Na última segunda, dia 6 de agosto de 2018, Deus, em sua soberania, me colocou dentro da maternidade de um hospital. Enquanto o Supremo Tribunal Federal e o Brasil discutiam sobre a legalização do aborto eu via meu primeiro filho nascer. Enquanto mulheres egoístas e homens covardes falavam e publicavam a favor da morte de crianças inocentes e indefesas eu assistia de perto o espetáculo divino da vida. Que constraste de realidade! Um constraste que não é visto somente nas maternidades, mas na vida da maioria dos brasileiros comuns. Depois da conversão aquela madrugada foi a grande experiência da minha vida e quero compartilhar um pouco daquilo que vi e ouvi aqui para dizer em caps lock: A VIDA VENCE!

Chegamos no hospital por volta das 5h30 da manhã de segunda. Eu e minha esposa ficamos esperando pela hora do parto. A cesária estava marcada para as 7h30. Ao se aproximar a hora fomos para a sala de cirurgia. Ali fui impactado pela primeira vez. Fiquei numa sala de espera aguardando minha entrada ser liberada. De lá eu escutava gritos e gemidos de mulheres em trabalho de parto normal. Eram sons assustadores se não fosse o contexto da maternidade. Mesmo assim, aqueles gritos de dor me deixaram nervoso. Também ali comecei a pensar: há poucas mulheres lá fora “lutando” pela legalização do aborto enquanto essas estão aqui verdadeiramente lutando pela vida. Enquanto um grupos de mulheres recebe financiamentos de milhares de dólares e vão a mídias e reuniões públicas falar sobre o aborto ali estavam guerreiras, mulheres normais, dando o próprio sangue pela vida de seus filhos.

Sim, eu disse poucas mulheres que “lutam” pela legalização do aborto. Numa pesquisa realizada pelo IPOBE* em fevereiro desse ano (2018) a pergunta sobre essa questão foi feita. O resultado foi que 80% da população brasileira é contra a legalização do aborto. Entre os homens os número é de 79% e entre mulheres de 81%. Ou seja, a grande maioria da mulheres é contra. E mais, temos um número maior de mulheres contra do que de homens, um dado que frusta um dos pontos da narrativa feministas. Que contraste com o que vemos nas mídias, a brasileira é pró vida!

A hora da minha esposa chegou e o parto foi sensacional. Nunca conseguirei descrever em palavra o que senti vendo o pequeno Davi pela primeira vez. Deus é incrível! Depois disso fomos para a enfermaria e ficamos num quarto com outro casal que também acabara de ter o filho. Ali começava uma saga impressionante bela e cansativa. Bem mais bela do que cansativa diga-se de passagem, não pelo pouco cansaço, não mesmo, mas pela beleza da vida. Passamos o dia inteiro e entramos na madrugada de segunda para terça numa rotina de amamentar – arrotar – contemplar – trocar fralda – cuidar da esposa – contemplar. Não havia tempo e nem lugar adequado para dormir. Aquela foi uma madrugada longa, exaustiva e dolorida, mas cheia de alegria e gratidão pela vida.

Ali, na madrugada da vida, vi coisas que nunca esquecerei. Vi mães operadas e debilitadas fazerem de tudo para manter seus filhos recém nascidos alimentados e aquecidos. Vi pais de primeira viagem sonolentos e exaustos aprendendo a trocar fraldas e dar banhos em seus filhos. Vi esses pais andando e correndo pelos corredores para chamar enfermeiras e trocar medicações. E lá estava eu no meio de tudo isso, fazendo tudo isso, sendo pai pela primeira vez. Naquela madrugada estávamos juntos de todo os tipos de pessoas. Haviam casais com plano de saúde e casais atendidos pelos SUS. Haviam mães brancas, pardas e negras. Percebi que uma delas, pela ausência do pai e conversa com a mãe, provavelmente e infelizmente era mãe solteira. Estávamos todos ali, independe de classe social, cor e estado civil, lutando pela vida!

E aqui está outra realidade contrastante das brasileiras comuns. A mesma pesquisa do IBOPE* mostrou que, além do maior percentual contra o aborto estar entre as mulheres, esse percentual é maior ainda entre as que tem renda até 1 salário mínimo (86%) e entre as que são negras ou pardas (81%). Ou seja, a narrativa feministas que diz falar em nome principalmente das mulheres negras e pobres do Brasil mais uma vez é frustrada. Esse grupo social de mulheres brasileiras é o maior grupo contra a legalização do aborto.

Naquele hospital também estava um casal da minha igreja que acabou de ter um filho prematuro. A gravidez era de risco e mãe precisava tomar de uma a duas injeções por dia com medicação para manter a gestação. No sétimo mês uma intervenção precisou ser feita e o bebê nasceu. Ele está na UTI neonatal e ficará por lá no mínimo dois meses. Vi um casal que vai duas vezes ao dia todos os dias ao hospital para cuidar dessa pequena e valiosa vida. Fiquei encantado e encorajado por essa luta desses irmãos queridos. Mas um grande exemplo sobre o valor sagrado da vida! Que Deus abençoe essa criança e sua família. Orem por eles!

O sol raiou e com ele a esperança no meu coração. A madrugada acabou, mas a beleza da vida só estava começando para nós e outras famílias. Raiou a esperança de ver um povo a favor da vida não só dentro das maternidades, mas no dia a dia comum e nos debates legislativos. A pesquisa aqui mostrada serve para mostrar exatamente isso, que fora dos hospitais a luta pela vida também é maioria! Assim, cresceu em mim a esperança de lutarmos por aqueles que estão sendo tecidos por Deus no ventre de suas mães (Sl 139:13) e que desde lá são visto e conhecidos pelo Criador (Sl 139:16)! Deus ministrou ao meu coração naquela madrugada de forma incrível. E se antes eu já abominava o aborto, agora o abomino mil vezes mais!

Com 7 semanas de gestação eu ouvi o coração do meu filho bater pela primeira vez e 32 semanas depois aquele mesmo coração estava batendo sobre o meu peito. Escrevo com os olhos marejados que aquele era o mesmo coração, a mesma criança, o mesmo ser humano. Que coisa maravilhosa e sagrada é uma gestação. É um processo biológico criado e santificado pelo próprio Deus. Pude experimentar essa experiência junto com Laryssa e lembrar que nosso Senhor e salvador, Jesus Cristo, Filho de Deus, já foi um embrião e um feto. E não só isso, mas como feto foi identificado por outra criança também no ventre (Lc 1:41). A gestação é santa e sagrada porque o Filho santo de Deus já passou por ela e a concedeu dignidade, assim como todas as outras etapas da vida.

A vida sempre vencerá! Até mesmo as vítimas de aborto ressuscitarão e estarão no céu com o Senhor. Continuemos na luta! Eu nunca vou esquecer daquela madrugada e do que ela me ensinou… Espero que lembremos de tudo isso quando a questão do aborto estiver diante de nós! Deus abençoe e proteja nossas crianças!

