicionamento: empírico. Em 2016, eu e minha esposa enfrentamos uma gravidez de alto risco. Nosso bebê tinha uma síndrome cromossômica chamada Síndrome de Turner. Não preciso contar o testemunho detalhado neste espaço, pois já o fiz em outra oportunidade.

O fato é que nós queríamos engravidar, e ficamos radiantes quando descobrimos que havia um bebê a caminho. Desde o início (seis semanas), sentíamos um amor como nunca antes havíamos sentido; passamos a conversar com o bebê mesmo sem saber o sexo, fazer planos, construir ideais, sonhar. Ouvir seu coração com oito semanas de gestação foi uma das experiências mais intensas da vida. Infelizmente, com doze semanas, em um exame que deveria ser de rotina (morfológica do primeiro trimestre), nosso mundo caiu quando descobrimos que havia algo errado com nosso bebê. Daí até as dezenove semanas foram dias de muita dor, choro, incertezas, orações pedindo cura, exames, consultas. Foram dias intensos, não sabíamos se nosso bebê sobreviveria até o final da gestação, nem qual seria sua condição de vida extrauterina, caso sobrevivesse. Quando aprouve ao Senhor, seu coraçãozinho parou de bater e nós nos despedimos da nossa pequena Laura, um bebê que não nasceu com vida, mas enquanto viveu foi amada e cuidada. Não importava se ela estava dentro ou fora do útero, fomos pais que fizeram tudo que estava ao nosso alcance para cuidar dela.

Essa experiência me fez refletir bastante sobre gravidezes difíceis e aborto. Se antes minha convicção sobre o aborto, fruto da fé, era um tanto abstrata e conceitual, agora ela era concreta, tinha nome, forma, tempo e memória. Mais que antes, eu não poderia conceber a ideia de forçar a retirada da minha filha do ventre de sua mãe se essa não fosse a vontade Deus. No dia em que descobrimos que o coração da nossa filha não estava mais batendo, o médico, antes de examinar, havia nos entregado o resultado do exame que constatou a Síndrome de Turner e insinuou a possibilidade de aborto. Quando negamos e pedi que ele examinasse para ver como estava nosso bebê e ele viu que o coraçãozinho não mais batia, disse: “É, a natureza resolveu pra vocês”. Chame de natureza, chame do que quiser, o fato é que Deus tem a vida de todos nós em suas mãos; nascidos ou não, nossas vidas pertencem a ele. Da mesma forma que ele é soberano sobre a morte de um idoso que cumpriu todas as etapas da vida, é soberano sobre a morte acidental de um jovem ou a morte intrauterina de um bebê.

Alguém pode argumentar que essa foi apenas minha experiência, que não posso impor minhas conclusões a outras pessoas. A isso respondo que sim, é verdade, cada um reage de um jeito. O aspecto empírico parece ser mais subjetivo mesmo. Mas estou assumindo a premissa da fé cristã para não ter dúvida de que não cabe questionamento acerca do valor de uma vida humana, seja fora ou dentro do útero. Pode-se pensar que insistir no nascimento de um bebê malformado é crueldade e egoísmo. Não, não é. Partindo de uma cosmovisão cristã, sabemos que o mundo é mau, “os mortos [são] mais felizes do que os que ainda vivem, e mais feliz do que ambos é o que ainda não nasceu, que não viu o mal que se faz debaixo do sol” (Ec 4.2, 3). Isso, porém, não é desculpa para eliminar a vida de um bebê não nascido. Fosse a maldade social ou circunstâncias adversas pessoais motivos justificáveis, nenhum bebê deveria nascer, pois ninguém está salvo do sofrimento nesta vida. Além disso, a Bíblia afirma que “o Senhor é quem tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz ressurgir dali” (1Samuel 2.6).

O mesmo argumento é válido para o caso de gravidezes cujos bebês são saudáveis, mas não foram desejadas, pois o “mal que se faz debaixo do sol” é imprevisível. É possível que um bebê fruto de uma gravidez indesejada, cuja mãe foi vítima de violência, tenha uma vida próspera e feliz (assim como sua mãe pode superar o trauma e encontrar consolo no próprio filho), como é possível um bebê sem nenhuma malformação, fruto de uma gravidez planejada e desejada ser exposto às mais terríveis intempéries e dissabores. A verdade é que não sabemos; o futuro a Deus pertence, somente a ele.

Portanto, em minha experiência familiar, nunca consideramos abortar nosso bebê. Pelo contrário, desde o primeiro momento, nossa decisão foi de lutar, lutar até o fim pela nossa filha. Creio que isso é o que deve ser feito, devemos lutar pelos nossos bebês e suas mães, protegendo e cuidando de ambos, devemos apoiar as famílias à nossa volta que enfrentam gravidezes difíceis, as igrejas precisam estar preparadas para ser suporte às mães, aos pais e aos filhos, nascidos ou não, que precisarem.

Muito embora meus pensamentos, hoje, estejam mais claros, à época da nossa primeira gravidez, em meio ao turbilhão de sentimentos, muitos questionamentos afloraram, algumas dúvidas surgiram (em meio ao processo, ter o acompanhamento de profissionais de medicina e psicologia extremamente capacitados fez toda a diferença. Temos muita clareza de que foram instrumentos de Deus na nossa vida).

Esses questionamentos levam ao último elemento de minha convicção: o teórico. Quem primeiro me ajudou nesse sentido foram Franklin Ferreira e Alan Myatt. Eles dizem assim: “o processo reprodutivo não somente produz o corpo, mas também um novo espírito. O aspecto espiritual é um elemento essencial da natureza humana, não uma parte adicional agregada. Por conseguinte, o espírito da própria criança emerge da união das duas sementes que são dadas pelos pais, durante a relação sexual” (Teologia sistemática, p. 413). Essa afirmativa me fez entender muito fortemente que minha filha foi uma pessoa completa desde o início. Não apenas isso, me faz ter certeza de que nos encontraremos na eternidade.

Não se deve supor, entretanto, que esse é um posicionamento traducionista. Admite-se simplesmente que cada alma é uma criação de Deus, realizada no momento da concepção. Louis Berkhof, apesar de admitir dificuldade para determinar com precisão o momento em que a alma é criada, afirma que o criacionismo “pode significar simplesmente que a alma, conquanto chamada à existência por um ato criador de Deus, é, contudo, pré-formada na vida física do feto, isto é, na vida dos pais” (Teologia sistemática, p. 183, 184). Michael Horton reforça o posicionamento que valoriza a vida humana de forma integral desde a concepção, ao afirmar que “a partir do momento da concepção, cada um de nós já é um participante na teia de histórias, relacionamentos, genética e educação humanos que condicionam nossa identidade pessoal” (Doutrinas da fé cristã, p. 403).

Tratando especificamente a respeito do aborto, Karl Barth é bastante incisivo ao defender a vida intrauterina e equipará-la enfaticamente com a vida fora do útero, não havendo desculpa que seja plausível para se tirar a vida de um bebê. Ele chama quem pratica o aborto de assassino.

Esta questão repousa na situação em que a concepção acontece, mas por variadas razões o nascimento e a existência da criança não são desejados e são, talvez, temidos. As pessoas envolvidas são a mãe, que carrega tanto a atitude quanto o desejo, ou permite que se faça; o assistente amador mais ou menos informado, talvez um profissional cientifica e tecnicamente treinado; o pai, parentes ou terceiros personagens que permitem, promovem, assistem ou favorecem a execução do ato, e depois compartilham a responsabilidade. E em um senso mais amplo, mas não menos estrito, está a sociedade, de quem as condições e mentalidade, direta ou indiretamente, incentivam esse tipo de atitude, de quem também as leis podem até permitir. Os significados empregados variam de um contexto mais primitivo para outro relativamente mais sofisticado, mas esse aspecto não demanda nossa atenção neste primeiro momento. Nosso primeiro foco deve ser no sentido de que nenhum pretexto pode mudar o fato de que todo o círculo daqueles envolvidos está, essencialmente, engajado em matar uma vida humana. Pois a criança não nascida é desde muito do início uma criança. Ela ainda está em desenvolvimento e não tem uma vida independente. Mas é um ser humano, não uma coisa, não é uma mera parte do corpo da mãe. […]

Antes de prosseguir, precisamos sublinhar o fato de que quem destrói uma vida em germinação mata uma pessoa e, então, se aventura na coisa monstruosa de decretar acerca da vida e da morte de um igual cuja vida é dada por Deus e, por isso, como sua própria vida, pertence a Ele. (Church Dogmatics, III.4, p. 415-416)

 

Filosoficamente, Francisco Razzo constrói um robusto edifício teórico no livro “Contra o aborto”(Editora Record), para demonstrar os aspectos frágeis dos argumentos a favor de tal prática. Lançado no final de 2017, o livro de Razzo é a erudição a serviço da vida. Infelizmente, o imaginário tende a pensar que no debate envolvendo o aborto, quem se posiciona a favor o faz apenas por estar imbuído de opiniões apaixonadas, ao passo que o posicionamento favorável é cientificamente embasado e teoricamente fundamentado. Razzo deixa clara sua intenção de desfazer esse engano:

Este livro trata do exame crítico de crenças que motivam escolhas morais e não do julgamento moral das escolhas – embora, devido à natureza polêmica do tema, possa dar a impressão de que eu esteja julgando moralmente pessoas. O fato é que estou julgando a consistência teórica da expressão “é verdadeque o aborto deva ser permitido, pois é verdadeque a mulher tem o direito ao próprio corpo e é verdadeque o embrião não é uma pessoa”. E para este julgamento teórico estou oferecendo um contraponto, igualmente teórico, do tipo “não é verdadeque o aborto deva ser permitido, pois essas razões não são teoricamente convincentes”. […]

Quando as pessoas discutem aborto, muitas entram em debates com apelos emotivos sem qualquer rigor intelectual. Pretendem apenas convencer o interlocutor pelo poder da força retórica e física. Existem razões mais do que suficientes para abandonar esse tipo de postura. A principal delas é que todo tipo de apelo à emoção não passa de relativismo – e por que não dogmatismo? – mal disfarçado. No caso do aborto, isso é mais grave em virtude de um debate cujos resultados decidirão sobre vida de pessoas inocentes. Um debate precisa superar esse tipo escorregadio das emoções e encontrar o terreno seguro da razoabilidade, sobretudo quando reconhece os frágeis limites da condição humana. (p. 33, 35)

Uma ressalva é importante: não incorro nos argumentos teóricos contra o aborto, pois este não é o propósito do texto. Espero, contudo, ter demonstrado que a questão do aborto para os cristãos pode divergir em pontos outros que não sua legalização. Espero ter demonstrado também que, no debate público, não se trata de um lado cientificamente embasado e outro cegamente apaixonado, trata-se de uma discussão em que ser contra o aborto é teoricamente mais seguro e consistente. Do outro lado, o que resta é apenas retórica libertária inconsequente.

