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Cristianismo e Feminismo: um ponto em comum

Eu estava empacada com a ideia de escrever mais um texto com a temática “É possível ser cristã e feminista?” quando percebi um fato: esse assunto, principalmente nos meios reformados, já é old news. Todo mundo já sabe que não dá (e, se você não sabe, recomendo que assista a este vídeo aqui). “Ah, Manu, então eu não posso defender a igualdade de direitos entre homem e mulher?” Você não precisa ser feminista para fazer isso. Deus foi o primeiro defensor dessa igualdade ao criar homem e mulher com exatamente o mesmo valor, ambos à Sua imagem e semelhança (Gênesis 1.27). Além do mais, o Feminismo se tornou um movimento que apenas defende a igualdade de direitos na teoria, tendo uma atuação que vai da liberação sexual da mulher a passeatas defendendo o aborto, passando pela defesa à causa LGBT e da Ideologia de Gênero, entre tantas outras.

Porém, o reconhecimento de que o Feminismo não é conciliável com o Cristianismo é apenas o ponto inicial dessa discussão. A causa feminista se infiltrou de um jeito tão sutil dentro das igrejas que foram necessários muitos textos, artigos, estudos, livros, vídeos e sermões para que esse problema fosse identificado e remediado. Agora partimos para a próxima fase da questão: será que o Feminismo é mesmo tão distante assim do Evangelho? Não há nenhum ponto em comum? O que motivou as precursoras do movimento feminista a pensar daquela forma? É isso que analisaremos neste texto.

Um ponto em comum

Em seu necessário livro Feminilidade Radical, Carolyn McCulley humildemente reconhece que o Feminismo tem uma origem genuína. Ela afirma, e eu reitero, que:

Acontece que o feminismo está parcialmente certo. Os homens pecam. Eles podem diminuir as realizações das mulheres e limitar a liberdade delas por razões egoístas. Alguns homens abusam sexualmente de suas esposas e de seus filhos. Muitos homens degradam as mulheres através da pornografia. O feminismo não surgiu por causa de ofensas fabricadas. (pag. 37)

Seguindo adiante em sua preciosa obra, Carolyn faz um compilado sobre a vida de quatro grandes precursoras do movimento feminista e uma coisa chama a atenção na vida de três delas: o sofrimento. Elizabeth Cady Stanton tinha um casamento infeliz com um esposo insensível. Simone de Beauvoir se envolveu em um relacionamento abusivo com um homem sem escrúpulos que só lhe trouxe infelicidade. Betty Friedan afirmou viver um casamento baseado em “ódio dependente”, divorciou-se e, ao final da vida, arrependeu-se dessa separação. Todas elas sofreram de diversas formas, majoritariamente por causa de homens, e encontraram (ou criaram) na causa feminista um escape para a sua dor. Gostaria que você parasse por um segundo e se imaginasse tendo um marido insensível e desrespeitoso que, em vez de praticar uma liderança amorosa, exerce uma dominação isenta de amor e compreensão. Você também iria sofrer. Você também iria sentir raiva desse homem. Você também desejaria um escape. E, com isso, só podemos chegar a uma conclusão:

A base do Feminismo foi o sofrimento humano.

Seu próprio lar

Recentemente tive contato com uma música que, segundo a manchete, está indicada ao Grammy Latino. Ela se chama “Triste, Louca ou Má” e a letra diz o seguinte:

E um homem não me define

Minha casa não me define

Minha carne não me define

Eu sou meu próprio lar

Se eu tivesse lido essa letra antes de escutar a música, provavelmente teria feito cara feia, fechado a janela do Chrome e ido assistir a algum vídeo do Dois Dedos. Só que eu ouvi antes de ler e a música tem esse poder de nos fazer sentir aquilo que possivelmente rejeitaríamos racionalmente. E o que eu senti foi dor. O que eu vi na autora dessa letra foi uma mulher que já vivenciou o sofrimento e que precisou de um escape, mais ou menos como eu e você. Você também já sofreu, quem sabe por causa de um homem. Você também já quis um refúgio para essa dor, quem sabe provocada pelo seu pai ou um ex-namorado. Estamos falando de sofrimento. E a Bíblia afirma que o criador do Cristianismo foi “homem de dores e que sabe o que é padecer” (Isaías 53.3). Logo:

O sofrimento é o ponto em comum entre o Cristianismo e o Feminismo.

