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Uma Ilustração Jedi Sobre Como Lidar com a Teologia na Internet

 

Comecei a escrever em blogs na internet com 18 anos. Já são 8 anos de lá pra cá. Ao longo desse periodo muita coisa mudou na internet, principalmente em relação a forma do conteúdo. O texto sempre foi o principal meio de consumo, mas houve um desenvolvimento para imagens, gifs, aúdio e vídeo. Por mais que o formato da escrita mude constantemente, texto ainda são muito importantes dentro de um mundo com outros formatos. Mesmo com o boom do Youtube não me arrisco dizer qual formato é o mais importante. A verdade é que a internet é uma grande mistura de produtores e consumidores de todos os tipos e formas de conteúdos. Tem público pra tudo! E felizmente a teologia faz parte disso.

Isso mesmo, por mais que alguns digam que não, penso que a expansão teológica na internet é algo extremamente positivo. Guardadas as devidas proporções, vamos fazer uma comparação. Quando Martinho Lutero iniciou sua luta para reformar a igreja, suas ideias foram espalhadas por uma nova tecnologia que surgiu na época. Alguns anos antes, Johannes Gutemberg havia inventado a imprensa (impressão tipográfica) e isso permitiu que o conteúdo de Lutero fosse distribuído em grande escala pela Alemanha e Europa. 500 anos depois estamos vivendo uma espécie de nova reforma protestante, principalmente nos Estados Unidos e no Brasil. Grandes pastores, pregadores e escritores americanos e brasileiros tem espalhado um bom conteúdo protestante e combatido heresias modernas que tem prejudicado a igreja. Essa “nova reforma” cresceu numa escala gigantesca por conta também de uma nova tecnologia, a internet e suas redes sociais. Como não considerar isso algo extremamente positivo?

Mesmo assim cuidados são necessários. Já que estamos falando de Lutero, foi ele mesmo quem defendeu a doutrina do pecado original. Infelizmente temos uma má notícia atrapalhando tudo. Mesmo salvos e em santificação, ainda temos resquícios do pecado em nós. Isso nos faz potenciais deturpadores do que é bom, como a internet. E é aqui que a figura do Jedi vai servir como ilustração. Sou um seguidor da Palavra de Deus e fã de Star Wars. Portanto, deixe-me unir essas duas coisas para expor a verdade bíblica com uma ilustração interessante. Você nem precisa ser fã para entender.

Minha pergunta é: como devemos aproveitar todo o conteúdo teológico na internet? Vou usar a ética da ordem dos Jedi para mergulhar no ensino biblico que servirá como base comportamental para o bom consumidor e produtor de conteúdo na internet. Vamos lá!

 

O Código Jedi

No fantástico mundo de Star Wars todos os Jedi (aqueles do sabre de luz) vivem de acordo com um código de honra e ética (The Jedi Path). Eles se preocupam especialmente com o relacionamento que possuem com a força. Tamanho poder e habilidades requerem uma base moral para que eles não sejam seduzidos pelo lado negro da força. O código Jedi começou como uma espécie de mantra e sofreu algumas alterações ao longo da história. A última versão, a que usarei aqui como ilustração, foi modificada por Luke Skywalker com o fim de restabelecer a ordem Jedi na galáxia. Assim ele reescreveu o código:

Jedi são os guardiões da paz na Galáxia.

Jedi usam seu poder para defender e proteger.

Jedi respeitam toda a vida em qualquer forma.

Jedi servem os outros ao invés de chefiá-los, pelo bem da Galáxia.

Jedi procuram aprimorar-se através do conhecimento e do treinamento.

Cada uma dessas frases servirá para a estrutura seguinte desse texto e para ilustrar uma verdade bíbilica sobre como devemos lidar com a teologia na internet. Espero que apredamos a ser bíblicos em nossa “ética online” e em nosso relacionamento com a teologia como os Jedi eram com suas habilidade e relacionamento com a força.

 

Guardiões da Paz

Os Jedi estavam comprometidos em manter a paz na galáxia. O principal objetivo da ordem não era a guerra ou qualquer tipo de conflito. Essa é uma boa ilustração para uma verdade Bíblica: Bem-aventurados são os pacificadores, pois esses são chamados de filhos de Deus (Mt 5.9). O Cristão também está comprometido com a paz. Assim, toda a produção e consumo teológico na internet também devem ter a paz como alvo. Há um texto especial de Paulo à Timóteo que pode ser aplicado a qualquer pessoa que lida com a teologia de modo público e online:

“E rejeita as questões loucas, e sem instrução, sabendo que produzem contendas. E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (2 Timóteo 2:23-25)

O servo de Deus é chamado a evitar contendas e ser manso para com todos. Essa é uma ótima diretriz ética para a internet. Esse procedimento demonstra a confiança na obra soberana de Deus que concede arrependimento e conhecimento da verdade aos outros. Ninguém será convertido ou convencido verdadeiramente pela força bélica do seu modo de argumentar.  Quando falamos em teologia na internet não devemos produzir qualquer tipo de conteúdo com ataques gratuitos. A paz deve dominar nossos teclados, celulares, câmeras e microfones! Completarei esse pensamento no próximo ponto.