Parto, então, para o ponto central desta reflexão, que é a linguagem abortiva presente até mesmo entre aqueles que são ferrenhamente contra o aborto. Minha crítica, neste ponto, parte da observação de dois contextos: contra os pais que engravidam e não assumem estarem vivendo a parentalidade desde o início, apenas se preparando para a experiência que há de vir após o nascimento; e contra a equivalência discursiva que se pratica entre estar vivo e estar nascido.

Primeiramente, portanto, é preciso deixar para trás a ideia calcada no sentido de que a gravidez é apenas um prelúdio, uma preparação. Ela é um momento de formação, é verdade, mas é uma formação ambivalente. Pais e mães são formados junto com os bebês. Da mesma forma que o bebê em formação é um bebê, pais em formação são pais. Ao dizer a uma mãe ou pai grávido (sim, os pais também engravidam!) “parabéns, vai ser papai” ou “você será uma ótima mãe”, você utilizando uma linguagem incompatível com sua convicção relacionada ao aborto. Na verdade, você está expressando uma ideia compatível com o sentido de aquilo sendo formado dentro do útero ainda não ser um bebê com pai e mãe, mas apenas uma coisa. É preciso mudar essa linguagem com urgência. Sua sutileza não reduz sua importância.

É importante dizer que também se nutre o imaginário de menor importância a alguém que é pai há menos tempo. Isso não pode acontecer. Um pai (ou mãe) menos experiente não é menos pai, é menos experiente. Apenas isso. Antes de nossa segunda filha nascer, eu e minha esposa já éramos pais da Laura. Não sabíamos ainda como era sermos pais de um bebê nascido com vida e saudável, assim como hoje não sabemos como é sermos pais de uma filha adolescente. Mas isso não nos tornava menos pais, assim como hoje não somos menos pais de quem tem filhos adolescentes.

Em segundo lugar, estar vivo não é o mesmo que ter nascido. Nossa cultura concebe a ideia de que o nascimento com vida é um marco importante. De fato, é. Tanto que há sérias implicações jurídicas. Por exemplo, nosso Código Civil diz que a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida (art. 2º). Porém, o mesmo artigo estipula dos direitos do nascituro desde a concepção. Não é desde as doze semanas ou a partir de quando houver sistema nervoso, é desde a concepção. Como bebês que ainda não nasceram são pessoas vivas, o nascimento com vida não nos torna mais importantes que os bebês dentro da barriga. Essa certeza deveria nos levar a mudar a linguagem para nos referir ao tempo que temos de nascidos na contagem da idade, não de vida, pois ela veio antes, na concepção. Pode parecer supérfluo, mas meu ponto é que o sutil é importante, que valores são corroídos a partir de pequenas atitudes e linguagens que se perpetuam.

Como o título aponta, as questões aqui levantadas como problemas são muito sutis. Tão sutis que só as percebi porque perdi minha primeira filha antes que ela nascesse, revelando a mim e a minha família uma realidade que não nos era perceptível. Provavelmente, não tivesse passado por esse trauma estaria ainda aceitando a ideia de que quem está grávido “vai ser pai” ou de que a experiência da paternidade só tem valor considerável após o nascimento do bebê. Espero que este texto contribua para que você, contra o aborto, valorize mais a vida por meio da sua linguagem na sutileza do dia a dia, não apenas quando estiver vociferando argumentos contra o ato de abortar, mas que você valorize mais seu bebê dentro da barriga de forma efetiva. Se você é a favor do aborto, estarei satisfeito se você tiver chegado até aqui e tiver ficado reflexivo. Leia o livro de Francisco Razzo para uma construção teórica robusta contra o aborto.

 

João Guilherme é formado em Direito e mestrando em Teologia. Foi um dos idealizadores da Box95 e atualmente está à frente da Editora 371.


A prática de qualquer exercício físico exige disciplina e superação. Recentemente, voltei a andar de bicicleta, atendendo à demanda irrefutável de praticar algum exercício físico para garantir o mínimo de saúde pelos próximos anos. Apesar de eu já ter tido meus dias de relativa glória praticando corrida, retornar sempre é difícil. A memória muscular é bem mais bonita na teoria do que na prática. Esse retorno me fez pensar muito a respeito do que Paulo fala aos coríntios, na primeira carta, sobre a necessidade de eles se manterem firmes. Ele diz no capítulo 15, verso 58: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (ARA).

Na minha esforçada tentativa de retornar à rotina de atividades físicas, chego rapidamente a uma triste constatação: por mais que meu cérebro se lembre de como é ter condicionamento físico, meu corpo insiste em desobedecer e não dar conta do que lhe é demandado. Por isso, minha experiência com a bicicleta tem sido de bastante inconstância, principalmente se há subida no trajeto. Isso faz com que eu não consiga manter o ritmo que gostaria, intercalando trechos de alta velocidade (nas decidas, claro!) com trechos de constrangedora lentidão, na marcha mais leve, muito leve.

Ao lembrar do que Paulo fala aos coríntios, aplicando ao meu contexto, é como se eu ficasse repetido enquanto pedalava: “sejam firmes, sejam firmes, sejam firmes…”. Apesar de esse pensamento ter grande utilidade na prática de exercícios físicos para não desistirmos à primeira reclamação do corpo, uma análise cuidadosa do texto mostra que o ensinamento a partir da ordem de Paulo pode ser mais profundo no contexto da vida cristã do que simplesmente tentar ser firme para completar determinado trajeto ou atingir determinada meta espiritual.

Nesse sentido, minha proposta é de que existem formas bem práticas de se adquirir firmeza. Da mesma maneira que o exercício físico traz uma série de benefícios ao corpo, exigindo disciplina, foco e determinação, existem exercícios devocionais que promovem uma série de benefícios espirituais. Esses exercícios devocionais também são chamados de disciplinas espirituais. O desafio proposto é fugir da abstração teórica em que se pode incorrer ao fazer teologia, sabendo-se todos os passos do caminho da santificação sem necessariamente percorrê-los, mas também não cair em um receituário meramente utilitário e vazio. Assim, vejamos como o texto bíblico pode servir de auxílio para a prática das disciplinas espirituais.

Na caminhada cristã (qualquer semelhança na linguagem não é mera coincidência), nossa rotina é muito parecida com a vida de quem quer ser saudável e não consegue, intercalando dias de muito esforço com dias de intensa rebeldia e sedentarismo. Isso faz com que muitos de nós sejam ovelhas gordinhas e doentes, com as taxas todas desreguladas no exame de sangue espiritual. Não deveria ser assim, afinal, o limite das semelhanças entre a caminhada cristã e o exercício físico é Cristo, e o contexto da ordem de Paulo aos coríntios nos ajuda a compreender isso.

Primeiramente, um alerta: livre-se dos argumentos fajutos, tais como “uma vida de devoção, de total entrega a Deus, é reservada apenas àqueles que foram chamados a ‘viverem da obra’, existem níveis diferentes de exigência espiritual”, ou “minha vida devocional será muito melhor depois que eu estudar teologia, aprender a interpretar a Bíblia corretamente e conhecer os pensamentos dos grandes teólogos”. Aos dois argumentos Richard Foster, em seu livro “Celebração da disciplina” (Editora Vida) tem boas respostas. Quanto ao primeiro, ele diz que “o desejo de Deus é que as disciplinas espirituais sejam praticadas por seres humanos comuns: pessoas que têm emprego, que cuidam de crianças, que lavam pratos e que retiram o lixo”, ou seja, não importa o volume de obrigações na sua agenda, encare de forma séria que o Reino de Deus deve ser buscado em primeiro lugar por todo e qualquer cristão.

Quanto ao segundo, Richard Foster lembra que “não precisamos chegar a um estágio avançado em teologia para praticá-las. […] O requisito principal é ter anseio por Deus”, ou seja, apesar de a teologia realmente ter níveis profundos de estudo e a Palavra de Deus às vezes ser difícil de entender, o Senhor manifesta seu amor de forma suficientemente compreensível aos pequeninos (Mateus 11.25); não é o conhecimento teológico que produz devoção, são corações devotos que buscam conhecer mais de Deus.

Dito isso, chamo sua atenção para o seguinte: o versículo 58 começa com “portanto”, uma conjunção que nos conduz ao versículo ou frase anterior para entender o motivo de Paulo ter chegado à conclusão de que devemos ser firmes e inabaláveis. O que vemos é o seguinte: “graças a Deus, que nos dá a vitória [sobre a morte] por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”. Note que curioso, não devemos ser firmes e inabaláveis para chegarmos ao pódio, garantirmos a vitória, como faz um esportista; nós devemos ser firmes e inabaláveis justamente porque a vitória já foi conquistada por Jesus na cruz. Paulo afirma nos versículos 3 e 4 do mesmo capítulo que Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. Porque isso aconteceu, nós também ressuscitaremos (vv. 20-22).

