Uma alegria

É motivo de nos alegrarmos a ascensão no meio cristão do cuidado da igreja com a arte, com a estética, com a liturgia e  com a dinâmica do culto. Cuidado este, que toca tanto a ação intramuros da igreja, como também extramuros, entretanto, esta última é assunto especialíssimo do qual não trataremos hoje.

Todavia e traduzindo em miúdos, estamos falando da estética dos templos, das programações, dos detalhes, das decorações, dos simbolismos. Da preocupação em prestarmos um culto organizado, pensado, dinâmico e planejado, e, não aquelas reuniões que muitas vezes nos fazem corar de vergonha, tamanho o nível de improviso e despreparo de seus dirigentes.

Este apreço pela estética, pela dinâmica, pela contemporaneidade da linguagem das ocasiões em que nos reunimos, é algo bastante positivo, que deve ser preservado, pensado e cuidado pelas igrejas com todo zelo. O teólogo anglicano John Stott, certa feita disse:

Ser bíblico e não ser contemporâneo é fácil, ser contemporâneo e não ser bíblico também é fácil, o verdadeiro desafio está em conseguir ser ao mesmo tempo, bíblico e contemporâneo”.

Um alerta

Precisamos, portanto, pegando a esteira do proposto por Stott, empenharmo-nos em não transformar as ocasiões de culto numa espécie de celebração comunitária daquilo que nós mesmos julgamos bom e gostamos de fazer. Este é um perigo sutil, uma tentação silenciosa com a qual temos de ter muito cuidado.

Por vezes, é possível, e este é o grande ponto para o qual gostaria de chamar sua atenção, que fiquemos tão envolvidos com a programação, com os convidados, com a decoração, com o tema, com a comunicação do evento, com os encontros que dali surgirão, enfim, com toda a demanda que envolve aquele determinado tempo, que corremos sérios riscos de inverter a ordem que deve balizar o processo na igreja.

E a ordem é esta: na igreja de Cristo, o centro nunca deve ser aquilo ou o que me apraz, antes, todo meu trabalho e dedicação deve ser na direção de iluminar o Cristo, de modo que seu nome e sua mensagem sejam alçados aos mais altos lugares daquela oportunidade. E isto, por vezes, poderá nos causar desconforto e desconforto aos presentes, afinal, estaremos diante da mensagem do Evangelho, e a mensagem do Evangelho, nem sempre é algo fácil de se ouvir e comunicar.

Lógicas invertidas

Entretanto, mesmo diante de desconfortos e confrontos, estes princípios fundamentais cristocêntricos jamais devem ser passíveis de negociação. Temos de entender que a dinâmica e a missão da igreja são únicas e completamente distintas da dinâmica e da missão de uma empresa, de uma universidade ou de uma ONG.

Na igreja, Cristo deve sempre ser o centro. Não o evento, não a decoração, as luzes e o som. Não a bela campanha de marketing acompanhada de uma brilhante peça de design eficientemente divulgada e trabalhada nas redes sociais. Não as comidas, a atmosfera, o lugar, o pregador, o palestrante, o fórum, o convidado ‘x’ ou a banda ‘y’. Todas estas coisas são maravilhosas, mas não podem ser o centro, antes, devem apontar para o centro que é Cristo.

Aproveitando a imagem do professor e filósofo brasileiro Jonas Madureira, proponho que todas estas coisas devem funcionar como holofotes, que saem completamente de cena a fim de iluminar aquilo que verdadeiramente merece ser iluminado.

O que precisamos na verdade é do evangelho. De ensino sólido da inesgotável Palavra de Deus que revela, de fato, quem é Deus, e nos livra da tentação de construirmos um deus imaginário e falso, criado à nossa imagem e semelhança, que nada tem a ver com o Deus das Escrituras. Nossa necessidade suprema e vital sempre será conhecer a Deus, é nisto que deve estar a âncora de nossas vidas e de nossas programações, pois, como poderemos temê-lo, servi-lo, amá-lo acima de todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos, sem conhecê-lo?

Não temos de nos reunir apenas para falar de nós e de nossas questões em comum, temos de nos reunir para falar de Deus e de Suas questões eternas, pois as eternas questões de Deus permeiam todas as nossas questões em comum, desde todas as eras e em todos os lugares. A lógica não pode ser invertida e o centro nunca deve deixar de ser a glória da graça de Deus.