Porém, é na solução para esse sofrimento que eles se separam irremediavelmente. A ideologia feminista enxergou o sofrimento humano e, precisando lidar com isso de alguma forma, colocou a culpa no homem. Os homens são opressores enquanto as mulheres são vítimas. Os homens só possuem maldade enquanto as mulheres são cheias de beleza, principalmente quando se unem em “sororidade”. Os homens destroem tudo, enquanto as mulheres são a única esperança de uma sociedade melhor.

Só que a lógica do Evangelho diz que não é bem assim. Os homens não são a desgraça da humanidade enquanto as mulheres são a salvação. Ambos são a desgraça pois ambos são cheios de destruição. Se o homem pecou ao oprimir, a mulher pecou em não perdoar. Se o homem errou ao dominar quem lhe era semelhante, a mulher também se equivocou ao se colocar no centro do universo. O Feminismo defende que o seu grande problema são os homens, enquanto o Evangelho deixa bem claro que o seu grande problema é a “natureza pecaminosa (Tiago 4.1-3), são as forças do mal (Efésios 6.12) e a sedução do mundo presente (1 João 2.15-17)” (Feminilidade Radical, pag. 38). E enquanto você não souber o verdadeiro problema, você não encontrará a verdadeira solução.

A partir dessa reflexão, acho que podemos ter uma visão um pouco mais branda no que se refere ao que leva mulheres (inclusive cristãs – inclusive eu, no passado) a achar o Feminismo tão atraente. O Feminismo, assim como o Cristianismo, oferece uma chance de redenção e salvação. Isso é tudo que uma mulher ferida pela sociedade, principalmente pelos homens, gostaria de ter. Porém, o Evangelho apresenta um caminho que vai muito além de responsabilizações e culpas. Ele apresenta uma promessa de redenção que diz que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8.28) e também que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Romanos 8.18). O Evangelho te liberta da necessidade de culpar alguém ou todo um grupo de pessoas pelas suas tragédias pessoais. O Evangelho te liberta da tentação de ser definida pelo seu sofrimento. Você sabe que Deus é Soberano. Você sabe que aquilo coopera para o seu bem. Você crê que Deus é bom mesmo quando você não consegue entender o que está acontecendo. Você é feliz e completa nEle, mesmo em meio à dor. Ele é a sua esperança e isso é suficiente.

Conclusão

O Feminismo é um movimento cuja origem está no sofrimento humano e, por desconhecerem o Evangelho, mulheres como Elizabeth Stanton e Simone de Beauvoir criaram um escape para sua dor dentro delas mesmas. A Palavra afirma que dentro de nós há apenas destruição e é por isso que precisamos de um Salvador para nos tirar desse estado de morte, delitos e pecados (Efésios 2.1). Diante disso, a única solução para a dor de qualquer mulher não é buscar o empoderamento e lutar contra o patriarcado, e sim, conhecer a redenção do Cristo que transforma o mal em bem. A maravilhosa e redentora proposta do Evangelho é que a mulher não seja mais “seu próprio lar”, e sim, que ela procure abrigo nAquele que levou sobre si todas as nossas dores (Isaías 53.4).

Manuela Moraes é uma recifense de 26 anos formada em Publicidade e Propaganda pela UFPE e Administração de Empresas pela UPE. Canta no Ministério de Louvor da Igreja Presbiteriana das Graças e fala sobre o Evangelho na Internet através do Dois Dedos de Teologia e do seu canal também sobre Teologia, o canal Manuela Moraes. Apaixonada por música e pelo Luiz. Calvinista por paixão e por opção (de Deus).


  • Jéssica Oliver

    Excelente texto!!!