Veja, é a vitória de Cristo que nos garante a vitória (João 14.19). Sendo assim, a caminhada cristã não é um exercício físico para o qual as disciplinas espirituais conduzem à vitória, ela é o exercício do vitorioso, daquela pessoa que já chegou em primeiro lugar na competição, já ganhou todos os títulos, agora faz apenas manutenção do seu condicionamento físico; o crente não é o competidor esbaforido que precisa conquistar uma boa colocação, é o competidor agradecido que expressa isso sendo um atleta dedicado. Fosse um jogo de futebol, seria como um time que já garantiu a partida no primeiro tempo com uma goleada e no segundo tempo fica apenas tocando a bola para administrar o resultado. A disciplina é importante? É. Se desistir e perder a bola, o adversário vira o jogo (não reverter o resultado da salvação, mas ele pode bagunçar o placar da nossa mente), mas a luta pela conquista da vitória já aconteceu.

Qualquer outra religião que pregar disciplina o fará como condição necessária ao objetivo de se atingir um estado elevado ou uma realidade superior. O cristianismo é o único sistema de fé que pode pregar o exercício de disciplinas espirituais sem afirmar que elas são condição sine qua nonpara a obtenção de uma graça. Dietrich Bonhoeffer ensina que é justamente o contrário. A fé como premissa para obtenção de graça resulta apenas em uma graça barata, e a “graça barata é graça como refugo, perdão malbaratado, consolo malbaratado, sacramento malbaratado; é graça como inesgotável tesouro da Igreja, distribuído diariamente com mãos prontas, sem pensar e sem limites; a graça sem preço, sem custo”. Por outro lado, a graça de Deus é preciosa, e “a graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quanto tem; a pérola preciosa, para adquirir a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, ao ouvir do qual o discípulo larga as suas redes e o segue”.

Não dá para entender o evangelho do Senhor Jesus Cristo sem entender a verdade preciosa de que nossa motivação para viver uma vida de disciplina e aperfeiçoamento espiritual, desenvolvendo nossa santificação, está na vitória de Jesus sobre a cruz. O Servo Sofredor pendurado no madeiro estampa diante de mim que a graça é preciosa demais para eu não querer mergulhar em seus benefícios, que o chamado de Jesus é forte demais para eu não largar minhas redes e segui-lo.

Se você for um leitor mais atento, observou que o versículo 58 também fala em sermos “sempre abundantes na obra do Senhor”. Esse trecho é para nos lembrar de que podemos ser absolutamente rigorosos no exercício das disciplinas espirituais, lendo a Bíblia, orando, meditando, jejuando, mas se isso não resultar em serviço ao Reino, em participação operosa em uma comunidade local, em compartilhamento de dons e talentos, nossas práticas são apenas rotinas farisaicas destinadas a alimentar o próprio ego. A graça preciosa que envia Jesus para morrer por nossos pecados e nos dar a vida eterna por meio da sua ressureição produz corações que amam a disciplina individual, mas também amam o serviço comunitário. Ser abundante na obra do Senhor é uma consequência natural para quem exerce as disciplinas espirituais como fruto da transformação graciosa em Cristo.

Um último alerta de Richard Foster: “Conhecer a mecânica não significa que estamos praticando as disciplinas”. Não deixe a preguiça te dominar, não fique apenas lendo sobre disciplinas espirituais. Jesus conquistou a vitória para que você desfrute os benefícios, portanto, ore, leia, medite na Palavra de Deus e seja diligente no serviço em sua igreja local, não como uma obrigação que te leve ao lugar mais alto do pódio ou que te livre de alguma punição, mas como gratidão à medalha que já te foi entregue pelo nosso Salvador.

A conclusão de Bonhoeffer diante dessa realidade é inevitável: “Felizes aqueles para quem a mensagem da graça foi misericórdia!” Portanto, seja firme e inabalável. Ao fraquejar, lembre-se do tamanho da misericórdia que a graça derramou sobre sua vida.

 

Uma versão condensada desse texto foi publicada na edição de novembro de 2018 da Revista Box95.

João Guilherme é formado em Direito e mestrando em Teologia. Foi um dos idealizadores da Box95 e atualmente está à frente da Editora 371.


Na última segunda, dia 6 de agosto de 2018, Deus, em sua soberania, me colocou dentro da maternidade de um hospital. Enquanto o Supremo Tribunal Federal e o Brasil discutiam sobre a legalização do aborto eu via meu primeiro filho nascer. Enquanto mulheres egoístas e homens covardes falavam e publicavam a favor da morte de crianças inocentes e indefesas eu assistia de perto o espetáculo divino da vida. Que constraste de realidade! Um constraste que não é visto somente nas maternidades, mas na vida da maioria dos brasileiros comuns. Depois da conversão aquela madrugada foi a grande experiência da minha vida e quero compartilhar um pouco daquilo que vi e ouvi aqui para dizer em caps lock: A VIDA VENCE!

Chegamos no hospital por volta das 5h30 da manhã de segunda. Eu e minha esposa ficamos esperando pela hora do parto. A cesária estava marcada para as 7h30. Ao se aproximar a hora fomos para a sala de cirurgia. Ali fui impactado pela primeira vez. Fiquei numa sala de espera aguardando minha entrada ser liberada. De lá eu escutava gritos e gemidos de mulheres em trabalho de parto normal. Eram sons assustadores se não fosse o contexto da maternidade. Mesmo assim, aqueles gritos de dor me deixaram nervoso. Também ali comecei a pensar: há poucas mulheres lá fora “lutando” pela legalização do aborto enquanto essas estão aqui verdadeiramente lutando pela vida. Enquanto um grupos de mulheres recebe financiamentos de milhares de dólares e vão a mídias e reuniões públicas falar sobre o aborto ali estavam guerreiras, mulheres normais, dando o próprio sangue pela vida de seus filhos.

Sim, eu disse poucas mulheres que “lutam” pela legalização do aborto. Numa pesquisa realizada pelo IPOBE* em fevereiro desse ano (2018) a pergunta sobre essa questão foi feita. O resultado foi que 80% da população brasileira é contra a legalização do aborto. Entre os homens os número é de 79% e entre mulheres de 81%. Ou seja, a grande maioria da mulheres é contra. E mais, temos um número maior de mulheres contra do que de homens, um dado que frusta um dos pontos da narrativa feministas. Que contraste com o que vemos nas mídias, a brasileira é pró vida!

A hora da minha esposa chegou e o parto foi sensacional. Nunca conseguirei descrever em palavra o que senti vendo o pequeno Davi pela primeira vez. Deus é incrível! Depois disso fomos para a enfermaria e ficamos num quarto com outro casal que também acabara de ter o filho. Ali começava uma saga impressionante bela e cansativa. Bem mais bela do que cansativa diga-se de passagem, não pelo pouco cansaço, não mesmo, mas pela beleza da vida. Passamos o dia inteiro e entramos na madrugada de segunda para terça numa rotina de amamentar – arrotar – contemplar – trocar fralda – cuidar da esposa – contemplar. Não havia tempo e nem lugar adequado para dormir. Aquela foi uma madrugada longa, exaustiva e dolorida, mas cheia de alegria e gratidão pela vida.

Ali, na madrugada da vida, vi coisas que nunca esquecerei. Vi mães operadas e debilitadas fazerem de tudo para manter seus filhos recém nascidos alimentados e aquecidos. Vi pais de primeira viagem sonolentos e exaustos aprendendo a trocar fraldas e dar banhos em seus filhos. Vi esses pais andando e correndo pelos corredores para chamar enfermeiras e trocar medicações. E lá estava eu no meio de tudo isso, fazendo tudo isso, sendo pai pela primeira vez. Naquela madrugada estávamos juntos de todo os tipos de pessoas. Haviam casais com plano de saúde e casais atendidos pelos SUS. Haviam mães brancas, pardas e negras. Percebi que uma delas, pela ausência do pai e conversa com a mãe, provavelmente e infelizmente era mãe solteira. Estávamos todos ali, independe de classe social, cor e estado civil, lutando pela vida!

E aqui está outra realidade contrastante das brasileiras comuns. A mesma pesquisa do IBOPE* mostrou que, além do maior percentual contra o aborto estar entre as mulheres, esse percentual é maior ainda entre as que tem renda até 1 salário mínimo (86%) e entre as que são negras ou pardas (81%). Ou seja, a narrativa feministas que diz falar em nome principalmente das mulheres negras e pobres do Brasil mais uma vez é frustrada. Esse grupo social de mulheres brasileiras é o maior grupo contra a legalização do aborto.

Naquele hospital também estava um casal da minha igreja que acabou de ter um filho prematuro. A gravidez era de risco e mãe precisava tomar de uma a duas injeções por dia com medicação para manter a gestação. No sétimo mês uma intervenção precisou ser feita e o bebê nasceu. Ele está na UTI neonatal e ficará por lá no mínimo dois meses. Vi um casal que vai duas vezes ao dia todos os dias ao hospital para cuidar dessa pequena e valiosa vida. Fiquei encantado e encorajado por essa luta desses irmãos queridos. Mas um grande exemplo sobre o valor sagrado da vida! Que Deus abençoe essa criança e sua família. Orem por eles!