O problema de se inverter as prioridades colocando a programação e suas características no lugar de Cristo, é que, primeiramente, você avilta a glória de Deus, e, quando o evento não for daquele jeitinho que você tanto gosta, você não irá mais. Ou seja, não é sua comunhão com Deus que motiva seu trabalho feito com excelência para Ele, é o trabalho feito com excelência que motiva sua comunhão com Deus. Aí temos um problema de idolatria, pois se para você sentir-se motivado a buscar Deus, você precisa de um motivo maior do que o próprio Deus, o que você está buscando não é Deus, mas um ídolo, que atende pelo nome de entretenimento.

Uma igreja à minha imagem e semelhança.

Devemos nos empenhar a que nossos esforços estéticos e litúrgicos não acabem desviando o foco de nossos irmãos do Cristo e segmentando nossas igrejas, ou seja: naquela igreja só vão os hipsters, naquela apenas os nerds, na outra os jovens com mais de 25 anos, naquela outra os intelectuais de meia idade, na outra os da terceira idade e naquela outra mulheres com mais de 40.

Podem existir afinidades e programações especiais para os diversos segmentos que compõem a igreja? Claro que sim e devemos até mesmo trabalhar para a viabilização de tais atividades. O que julgo ser pernicioso e preocupante, todavia, é que busquemos na igreja irmãos que sejam espelhos apenas. Que caiamos no equívoco de buscarmos uma igreja à nossa imagem e semelhança.

Que menosprezemos a riqueza de uma moça aprendendo a ser mulher com uma senhora, de uma mulher sendo revigorada pela vida e inocência de uma criança, de um jovem rapaz sendo ensinado no caminho da justiça pelo homem de meia idade, e do homem de idade já avançada sendo visitado e amado por um grupo de jovens cheios de alegria e ternura no coração.

Meu receio é que tenhamos uma igreja para cada segmento estético-cultural e nos furtemos ao desafio da luta pela unidade na diversidade, com base no poder agregador do evangelho de Cristo nosso Senhor, uma vez que a beleza da igreja é justamente o fato dela ser uma família com gente de todas as classes, povos, costumes, idades e lugares, reunida pelo Espírito Santo com o propósito único e sobrenatural de servir e confessar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É na beleza da diversidade que habita a essência da unidade da igreja de Cristo.

Emprestando a belíssima figura dos irmãos do Movimento Mosaico, devemos olhar para a dinâmica da igreja a fim de descobrir quais pobrezas nossas riquezas dadas por Deus podem suprir nos irmãos aos nosso redor, e quais riquezas os irmãos ao nosso redor têm para suprir nossas constantes e insistentes pobrezas.

Sendo assim, não nos utilizemos de argumentos estéticos, artísticos, culturais ou litúrgicos para dividir o corpo de Cristo. Não fomos chamados a comungar numa igreja de espelhos, feita à nossa imagem e semelhança, antes, somos chamados à brava luta de todos os dias, fundamentados no Cristo e em Seu evangelho, provarmos da beleza, das alegrias e dos desafios de se viver a igreja como ela é, em toda a sua diversidade e riquíssima pluralidade.

O evangelho de Cristo é infinitamente mais poderoso para nos unir do que qualquer diferença estético-cultural é para nos separar. Todas estas coisas nos servem como ferramentas para iluminar o Cristo, e sobre o Cristo devemos nos manter em uma só fé e uma só voz.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.


Um homem nu sendo tocado por outras pessoas, incluindo uma criança, dentro de um museu e sob a prerrogativa de arte… (não vou colocar nenhuma foto disso aqui) Um cena grotesca como essa não surge do nada. Na verdade, muito já aconteceu para chegarmos até aqui. Há um grande arcabouço teórico e ideológico por trás de tamanha atrocidade.

Tudo começa no reconhecimento famoso de Nietzsche (imagem acima) que “Deus está morto. Deus continua morto. E nós o matamos”. A morte de Deus não é simplesmente a morte de uma figura divina, mas de todo o padrão absoluto de verdade e de moral. Derrida é um grande exemplo disso. Pegando carona na morte de Deus, ele tratou de matar o significado autoral dos textos. Sua teoria hermenêutica desconstrucionista tratou livros e escritos como conjuntos de signos que são interpretados livremente pelos leitores. O significado não está em alguém que intencionalmente escreveu aquilo, mas no sentido que eu, como leitor, quiser dar aos signos.