 

Defender e Proteger

Você que já assistiu pelo menos um dos filmes Star Wars deve ter percebido que os Jedi entraram numa guerra. Embora buscassem sempe a paz o código Jedi também os motivou a defender e proteger a galáxia contra as forças do mal. Talvez eles se assemelhassem bastante à famosa frase de Lutero: “a paz se possível, mas a verdade a qualquer preço”. Eles entraram em conflitos com o objetivo de defender e proteger, mas fora isso não haveria motivo para guerrear. Judas nos dá um bom exemplo de quando um certo conflito teológico se faz necessário:

“Amados, embora estivesse muito ansioso por lhes escrever acerca da salvação que compartilhamos, senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé uma vez por todas confiada aos santos. Pois certos homens, cuja condenação já estava sentenciada há muito tempo, infiltraram-se dissimuladamente no meio de vocês. Estes são ímpios, e transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor” (Judas 1.3-4)

Ele se viu pressionado a escrever para que seus irmãos em Cristo batalhassem pela fé. Era necessário proteger e defender a fé cristã daqueles que estavam se infiltrando e pervertendo o evangelho da graça de Deus. Aqui temos um caso de libertinagem, mas também encontramos Paulo em alguns momentos entrando em conflitos contra o legalismo dos judaizantes. O alvo era a paz, mas a defesa e proteção da fé não deveria ser negada em nome dela. O reverendo Augustus Nicodemus, bem atuante nas redes sociais (blog, vlog e Facebook), escreveu um pequeno texto sobre o assunto. Ele começa citando um papo já conhecido por nós:

“De vez em quando leio comentários de cristãos nas mídias sociais dizendo, eu sou mais a Bíblia, eu só quero Jesus, esse negócio de discussão doutrinária só divide a igreja, é coisa de homem e do diabo.”

Sua resposta foi:

“É claro que eles estão certos se a discussão doutrinária for movida por interesse mercenários e pela luta pelo poder. Todavia, este tipo de juízo generalizado revela uma falsa piedade enorme e uma ignorância ainda maior.”

Nicodemus, então, passa a argumentar que só temos uma Bíblia preservada e bem traduzida para lermos hoje por causa de alguns conflitos importantes ao longo da história da igreja. Ele cita a disputa com Marcião e Montano sobre o cânon, a reforma protestante e a luta contra o liberalismo teológico. Sua conclusão é forte e verdadeira:

“Portanto, acho que estes irmãos estão simplesmente cuspindo no prato em que comem todo dia, ao condenar as disputas teológicas ao mesmo tempo que lêem sua Bíblia em português.”

Quero que você entenda que esses dois pontos iniciais devem andar juntos. A paz nunca deverá negar a necessidade de defender a fé cristã e a necessidade de defesa nunca deverá esquecer o princípio da paz. Essa tensão se torna ainda mais delicada na internet. No ambiente fora do contato pessoal presencial a paz tende a ser quebrada com mais facilidade. A atenção deve ser dobrada. Em resumo eu diria que devemos fazer a diferença entre atacar gratuitamente e defender a fé. Pergunte-se sempre: (1) O que estou defendendo? (2) É uma defesa necessária? (3) Estou apto para defender sem me tornar agressivo? Por fim, fica a dica de Paulo a Tito:

“Ao homem hereje, depois de uma e outra admoestação, evita-o.” (Tito 3:10)

Na linguagem da internet seria o famoso “não aliemente os trolls”.

 

Respeitar a Vida

A paz deve ser o princípio norteador sem excluir a proteção e defesa teológica da fé. Quando essa defesa se faz necessária temos o terceiro ponto do código Jedi para ilustrar o direcionamento bíblico: respeitar todas as formas de vida. No nosso caso, respeitar todas as pessoas, independente de quem sejam e do que estejam defendendo. Esse respeito parte da própria teologia. Fomos todos criados a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26). Mesmo pecador, qualquer pessoa ainda deve ser respeitada por ser a imagem de Deus assim como nós. O entendimento da criação elimina qualquer discriminação pessoal e consequente falta de respeito. Mesmo no contexto de defesa e debates o respeito e o amor devem nos guiar. Temos o segundo grande mandamento da parte de Cristo de amar ao próximo como a nós mesmos (Mt 22.39). Desse amor brota o respeito:

“Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” (Mateus 7:12)

Pedro nos encoraja a vivermos como servos livres de Deus dando a seguinte orientação:

“Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei” (1 Pedro 2:17)

Sempre se pergunte isso: estou faltando com o respeito? Será que estou denegrindo a imagem, atacando somente a pessoa (ad hominem) ou humilhando de alguma forma? E lembre-se, podemos debater com seriedade, ser duro no falar, defender algo como absoluto e até usar recursos retóricos com respeito. Embora tenha errado em alguns momentos (ao meu ver), Lutero mostrou um grande respeito pelas autoridades católicas. Um exemplo mais atual foi o do Juiz Sergio Moto diante do ex-presidente Lula. Debater sem humilhar, defender sem denegrir, proteger sem desrespeitar. Eis ai um bom código para defendermos.