O sol raiou e com ele a esperança no meu coração. A madrugada acabou, mas a beleza da vida só estava começando para nós e outras famílias. Raiou a esperança de ver um povo a favor da vida não só dentro das maternidades, mas no dia a dia comum e nos debates legislativos. A pesquisa aqui mostrada serve para mostrar exatamente isso, que fora dos hospitais a luta pela vida também é maioria! Assim, cresceu em mim a esperança de lutarmos por aqueles que estão sendo tecidos por Deus no ventre de suas mães (Sl 139:13) e que desde lá são visto e conhecidos pelo Criador (Sl 139:16)! Deus ministrou ao meu coração naquela madrugada de forma incrível. E se antes eu já abominava o aborto, agora o abomino mil vezes mais!

Com 7 semanas de gestação eu ouvi o coração do meu filho bater pela primeira vez e 32 semanas depois aquele mesmo coração estava batendo sobre o meu peito. Escrevo com os olhos marejados que aquele era o mesmo coração, a mesma criança, o mesmo ser humano. Que coisa maravilhosa e sagrada é uma gestação. É um processo biológico criado e santificado pelo próprio Deus. Pude experimentar essa experiência junto com Laryssa e lembrar que nosso Senhor e salvador, Jesus Cristo, Filho de Deus, já foi um embrião e um feto. E não só isso, mas como feto foi identificado por outra criança também no ventre (Lc 1:41). A gestação é santa e sagrada porque o Filho santo de Deus já passou por ela e a concedeu dignidade, assim como todas as outras etapas da vida.

A vida sempre vencerá! Até mesmo as vítimas de aborto ressuscitarão e estarão no céu com o Senhor. Continuemos na luta! Eu nunca vou esquecer daquela madrugada e do que ela me ensinou… Espero que lembremos de tudo isso quando a questão do aborto estiver diante de nós! Deus abençoe e proteja nossas crianças!

 

*Site do Ibope com a pesquisa: http://www.ibopeinteligencia.com/noticias-e-pesquisas/cresce-o-grau-de-conservadorismo-do-brasileiro-em-alguns-temas/

 

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em Administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  

 



Ele conhece os 5 solas da reforma protestante. Não só conhece, mas os tem como capa de Facebook. Talvez até tatuados quem sabe. Ele é bom em conhecer a história da reforma e sabe falar sobre Zwinglio, Lutero, Knox, Calvino, Melânchton e até outros menos conhecidos. Grande defensor da tulip e forte opositor do arminianismo. É leitor de bons livros e talvez já esteja até escrevendo em blogs. No Facebook ele é um defensor da fé cristã histórica, sempre ligado as confissões, catecismos e outros documentos antigos. Se diz cristão protestante, reformado, calvinista e conservador. É um grande consumidor de canais teológicos e políticos no YouTube e tem aprendido sobre filosofia e economia. Participa até de conferências inclusive.

Ele não é membro de nenhuma igreja. Vive de visitar algumas, mas nunca resolve firmar um compromisso com uma igreja local. Sempre encontra problemas nos pastores, mas nunca em si mesmo. Talvez até ache melhor ficar em casa do que perder tempo com hereges. Não serve a ninguém fora da internet. Não contribui financeiramente em nenhuma congregação. E mesmo fora da igreja, também não investe em missões. Dificilmente é confrontado sobre seus pecados e acha que falar palavrão é normal para o cristão. Resolveu levantar a bandeira da cerveja e do tabaco sem nenhum compromisso com os irmãos mais fracos. Exatamente porque não convive com eles. Em vez de se alimentar no culto congregacional com pastores e irmãos imperfeitos, prefere as páginas teológicas de zoeira ou depressão. Elas passam a boa sensação de superioridade e perfeição que a igreja não passa.

Na verdade, o conhecimento que tem não é profundo. Se vê como teólogo, mas é mais um papagaio do que pensador. Usa até frases e pensamentos de outros sem dar os créditos. Além disso, não sabe como transformar teologia em aconselhamento. Não tem prática em responder aos dilemas da vida de pessoas mais simples da igreja. Não tem a prática de responder teologicamente nem aos seus próprios dilemas e pecados. Falando nisso, talvez seja pelos pecados ocultos que não se interessa por uma igreja local. Provavelmente existe o medo de ter o pecado amado exposto e condenado. Pornografia ou sexo fora do casamento? Arriscaria esses. Na verdade, não houve reforma, e ele provavelmente até saiba disso.

[Pausa para a mudança no texto]

Desprazer, esse é o desigrejado reformado. O que você acha dessa descrição? Pois é, infelizmente eles existem. O desigrejado reformado é a nova (nem tão nova) moda pecaminosa entre muitos jovens que trocaram a igreja pela internet. Trocaram a membresia pelo login. Trocaram a comunhão viva pelas telas frias e imóveis. Esse é o grande absurdo entre os que se dizem reformados. Essa é a grande contradição. Como usar um termo histórico que recuperou a essência da igreja para dizer que não precisamos dela? Como usar o nome imagens de homens que sacrificaram a vida pela igreja para fazer pouco caso dela?

Você se encaixa nesse perfil? Se arrependa. Não ficarei citando Hebreus 10:25 porque sei que seu problema não é falta de informação, é acúmulo de pecado. Mas há graça para todos nós! O evangelho está ai apontando para Cristo e seu povo. Esqueça a ideia de viver cristianismo sozinho, ela não existe. Tire os seus pecados do seu quarto escuro e coloque-os na luz da igreja. Aprenda a respeitar e se submeter a um pastor imperfeito. Aprenda a conviver com irmãos pecadores como você. E aproveite para ensiná-los com amor e paciência o que você sabe. Use a internet a serviço da igreja e não a você mesmo.

Se você está achando um absurdo sair um livro sobre o pentecostal reformado… bem, você tem o direito, mas saiba que o desigrejado reformado é a verdadeira grande mentira dos nossos tempos. Mais vale um pentecostal anafalbeto na igreja do que um teólogo reformado longe dela.

 

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em Administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  


Jogos como Fortnite, PUGB e Free Fire viraram febre no Brasil e no mundo. São milhões de jogadores online e muito conteúdo para blogs e Youtube sendo produzidos sobre esses jogos. Todos os três que citei pertencem a um estilo de jogo chamado Battle Royale. Em resumo, nesses jogos, jogadores individuais, em dupla ou em grupo, caem numa ilha cheia de armas e outros itens (loot) e precisam sobreviver até o final enquanto a zona de segurança diminui com o tempo. Cada jogo possui suas variações e detalhes, mas essa é a ideia central, um jogo de combate, estratégia e sobrevivência. Com todas as opções de armas, itens, carros e a possibilidade de jogar online com seus amigos, inclusive falando com eles em tempo real, não é difícil imaginar porque esses jogos estão fazendo tanto sucesso.

Se estou escrevendo sobre eles, você já deve imaginar que estou jogando. Acertou! Minha escolha foi pelo Free Fire por ser mais leve para o celular, com ótima qualidade e jogabilidade. Tenho jogado nos tempos livres e com os amigos da igreja. Nos reunimos às vezes para comer e jogar. São ótimos momentos de comunhão e diversão! Como pastor, gosto de estar por dentro e até de participar, se possível, do que os jovens estão fazendo. E claro, gosto demais desse estilo de jogo. Gosto tanto que sei que o grande perigo que corremos é o do vício. Podemos perder muito tempo e negligenciarmos áreas importantes da vida por causa de uma boa partida de Battle Royale. Se você joga ou está pensando em jogar, tome esse cuidado!

Mas hoje não é dia de falar de vício. Vamos falar de coisa boa! Como pastor e alguém que está o tempo todo pensando na igreja, não posso deixar de falar sobre algo que sempre percebo jogando Free Fire com meus amigos. Então lá vai, segura esse drop! Quando jogamos no modo squad somos 4 jogadores contra outras equipes. É o modo mais divertido! Nele a estratégia mais comum é a de permanecermos unidos. É muito comum ouvir e falar o tempo todo: “vamos ficar juntos”, “não me deixem só”, “ei, Pedro, não vai para muito longe”. Não sei para você, mas eu não consigo ouvir essas coisas e não lembrar da Igreja de Jesus!

Ao orar por nós em João 17, Jesus pede ao Pai pela unidade da igreja como marca fundamental para o cumprimento da nossa missão no mundo (João 17.21-23). O testemunho do envio para a missão depende da unidade da igreja. Em Efésios 4, logo após a exposição dos 3 primeiros capítulos sobre a obra de Deus da salvação e ajuntamento do seu povo, Paulo fala sobre a unidade da igreja como marca fundamental (Efésios 4.1-6), que possibilita o crescimento e fortalecimento da igreja em maturidade (Efésios 4.11-16). Não fomos chamados para estarmos nesse mundo sozinhos. A igreja é esse squad lutando pelo evangelho!

Há uma particularidade nesses jogos incrivelmente parecida com um texto bíblico. Diferente do modo individual, no squad, quando um jogador é acertado e sofre grande dano, ele é derrubado e fica aguardando por socorro. Seu companheiro de equipe pode vir e levantá-lo antes que ele morra para ambos continuarem combatendo na partida. Isso acontece bastante no Free Fire. Queremos estar sempre perto um dos outros para que possamos ser levantados quando caímos ou levantarmos alguém que esteja precisando. Novamente, é impossível não lembrar da igreja. Impossível não lembrar de Eclesiastes.

“É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar-se!” (Ec 4.9-10)

A Igreja de Jesus foi chamada para viver em unidade! Sua vida nesse mundo hostil deve ser em plena união entre os irmãos. É assim que igrejas locais crescem e sobrevivem. É assim que cada membro cresce e sobrevive. Fomos chamados a nos congregar e admoestar uns aos outros (Hebreus 10.25). Fomos chamados a levar as cargas uns dos outros (Gálatas 6.2). Fomos chamados a confessar pecados e orar uns pelos outros (Tiago 5.16). Viver cristianismo sozinho nesse mundo é mais perigoso que cair sozinho na Mill. A vida cristã é uma vida em igreja! E a igreja não é você, somos nós!