Uma soma de Nietzsche e Derrida nos mostra a morte do autor da criação e da intenção desse autor para sua obra. Isso abre portas, por exemplo, para a famosa frase de Simone de Beauvoir: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. A realidade (signo) do “ser mulher” deixa de ter um significado fixo e passa a ser uma construção social livre de um padrão absoluto. Aqui temos a origem da nefasta ideologia de gênero. Perguntas que nunca passaram pelas nossas cabeças e nem deveriam passar surgiram: Nascemos homens e mulheres ou isso é uma construção social?

Hermenêutica (como interpretemos) e cosmovisão (como enxergamos o mundo) tem tudo a ver. A interpretação extrapola textos e nos diz como lemos o mundo e assim construímos uma cosmovisão. Se Deus, o autor da criação está morto, o padrão hermenêutico absoluto está perdido. E com ele o padrão moral e ético. O que é arte? Quais são os seus limites? O que é pedofilia? O que é imoral ou moral? Sem Deus, essas respostas estão nas mãos de qualquer um, principalmente daqueles que dominam o mainstream. Uma das resposta sobre a expressão artística em questão foi que as obras e interações da mostra visam a mostrar a “pluralidade de influências que ajudam a criar a identidade da arte no Brasil” (O Globo). Quando Deus é excluído, ficamos a mercê dessa “pluralidade de influências”, incluindo a imoralidade e pedofilia.

Eu não sei se você é protestante, adventista, católico ou de qualquer outra vertente cristã, mas precisamos bater o pé e dizer basta. O ocidente foi erguido sobre valores eternos e absolutos de uma cosmovisão judaico-cristã. Para nós, Deus não está morto e por isso ainda existe e sempre existirá um padrão hermenêutico e moral para tudo, inclusive para a arte. E sim meus amigos, Deus impõe limites a sua criação como um autor impõe limites de significado a um livro. O pecado é real e identificável. Chame de censura se você quiser. eu chamo de moral. Um homem nu sendo tocado não é arte, doa a quem doer. Como li meu irmão escrever, “se tudo é arte nada é arte”. Precisamos erguer a voz em defesa dos nossos valores morais!

Aliás, me chame do que você quiser, religioso, fundamentalista, alienado, fanático, fascista, moralista ou de qualquer xingamento desses inventados pela esquerda. Prefiro receber todos esses adjetivos do que ver nossos filhos sendo atraídos pela arte da pedofilia e imoralidade. Se você quer defender nossas crianças dessas vergonhosas e imorais iniciativas só há uma solução definitiva, voltarmos para o centro absoluto de toda verdade e moral: DEUS. Foi Ele que deu significado a tudo que existe! E esse significado único continuará como verdade enquanto Deus existir, ou seja, para sempre.

Deus só morreu na cabeça de alguns, mas continua vivo e voltará em breve para que toda a verdade absoluta brilhe sobre cada um de nós, dobrando todo joelho e fazendo toda língua confessar que ele é o Senhor. Que Deus proteja nossas crianças, no ventre e fora dele! Que haja juízo e redenção sobre os imorais travestidos de artistas!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


É cada vez mais notória a expansão do pensamento teológico protestante de matriz reformada em nosso país. O movimento se faz ainda mais presente entre os jovens, e com o advento da celebração dos 500 anos da Reforma Protestante, que ocorre este ano no mês de Outubro, os pensadores e as obras dessa cena teológica têm ganhado ainda mais voz e campo entre os cristãos protestantes. Muito disso se dá em função da internet e do grande investimento que editoras cristãs têm feito na publicação de literatura de altíssimo gabarito em nosso país. Tudo isso certamente é motivo de grande alegria e de gratidão ao Senhor, que, por Sua graça, tem presenteado a igreja brasileira com gente cada vez mais capacitada e preparada para o ensino bíblico fiel das Escrituras Sagradas e da teologia cristã.

Contudo, me atreverei a tecer algumas considerações sobre um ponto que tem me deixado um tanto quanto preocupado a respeito da real compreensão da integralidade dos desdobramentos do que a tradição reformada nos legou, e este ponto em especial diz respeito a estética e a arte. Foram os reformadores que nos ajudaram a enxergar a supremacia do senhorio de Cristo sobre todas as coisas e é exatamente nesse sentido que pretendo caminhar neste texto.

Estética? Arte?

Permitam-me explicar, quando falo sobre estética e arte, falo de toda e qualquer iniciativa, atividade e/ou artefato que expresse algo que acreditamos e fazemos, estou falando de produção cultural como um todo: músicas, filmes, artes plásticas, teatro, pintura, festivais culturais de toda sorte, livros, histórias, eventos, palestras; mas não falo apenas do evento e do artefato em si, falo também da forma como estes eventos e artefatos são apresentados, nisso poderíamos incluir, vídeo, fotografia, sonorização, design (guarde bem esta palavra), decoração, recepção, comunicação e mais uma infinidade de aspectos que poderiam ser apontados.