 

*Site do Ibope com a pesquisa: http://www.ibopeinteligencia.com/noticias-e-pesquisas/cresce-o-grau-de-conservadorismo-do-brasileiro-em-alguns-temas/

 

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em Administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  

 



Ele conhece os 5 solas da reforma protestante. Não só conhece, mas os tem como capa de Facebook. Talvez até tatuados quem sabe. Ele é bom em conhecer a história da reforma e sabe falar sobre Zwinglio, Lutero, Knox, Calvino, Melânchton e até outros menos conhecidos. Grande defensor da tulip e forte opositor do arminianismo. É leitor de bons livros e talvez já esteja até escrevendo em blogs. No Facebook ele é um defensor da fé cristã histórica, sempre ligado as confissões, catecismos e outros documentos antigos. Se diz cristão protestante, reformado, calvinista e conservador. É um grande consumidor de canais teológicos e políticos no YouTube e tem aprendido sobre filosofia e economia. Participa até de conferências inclusive.

Ele não é membro de nenhuma igreja. Vive de visitar algumas, mas nunca resolve firmar um compromisso com uma igreja local. Sempre encontra problemas nos pastores, mas nunca em si mesmo. Talvez até ache melhor ficar em casa do que perder tempo com hereges. Não serve a ninguém fora da internet. Não contribui financeiramente em nenhuma congregação. E mesmo fora da igreja, também não investe em missões. Dificilmente é confrontado sobre seus pecados e acha que falar palavrão é normal para o cristão. Resolveu levantar a bandeira da cerveja e do tabaco sem nenhum compromisso com os irmãos mais fracos. Exatamente porque não convive com eles. Em vez de se alimentar no culto congregacional com pastores e irmãos imperfeitos, prefere as páginas teológicas de zoeira ou depressão. Elas passam a boa sensação de superioridade e perfeição que a igreja não passa.

Na verdade, o conhecimento que tem não é profundo. Se vê como teólogo, mas é mais um papagaio do que pensador. Usa até frases e pensamentos de outros sem dar os créditos. Além disso, não sabe como transformar teologia em aconselhamento. Não tem prática em responder aos dilemas da vida de pessoas mais simples da igreja. Não tem a prática de responder teologicamente nem aos seus próprios dilemas e pecados. Falando nisso, talvez seja pelos pecados ocultos que não se interessa por uma igreja local. Provavelmente existe o medo de ter o pecado amado exposto e condenado. Pornografia ou sexo fora do casamento? Arriscaria esses. Na verdade, não houve reforma, e ele provavelmente até saiba disso.

[Pausa para a mudança no texto]

Desprazer, esse é o desigrejado reformado. O que você acha dessa descrição? Pois é, infelizmente eles existem. O desigrejado reformado é a nova (nem tão nova) moda pecaminosa entre muitos jovens que trocaram a igreja pela internet. Trocaram a membresia pelo login. Trocaram a comunhão viva pelas telas frias e imóveis. Esse é o grande absurdo entre os que se dizem reformados. Essa é a grande contradição. Como usar um termo histórico que recuperou a essência da igreja para dizer que não precisamos dela? Como usar o nome imagens de homens que sacrificaram a vida pela igreja para fazer pouco caso dela?

Você se encaixa nesse perfil? Se arrependa. Não ficarei citando Hebreus 10:25 porque sei que seu problema não é falta de informação, é acúmulo de pecado. Mas há graça para todos nós! O evangelho está ai apontando para Cristo e seu povo. Esqueça a ideia de viver cristianismo sozinho, ela não existe. Tire os seus pecados do seu quarto escuro e coloque-os na luz da igreja. Aprenda a respeitar e se submeter a um pastor imperfeito. Aprenda a conviver com irmãos pecadores como você. E aproveite para ensiná-los com amor e paciência o que você sabe. Use a internet a serviço da igreja e não a você mesmo.

Se você está achando um absurdo sair um livro sobre o pentecostal reformado… bem, você tem o direito, mas saiba que o desigrejado reformado é a verdadeira grande mentira dos nossos tempos. Mais vale um pentecostal anafalbeto na igreja do que um teólogo reformado longe dela.

 

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em Administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  


Jogos como Fortnite, PUGB e Free Fire viraram febre no Brasil e no mundo. São milhões de jogadores online e muito conteúdo para blogs e Youtube sendo produzidos sobre esses jogos. Todos os três que citei pertencem a um estilo de jogo chamado Battle Royale. Em resumo, nesses jogos, jogadores individuais, em dupla ou em grupo, caem numa ilha cheia de armas e outros itens (loot) e precisam sobreviver até o final enquanto a zona de segurança diminui com o tempo. Cada jogo possui suas variações e detalhes, mas essa é a ideia central, um jogo de combate, estratégia e sobrevivência. Com todas as opções de armas, itens, carros e a possibilidade de jogar online com seus amigos, inclusive falando com eles em tempo real, não é difícil imaginar porque esses jogos estão fazendo tanto sucesso.

Se estou escrevendo sobre eles, você já deve imaginar que estou jogando. Acertou! Minha escolha foi pelo Free Fire por ser mais leve para o celular, com ótima qualidade e jogabilidade. Tenho jogado nos tempos livres e com os amigos da igreja. Nos reunimos às vezes para comer e jogar. São ótimos momentos de comunhão e diversão! Como pastor, gosto de estar por dentro e até de participar, se possível, do que os jovens estão fazendo. E claro, gosto demais desse estilo de jogo. Gosto tanto que sei que o grande perigo que corremos é o do vício. Podemos perder muito tempo e negligenciarmos áreas importantes da vida por causa de uma boa partida de Battle Royale. Se você joga ou está pensando em jogar, tome esse cuidado!

Mas hoje não é dia de falar de vício. Vamos falar de coisa boa! Como pastor e alguém que está o tempo todo pensando na igreja, não posso deixar de falar sobre algo que sempre percebo jogando Free Fire com meus amigos. Então lá vai, segura esse drop! Quando jogamos no modo squad somos 4 jogadores contra outras equipes. É o modo mais divertido! Nele a estratégia mais comum é a de permanecermos unidos. É muito comum ouvir e falar o tempo todo: “vamos ficar juntos”, “não me deixem só”, “ei, Pedro, não vai para muito longe”. Não sei para você, mas eu não consigo ouvir essas coisas e não lembrar da Igreja de Jesus!

Ao orar por nós em João 17, Jesus pede ao Pai pela unidade da igreja como marca fundamental para o cumprimento da nossa missão no mundo (João 17.21-23). O testemunho do envio para a missão depende da unidade da igreja. Em Efésios 4, logo após a exposição dos 3 primeiros capítulos sobre a obra de Deus da salvação e ajuntamento do seu povo, Paulo fala sobre a unidade da igreja como marca fundamental (Efésios 4.1-6), que possibilita o crescimento e fortalecimento da igreja em maturidade (Efésios 4.11-16). Não fomos chamados para estarmos nesse mundo sozinhos. A igreja é esse squad lutando pelo evangelho!

Há uma particularidade nesses jogos incrivelmente parecida com um texto bíblico. Diferente do modo individual, no squad, quando um jogador é acertado e sofre grande dano, ele é derrubado e fica aguardando por socorro. Seu companheiro de equipe pode vir e levantá-lo antes que ele morra para ambos continuarem combatendo na partida. Isso acontece bastante no Free Fire. Queremos estar sempre perto um dos outros para que possamos ser levantados quando caímos ou levantarmos alguém que esteja precisando. Novamente, é impossível não lembrar da igreja. Impossível não lembrar de Eclesiastes.