Espero que ao ver alguém tentando viver a vida cristã sozinho você lembre de alertá-lo como no Free Fire: isolar-se é perigoso; não haverá ninguém para ajudar; distanciar-se do grupo é correr grande perigo. É impossível não jogar com amigos e não lembrar da unidade da igreja. Pense nisso e traga esses textos à mente. Estar sempre junto do squad e avançar em unidade é melhor que qualquer silenciador e mira 4x…

“O Deus que concede perseverança e ânimo dê-lhes um espírito de unidade, segundo Cristo Jesus, para que com um só coração e uma só boca vocês glorifiquem ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 15.5-6)

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em Administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  


No último sábado, 21 de abril de 2018, fui ordenado ao ministério pastoral na amada Igreja Batista Filadélfia de Fortaleza. Foi um dos momentos mais especiais da minha vida. Era a concretização de um chamado e desejo do meu coração. Na ocasião pude compartilhar com todos um breve testemunho da minha caminha até o santo ministério. Lembrei das dificuldades que passei e da falta de bons conselhos, de um norte, para me ajudar a trilhar um caminho correto e saudável. Pensando nisso, quero escrever uma humilde carta a todos os que possuem esse desejo pelo ministério pastoral. Não me coloco aqui como alguém experiente, mas como alguém que acabou de passar por isso. Sei que as dúvidas e ansiedades são fortes para quem está buscando seriamente o pastorado e quero ajudar falando sobre o básico dessa jornada. Se você sinceramente desejar ser um pastor, os próximos parágrafos são para você.

A primeira coisa que você precisa saber é que esse desejo é algo bom. Mais do que bom, excelente! Veja o que Paulo diz a Timóteo: “Esta palavra é digna de crédito: Se alguém almeja ser bispo, deseja algo excelente.” (1 Tm 3:1). Parece óbvio, mas você precisa ter essa convicção. Enfrentei dificuldades com pessoas que diziam que esse desejo poderia ser fruto de um coração vaidoso. Elas estavam, em parte, corretas. Poderia ser. Você precisa julgar suas motivações e se perguntar: “por que quero ser pastor?”. Seja sincero. Por outro lado, não ache que você precisa ter uma visão ou opinião perfeita sobre o seu desejo. No início você ainda não sabe muito bem o que é ser um pastor, ninguém sabe.

Na maioria dos casos somos encantados pela pregação e queremos ser pregadores. Pegamos de forma isolada um dos elementos do ministério pastoral para aquecer nosso desejo. Isso é ingenuidade, mas não torna o chamado algo errado. Creio que Deus nos desperta por meio de algum elemento específico, mesmo que não saibamos do todo. Se esse é o seu caso, ok. Há muito o que aprender no caminho à frente e é exatamente essa caminhada de aprendizado que vai confirmar ou não o seu chamado.

Sabendo que o que você deseja é excelente, mesmo de forma ingênua, agora é hora de ganhar confiança. Você precisa de convicção do seu chamado. Sofri com muitas dúvidas sobre aquilo que eu sentia. Quando comecei a pregar e ensinar colocaram grande expectativa em mim e logo fiquei com medo de frustrar todas aquelas pessoas. Eu me escondia diante das perguntas: “você quer ser mesmo pastor?” ou “tu acha que Deus te chamou para isso?”. Lá no fundo eu diria que sim, mas não tinha coragem de dizer. Deus precisou intervir para que eu saísse da covardia.

Caro irmão, o que precisamos primeiro é da convicção de que Deus é soberano. Dele é o chamado e é Ele que nos colocará ou não no ministério. Quando entendi e passei a viver nessa confiança pude confiar no meu chamado. Agora preste atenção, não estou dizendo que eu passei a ter certeza que Deus me faria um pastor. Passei apenas a ter certeza de que esse era o meu desejo! E que se Deus quisesse, Ele seria o responsável por concretizar a obra, não eu ou qualquer outra pessoa. Foi assim que perdi o medo das expectativas, dependendo de Deus.

Bem, se você sente o chamado, sabe que ele é algo excelente, está convicto dele e dependendo de Deus, então chegou a hora de começar a jornada até o ministério. Lembre-se de duas coisas antes de começar. Primeiro, a sua estrada tem o tamanho que Deus quiser. Não se compare com ninguém. A minha durou 10 anos. Comecei a desejar o ministério aos 17 e fui ordenado ao 27. Para alguns esse é um tempo longo, para outros um tempo curto. O que importa é que foi o tempo de Deus. Em segundo lugar, nessa estrada não existem atalhos seguros. Dê um passo de cada vez. Tentar acelerar o processo pode causar grandes problemas no futuro.

Então vamos para a prática. Você precisará de duas coisas: preparação e reconhecimento. Isso mesmo, reconhecimento, mas vamos por partes. Comece estudando teologia. Se você já faz alguma faculdade aconselho que se forme antes de ir ao seminário. Se você entrar direto no Seminário, aconselho que se prepare para uma segunda profissão, um plano B. Eu, por exemplo, me formei em administração e até hoje trabalho em pequenos serviços com marketing digital. Nesse tempo de faculdade você pode aproveitar para estudar em casa de maneira informal (mas não preguiçosa!). Leia muito a Bíblia e outros livros. Se você não gosta de ler e estudar e nem tem o interesse em gostar, o ministério pastoral não é para você. Ao entrar no seminário, estude o máximo que puder!

Agora algo importantíssimo! Enquanto você estuda nunca deixe de servir a sua igreja. Isso o ajudará a não se distanciar dos irmãos e a não se encher de orgulho por saber mais. Sempre coloque sua teologia em prática no serviço na sua igreja local. Se submeta a ela e aos seus pastores e líderes. Não ache que exista algo que você não pode fazer. Faça desde os trabalhos braçais até os intelectuais. Se você é preguiçoso o ministério pastoral não é para você. Além de ajudar no seu caráter e no dia a dia da sua igreja, você abrirá portas para o reconhecimento. Isso pode parecer estranho, mas é necessário. A igreja precisar ver em você alguém com um real amor e zelo por ela. Não estou falando de buscar o reconhecimento humano para seu próprio orgulho, mas de mostrar a igreja que você a ama e será capaz de pastorear no futuro. Creio que o chamado é confirmado interiormente no coração e exteriormente na igreja. Se as pessoas, principalmente a liderança, conseguem ver e até falam de você como um possível pastor, é sinal que o caminho está correto.

Quero deixar uma dica bônus de extrema importância aqui. Que fique registrado nessa carta: se você deseja e busca o ministério pastoral a decisão mais importante que você terá que fazer é sobre a mulher com que irá se casar. Escolha com sabedoria uma mulher piedosa e que deseje ser uma esposa de pastor.

Antes de encerrar permita-me perguntar algo bem direto: você consegue pregar? O ministério pastoral requer o dom de ensino. Essa é a única característica particular e diferencial daqueles que almejam esse ministério: “apto para ensinar” (1 Tm 3:2). Não entre no ministério pastoral se você é incapaz de pregar. Ser pastor é mais do que pregar, mas não pode ser menos. Agora leia com calma, isso não significa que você já nasceu sabendo pregar e nem que você precisa ser um grande pregador famoso. Aprenda a pregar estudando e praticando. Perca a timidez! Eu sempre fui tímido demais e tive que superar isso. Indico que você comece ensinando as crianças no ministério infantil, isso ajudará demais a se soltar. Lidere grupos pequenos para ensinar. Evangelize e peça para pregar em reuniões menores da sua igreja. Seja um pregador e aproveite cada oportunidade!

Agora encerro com um apelo: tenha uma vida piedosa! E com isso quero dizer uma vida devocional com Deus e em luta constante por santidade. Não deixe a rotina de estudo e serviço matar sua prática de oração e leitura da Palavra como deleite em Deus. Nunca perca esse prazer no nosso Senhor. E por favor, lute por santidade. Você deve ser padrão aos crentes de uma vida com Deus (1 Tm 4:12). Abandone um namoro imoral. Abandone a pornografia. Abandone os seus pecados o máximo que puder. Viva para a glória de Deus!

Indicação de Livros: Eu Sou Chamado?, de Dave Harvey, Editora Fiel; Vocação Perigosa, de Paul Tripp, Editora Cultura Cristã; Amado Timóteo, de Tom Ascol, Editora Fiel.

Um grande abraço e que Deus te conduza por essa jornada maravilhosa rumo ao ministério pastoral. Caminhe com convicção. Se você não chegar lá, lembre-se que Deus é soberano e o sirva onde Ele lhe colocar. Soli Deo Gloria!

Pedro Pamplona, 24 de abril de 2018.

 

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  


Muita gente já está acostumada  a ler e escutar que as redes sociais mexem com nossos desejos e tem impulsionado nosso lado consumista. Isso é ainda mais verdade quando falamos do Instagram. E a situação vai além da compra de produtos. Talvez você já tenha lido sobre as fake lifes que existem na rede. Essas vidas falsas servem como padrão de vida para muitas pessoas. O usuário corre o perigo de se tornar um consumista da vida de famosos e influenciadores. “Eu quero aquela aparente vida de felicidade, luxo, festas e viagens para mim!”. Por conta disso o Instagram já foi classificado, inclusive, como a “pior rede social para a saúde mental do jovens”.