Claro que em um espaço como este não temos tempo nem de arranhar a superfície do que o assunto realmente demanda. Portanto, pretendo falar predominantemente sobre a segunda parte da lista apontada acima, que diz respeito em especial à forma como apresentamos e comunicamos os artefatos culturais que produzimos e a mensagem que temos em mãos.

Ele é Criador e Senhor. De tudo.

Com a expansão da teologia reformada em solo brasileiro, expandiu-se também os eventos e as atividades das igrejas reformadas. Esse movimento, no entanto, deixou patente um problema: muitas vezes temos um conteúdo excelente, porém transmitido de forma vergonhosamente precária. São convites mal elaborados, artes gráficas de gosto extremamente duvidoso, organização e recepção atabalhoadas, comunicação nas redes sociais provinciana, sonorização dos eventos/cultos de baixíssima qualidade, até mesmo a hospitalidade em alguns círculos reformados tende a ser mais fria e distante.

Acredito que o fundamento que deva servir de pano de fundo para a compreensão da  ideia que pretendo sublinhar aqui, é o fato de que Cristo também é Senhor da arte e da estética. De que existe um padrão revelado na criação daquilo que é belo e bom e de que Deus se importa com isso. Talvez tenhamos de ser desafiados a olhar para a criação, reconhecendo nela o maior e mais espetacular Artista que já existiu desde toda a eternidade. Tudo de mais belo que existe no universo desde as mais distantes estrelas que decoram as noites sem luar, até as mais suntuosas maravilhas naturais do nosso planeta Terra, são obras das mãos deste Magnífico Artista, e estão gritando bem diante de nossos olhos o quão interessado Ele é no que é esteticamente belo.

Todos os dias temos oportunidades reais de contemplar o horizonte, a metamorfose de cores do firmamento, o canto sereno de uma ave, o brilho ofuscante do sol, as frondosas e, por vezes intimidadoras, árvores. Diariamente estamos expostos a um festival repleto de cores, traços, linhas, curvas, sons, cheiros e sabores de todos os tipos, pra todos os gostos. Você já parou pra pensar que Deus escolheu que Sua criação fosse assim? Que Ele escolheu agir assim e que Ele é assim? Deus é um Deus que se preocupa com o design e com a beleza das coisas, com a organização, com a estética, com a harmonia dos elementos, Ele não é e nunca foi um Deus de bagunça, desleixado e indiferente ao que bom e belo.

Além da apreensão deste conceito fundante em nosso coração, é preciso também, que restauremos a central importância da arte na vida humana. Ora, uma parcela avassaladora daquilo que influenciou a humanidade e nos influencia todos os dias até hoje, são artefatos culturais e artísticos: desde as grandes obras clássicas da música e da pintura, as artes plásticas, os grandes clássicos da literatura e do teatro, as incontáveis tradições orais que resguardaram por séculos a fio a história e a cultura de inúmeros povos, até a contemporaneidade e suas séries de televisão, filmes, novelas, peças de marketing e propaganda, stand-up comedys, hits musicais, e tantos outros empreendimentos artísticos, tudo, desde sempre possuiu e ainda possui um poder incrível de comunicação e influência na vida do homem. Olhem para toda cultura que tem sido disseminada por este inúmeros veículos artísticos citados acima, não são exatamente eles que têm formado a mentalidade secularizada do homem pós-moderno do século XXI?

Como disse, não vou entrar no mérito de como anda a produção artística cristã em todas essas áreas e qual a relevância e influência que nossos artistas têm como um todo nestes meios, antes, gostaria de lançar um olhar para dentro da igreja, mais especificamente ainda, para o movimento reformado, e como parte deste movimento, me incluo como merecedor de tudo que vou apontar.

Glória de Deus?

Não somos nós que prezamos pela teologia que subscreve o Soli Deo Gloria, a Soberania de Deus sobre todas as coisas, a Supremacia de Cristo, o comer e beber e o fazer qualquer outra coisa para a glória de Deus? De que adianta, meus caros irmãos e irmãs, termos tanta ortodoxia bíblica se não existe de nossa parte o mínimo entendimento dos desdobramentos mais elementares desta tão maravilhosa compreensão que aponta Cristo como Senhor de absolutamente cada palmo do que fazemos e de cada segundo em que existimos?