“É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar-se!” (Ec 4.9-10)

A Igreja de Jesus foi chamada para viver em unidade! Sua vida nesse mundo hostil deve ser em plena união entre os irmãos. É assim que igrejas locais crescem e sobrevivem. É assim que cada membro cresce e sobrevive. Fomos chamados a nos congregar e admoestar uns aos outros (Hebreus 10.25). Fomos chamados a levar as cargas uns dos outros (Gálatas 6.2). Fomos chamados a confessar pecados e orar uns pelos outros (Tiago 5.16). Viver cristianismo sozinho nesse mundo é mais perigoso que cair sozinho na Mill. A vida cristã é uma vida em igreja! E a igreja não é você, somos nós!

Espero que ao ver alguém tentando viver a vida cristã sozinho você lembre de alertá-lo como no Free Fire: isolar-se é perigoso; não haverá ninguém para ajudar; distanciar-se do grupo é correr grande perigo. É impossível não jogar com amigos e não lembrar da unidade da igreja. Pense nisso e traga esses textos à mente. Estar sempre junto do squad e avançar em unidade é melhor que qualquer silenciador e mira 4x…

“O Deus que concede perseverança e ânimo dê-lhes um espírito de unidade, segundo Cristo Jesus, para que com um só coração e uma só boca vocês glorifiquem ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 15.5-6)

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em Administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  


No último sábado, 21 de abril de 2018, fui ordenado ao ministério pastoral na amada Igreja Batista Filadélfia de Fortaleza. Foi um dos momentos mais especiais da minha vida. Era a concretização de um chamado e desejo do meu coração. Na ocasião pude compartilhar com todos um breve testemunho da minha caminha até o santo ministério. Lembrei das dificuldades que passei e da falta de bons conselhos, de um norte, para me ajudar a trilhar um caminho correto e saudável. Pensando nisso, quero escrever uma humilde carta a todos os que possuem esse desejo pelo ministério pastoral. Não me coloco aqui como alguém experiente, mas como alguém que acabou de passar por isso. Sei que as dúvidas e ansiedades são fortes para quem está buscando seriamente o pastorado e quero ajudar falando sobre o básico dessa jornada. Se você sinceramente desejar ser um pastor, os próximos parágrafos são para você.

A primeira coisa que você precisa saber é que esse desejo é algo bom. Mais do que bom, excelente! Veja o que Paulo diz a Timóteo: “Esta palavra é digna de crédito: Se alguém almeja ser bispo, deseja algo excelente.” (1 Tm 3:1). Parece óbvio, mas você precisa ter essa convicção. Enfrentei dificuldades com pessoas que diziam que esse desejo poderia ser fruto de um coração vaidoso. Elas estavam, em parte, corretas. Poderia ser. Você precisa julgar suas motivações e se perguntar: “por que quero ser pastor?”. Seja sincero. Por outro lado, não ache que você precisa ter uma visão ou opinião perfeita sobre o seu desejo. No início você ainda não sabe muito bem o que é ser um pastor, ninguém sabe.

Na maioria dos casos somos encantados pela pregação e queremos ser pregadores. Pegamos de forma isolada um dos elementos do ministério pastoral para aquecer nosso desejo. Isso é ingenuidade, mas não torna o chamado algo errado. Creio que Deus nos desperta por meio de algum elemento específico, mesmo que não saibamos do todo. Se esse é o seu caso, ok. Há muito o que aprender no caminho à frente e é exatamente essa caminhada de aprendizado que vai confirmar ou não o seu chamado.

Sabendo que o que você deseja é excelente, mesmo de forma ingênua, agora é hora de ganhar confiança. Você precisa de convicção do seu chamado. Sofri com muitas dúvidas sobre aquilo que eu sentia. Quando comecei a pregar e ensinar colocaram grande expectativa em mim e logo fiquei com medo de frustrar todas aquelas pessoas. Eu me escondia diante das perguntas: “você quer ser mesmo pastor?” ou “tu acha que Deus te chamou para isso?”. Lá no fundo eu diria que sim, mas não tinha coragem de dizer. Deus precisou intervir para que eu saísse da covardia.

Caro irmão, o que precisamos primeiro é da convicção de que Deus é soberano. Dele é o chamado e é Ele que nos colocará ou não no ministério. Quando entendi e passei a viver nessa confiança pude confiar no meu chamado. Agora preste atenção, não estou dizendo que eu passei a ter certeza que Deus me faria um pastor. Passei apenas a ter certeza de que esse era o meu desejo! E que se Deus quisesse, Ele seria o responsável por concretizar a obra, não eu ou qualquer outra pessoa. Foi assim que perdi o medo das expectativas, dependendo de Deus.

Bem, se você sente o chamado, sabe que ele é algo excelente, está convicto dele e dependendo de Deus, então chegou a hora de começar a jornada até o ministério. Lembre-se de duas coisas antes de começar. Primeiro, a sua estrada tem o tamanho que Deus quiser. Não se compare com ninguém. A minha durou 10 anos. Comecei a desejar o ministério aos 17 e fui ordenado ao 27. Para alguns esse é um tempo longo, para outros um tempo curto. O que importa é que foi o tempo de Deus. Em segundo lugar, nessa estrada não existem atalhos seguros. Dê um passo de cada vez. Tentar acelerar o processo pode causar grandes problemas no futuro.

Então vamos para a prática. Você precisará de duas coisas: preparação e reconhecimento. Isso mesmo, reconhecimento, mas vamos por partes. Comece estudando teologia. Se você já faz alguma faculdade aconselho que se forme antes de ir ao seminário. Se você entrar direto no Seminário, aconselho que se prepare para uma segunda profissão, um plano B. Eu, por exemplo, me formei em administração e até hoje trabalho em pequenos serviços com marketing digital. Nesse tempo de faculdade você pode aproveitar para estudar em casa de maneira informal (mas não preguiçosa!). Leia muito a Bíblia e outros livros. Se você não gosta de ler e estudar e nem tem o interesse em gostar, o ministério pastoral não é para você. Ao entrar no seminário, estude o máximo que puder!

Agora algo importantíssimo! Enquanto você estuda nunca deixe de servir a sua igreja. Isso o ajudará a não se distanciar dos irmãos e a não se encher de orgulho por saber mais. Sempre coloque sua teologia em prática no serviço na sua igreja local. Se submeta a ela e aos seus pastores e líderes. Não ache que exista algo que você não pode fazer. Faça desde os trabalhos braçais até os intelectuais. Se você é preguiçoso o ministério pastoral não é para você. Além de ajudar no seu caráter e no dia a dia da sua igreja, você abrirá portas para o reconhecimento. Isso pode parecer estranho, mas é necessário. A igreja precisar ver em você alguém com um real amor e zelo por ela. Não estou falando de buscar o reconhecimento humano para seu próprio orgulho, mas de mostrar a igreja que você a ama e será capaz de pastorear no futuro. Creio que o chamado é confirmado interiormente no coração e exteriormente na igreja. Se as pessoas, principalmente a liderança, conseguem ver e até falam de você como um possível pastor, é sinal que o caminho está correto.

Quero deixar uma dica bônus de extrema importância aqui. Que fique registrado nessa carta: se você deseja e busca o ministério pastoral a decisão mais importante que você terá que fazer é sobre a mulher com que irá se casar. Escolha com sabedoria uma mulher piedosa e que deseje ser uma esposa de pastor.