O que isso tem a ver conosco? Eu gostaria de apontar para um problema semelhante: nosso consumismo em relação a livros. Andei pensando nisso nesses últimos dias e, já que participo desse mundo online de indicação de livros, me sinto responsável por tratar desse perigo. Gravei alguns vídeos no meu Instagram stories sobre isso e tive muitas respostas positivas e de agradecimento (eles estão salvos nos meus stories em destaque – @pedromcp), por isso resolvi trazer o assunto aqui. Meu ponto é: não se iluda com o mundo da literatura cristã e não se deixe dominar por um consumismo por livros e pela vida dos outros.  

Alguns esclarecimentos são importantes nesse assunto. Pense nas próximas informações antes de querer imitar a aparente vida ou a biblioteca de alguém. Em primeiro lugar, muitos de nós recebemos livros gratuitamente para indicarmos. Não compramos tudo que mostramos. Em segundo lugar, nossas bibliotecas não são tão grandes quanto você pode pensar. A minha mesmo não é. Creio que muitos que estão lendo esse texto possuem mais livros do que eu. E em terceiro lugar, mesmo que você considere minha biblioteca grande, por exemplo, saiba que eu compro livros a quase 10 anos. Se você comparar esse espaço de tempo com a quantidade de livros que tenho, verá que compro poucos de cada vez e que construí lentamente minha biblioteca.

Portanto, não se iluda. Não pense em algo do tipo: “se ele pode comprar tudo isso eu também posso ou devo”. Nós não compramos tudo. Não ache que você deve ter uma biblioteca como a do fulano do Instagram. Você deve ter uma biblioteca segundo a sua realidade. Não pense que você precisar ter uma biblioteca grande o mais rápido possível. Tudo tem seu tempo de acordo com sua realidade. Lembre-se, por exemplo, que minha biblioteca e a da maioria da galera levou anos para estar do jeito que está. E mais, não queira ser a todo custo o tipo de leitor que o fulano é. Não seja esse consumista de vida. Você não tem obrigação de ler o tanto de livros que o fulano lê. Cada um tem sua realidade de tempo e recursos. Eu, por exemplo, não consigo “competir” com um seminarista solteiro e sem trabalho.

Quero encerrar dizendo que existem algumas prioridades na sua vida que estão acima da compra de livros. Posso listar aqui pelo menos 4: Alimentação, moradia, vestuário e dízimos/ofertas. Se você for casado essas três primeiras prioridades são maiores ainda. Se tiver filhos outras prioridades surgem. Eu desconfio de pessoas que não vivem tão bem em relação a essas prioridades, mas compram muitos livros. Sua principal resolução deve ser: sua vida literária deve condizer com sua realidade financeira.

A dica é fazer um planejamento financeiro priorizando as coisas mais importantes e estipular um valor (fixo e mensal) que esteja sobrando para compra de livros. Faça uma planilha no Excel e programe-se. Você pode pecar comprando livros de teologia. Já pensou nisso? Compre com bom senso e responsabilidade. Ore para que Deus lhe dê sabedoria.  E lembre-se: Se sua biblioteca pessoal é enorme e cresce a cada mês enquanto seu cartão de dízimo/ofertas está em branco e quase sempre vazio, existe algo muito errado com sua fé, teologia e leituras.

Tomando esses cuidados, faça bom proveito das redes sociais, do perfis que indicam livros e principalmente dos próprios livros! Tudo isso é ótimo se usarmos da maneira correta. Se você tem condição para comprar muitos livros, compre. Não tenho nenhum problema com isso. Aproveite e abençoe a vida de quem não tem. Que possamos glorificar a Deus mantendo uma boa relação entre o bolso e a biblioteca.

Boas leituras!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.

 



Qual a visão de Deus você tem enquanto está adorando? Minha teoria inicial nesse rápido texto é a que, com o passar do tempo, temos perdido a visão mais sublime e doxológica de Deus. Do nosso Deus do cristianismo. Essa visão é a visão trinitária. Seja sincero: qual foi a última vez que você se pegou pensando em como maravilhoso e misterioso é o fato de Deus ser trino? Me incluo nessa pergunta. E fico triste em afirmar que perdemos nossas lentes trinitárias. Na adoração, somos unitaristas funcionais na maioria das vezes. Ou quem sabe seria melhor dizer trinitários não praticantes.

Um dos grandes responsáveis por esse embaçamento nas lentes foi Immanuel Kant e sua teoria do conhecimento pautada em espaço e tempo. Ao dar origem ao pensamento moderno Kant nos afastou do transcendente em Deus e dos mistérios divinos.

Da doutrina da Trindade não se tira, definitivamente, nada de importante para a prática, mesmo quando se pretendia entende-la; muito menos ainda quando alguém se convence de que absolutamente supera todos os nossos conceitos. Ao aluno não custa nada aceitar que na divindade adoramos três ou dez pessoas. Para ele tanto faz uma coisa ou outra, porque não tem ideia nenhuma sobre um Deus em várias pessoas (hipóstases). Mas ainda, porque desta distinção não deriva absolutamente nenhuma pauta para sua conduta. (citado em BOFF, 1986, p. 33)

O pensamento pragmático tornou o pensamento doxológico na Trindade numa inutilidade. Por que perder tempo em algo que “não deriva absolutamente nenhuma pauta para nossa conduta”. Felizmente Kant estava completamente enganado. Infelizmente nós somos influenciados pelo seu legado. Os séculos 17 ao 20 nos apresentaram um silêncio melancólico sobre a doutrina da Trindade (estou sendo otimista). Estávamos perdendo a jóia rara do cristianismo…

Até que Karl Barth deu um belo empurrão e colocou a Trindade novamente em ênfase. Sua publicação “Dogmática da Igreja” em 1932 tratou a doutrina da Trindade como primária para entendermos toda a revelação de Deus. Ele afirmou que “ao dar a esta doutrina um lugar de proeminência, nossa preocupação não pode ser meramente que ela tenha esse lugar externamente, mas sim que seu conteúdo seja decisivo e controlador para toda a dogmática” (1976, vol. 1, p. 303).

Barth reacendeu a chama trinitária e colocou a academia teológica em grande discussão novamente sobre essa doutrina. Muitos falam num espécie de avivamento trinitários nas últimas décadas. O debate teológico está a todo vapor, mas precisamos trazer esse “avivamento” para a igreja. Ainda falta muito nessa área. Sabemos que Deus é trino, mas ainda desconfiamos kantianamente da relevância dessa doutrina. O que ela mudaria em nossas vidas como igreja? Será que Barth não estava exagerando? São ótimas perguntas realmente. E nesse texto gostaria de apresentar uma ótima razão para retonarmos ao foco trinitário: ele aprofunda nossa adoração.

A Singularidade da Adoração Cristã

A adoração cristã é única porque adora a um Deus único. E isso quer dizer que adoramos a um Deus que é Trindade. Não estamos adorando a Alá, um deus sem diversidade, nem mesmo a tríade hindu de Bhrama, Vishnu e Shiva, deuses sem unidade. Estamos invocando e exaltando o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que são ao mesmo três e também um. A Trindade é aquela joia rara que só pode ser encontrada no cristianismo! E nenhum mistério é mais doxológico do que o mistério da Trindade e de como Eles se relacionam entre si e conosco, seu povo.

O texto de Efésios 1.3–14 é um louvor de Paulo à obra trinitária de Deus na redenção do seu povo. Só adoramos porque Deus o Pai nos escolheu para Ele e nos permitiu entrar em sua presença como filhos (v. 3–6). Só adoramos porque Deus o filho nasceu, viveu, morreu e ressuscitou por nós. Seu sangue permite que nos acheguemos a Deus e possamos cultua-lo (v.7–12). Só continuamos adorando porque o Espírito Santo nos selou e é o nosso penhor de segurança (v.13–14), além de ensinar e agir em nós para que adoremos corretamente. Deus age de forma trina e pessoal, mantendo sua imanência e transcendência, para salvar seu povo e os conduzir em adoração. Nenhum outro Deus pode fazer isso!

O Exemplo de Paulo

Todo culto é trinitário porque é um ato soberano da Trindade. Mas ter essa percepção trinitária aprofunda nossa adoração. Pensar no Deus único, inalcançável e misterioso que ao mesmo tempo que se revelou como homem e desvenda parte do mistério habitando em nós é como por um caminhão de gasolina em nossa fogueira de adoração.

Não existe nenhuma doutrina ou verdade sobre Deus mais doxológica do que a Trindade. Ela é a visão máxima que podemos ter de Deus. É o entendimento máximo que podemos ter sobre o objeto de adoração. Em outras palavras, é o melhor quadro sobre Deus que podemos pintar para nossa contemplação. Nos exemplo a seguir, quero encorajar você a fazer isso pelo exemplo de grandes homens de Deus.