Como podemos falar tanto na glória de Deus quando, por vezes, não conseguimos refletir essa consciência na confecção de um simples anúncio de um evento que organizaremos? Numa simples arte para internet, num banner, num outdoor, num cartaz, num vídeo, na gravação, mixagem e masterização de uma música? Como podemos com nossas bocas e livros anunciar que tudo pertence a Deus e deve ser feito para Sua glória e continuar apresentando toda essa riqueza que temos em mãos de forma tão precária e medíocre? O que perdemos no meio desse processo todo?

Como, diante do Deus que criou toda essa beleza estonteante da criação, continuamos com nossas igrejas visualmente pensadas e ornamentadas de forma tão desleixada? Por que tanta pobreza estética? Por que os músicos nas igrejas reformadas geralmente parecem ser os menos aplicados e ensaiados? Por que o som em igrejas reformadas predominantemente é tão precário e mal equalizado? Por que sempre que vamos exibir algum vídeo no datashow as coisas nunca dão certo de primeira? Por que as bandas e cantores de tradição reformada quando gravam seus trabalhos em um CD, parecem estar anos-luz do mínimo que existe no mundo atual do áudio? Por que temos de ser sempre tão atrasados e retrógrados em todos estes aspectos? Será que já não passamos da hora de perceber o quanto isso é vergonhoso e o quanto uma mudança em nosso comportamento poderia contribuir para o avanço da poderosa mensagem que temos em mãos?

Proponho uma nova forma de encarar não apenas as atividades da igreja, mas a vida.

É triste quando somos tomados de assalto por um pragmatismo doentio, pensando que tudo isso tem menos importância para Deus, ou pior, nem importância tem. Por isso, gostaria de encorajar você a, de agora em diante, esmerar-se o máximo possível em qualquer atividade que colocar as mãos, tendo sempre em mente todos estes aspectos que abordamos neste texto. Encarar o mundo desta perspectiva pode mudar a sua vida. Quando você for organizar um evento que envolva a mensagem do evangelho, não deixe para última hora, não seja negligente, monte uma equipe disposta a trabalhar, planeje-se em todos os detalhes, não subestime a arte, o design, a ordem, nem a estética, eles comunicam muito mais a seu respeito e a respeito de sua comunidade de fé do que você pode imaginar.

Mas podemos ainda ir muito adiante, quando você for arrumar e organizar a cozinha, o guarda-roupa, seus livros, a estante, o quintal, o escritório, quando for decorar um ambiente, fazer uma propaganda, um folheto, um cartaz, um site, um vídeo, quando for consertar a próxima torneira, trocar o próximo chuveiro, organizar seus documentos, quando for fazer aquela pintura em casa, por a mesa para o almoço de domingo, lembre-se do Deus a quem você serve e o quão detalhista e caprichoso Ele é. Comece a reparar nos detalhes, nos sabores, nas cores, nas letras, nos tamanhos, nos timbres, nas pequenas coisas feitas com excelência, dê valor a tudo isso. Não relativize o belo, ainda existe beleza no mundo de Deus. Ele mesmo deu uma incrível capacidade criadora e embelezadora a todos nós, Ele nos fez assim porque Ele é assim, e somos criados a Sua imagem e semelhança. Não jogue isso fora.

Porventura, eu estou falando que a eficácia da mensagem do evangelho depende destas coisas? Claro que não! O Espírito faz o quer, como quer, quando quer e do jeito que quer, entretanto, isso não abre precedente para que sejamos desleixados esteticamente. É importante dizer também que nada do que foi apontado aqui precisa necessariamente depender de muito dinheiro, é bem possível sermos organizados e esteticamente comprometidos, dispondo de poucos recursos, a questão tem muito mais a ver com o coração e com a forma de encarar as coisas do que com dinheiro. O ponto é que nós temos um padrão estético a seguir, e o padrão é de altíssimo nível, é o padrão da criação.

É hora de valorizar e encorajar nossos músicos, compositores, fotógrafos, sonoplastas, decoradores, poetas, designers gráficos (estes são muito necessários), artesãos, artistas plásticos, iluminadores, escritores, engenheiros de áudio, pintores, escultores, roteiristas, produtores musicais, enfim, designers e artistas de toda a sorte. Temos de erradicar de nossas concepções aquela ideia tão peculiar aos círculos evangélicos de que no Reino de Deus não existem artistas. Deus não é contra os artistas, pelo contrário, Deus é um deles. O maior de todos eles.