Antes de encerrar permita-me perguntar algo bem direto: você consegue pregar? O ministério pastoral requer o dom de ensino. Essa é a única característica particular e diferencial daqueles que almejam esse ministério: “apto para ensinar” (1 Tm 3:2). Não entre no ministério pastoral se você é incapaz de pregar. Ser pastor é mais do que pregar, mas não pode ser menos. Agora leia com calma, isso não significa que você já nasceu sabendo pregar e nem que você precisa ser um grande pregador famoso. Aprenda a pregar estudando e praticando. Perca a timidez! Eu sempre fui tímido demais e tive que superar isso. Indico que você comece ensinando as crianças no ministério infantil, isso ajudará demais a se soltar. Lidere grupos pequenos para ensinar. Evangelize e peça para pregar em reuniões menores da sua igreja. Seja um pregador e aproveite cada oportunidade!

Agora encerro com um apelo: tenha uma vida piedosa! E com isso quero dizer uma vida devocional com Deus e em luta constante por santidade. Não deixe a rotina de estudo e serviço matar sua prática de oração e leitura da Palavra como deleite em Deus. Nunca perca esse prazer no nosso Senhor. E por favor, lute por santidade. Você deve ser padrão aos crentes de uma vida com Deus (1 Tm 4:12). Abandone um namoro imoral. Abandone a pornografia. Abandone os seus pecados o máximo que puder. Viva para a glória de Deus!

Indicação de Livros: Eu Sou Chamado?, de Dave Harvey, Editora Fiel; Vocação Perigosa, de Paul Tripp, Editora Cultura Cristã; Amado Timóteo, de Tom Ascol, Editora Fiel.

Um grande abraço e que Deus te conduza por essa jornada maravilhosa rumo ao ministério pastoral. Caminhe com convicção. Se você não chegar lá, lembre-se que Deus é soberano e o sirva onde Ele lhe colocar. Soli Deo Gloria!

Pedro Pamplona, 24 de abril de 2018.

 

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  


Muita gente já está acostumada  a ler e escutar que as redes sociais mexem com nossos desejos e tem impulsionado nosso lado consumista. Isso é ainda mais verdade quando falamos do Instagram. E a situação vai além da compra de produtos. Talvez você já tenha lido sobre as fake lifes que existem na rede. Essas vidas falsas servem como padrão de vida para muitas pessoas. O usuário corre o perigo de se tornar um consumista da vida de famosos e influenciadores. “Eu quero aquela aparente vida de felicidade, luxo, festas e viagens para mim!”. Por conta disso o Instagram já foi classificado, inclusive, como a “pior rede social para a saúde mental do jovens”.

O que isso tem a ver conosco? Eu gostaria de apontar para um problema semelhante: nosso consumismo em relação a livros. Andei pensando nisso nesses últimos dias e, já que participo desse mundo online de indicação de livros, me sinto responsável por tratar desse perigo. Gravei alguns vídeos no meu Instagram stories sobre isso e tive muitas respostas positivas e de agradecimento (eles estão salvos nos meus stories em destaque – @pedromcp), por isso resolvi trazer o assunto aqui. Meu ponto é: não se iluda com o mundo da literatura cristã e não se deixe dominar por um consumismo por livros e pela vida dos outros.  

Alguns esclarecimentos são importantes nesse assunto. Pense nas próximas informações antes de querer imitar a aparente vida ou a biblioteca de alguém. Em primeiro lugar, muitos de nós recebemos livros gratuitamente para indicarmos. Não compramos tudo que mostramos. Em segundo lugar, nossas bibliotecas não são tão grandes quanto você pode pensar. A minha mesmo não é. Creio que muitos que estão lendo esse texto possuem mais livros do que eu. E em terceiro lugar, mesmo que você considere minha biblioteca grande, por exemplo, saiba que eu compro livros a quase 10 anos. Se você comparar esse espaço de tempo com a quantidade de livros que tenho, verá que compro poucos de cada vez e que construí lentamente minha biblioteca.

Portanto, não se iluda. Não pense em algo do tipo: “se ele pode comprar tudo isso eu também posso ou devo”. Nós não compramos tudo. Não ache que você deve ter uma biblioteca como a do fulano do Instagram. Você deve ter uma biblioteca segundo a sua realidade. Não pense que você precisar ter uma biblioteca grande o mais rápido possível. Tudo tem seu tempo de acordo com sua realidade. Lembre-se, por exemplo, que minha biblioteca e a da maioria da galera levou anos para estar do jeito que está. E mais, não queira ser a todo custo o tipo de leitor que o fulano é. Não seja esse consumista de vida. Você não tem obrigação de ler o tanto de livros que o fulano lê. Cada um tem sua realidade de tempo e recursos. Eu, por exemplo, não consigo “competir” com um seminarista solteiro e sem trabalho.

Quero encerrar dizendo que existem algumas prioridades na sua vida que estão acima da compra de livros. Posso listar aqui pelo menos 4: Alimentação, moradia, vestuário e dízimos/ofertas. Se você for casado essas três primeiras prioridades são maiores ainda. Se tiver filhos outras prioridades surgem. Eu desconfio de pessoas que não vivem tão bem em relação a essas prioridades, mas compram muitos livros. Sua principal resolução deve ser: sua vida literária deve condizer com sua realidade financeira.

A dica é fazer um planejamento financeiro priorizando as coisas mais importantes e estipular um valor (fixo e mensal) que esteja sobrando para compra de livros. Faça uma planilha no Excel e programe-se. Você pode pecar comprando livros de teologia. Já pensou nisso? Compre com bom senso e responsabilidade. Ore para que Deus lhe dê sabedoria.  E lembre-se: Se sua biblioteca pessoal é enorme e cresce a cada mês enquanto seu cartão de dízimo/ofertas está em branco e quase sempre vazio, existe algo muito errado com sua fé, teologia e leituras.

Tomando esses cuidados, faça bom proveito das redes sociais, do perfis que indicam livros e principalmente dos próprios livros! Tudo isso é ótimo se usarmos da maneira correta. Se você tem condição para comprar muitos livros, compre. Não tenho nenhum problema com isso. Aproveite e abençoe a vida de quem não tem. Que possamos glorificar a Deus mantendo uma boa relação entre o bolso e a biblioteca.

Boas leituras!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.

 



Qual a visão de Deus você tem enquanto está adorando? Minha teoria inicial nesse rápido texto é a que, com o passar do tempo, temos perdido a visão mais sublime e doxológica de Deus. Do nosso Deus do cristianismo. Essa visão é a visão trinitária. Seja sincero: qual foi a última vez que você se pegou pensando em como maravilhoso e misterioso é o fato de Deus ser trino? Me incluo nessa pergunta. E fico triste em afirmar que perdemos nossas lentes trinitárias. Na adoração, somos unitaristas funcionais na maioria das vezes. Ou quem sabe seria melhor dizer trinitários não praticantes.

Um dos grandes responsáveis por esse embaçamento nas lentes foi Immanuel Kant e sua teoria do conhecimento pautada em espaço e tempo. Ao dar origem ao pensamento moderno Kant nos afastou do transcendente em Deus e dos mistérios divinos.