Vamos começar com Paulo, um exemplo canônico. Em alguns momentos ele apresenta uma estrutura trina de louvor e oração. Além de Efésios 1, aqui estão outros textos:

Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome, Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior; Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações… (Efésios 3:14–17)

Graças damos a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, orando sempre por vós… Como aprendestes de Epafras, nosso amado conservo, que para vós é um fiel ministro de Cristo, O qual nos declarou também o vosso amor no Espírito. (Colossenses 1:3–8)

Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. (2 Tessalonicenses 2:13,14)

Paulo não tinha uma doutrina da Trindade formulada na cabeça como conhecemos hoje, mas com certeza enxergava no Pai, Filho e Espírito pessoas divinas a quem orações e adoração eram dirigidas. Sua oração trinitária mais direta e famosa está no seu encerramento da segunda carta aos coríntios:

A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém. (2 Coríntios 13:14)

Grandes Exemplos Históricos

Sabendo que essa é uma prática bíblica, podemos considerar agora alguns exemplos posteriores importantes. Quero citar alguns homens que nos inspiram a adorar com esse quadro trinitário de Deus em mente. Pense na beleza e desses pensamentos…

Hilário de Poitiers (300–368)

Um só é o Poder, do qual tudo procede; um só é o Filho, por quem tudo começa; e um só é o Dom, que é penhor da esperança perfeita. Nada falta a tão grande per­feição. Tudo é perfeitíssimo na Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo: a infinidade no Eterno, o esplendor na Imagem, a atividade no Dom. (Tratado Sobre a Santíssima Trindade)

Gregório de Nazianzo (329–390)

Mal me dou conta do Um esou iluminado pelo esplendor dos três; mal os distingo e sou levado de volta ao Um. Quando penso em qualquer um dos três, penso nele como o todo, meus olhos são preenchidos e a maior parte do que estou pensando me escapa… quando contemplo os três juntos vejo apenas uma chama e não posso dividir ou mensurar a luz indivisível. (Orations)

Essa, então, é minha posição… adoremos a Deus o Pai, Deus o Filho, e Deus Espírito Santo, três pessoas, uma divindade, indivisível em honra, glória, substância e reino” (Orations)

Gregório de Nissa (335–394) se viu diante de um ciclo envolvente de glória:

O Filho é glorificado pelo espírito; O pai é glorificado pelo filho; Novamente, o Filho tem a sua glória do pai; E o unigênito torna-se assim a glória do espírito … da mesma maneira … a fé completa o círculo e glorifica o filho por meio do espírito e o pai por meio do Filho (Dogmatic Treatises)

Agostinho (354–430), na conclusão de sua grande obra A Trindade, orou assim:

Senhor nosso Deus, nós cremos em ti, Pai, Filho e Espírito Santo. Pois a Verdade não teria dito: Ide, batizai a todos os povos, em nome do Pai, do Filho e Do Espírito Santo (Mt 28,19), se não fosses Trindade. Nem nos ordenaria que fôssemos batizados, ó Senhor nosso Deus, em nome de alguém que não é o Senhor Deus. Nem a voz divina diria: Ouve, ó Israel, o Senhor teu Deus é o único Deus (Dt 6,4), se não fosses Trindade e, ao mesmo tempo, o único Senhor Deus… Dirigindo todo meu empenho por essa regra de fé, na medida de minhas forças e o quanto me tornaste capaz, eu te procurei e desejei ver pelo entendimento o que creio… Ó Senhor meu Deus, única esperança minha, ouve-me, a fim de que jamais me entregue ao cansaço e não mais queira te buscar, mas ao contrário que sempre procure tu face com todo o ardor (Sl 104,4)… Senhor, único Deus, Deus Trindade… (A Trindade)

João Damasceno (676–749)

Uma essência, uma divindade, um poder, uma vontade, uma energia, um começo, uma autoridade, um domínio, uma soberania, revelado em três perfeitas subsistências e adorado com uma adoração… unido sem confusão e dividido sem separação. (De Orthodoxa Fidei)

Todos eles e ainda muitos outros estavam louvando a Deus ao meditar e contemplando os mistérios da Trindade. Uma coisa em comum com todo é que eles se dedicaram a estudar essa doutrina. Buscaram conhecer a unidade e a diversidade em Deus. E diante da beleza inimaginável adoraram com profundidade.

Minhas palavras finais são nessa direção. Precisamos sair do trinitarianismo não praticante, e para isso precisamos sair primeiro do analfabetismo trinitário. Que possamos estudar a doutrina da Trindade para conhecer o nosso Deus Trino, e que diante dos mistérios possamos adora-lo com mais intensidade. Pense na Trindade em meio a adoração. Pensar em Deus como Trindade é pensar sobre Ele da forma mais elevada e digna de glória possível. E quando pensamos que esse Deus Trindade se relaciona conosco, essa se torna a realidade mais doxológica que existe! Ele é a nossa Trindade, ou como Gregório de Naziazo diria, “minha Trindade”.

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Uma das marcas históricas da igreja é a unidade. O credo niceno-constantinopolitano (381) confessou uma igreja una, santa, católica e apostólica. Essa confissão e tradição está em harmonia com as Escrituras, de onde retiramos nossa base e verdade para entendermos a igreja de Deus. O Novo Testamento nos aponta uma grande preocupação por essa unidade da igreja. Podemos perceber isso claramente nas cartas de Paulo, principalmente em Efésios. Ali ele convoca os cristãos a se esforçarem diligentemente para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4:3).

A base de Paulo para esse trabalho pela unidade é o Deus Trino. Ele indica que nossa unidade está no fato de termos um só Espírito (4:4), um só Senhor (4:5) e um só Pai (4:6). No final das contas temos um só Deus Trino e, portanto, devemos viver em unidade. Seguindo essa mesma ideia, o próprio Jesus nos apresenta o fundamento da unidade cristã de modo mais aprofundado em sua oração ao Pai no capítulo 17 de João. Ali encontramos o ponto mais alto da unidade nas Escrituras. Deus Filho está orando a Deus Pai pela unidade do seu povo. É a partir dessa oração trinitária que enxergamos a verdade e a importância da unidade na igreja.

Unidade é a Vontade de Deus

“(20) Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; (21) a fim de que todos sejam um…

Jesus cristo orou ao Pai pedindo unidade para todos os cristãos de todas as épocas. Isso é mais do que suficiente para entendermos que unidade é algo da vontade de Deus. E algo que está em destaque nessa vontade. Deus Pai escolheu pessoas e enviou o filho para criar essa unidade. o Filho morreu e ressuscitou por essa unidade. E o Espírito foi enviado por manter essa unidade. Esse é o desejo de Deus. Ele chamou e redimiu um povo para ser um povo unido. Estar em divisão é estar fora da vontade de Deus.

Deus é o Unificador da Igreja

O que, então, nós cristãos temos em comum que é capaz de produzir tamanha unidade na igreja? Algumas pessoas se unem em torno de um time de futebol, de uma banda ou artista, de uma causa humanitária, de grande laços de amizades, de amor entre familiares, etc. Qual é a cola do povo de Deus? A resposta é até óbvia e talvez seja por isso que não paramos para refletir sobre ela. Acima de tudo, o fator de unidade entre os cristãos é o próprio Deus.

 “(21) a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós… (23) eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade”

A lógica que Jesus apresenta em sua oração é a seguinte: Cada cristão, como igreja, está unidade a Jesus. Jesus, como Filho eterno de Deus, está unido ao Pai. Logo, a igreja que está unida a Jesus está unidade a Deus em sua plenitude, tudo isso por meio do Espírito. Nessa união trinitária entre Deus e entre Deus e a igreja é que encontramos nossa cola e somos aperfeiçoados na unidade. É por estarmos todos unidos a Jesus Cristo, e por consequência a Deus em sua plenitude, que somos ou devemos ser plenamente unidos. Por isso é impossível ser cristão e estar dividido da igreja. É impossível estar unido a Deus e em divisão com o povo de Deus que também está unido a Ele.

A Trindade é o Padrão da Unidade

Ao que essa unidade da igreja se assemelha? Qual é o grau de unidade entre os irmãos em Cristo. A comparação de Jesus para oferecer o padrão da unidade cristã é incrível e surpreendente.

“(22) Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos”

Segundo Carson, “glória geralmente refere-se à manifestação do caráter ou da pessoa de Deus em um contexto revelador” (Comentário de João, p. 570). O Filho, portanto, é a glória/revelação do Pai e em seu ministério manifestou essa glória/revelação aos cristãos. Um dos motivos dessa revelação do Pai e do Filho e de como eles se relacionam é para servir de padrão para a unidade da igreja (“para que sejam um, como nós o somos”). O evangelho de João está cheio dessa revelação gloriosa e apresenta algumas características centrais desse relacionamento divino. 

Nosso ponto de partida é que a Trindade se trata de 3 pessoas distintas, mas plenamente unidas ao ponto de serem um único Deus. Não há necessidade de uniformidade (todos serem iguais em tudo). Eles são iguais em essência divina, mas diferentes em pessoalidade e papéis. A beleza eterna da Trindade está justamente no fato de três pessoas distintas viverem em perfeita unidade. Assim a beleza da unidade da igreja não está em todos serem iguais, mas justamente em todos serem diferentes em unidade.

Gostaria de destacar rapidamente 3 características que João apresenta do relacionamento Pai e Filho. Elas servem de padrão revelacional para nossa unidade cristã: (1) Amor/intimidade; (2) Ação no mesmo propósito; (3) Autoridade e submissão. Sem entrar em detalhes em cada ponto, podemos dizer que é claro e repetitivo em João que Pai e Filho desfrutam de uma relação de grande amor e intimidade. Um conhece muito bem o outro. Eles também estão sempre agindo no mesmo propósito. Seus objetivos são os mesmo e sua unidade de missão é nítida. Além disso, é interessantíssimo perceber que o Filho se submete ao Pai. Isso nos mostra que na unidade trinitária a fato de haver uma hierarquia de funções não é um obstáculo para a unidade. 

Esse padrão revelado por Jesus nos ensina que nossa unidade deve ser baseada em amor e intimidade, cultivando afeições santas e conhecendo uns aos outros. Também devemos estar unidos nos mesmos propósitos. Uma missão e padrões de vida foram dados a igreja. Devemos viver juntos neles para glorificarmos a Deus em santidade e unidade. E por fim, a presença de relações de autoridade e submissão não é um obstáculo para a unidade. Eu diria, inclusive, que é um requisito. A presença de pastores e líderes são essenciais para a unidade da igreja. 

O Propósito da Unidade

A unidade tem uma valor eterno em seu propósito. E esse grande propósito da unidade apresentado por Jesus em sua oração tem caráter revelador e missionário.