Que o Senhor desperte as igrejas reformadas para este aspecto do Senhorio de Cristo e que possamos glorificá-lo com muito mais fidelidade na esfera da arte, da estética e do design.

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. Atualmente cursa o oitavo semestre de teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP.


Em meu primeiro texto aqui para os dois dedos de teologia não poderia deixar de convidar cada leitor a pensar sobre a minha maior inquietação no momento. E ao mesmo tempo não posso jamais deixar a reflexão artística de lado. Tenho uma dívida histórica com isso. Dessa forma, procuro colocar em pauta o nosso culto público, bem como a nossa visão e relação com as artes, seja ela clássica, reformada ou moderna. Como forma de avaliarmos se o que vivemos diariamente está pautado e amparado pelas escrituras e encontra descanso na graça divina. Assim, convido todos vocês para alguns momentos de reflexão, inspiração e leitura bíblica.

A POSE FOTOGRÁFICA: uma artificialidade realista

Pense em uma reunião familiar. Em cada família existe um membro metido a fotógrafo. Com sua câmera profissional, ou até mesmo com o celular, um momento que todos partilhamos surge. A foto do dia. Na sala, todos os membros se amontoam, abraçam-se, forçam um sorriso e esperam o click, para depois subirem suas fotos como um incenso perfumado em seus instagrams e facebooks. O convívio familiar é mostrado publicamente na rede, e todos podem ver os sorrisos expressos. É a felicidade sentida no momento familiar agora eternizado. A foto é tirada e aquele cenário é lembrado para sempre.

Agora pense em uma segunda foto, ou uma sequência de fotos. Elas se originam em uma reunião dominical, ou mesmo em um grande evento cristão. Luzes, pessoas de braços levantados, sorrisos e até mesmo rostos emocionados. Um arauto com uma expressão intensa e mão especulando, dando ensinamento à um povo totalmente hipnotizado por palavras grandiosas. Uma série de imagens mostrando a banda do domingo, a adoração pública, a exaltação à Deus e o momento de comunhão dominical. Dezenas de fotos tiradas, agora na rede para que a comunidade tenha um destaque, seja conhecida, e muitos ainda possam visitar e aproveitar do que a igreja local pode oferecer. O culto público em foto, eternizado como um momento único, especial, de alegria, louvor e adoração. Intenso e emocionante, racional e interessante. Fervoroso e acolhedor. As fotos estão feitas, este momento também se encontra eternizado.

Além dos sorrisos amarelos, cenografias e todo o convencimento para que aquela pessoa que odeia fotos saia juntamente de todo o grupo, o que essas duas situações fotográficas têm em comum?

Cada uma das fotos tem algo extremamente importante. Somente as fotos possuem isso, ou talvez apenas a elas deveria pertencer tal façanha. Possuem a pose. Sim, a pose fotográfica, aquela cara de feliz que você faz. As caretas que seus amigos fazem ao tirarem uma foto para um grupo de whatsapp. Aquela cara de Jimmy Hendrix que o guitarrista da igreja faz quando sabe que o fotógrafo está apontando para ele. O reino da pose fotográfica começa ao saber que estamos sendo vigiados, que nossa imagem será mostrada para alguém. É uma artificialidade realista, uma manufatura real de um cenário imaginário.

O RETRATO HUMANO: uma contrapartida do ordinário

A arte tem um poder incrível de conseguir retratar a humanidade das coisas. Sejam pensamentos, comportamentos ou até mesmo fatores importantes da sociedade. A arte fotográfica, mesmo sendo incrível e realista, talvez perca de longe para algumas obras do século XVII.

Jan Steen foi um pintor holandês do século XVII. Com um olhar cuidadoso nas obras dele podemos entender algo sobre o reino da pose fotográfica. A grande maioria dos seus quadros capturam momentos cotidianos, muitas vezes familiares e comunitários. Há quadros sobre o dia de Natal, em que uma família se encontra na sala e as crianças estão recebendo seus presentes de São Nicolau (ou o famoso Papai Noel). Há pinturas sobre casamentos em praça pública, trabalhadores em frente a uma taverna, uma garota comendo ostras, outra garota tocando piano, uma família apreciando um concerto caseiro, outra família desfrutando um banquete. Também a celebração de um nascimento, crianças ensinando um gato a dançar e uma infinidade de temas que normalmente chamamos de fúteis ou irrelevantes. Usarei aqui para descrever as obras de Steen uma palavra que deverá descrever nossa “normalidade” de vida. As suas obras têm uma capacidade de reviver e demonstrar o ordinário.