Da doutrina da Trindade não se tira, definitivamente, nada de importante para a prática, mesmo quando se pretendia entende-la; muito menos ainda quando alguém se convence de que absolutamente supera todos os nossos conceitos. Ao aluno não custa nada aceitar que na divindade adoramos três ou dez pessoas. Para ele tanto faz uma coisa ou outra, porque não tem ideia nenhuma sobre um Deus em várias pessoas (hipóstases). Mas ainda, porque desta distinção não deriva absolutamente nenhuma pauta para sua conduta. (citado em BOFF, 1986, p. 33)

O pensamento pragmático tornou o pensamento doxológico na Trindade numa inutilidade. Por que perder tempo em algo que “não deriva absolutamente nenhuma pauta para nossa conduta”. Felizmente Kant estava completamente enganado. Infelizmente nós somos influenciados pelo seu legado. Os séculos 17 ao 20 nos apresentaram um silêncio melancólico sobre a doutrina da Trindade (estou sendo otimista). Estávamos perdendo a jóia rara do cristianismo…

Até que Karl Barth deu um belo empurrão e colocou a Trindade novamente em ênfase. Sua publicação “Dogmática da Igreja” em 1932 tratou a doutrina da Trindade como primária para entendermos toda a revelação de Deus. Ele afirmou que “ao dar a esta doutrina um lugar de proeminência, nossa preocupação não pode ser meramente que ela tenha esse lugar externamente, mas sim que seu conteúdo seja decisivo e controlador para toda a dogmática” (1976, vol. 1, p. 303).

Barth reacendeu a chama trinitária e colocou a academia teológica em grande discussão novamente sobre essa doutrina. Muitos falam num espécie de avivamento trinitários nas últimas décadas. O debate teológico está a todo vapor, mas precisamos trazer esse “avivamento” para a igreja. Ainda falta muito nessa área. Sabemos que Deus é trino, mas ainda desconfiamos kantianamente da relevância dessa doutrina. O que ela mudaria em nossas vidas como igreja? Será que Barth não estava exagerando? São ótimas perguntas realmente. E nesse texto gostaria de apresentar uma ótima razão para retonarmos ao foco trinitário: ele aprofunda nossa adoração.

A Singularidade da Adoração Cristã

A adoração cristã é única porque adora a um Deus único. E isso quer dizer que adoramos a um Deus que é Trindade. Não estamos adorando a Alá, um deus sem diversidade, nem mesmo a tríade hindu de Bhrama, Vishnu e Shiva, deuses sem unidade. Estamos invocando e exaltando o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que são ao mesmo três e também um. A Trindade é aquela joia rara que só pode ser encontrada no cristianismo! E nenhum mistério é mais doxológico do que o mistério da Trindade e de como Eles se relacionam entre si e conosco, seu povo.

O texto de Efésios 1.3–14 é um louvor de Paulo à obra trinitária de Deus na redenção do seu povo. Só adoramos porque Deus o Pai nos escolheu para Ele e nos permitiu entrar em sua presença como filhos (v. 3–6). Só adoramos porque Deus o filho nasceu, viveu, morreu e ressuscitou por nós. Seu sangue permite que nos acheguemos a Deus e possamos cultua-lo (v.7–12). Só continuamos adorando porque o Espírito Santo nos selou e é o nosso penhor de segurança (v.13–14), além de ensinar e agir em nós para que adoremos corretamente. Deus age de forma trina e pessoal, mantendo sua imanência e transcendência, para salvar seu povo e os conduzir em adoração. Nenhum outro Deus pode fazer isso!

O Exemplo de Paulo

Todo culto é trinitário porque é um ato soberano da Trindade. Mas ter essa percepção trinitária aprofunda nossa adoração. Pensar no Deus único, inalcançável e misterioso que ao mesmo tempo que se revelou como homem e desvenda parte do mistério habitando em nós é como por um caminhão de gasolina em nossa fogueira de adoração.

Não existe nenhuma doutrina ou verdade sobre Deus mais doxológica do que a Trindade. Ela é a visão máxima que podemos ter de Deus. É o entendimento máximo que podemos ter sobre o objeto de adoração. Em outras palavras, é o melhor quadro sobre Deus que podemos pintar para nossa contemplação. Nos exemplo a seguir, quero encorajar você a fazer isso pelo exemplo de grandes homens de Deus.

Vamos começar com Paulo, um exemplo canônico. Em alguns momentos ele apresenta uma estrutura trina de louvor e oração. Além de Efésios 1, aqui estão outros textos:

Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome, Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior; Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações… (Efésios 3:14–17)

Graças damos a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, orando sempre por vós… Como aprendestes de Epafras, nosso amado conservo, que para vós é um fiel ministro de Cristo, O qual nos declarou também o vosso amor no Espírito. (Colossenses 1:3–8)

Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. (2 Tessalonicenses 2:13,14)

Paulo não tinha uma doutrina da Trindade formulada na cabeça como conhecemos hoje, mas com certeza enxergava no Pai, Filho e Espírito pessoas divinas a quem orações e adoração eram dirigidas. Sua oração trinitária mais direta e famosa está no seu encerramento da segunda carta aos coríntios:

A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém. (2 Coríntios 13:14)

Grandes Exemplos Históricos

Sabendo que essa é uma prática bíblica, podemos considerar agora alguns exemplos posteriores importantes. Quero citar alguns homens que nos inspiram a adorar com esse quadro trinitário de Deus em mente. Pense na beleza e desses pensamentos…

Hilário de Poitiers (300–368)

Um só é o Poder, do qual tudo procede; um só é o Filho, por quem tudo começa; e um só é o Dom, que é penhor da esperança perfeita. Nada falta a tão grande per­feição. Tudo é perfeitíssimo na Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo: a infinidade no Eterno, o esplendor na Imagem, a atividade no Dom. (Tratado Sobre a Santíssima Trindade)

Gregório de Nazianzo (329–390)

Mal me dou conta do Um esou iluminado pelo esplendor dos três; mal os distingo e sou levado de volta ao Um. Quando penso em qualquer um dos três, penso nele como o todo, meus olhos são preenchidos e a maior parte do que estou pensando me escapa… quando contemplo os três juntos vejo apenas uma chama e não posso dividir ou mensurar a luz indivisível. (Orations)

Essa, então, é minha posição… adoremos a Deus o Pai, Deus o Filho, e Deus Espírito Santo, três pessoas, uma divindade, indivisível em honra, glória, substância e reino” (Orations)

Gregório de Nissa (335–394) se viu diante de um ciclo envolvente de glória:

O Filho é glorificado pelo espírito; O pai é glorificado pelo filho; Novamente, o Filho tem a sua glória do pai; E o unigênito torna-se assim a glória do espírito … da mesma maneira … a fé completa o círculo e glorifica o filho por meio do espírito e o pai por meio do Filho (Dogmatic Treatises)

Agostinho (354–430), na conclusão de sua grande obra A Trindade, orou assim:

Senhor nosso Deus, nós cremos em ti, Pai, Filho e Espírito Santo. Pois a Verdade não teria dito: Ide, batizai a todos os povos, em nome do Pai, do Filho e Do Espírito Santo (Mt 28,19), se não fosses Trindade. Nem nos ordenaria que fôssemos batizados, ó Senhor nosso Deus, em nome de alguém que não é o Senhor Deus. Nem a voz divina diria: Ouve, ó Israel, o Senhor teu Deus é o único Deus (Dt 6,4), se não fosses Trindade e, ao mesmo tempo, o único Senhor Deus… Dirigindo todo meu empenho por essa regra de fé, na medida de minhas forças e o quanto me tornaste capaz, eu te procurei e desejei ver pelo entendimento o que creio… Ó Senhor meu Deus, única esperança minha, ouve-me, a fim de que jamais me entregue ao cansaço e não mais queira te buscar, mas ao contrário que sempre procure tu face com todo o ardor (Sl 104,4)… Senhor, único Deus, Deus Trindade… (A Trindade)

João Damasceno (676–749)

Uma essência, uma divindade, um poder, uma vontade, uma energia, um começo, uma autoridade, um domínio, uma soberania, revelado em três perfeitas subsistências e adorado com uma adoração… unido sem confusão e dividido sem separação. (De Orthodoxa Fidei)

Todos eles e ainda muitos outros estavam louvando a Deus ao meditar e contemplando os mistérios da Trindade. Uma coisa em comum com todo é que eles se dedicaram a estudar essa doutrina. Buscaram conhecer a unidade e a diversidade em Deus. E diante da beleza inimaginável adoraram com profundidade.

Minhas palavras finais são nessa direção. Precisamos sair do trinitarianismo não praticante, e para isso precisamos sair primeiro do analfabetismo trinitário. Que possamos estudar a doutrina da Trindade para conhecer o nosso Deus Trino, e que diante dos mistérios possamos adora-lo com mais intensidade. Pense na Trindade em meio a adoração. Pensar em Deus como Trindade é pensar sobre Ele da forma mais elevada e digna de glória possível. E quando pensamos que esse Deus Trindade se relaciona conosco, essa se torna a realidade mais doxológica que existe! Ele é a nossa Trindade, ou como Gregório de Naziazo diria, “minha Trindade”.

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Uma das marcas históricas da igreja é a unidade. O credo niceno-constantinopolitano (381) confessou uma igreja una, santa, católica e apostólica. Essa confissão e tradição está em harmonia com as Escrituras, de onde retiramos nossa base e verdade para entendermos a igreja de Deus. O Novo Testamento nos aponta uma grande preocupação por essa unidade da igreja. Podemos perceber isso claramente nas cartas de Paulo, principalmente em Efésios. Ali ele convoca os cristãos a se esforçarem diligentemente para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4:3).

A base de Paulo para esse trabalho pela unidade é o Deus Trino. Ele indica que nossa unidade está no fato de termos um só Espírito (4:4), um só Senhor (4:5) e um só Pai (4:6). No final das contas temos um só Deus Trino e, portanto, devemos viver em unidade. Seguindo essa mesma ideia, o próprio Jesus nos apresenta o fundamento da unidade cristã de modo mais aprofundado em sua oração ao Pai no capítulo 17 de João. Ali encontramos o ponto mais alto da unidade nas Escrituras. Deus Filho está orando a Deus Pai pela unidade do seu povo. É a partir dessa oração trinitária que enxergamos a verdade e a importância da unidade na igreja.

Unidade é a Vontade de Deus

“(20) Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; (21) a fim de que todos sejam um…

Jesus cristo orou ao Pai pedindo unidade para todos os cristãos de todas as épocas. Isso é mais do que suficiente para entendermos que unidade é algo da vontade de Deus. E algo que está em destaque nessa vontade. Deus Pai escolheu pessoas e enviou o filho para criar essa unidade. o Filho morreu e ressuscitou por essa unidade. E o Espírito foi enviado por manter essa unidade. Esse é o desejo de Deus. Ele chamou e redimiu um povo para ser um povo unido. Estar em divisão é estar fora da vontade de Deus.

Deus é o Unificador da Igreja

O que, então, nós cristãos temos em comum que é capaz de produzir tamanha unidade na igreja? Algumas pessoas se unem em torno de um time de futebol, de uma banda ou artista, de uma causa humanitária, de grande laços de amizades, de amor entre familiares, etc. Qual é a cola do povo de Deus? A resposta é até óbvia e talvez seja por isso que não paramos para refletir sobre ela. Acima de tudo, o fator de unidade entre os cristãos é o próprio Deus.

 “(21) a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós… (23) eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade”

A lógica que Jesus apresenta em sua oração é a seguinte: Cada cristão, como igreja, está unidade a Jesus. Jesus, como Filho eterno de Deus, está unido ao Pai. Logo, a igreja que está unida a Jesus está unidade a Deus em sua plenitude, tudo isso por meio do Espírito. Nessa união trinitária entre Deus e entre Deus e a igreja é que encontramos nossa cola e somos aperfeiçoados na unidade. É por estarmos todos unidos a Jesus Cristo, e por consequência a Deus em sua plenitude, que somos ou devemos ser plenamente unidos. Por isso é impossível ser cristão e estar dividido da igreja. É impossível estar unido a Deus e em divisão com o povo de Deus que também está unido a Ele.

A Trindade é o Padrão da Unidade

Ao que essa unidade da igreja se assemelha? Qual é o grau de unidade entre os irmãos em Cristo. A comparação de Jesus para oferecer o padrão da unidade cristã é incrível e surpreendente.

“(22) Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos”

Segundo Carson, “glória geralmente refere-se à manifestação do caráter ou da pessoa de Deus em um contexto revelador” (Comentário de João, p. 570). O Filho, portanto, é a glória/revelação do Pai e em seu ministério manifestou essa glória/revelação aos cristãos. Um dos motivos dessa revelação do Pai e do Filho e de como eles se relacionam é para servir de padrão para a unidade da igreja (“para que sejam um, como nós o somos”). O evangelho de João está cheio dessa revelação gloriosa e apresenta algumas características centrais desse relacionamento divino. 

Nosso ponto de partida é que a Trindade se trata de 3 pessoas distintas, mas plenamente unidas ao ponto de serem um único Deus. Não há necessidade de uniformidade (todos serem iguais em tudo). Eles são iguais em essência divina, mas diferentes em pessoalidade e papéis. A beleza eterna da Trindade está justamente no fato de três pessoas distintas viverem em perfeita unidade. Assim a beleza da unidade da igreja não está em todos serem iguais, mas justamente em todos serem diferentes em unidade.

Gostaria de destacar rapidamente 3 características que João apresenta do relacionamento Pai e Filho. Elas servem de padrão revelacional para nossa unidade cristã: (1) Amor/intimidade; (2) Ação no mesmo propósito; (3) Autoridade e submissão. Sem entrar em detalhes em cada ponto, podemos dizer que é claro e repetitivo em João que Pai e Filho desfrutam de uma relação de grande amor e intimidade. Um conhece muito bem o outro. Eles também estão sempre agindo no mesmo propósito. Seus objetivos são os mesmo e sua unidade de missão é nítida. Além disso, é interessantíssimo perceber que o Filho se submete ao Pai. Isso nos mostra que na unidade trinitária a fato de haver uma hierarquia de funções não é um obstáculo para a unidade. 

Esse padrão revelado por Jesus nos ensina que nossa unidade deve ser baseada em amor e intimidade, cultivando afeições santas e conhecendo uns aos outros. Também devemos estar unidos nos mesmos propósitos. Uma missão e padrões de vida foram dados a igreja. Devemos viver juntos neles para glorificarmos a Deus em santidade e unidade. E por fim, a presença de relações de autoridade e submissão não é um obstáculo para a unidade. Eu diria, inclusive, que é um requisito. A presença de pastores e líderes são essenciais para a unidade da igreja. 