“(21) para que o mundo creia que tu me enviaste… (23) para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim”

A unidade da igreja é testemunho do amor de Deus pelo seu povo e da missão de Deus em resgate do seu povo. Atenção para as duas conclusões: (1) Se devemos estar unidos no mesmo amor que o Pai tem pelo Filho, e esse amor é o mesmo que ele tem pelo seu povo, nossa unidade revela ao mundo o Amor trinitário de Deus entre si mesmo e esse mesmo amor pela igreja: (2) Se Deus planejou e executou a obra de salvação para redimir e unir um povo em torno de si mesmo, nossa unidade revela ao mundo essa obra missionária de Deus.

Nossa unidade é uma pregação ao mundo do amor e da obra missionária do Deus Trino. Com isso em mente. pare para pensar no que significa estar em divisão e contentas na igreja. Quando nossa unidade está quebrada estamos dizendo ao mundo que Deus não se importa conosco, que Deus não ama o seu povo, e o pior, que Deus Pai não ama o seu eterno Filho. Da próxima vez que você estiver para quebrar a unidade, seja por qualquer coisa, pense nessas implicações. Esse testemunho acerca de Deus é mais importante do que qualquer desejo, indignação, senso de justiça, ativismo (ou seja lá o que for) individual nosso. 

Unidade eclesiástica não é menos, mas é mais que amizade, afetos e afinidades. É parte integral de quem Deus nos tornou e está primeiramente compromissada com Deus e sua revelação. A unidade encontrada na igreja deve ser a maior amostra de amor, união e compromisso do mundo. Só assim o testemunho sobre Deus será dado de maneira adequada e eficaz.

Encerro dizendo que Deus é o Fundamento principal de nossa unidade Cristã. Ela é da vontade de Deus. Deus é nosso unificador, Deus é o nosso padrão e é sobre Deus que a unidade testemunha. Viver em unidade é uma questão, acima dos benefícios para nós, de viver para Deus, como Deus e por Deus. É uma questão de expor a sua glória ou não ao mundo. Pense nisso!

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (Salmos 133:1)

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


A teologia me salvou daquele cara chato que fala mal do natal e me tornou um entusiasta desse feriado e da época de dezembro. Tanto a teologia propriamente dita sobre Deus como a teologia sobre as coisas diárias da vida, ou sobre as coisas da terra, como diz o excelente livro de Joe Rigney. Não que eu fosse aquele tipo de crente que acha que o natal é fruto do paganismo e, portanto, algo pecaminoso. Meu caso era de indiferença. Mas ainda bem que a teologia me mostrou outro caminho. Há uma beleza extraordinária no natal. Na verdade, há várias belezas extraordinárias no natal… várias que podemos e devemos contemplar e aproveitar.

Como não tenho tempo para escrever sobre todas (acho que daria um bom livro), quero apenas resumir aquela que eu penso ser a maior beleza desse feriado: O NATAL É TRINITÁRIO. Totalmente trinitário. Fique comigo mais um pouco nos próximos parágafos e deixe sua mente contemplar essa beleza eterna e natalina por meio do evangelho de João.

IMPORTANTE: A intenção principal do quarto evangelho é bem clara. João a registrou de forma direta dizendo que aqueles atos de Jesus foram registrados para que possais crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida eterna” (Jo 20.31). Da mesma forma, ele define a vida eterna afirmando que ela significa que “conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste” (Jo 17.3). Portanto, a ideia principal de João é apresentar Deus por meio de Jesus Cristo para que seus leitores os conheçam e tenham a vida eterna. É nesse contexto que ele aponta para a Trindade como o Deus que se revela e nos mostra a beleza em torno do natal.

A origem eterna do natal

O prólogo de João (1.1-18) é um introdução a todo esse tema de João. Ele quer mostrar a base teológica da sua ideia de revelação e vida eterna. Para isso, ele faz algo diferente dos outros evangelhos. João começa na eternidade. Ele está falando de Jesus ainda pré encarnado, antes da criação.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1)

Há muito o que dizer sobre esse único versículo, mas quero resumir e destacar alguns pontos: (1) O Verbo sempre existiu, ele não “passou a ser” ou “nasceu” no princípio, ele já “era”; (2) O Verbo é distinto de Deus Pai, pois é dito que estava com ele, há uma relação eterna entre seres eternos; (3) O Verbo era Deus, sua natureza também era divina; (4) Esse Verbo passa a ser identificado como o Filho de Deus nos versos 14 e 18.

João está nos dizendo que antes de tudo existir já existia o relacionamento eterno entre Deus Pai e Deus Filho. O nascimento que celebramos no natal só é importante, único e revelador porque é o nascimento do Filho eterno de Deus que sempre existiu ao lado do seu Pai. Se a existência de Jesus tivesse o seu início naquela manjedoura, seu aniversário seria comum como os nossos. A beleza do natal está no seu caráter eterno e trinitário.

O mistério milagroso do natal

O prólogo de João continua nos dizendo coisas impressionantes. Lá somos informados que esse Filho eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Deus nasceu. Será que conseguimos enxergar o quão milagroso e misterioso é isso? O infinito nasceu como alguém finito. Como isso pode acontecer? Não sabemos, mas cremos que aconteceu.

Anselmo se perguntou porque um Deus-homem (Cur Deus Homo) e ao afirmar que o Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente homem, uma pessoa em duas naturezas e duas naturezas em uma pessoa, ele concluiu que só um Deus-homem poderia oferecer um sacrifício pela salvação dos homens e que ao mesmo tempo fizesse satisfação da justiça e santidade de Deus.

No natal, celebremos não só o nascimento de um Deus ou o nascimento de um homem. Celebramos o nascimento do Deus-homem! E isso faz toda a diferença. Como Deus Filho ele foi enviado para ser também homem por Deus Pai e ungido pelo Deus Espírito Santo. “O Verbos estava no mundo” (Jo 1.10). Que milagre! Que mistério!

A revelação luminosa do natal

O prólogo ainda nos mostra mais uma grande beleza do natal. E aqui está o centro trinitario dessa celebração. A encarnação tem um objetivo que João faz questão de destacar. Jesus Cristo veio a nós como Deus-homem para revelar o Pai. Ele é descrito como a verdadeira luz (1.9) e luz dos homens (1.4). No verso 18, final do prólogo, João afirma que “ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. O que ele quer dizer é que não há outra forma de ver a Deus a não ser pelo Filho. E isso tem uma explicação, esse Filho está em grande intimidade com o Pai, e por isso é capaz de revelá-lo.

Essa intimidade descrita como estar no seio (ou ao lado, no colo) do Pai fica mais clara no diálogo entre Jesus e Filipe, no capítulo 14. Filipe faz um bom pedido cheio de boa intenção. Ele quer que Jesus mostre a eles o Pai, mas a resposta do Senhor é curiosa: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe?” (Jo 14.9). Jesus está se igualando ao Pai. Ele explica que quem o vê, vê ao Pai. Ele é a revelação exata de Deus andando entre nós.

A ideia fica ainda mais linda e misteriosa. Jesus vai mais fundo e pergunta a Filipe: Tu não crês que estou no Pai e que ele está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo. Mas o Pai, que permanece em mim, é quem faz a suas obras. Crede em mim; eu estou no Pai e ele está em mim…” (Jo 14.10-11). Ele está dizendo que o Pai habita nele e Ele no Pai (Jo 10.38; 14.20; 17.21). Ambos estão em tamanha e perfeita intimidade que um está no outro de forma plena. A teologia chama esse aspecto divino de pericorese: a habitação mútua das pessoas trinitárias. O Pai está no Filho, o Filho no Pai e o Espírito em ambos. Onde um está os três estão, onde um age os três agem.

Há uma beleza pericorética no natal. Ver o filho é ver o Pai. Conhecer o Filho é conhecer o Pai. A encarnação e nascimento do Filho é a Trindade entre nós. Há mais luz em Jesus do que em toda a Nova York no natal. Celebrar o natal é celebrar a Santa Trindade por meios de Jesus Cristo.

A presença diária do natal

Ainda há uma outra beleza nisso tudo. Após morrer e ressuscitar, antes de subir aos céus, Jesus nos deixou o Espírito Santo. Seu ministério é descrito nos capítulos 14 e 16, e uma de suas funções é a de continuar a obra de revelação. Ele apontará para o Filho que revela o Pai. Toda a Trindade está envolvida nessa tarefa de revelar-se ao povo de Deus. A Trindade é um Deus missionário e o natal nos lembra disso!

Há um texto em Romanos que nos aponta para o envolvimento do Espírito na pericorese. Romanos 8.9-11 nos mostra de forma misteriosa que somos habitados pelo Espírito e, junto disso, somos habitados por Cristo e receptores da ação do Pai. O que quero dizer com isso é que além da encarnação, hoje temos a presença diária do Espírito dentro de nós. E isso implica dizer que a Trindade habita em nós de forma especial por meio do Espírito. Tudo o que o natal representa, a pessoa de Cristo e a revelação do Pai, está presente diariamente em nós na pessoa do Espírito Santo! É natal todo dia… Não por mero sentimentalismo, mas porque o Deus Trino habita em nós diariamente!

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” (Gálatas 4.4-6)

Para falar sobre isso de um modo mais “poético”, escrevi um pequeno texto chamado “O Deus Que Desceu Pela Chaminé”. É isso que eu acredito que aconteceu no nascimento de Jesus. O Deus Trino veio até nós pelo Filho e depois pelo Espírito. Fomos tocados e habitados pela Trindade. No natal, celebramos o Deus que está acima de nós, mas que também esteve entre nós e que hoje habita dentro de nós. Essa é a grande beleza do natal! O grande mistério! E é por isso que nunca mais deixarei de celebrá-lo com alegria e empolgação. Emanuel, a Trindade conosco. O Filho eterno de Deus nasceu entre os homens… aleluia!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.