 

Servir aos Outros

Os dois pontos anteriores focaram nos debates e defesas teológicas na internet. Vamos nos voltar agora para o conteúdo em geral, principalmente para a produção. Quando falo em produção de conteúdo não estou me referindo apenas a blogueiros e youtubers, mas a todos que postam, comentam e colocam opiniões na internet. Praticamente todos nós. Os jedi também deixaram uma boa ilustração sobre isso: eles trabalham para servir. Na internet, seu objetivo é servir ou aparecer? Essas coisas não são excludentes, mas qual delas domina o seu coração na hora de produzir qualquer tipo de conteúdo?

As redes sociais são lugares de exposição pessoal. É impossível produzir conteúdo sem aparecer e receber algum tipo de reconhecimento, bom ou ruim. Se você produz um bom conteúdo, naturalmente atrairá pessoas que gostam, seguem, apoiam e compartilham. De forma nenhuma acho a exposição, menor ou maior, ou até mesmo a fama pecados em si. Sua reação diante disso vai definir se você está pecando ou não. Serviço e humildade devem estar no coração dos produtores de conteúdo na internet. Um coração que busca fama e exposição fará qualquer coisa por elas, enquanto um coração servo fará a vontade de Deus no anonimato ou na fama. Há muitos versículos sobre humildade e serviço, mas um resume e aplica-se muito bem ao nosso assunto:

“Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos” (Filipenses 2:3)

Olhar sua timeline é como se olhar no espelho. Você identifica marcas de vaidade nela? Se você está constantemente preocupado com quantidade de likes, compartilhamentos ou views, cuidado, a vaidade pode estar dominando seu coração. Fomos chamados a servir a igreja e fazer isso no mundo online é uma boa obra quando feita com humildade.

 

Conhecimento e Treinamento

Quero encerrar dizendo algo parecido com o que disse no início: a internet é um ótimo meio de edificação na vida do cristão. A internet não peca, nós pecamos na internet. Ela não tem nenhuma culpa ou falha moral em si, nós temos. Os Jedi estavam comprometidos em treinar e aprender cada vez mais. Além de diversão a internet oferece um mundo de aprendizado em várias áreas importantes. Devemos aproveitar isso de maneira pacífica, respeitosa e humilde.

“Peço que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o glorioso Pai, lhes dê espírito de sabedoria e de revelação, no pleno conhecimento dele. Oro também para que os olhos do coração de vocês sejam iluminados, a fim de que vocês conheçam a esperança para a qual ele os chamou, as riquezas da gloriosa herança dele nos santos e a incomparável grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, conforme a atuação da sua poderosa força” (Efésios 1:17-19)

Sei que a internet tem mudado a vida de muitas pessoas, edificado o ministérios de muitos pastores e líderes, espalhado a sã doutrina e ajudo muitos cristãos a crescerem na fé. Louvo a Deus por isso e quero continuar contribuindo de alguma forma nisso tudo, para quem além de ensinar, eu também possa aprender. Que possamos seguir o código bíblico para atuarmos por aqui como foi ilustrado nesse texto através dos Jedi. Não temos a força, mas tem um Deus trino bem maior que nos capacita e santifica através do seu divino e pessoal Espírito Santo. A esse Deus seja toda a glória, online e offline, amém!

 

Resumo

Como lidar com a teologia na internet?

Guardando a paz: O alvo é manter a paz, sabendo que ninguéms será convencido por meio da força bélica de nossos argumentos.

Defender e proteger: O princípio da paz não exclui a necesidade da defesa da fé. Nem todos os debates são errados e diabólicos, mas devemos nos perguntar: (1) O que estou defendendo? (2) É uma defesa necessária? (3) Estou apto para defender sem me tornar agressivo?

Respeito para com todos: Quando o debate se faz necessário é preciso fazê-lo com respeito a todas as pessoas. Embora possamos falar com dureza e nos posicionarmos com firmeza, devemos nos perguntar: estou faltando com o respeito? Será que estou denegrindo a imagem, atacando somente a pessoa (ad hominem) ou humilhando de alguma forma?

Serviço e humildade: A motivação para produzirmos qualquer tipo de conteúdo deve ser o serviço. Exposição e fama não são ruins em si, mas nossa reação a elas pode ser. Serviço e humildade devem estar no coração dos produtores de conteúdo na internet.

Busca por conhecimento: A internet é um ótimo meio de edificação na vida do cristão. A internet não peca, nós pecamos na internet. Além de diversão a internet oferece um mundo de aprendizado em várias áreas importantes. Devemos aproveitar isso de maneira pacífica, respeitosa e humilde.

 

Pedro Pamplona é formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza, e casado com Laryssa.