Sim, quadros com cenas ordinárias, comuns, até mesmo feias e sem fatores interessantes. Aquele tipo de coisa que conseguimos observar todos os dias, mas que nunca paramos para olhar direito. Aquele fator mesquinho, desinteressante, pouco atrativo, que ao mesmo tempo tão familiar ao ponto de gerar em nós o balanço da cabeça e o sonoro “é isso mesmo”. No ordinário habita um segredo que o reino da pose fotográfica jamais poderá encontrar, a humanidade pura, desnuda, simples e direta.

Tanto Jan Steen, quanto vários outros pintores daquele século, tinham uma sutil e justa intenção, retratar o ordinário, em seus pequenos detalhes. Mesmo não tendo ali uma cena explicitamente real, estavam revelando para cada observador toda a realidade da expressão humana. Em detalhes como expressões faciais, movimento dos braços, posições de cada pessoa na divisão do quadro, a humanidade estava sendo desvendada. O retrato humano sendo colocado sem artificialidades. Não há pose, sorrisos amarelos, fingimento. No retrato destacado nas pinturas, rostos raivosos e infelizes aparecem, dramas são revelados e a realidade social desmascarada. O segredo da humanidade revelada. Por mais que o retrato em forma de pintura seja muito mais artificial que uma fotografia, talvez consiga revelar muito mais humanidade sem o fingimento da pose.

E é nesse paradoxo que nos encontramos hoje. Estamos entre a vivência ordinária e o domínio da artificialidade. Entre o reino da pose fotográfica e o puro retrato humano. O retrato humano, puramente simples e estranhamente familiar, é a contrapartida ordinária à nossa vida de poses fotográficas.

A POSE ARTIFICIAL NO DOMÍNIO RELIGIOSO

Vamos pensar no cenário da igreja atual. Agora não é a hora de lembrarmos do passado, seja da antiguidade clássica, dos pais da igreja, da reforma protestante, dos grandes avivamentos ou qualquer coisa que nos distancie de olharmos apenas para o que fazemos atualmente. Quantos congressos realizamos por ano? Cultos, acampamentos, eventos evangelísticos, reuniões, grandes momentos de louvor, ou seja lá que nome damos para tais atividades. São eles baseados na pose fotográfica ou no retrato humano?  Seja na sua essência, na imagem demonstrada nas redes, ou na própria estética, uma grande demonstração artificial, ou a vivência do ordinário comum?  

Percebe a diferença? O que estamos fazendo como Igreja de Cristo? Como estamos encarando o culto público? Será que ele é uma tarefa artificial, para a sustentação de uma fé fingida, que precisa se manter por conta do tradicionalismo ou será que é um viver humano, que divide a mesa da tradição cristã, compartilha a fé, de fé em fé, e em graça em graça cresce, se edifica e glorifica o Pai? Preferimos poses, postagens, likes e divulgação, ou a simplicidade, talvez até o anonimato do viver ordinario?

Não quero aqui condenar as luzes, os grandes congressos, eventos gigantescos e todas as parafernalhas que gostamos. Se gostamos e nos sentimos bem com isso, está tudo bem. Cada comunidade deve escolher estratégias que significam para elas aquilo que Deus tem movimentado pela Palavra em cada localidade. Podem haver congressos, eventos e grandes luzes, shows e seja lá o que mais inventarmos. O que é condenável, pelas palavras do nosso Cristo, é o depender de tudo isso. Gerar uma imagem sem vida. O problema é justamente a essência de todas as coisas ser baseada na artificialidade das poses fotográficas que temos hoje em dia.

Para deixar claro, uso pose fotográfica apenas como um nome um pouco mais ameno para idolatria da imagem.

O CHAMADO AO ORDINÁRIO DE JESUS CRISTO

Fui apresentado à Jan Steen, esse pintor holandês, católico, do século XVII e extremamente ordinário através de um livro do Hans Rookmaaker. Também a Rembrandt, Jan Van Goyen, Ticiano e tantos outros. É incrível como a arte pode expressar muito sobre a nossa visão de mundo. Foi assim que fui arrebatado no pensamento sobre o nosso culto cristão, nossas reuniões, e o nosso viver fotográfico. O nosso viver deve ser influenciado por Cristo Jesus. As escrituras nos revelam o caminho traçado por Ele e o plano do Eterno. E o alicerce principal das escrituras nos mostra que não existe nada de pose fotográfica nessa grande história.

