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Firmes e Inabaláveis

A prática de qualquer exercício físico exige disciplina e superação. Recentemente, voltei a andar de bicicleta, atendendo à demanda irrefutável de praticar algum exercício físico para garantir o mínimo de saúde pelos próximos anos. Apesar de eu já ter tido meus dias de relativa glória praticando corrida, retornar sempre é difícil. A memória muscular é bem mais bonita na teoria do que na prática. Esse retorno me fez pensar muito a respeito do que Paulo fala aos coríntios, na primeira carta, sobre a necessidade de eles se manterem firmes. Ele diz no capítulo 15, verso 58: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (ARA).

Na minha esforçada tentativa de retornar à rotina de atividades físicas, chego rapidamente a uma triste constatação: por mais que meu cérebro se lembre de como é ter condicionamento físico, meu corpo insiste em desobedecer e não dar conta do que lhe é demandado. Por isso, minha experiência com a bicicleta tem sido de bastante inconstância, principalmente se há subida no trajeto. Isso faz com que eu não consiga manter o ritmo que gostaria, intercalando trechos de alta velocidade (nas decidas, claro!) com trechos de constrangedora lentidão, na marcha mais leve, muito leve.

Ao lembrar do que Paulo fala aos coríntios, aplicando ao meu contexto, é como se eu ficasse repetido enquanto pedalava: “sejam firmes, sejam firmes, sejam firmes…”. Apesar de esse pensamento ter grande utilidade na prática de exercícios físicos para não desistirmos à primeira reclamação do corpo, uma análise cuidadosa do texto mostra que o ensinamento a partir da ordem de Paulo pode ser mais profundo no contexto da vida cristã do que simplesmente tentar ser firme para completar determinado trajeto ou atingir determinada meta espiritual.

Nesse sentido, minha proposta é de que existem formas bem práticas de se adquirir firmeza. Da mesma maneira que o exercício físico traz uma série de benefícios ao corpo, exigindo disciplina, foco e determinação, existem exercícios devocionais que promovem uma série de benefícios espirituais. Esses exercícios devocionais também são chamados de disciplinas espirituais. O desafio proposto é fugir da abstração teórica em que se pode incorrer ao fazer teologia, sabendo-se todos os passos do caminho da santificação sem necessariamente percorrê-los, mas também não cair em um receituário meramente utilitário e vazio. Assim, vejamos como o texto bíblico pode servir de auxílio para a prática das disciplinas espirituais.

Na caminhada cristã (qualquer semelhança na linguagem não é mera coincidência), nossa rotina é muito parecida com a vida de quem quer ser saudável e não consegue, intercalando dias de muito esforço com dias de intensa rebeldia e sedentarismo. Isso faz com que muitos de nós sejam ovelhas gordinhas e doentes, com as taxas todas desreguladas no exame de sangue espiritual. Não deveria ser assim, afinal, o limite das semelhanças entre a caminhada cristã e o exercício físico é Cristo, e o contexto da ordem de Paulo aos coríntios nos ajuda a compreender isso.

Primeiramente, um alerta: livre-se dos argumentos fajutos, tais como “uma vida de devoção, de total entrega a Deus, é reservada apenas àqueles que foram chamados a ‘viverem da obra’, existem níveis diferentes de exigência espiritual”, ou “minha vida devocional será muito melhor depois que eu estudar teologia, aprender a interpretar a Bíblia corretamente e conhecer os pensamentos dos grandes teólogos”. Aos dois argumentos Richard Foster, em seu livro “Celebração da disciplina” (Editora Vida) tem boas respostas. Quanto ao primeiro, ele diz que “o desejo de Deus é que as disciplinas espirituais sejam praticadas por seres humanos comuns: pessoas que têm emprego, que cuidam de crianças, que lavam pratos e que retiram o lixo”, ou seja, não importa o volume de obrigações na sua agenda, encare de forma séria que o Reino de Deus deve ser buscado em primeiro lugar por todo e qualquer cristão.

Quanto ao segundo, Richard Foster lembra que “não precisamos chegar a um estágio avançado em teologia para praticá-las. […] O requisito principal é ter anseio por Deus”, ou seja, apesar de a teologia realmente ter níveis profundos de estudo e a Palavra de Deus às vezes ser difícil de entender, o Senhor manifesta seu amor de forma suficientemente compreensível aos pequeninos (Mateus 11.25); não é o conhecimento teológico que produz devoção, são corações devotos que buscam conhecer mais de Deus.