O Propósito da Unidade

A unidade tem uma valor eterno em seu propósito. E esse grande propósito da unidade apresentado por Jesus em sua oração tem caráter revelador e missionário.

“(21) para que o mundo creia que tu me enviaste… (23) para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim”

A unidade da igreja é testemunho do amor de Deus pelo seu povo e da missão de Deus em resgate do seu povo. Atenção para as duas conclusões: (1) Se devemos estar unidos no mesmo amor que o Pai tem pelo Filho, e esse amor é o mesmo que ele tem pelo seu povo, nossa unidade revela ao mundo o Amor trinitário de Deus entre si mesmo e esse mesmo amor pela igreja: (2) Se Deus planejou e executou a obra de salvação para redimir e unir um povo em torno de si mesmo, nossa unidade revela ao mundo essa obra missionária de Deus.

Nossa unidade é uma pregação ao mundo do amor e da obra missionária do Deus Trino. Com isso em mente. pare para pensar no que significa estar em divisão e contentas na igreja. Quando nossa unidade está quebrada estamos dizendo ao mundo que Deus não se importa conosco, que Deus não ama o seu povo, e o pior, que Deus Pai não ama o seu eterno Filho. Da próxima vez que você estiver para quebrar a unidade, seja por qualquer coisa, pense nessas implicações. Esse testemunho acerca de Deus é mais importante do que qualquer desejo, indignação, senso de justiça, ativismo (ou seja lá o que for) individual nosso. 

Unidade eclesiástica não é menos, mas é mais que amizade, afetos e afinidades. É parte integral de quem Deus nos tornou e está primeiramente compromissada com Deus e sua revelação. A unidade encontrada na igreja deve ser a maior amostra de amor, união e compromisso do mundo. Só assim o testemunho sobre Deus será dado de maneira adequada e eficaz.

Encerro dizendo que Deus é o Fundamento principal de nossa unidade Cristã. Ela é da vontade de Deus. Deus é nosso unificador, Deus é o nosso padrão e é sobre Deus que a unidade testemunha. Viver em unidade é uma questão, acima dos benefícios para nós, de viver para Deus, como Deus e por Deus. É uma questão de expor a sua glória ou não ao mundo. Pense nisso!

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (Salmos 133:1)

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


A teologia me salvou daquele cara chato que fala mal do natal e me tornou um entusiasta desse feriado e da época de dezembro. Tanto a teologia propriamente dita sobre Deus como a teologia sobre as coisas diárias da vida, ou sobre as coisas da terra, como diz o excelente livro de Joe Rigney. Não que eu fosse aquele tipo de crente que acha que o natal é fruto do paganismo e, portanto, algo pecaminoso. Meu caso era de indiferença. Mas ainda bem que a teologia me mostrou outro caminho. Há uma beleza extraordinária no natal. Na verdade, há várias belezas extraordinárias no natal… várias que podemos e devemos contemplar e aproveitar.

Como não tenho tempo para escrever sobre todas (acho que daria um bom livro), quero apenas resumir aquela que eu penso ser a maior beleza desse feriado: O NATAL É TRINITÁRIO. Totalmente trinitário. Fique comigo mais um pouco nos próximos parágafos e deixe sua mente contemplar essa beleza eterna e natalina por meio do evangelho de João.

IMPORTANTE: A intenção principal do quarto evangelho é bem clara. João a registrou de forma direta dizendo que aqueles atos de Jesus foram registrados para que possais crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida eterna” (Jo 20.31). Da mesma forma, ele define a vida eterna afirmando que ela significa que “conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste” (Jo 17.3). Portanto, a ideia principal de João é apresentar Deus por meio de Jesus Cristo para que seus leitores os conheçam e tenham a vida eterna. É nesse contexto que ele aponta para a Trindade como o Deus que se revela e nos mostra a beleza em torno do natal.

A origem eterna do natal

O prólogo de João (1.1-18) é um introdução a todo esse tema de João. Ele quer mostrar a base teológica da sua ideia de revelação e vida eterna. Para isso, ele faz algo diferente dos outros evangelhos. João começa na eternidade. Ele está falando de Jesus ainda pré encarnado, antes da criação.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1)

Há muito o que dizer sobre esse único versículo, mas quero resumir e destacar alguns pontos: (1) O Verbo sempre existiu, ele não “passou a ser” ou “nasceu” no princípio, ele já “era”; (2) O Verbo é distinto de Deus Pai, pois é dito que estava com ele, há uma relação eterna entre seres eternos; (3) O Verbo era Deus, sua natureza também era divina; (4) Esse Verbo passa a ser identificado como o Filho de Deus nos versos 14 e 18.

João está nos dizendo que antes de tudo existir já existia o relacionamento eterno entre Deus Pai e Deus Filho. O nascimento que celebramos no natal só é importante, único e revelador porque é o nascimento do Filho eterno de Deus que sempre existiu ao lado do seu Pai. Se a existência de Jesus tivesse o seu início naquela manjedoura, seu aniversário seria comum como os nossos. A beleza do natal está no seu caráter eterno e trinitário.

O mistério milagroso do natal

O prólogo de João continua nos dizendo coisas impressionantes. Lá somos informados que esse Filho eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Deus nasceu. Será que conseguimos enxergar o quão milagroso e misterioso é isso? O infinito nasceu como alguém finito. Como isso pode acontecer? Não sabemos, mas cremos que aconteceu.

Anselmo se perguntou porque um Deus-homem (Cur Deus Homo) e ao afirmar que o Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente homem, uma pessoa em duas naturezas e duas naturezas em uma pessoa, ele concluiu que só um Deus-homem poderia oferecer um sacrifício pela salvação dos homens e que ao mesmo tempo fizesse satisfação da justiça e santidade de Deus.

No natal, celebremos não só o nascimento de um Deus ou o nascimento de um homem. Celebramos o nascimento do Deus-homem! E isso faz toda a diferença. Como Deus Filho ele foi enviado para ser também homem por Deus Pai e ungido pelo Deus Espírito Santo. “O Verbos estava no mundo” (Jo 1.10). Que milagre! Que mistério!

A revelação luminosa do natal

O prólogo ainda nos mostra mais uma grande beleza do natal. E aqui está o centro trinitario dessa celebração. A encarnação tem um objetivo que João faz questão de destacar. Jesus Cristo veio a nós como Deus-homem para revelar o Pai. Ele é descrito como a verdadeira luz (1.9) e luz dos homens (1.4). No verso 18, final do prólogo, João afirma que “ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. O que ele quer dizer é que não há outra forma de ver a Deus a não ser pelo Filho. E isso tem uma explicação, esse Filho está em grande intimidade com o Pai, e por isso é capaz de revelá-lo.

Essa intimidade descrita como estar no seio (ou ao lado, no colo) do Pai fica mais clara no diálogo entre Jesus e Filipe, no capítulo 14. Filipe faz um bom pedido cheio de boa intenção. Ele quer que Jesus mostre a eles o Pai, mas a resposta do Senhor é curiosa: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe?” (Jo 14.9). Jesus está se igualando ao Pai. Ele explica que quem o vê, vê ao Pai. Ele é a revelação exata de Deus andando entre nós.