 

“Essa compreensão vem, como eu disse, da Reforma, o que significa que é fruto do modo como a Bíblia vê a vida. É uma compreensão que remonta a vida ao alicerce do cristianismo bíblico, o próprio Jesus Cristo. É uma percepção que provém da fonte de vida, das escrituras.”

(H. R. Rookmaaker, A arte moderna e a morte de uma cultura, p.35)

 

Creio que a humanidade ordinária, tal qual como estamos tentando refletir aqui neste primeiro texto, seja escancarada à nós nas palavras de Jesus em Lucas 18.9-14. Nela temos um fariseu e um publicano, ou cobrador de impostos. O fariseu é religioso, fiel, comprometido e ativista. O publicano é pecador, impuro, traidor e odioso. A oração do fariseu ao chegar no templo é uma pose fotográfica. Ele fala de suas atividades, mostra suas fotos no instagram, revela os números de seu mais recente congresso. Enche o peito para falar de sua teologia e de seu conhecimento histórico. Se coloca de pé, é seu próprio senhor. Já o publicano revela o retrato humano, ordinário e desinteressante. Tem vergonha de se aproximar, se reconhece como pecador. Bate no peito, clamando por misericórdia, sem ter nenhuma teologia para o justificar. Não ousa levantar os olhos, sabe quem é o seu Senhor.

E Jesus afirma: “Eu lhes digo que foi o cobrador de impostos, e não o fariseu, quem voltou para casa justificado diante de Deus. Pois aqueles que se exaltam serão humilhados, e aqueles que se humilham serão exaltados.” (Lc 18.14 NVT)

Cristo nos dá esse convite, muito antes de Jan Steen e Rookmaaker. Muito antes dos pais da igreja, da Reforma, dos avivamentos puritanos e das revoluções libertárias. Bem antes de qualquer movimento que possamos imaginar e imagear, Jesus Cristo já nos revelou a beleza do viver ordinario. Não precisamos criar uma imagem para nós mesmos, uma fotografia falsa. Deus não está no camarote esperando a nossa performance para então se colocar de pé e aplaudir.

A partir da reflexão da pose fotográfica e do retrato humano, podemos encontrar no cerne das escrituras o convite simples à vida. É um convite à mesa, ao comum. Sem talvez grandes feitos e alvoroços (o que nos levará à um próximo texto), mas intensamente vivida naquilo que é explicitamente tornado habitual. Não precisamos de artificialidades teológicas, eventos imageados como grandes para ganharmos destaque e reconhecimento, tampouco fotos incríveis que mostram como temos sido melhores que outros. A autopromoção, a imageação da religião e a pose teológica não precisam ser perseguidas. Antes, podemos aproveitar o descanso que a graça proporciona, a simplicidade do Cristo em nós, o viver arrependido e o coração quebrantado.

Como temos nos reunido? Estamos pensando apenas em deixar registrado imagens que simbolizem nosso trunfo religioso através dos congressos, cultos maravilhosos e palavras encorajadoras? Nossas reuniões são voltadas para gerarem fotografias eternizadas de momentos superficiais e vazios, desprovidos de humanidade? Ou será que o nosso caminho tem sido o da mesa, e mesmo com congressos, luzes e grandes eventos, ressaltamos o valor do relacionamento, da humanidade por vezes feia e daquilo que não é mercadológico? Nosso maior problema é nos perdemos na pose, quando na verdade precisamos viver um retrato humano da vida com Cristo.

O retrato humano sempre será perdido quando criarmos a pose teológica, a pose de eventos, a pose dos congressos, a pose das grandes igrejas, a pose dos louvores apelativos. No fim, uma pose sempre será apenas uma pose, enquanto o retrato procura demonstrar o que se é na realidade. Renovar a mente com as escrituras é sempre dar valor àquilo que Cristo demonstra no caminho da vida e não na pose religiosa.

Saber que o retrato humano não se encontra na pose artificial nos traz ânimo para um vínculo real e perpétuo com as palavras do nosso Senhor e Rei. Vivendo no Caminho, na liberdade trazida ao nosso cativeiro. Assim, finalmente podendo desfrutar daquele que sendo Rei dos Reis, esvaziou-se para viver o ordinário, destruindo nossas próprias tentativas de nos fazermos senhores inúteis e reis de reinos imaginários.

Guilherme Iamarino, nascido em Campinas-SP, é compositor, multi-instrumentista, professor de música, membro do Projeto Sola, estuda teologia pela Universidade Metodista e é membro da IBAVIVA em Vinhedo-SP.