Dito isso, chamo sua atenção para o seguinte: o versículo 58 começa com “portanto”, uma conjunção que nos conduz ao versículo ou frase anterior para entender o motivo de Paulo ter chegado à conclusão de que devemos ser firmes e inabaláveis. O que vemos é o seguinte: “graças a Deus, que nos dá a vitória [sobre a morte] por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”. Note que curioso, não devemos ser firmes e inabaláveis para chegarmos ao pódio, garantirmos a vitória, como faz um esportista; nós devemos ser firmes e inabaláveis justamente porque a vitória já foi conquistada por Jesus na cruz. Paulo afirma nos versículos 3 e 4 do mesmo capítulo que Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. Porque isso aconteceu, nós também ressuscitaremos (vv. 20-22).

Veja, é a vitória de Cristo que nos garante a vitória (João 14.19). Sendo assim, a caminhada cristã não é um exercício físico para o qual as disciplinas espirituais conduzem à vitória, ela é o exercício do vitorioso, daquela pessoa que já chegou em primeiro lugar na competição, já ganhou todos os títulos, agora faz apenas manutenção do seu condicionamento físico; o crente não é o competidor esbaforido que precisa conquistar uma boa colocação, é o competidor agradecido que expressa isso sendo um atleta dedicado. Fosse um jogo de futebol, seria como um time que já garantiu a partida no primeiro tempo com uma goleada e no segundo tempo fica apenas tocando a bola para administrar o resultado. A disciplina é importante? É. Se desistir e perder a bola, o adversário vira o jogo (não reverter o resultado da salvação, mas ele pode bagunçar o placar da nossa mente), mas a luta pela conquista da vitória já aconteceu.

Qualquer outra religião que pregar disciplina o fará como condição necessária ao objetivo de se atingir um estado elevado ou uma realidade superior. O cristianismo é o único sistema de fé que pode pregar o exercício de disciplinas espirituais sem afirmar que elas são condição sine qua nonpara a obtenção de uma graça. Dietrich Bonhoeffer ensina que é justamente o contrário. A fé como premissa para obtenção de graça resulta apenas em uma graça barata, e a “graça barata é graça como refugo, perdão malbaratado, consolo malbaratado, sacramento malbaratado; é graça como inesgotável tesouro da Igreja, distribuído diariamente com mãos prontas, sem pensar e sem limites; a graça sem preço, sem custo”. Por outro lado, a graça de Deus é preciosa, e “a graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quanto tem; a pérola preciosa, para adquirir a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, ao ouvir do qual o discípulo larga as suas redes e o segue”.

Não dá para entender o evangelho do Senhor Jesus Cristo sem entender a verdade preciosa de que nossa motivação para viver uma vida de disciplina e aperfeiçoamento espiritual, desenvolvendo nossa santificação, está na vitória de Jesus sobre a cruz. O Servo Sofredor pendurado no madeiro estampa diante de mim que a graça é preciosa demais para eu não querer mergulhar em seus benefícios, que o chamado de Jesus é forte demais para eu não largar minhas redes e segui-lo.

Se você for um leitor mais atento, observou que o versículo 58 também fala em sermos “sempre abundantes na obra do Senhor”. Esse trecho é para nos lembrar de que podemos ser absolutamente rigorosos no exercício das disciplinas espirituais, lendo a Bíblia, orando, meditando, jejuando, mas se isso não resultar em serviço ao Reino, em participação operosa em uma comunidade local, em compartilhamento de dons e talentos, nossas práticas são apenas rotinas farisaicas destinadas a alimentar o próprio ego. A graça preciosa que envia Jesus para morrer por nossos pecados e nos dar a vida eterna por meio da sua ressureição produz corações que amam a disciplina individual, mas também amam o serviço comunitário. Ser abundante na obra do Senhor é uma consequência natural para quem exerce as disciplinas espirituais como fruto da transformação graciosa em Cristo.

Um último alerta de Richard Foster: “Conhecer a mecânica não significa que estamos praticando as disciplinas”. Não deixe a preguiça te dominar, não fique apenas lendo sobre disciplinas espirituais. Jesus conquistou a vitória para que você desfrute os benefícios, portanto, ore, leia, medite na Palavra de Deus e seja diligente no serviço em sua igreja local, não como uma obrigação que te leve ao lugar mais alto do pódio ou que te livre de alguma punição, mas como gratidão à medalha que já te foi entregue pelo nosso Salvador.

A conclusão de Bonhoeffer diante dessa realidade é inevitável: “Felizes aqueles para quem a mensagem da graça foi misericórdia!” Portanto, seja firme e inabalável. Ao fraquejar, lembre-se do tamanho da misericórdia que a graça derramou sobre sua vida.

 

Uma versão condensada desse texto foi publicada na edição de novembro de 2018 da Revista Box95.

João Guilherme é formado em Direito e mestrando em Teologia. Foi um dos idealizadores da Box95 e atualmente está à frente da Editora 371.


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