A ideia fica ainda mais linda e misteriosa. Jesus vai mais fundo e pergunta a Filipe: Tu não crês que estou no Pai e que ele está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo. Mas o Pai, que permanece em mim, é quem faz a suas obras. Crede em mim; eu estou no Pai e ele está em mim…” (Jo 14.10-11). Ele está dizendo que o Pai habita nele e Ele no Pai (Jo 10.38; 14.20; 17.21). Ambos estão em tamanha e perfeita intimidade que um está no outro de forma plena. A teologia chama esse aspecto divino de pericorese: a habitação mútua das pessoas trinitárias. O Pai está no Filho, o Filho no Pai e o Espírito em ambos. Onde um está os três estão, onde um age os três agem.

Há uma beleza pericorética no natal. Ver o filho é ver o Pai. Conhecer o Filho é conhecer o Pai. A encarnação e nascimento do Filho é a Trindade entre nós. Há mais luz em Jesus do que em toda a Nova York no natal. Celebrar o natal é celebrar a Santa Trindade por meios de Jesus Cristo.

A presença diária do natal

Ainda há uma outra beleza nisso tudo. Após morrer e ressuscitar, antes de subir aos céus, Jesus nos deixou o Espírito Santo. Seu ministério é descrito nos capítulos 14 e 16, e uma de suas funções é a de continuar a obra de revelação. Ele apontará para o Filho que revela o Pai. Toda a Trindade está envolvida nessa tarefa de revelar-se ao povo de Deus. A Trindade é um Deus missionário e o natal nos lembra disso!

Há um texto em Romanos que nos aponta para o envolvimento do Espírito na pericorese. Romanos 8.9-11 nos mostra de forma misteriosa que somos habitados pelo Espírito e, junto disso, somos habitados por Cristo e receptores da ação do Pai. O que quero dizer com isso é que além da encarnação, hoje temos a presença diária do Espírito dentro de nós. E isso implica dizer que a Trindade habita em nós de forma especial por meio do Espírito. Tudo o que o natal representa, a pessoa de Cristo e a revelação do Pai, está presente diariamente em nós na pessoa do Espírito Santo! É natal todo dia… Não por mero sentimentalismo, mas porque o Deus Trino habita em nós diariamente!

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” (Gálatas 4.4-6)

Para falar sobre isso de um modo mais “poético”, escrevi um pequeno texto chamado “O Deus Que Desceu Pela Chaminé”. É isso que eu acredito que aconteceu no nascimento de Jesus. O Deus Trino veio até nós pelo Filho e depois pelo Espírito. Fomos tocados e habitados pela Trindade. No natal, celebramos o Deus que está acima de nós, mas que também esteve entre nós e que hoje habita dentro de nós. Essa é a grande beleza do natal! O grande mistério! E é por isso que nunca mais deixarei de celebrá-lo com alegria e empolgação. Emanuel, a Trindade conosco. O Filho eterno de Deus nasceu entre os homens… aleluia!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


É muito provável que você já esteja familiarizado com a doutrina da depravação total. Se esta é a primeira vez que você se depara com o assunto, em linhas bem gerais, ela afirma que todos os homens nascem em pecado (Sl 51.5), não temos justiça em nós mesmos (Rm 3.10), não buscamos a Deus por nossa própria vontade (Rm 3.11) e que o coração do homem – isto é, o centro de suas vontades e do seu ser – é enganoso e facilmente se entrega à idolatria (Jr 17.1, 9). Porém, não é meu objetivo expor a doutrina – você pode conferi-la através das vastas exposições já apresentadas nas mídias sociais e bibliografias relacionadas –, é trazer a reflexão de como essa doutrina tem uma importante aplicação para a vida de um relacionamento saudável na vida da igreja.

Somos todos pecadores. Se cremos em Cristo, se discernimos espiritualmente o que foi feito na cruz, e se o confessamos como nosso Senhor e Salvador, isso significa que estamos em processo de santificação, porém, ainda pecamos. Isso significa que a depravação que corrompeu em totalidade nossa imagem e semelhança a Deus está sendo redimida ao ponto de termos essa imagem plenamente remodelada conforme a imagem de Cristo. Porém, à medida que somos transformados, ainda caímos por infelicidade decorrente dessa natureza que será totalmente glorificada na nossa futura ressurreição.

Nada fora do comum, certo? Nenhuma novidade ou nada que não seja lido em diversos textos. Porém, como isso tem impactado a forma como lidamos com o pecado cometido pelo próximo? Uma vez que entendemos a depravação total, deveríamos estar dispostos a perdoar, visto que entendemos que o outro é pecador e que sua natureza o inclinará para isso, não obstante éramos assim, mas ainda nessa situação fomos amados por Deus.

Isto é, o entendimento dessa doutrina deveria nos levar a perdoar aquele que pecou contra nós ainda que tenhamos de lutar contra a mágoa deixada pelo pecado cometido. Os casos de pecados cometidos podem variar em sua gravidade. Dessa forma, nossa mágoa varia, dificultando nossa disposição para perdoar. Não precisamos ser falsos em nos recusarmos a admitir que algumas vezes é difícil perdoar. Algumas vezes queremos dar o troco. Outras vezes dizemos que perdão é “deixar para lá”, ou “não ligar”. Reprimimos nossa mágoa e a transformamos em desprezo pelo outro. Com o tempo, o acúmulo de mágoas reprimidas pode nos transformar em uma pessoa fria que diz que não se ofende facilmente e aguenta determinadas ofensas, mas na verdade estamos nos tornando menos empáticos e menos sensíveis.

Tornamo-nos pessoas introvertidas, com dificuldade de relacionamentos, de confiança e principalmente de perdoar genuinamente. Perdoar não é ser insensível à ofensa cometida, antes é senti-la e nesses termos escolher perdoar. Perdoar não é desconsiderar a ofensa, é assumir que houve ofensa e decidir perdoar. Perdoar não é ignorar, porém, é buscar a reconciliação na medida do possível. Pecado não é algo que se pode ser insensível, desconsiderado ou ignorado, antes é algo que deve ser redimido. Assim foi a forma que Cristo agiu para com todos aqueles por quem ele morreu. Ele não foi insensível às dores da cruz, nem desconsiderou o peso da ira do Pai que recaía sobre si por causa dos pecados do mundo, nem ignorou os pecados dos eleitos de seu Pai, mas escolheu perdoá-los.

Em segundo lugar, o entendimento dessa doutrina deveria nos levar a uma quebra de expectativa utópicas de relacionamentos. Não basta saber que o ser humano é falho, precisamos saber que ele é pecador. É natural que admitamos a possibilidade da falha do outro, mas muitas vezes essa possibilidade não é trazida para o plano da realidade. Por mais que admitamos a possibilidade, não queremos admitir a realidade. Ou seja, não somente é possível que alguém peque contra você, isso é uma realidade. É uma realidade que pecarão contra você. Tanto aquelas pessoas com quem você só troca algumas palavras quanto aquelas com quem você troca confissões. Elas são pecadoras. Elas vão falhar. Por isso, assim como o pecado é uma realidade, o perdão também deve ser. Se o pecado do outro contra mim é só uma possibilidade, meu perdão para com ele também não passará de uma possibilidade.

Admitir essa realidade nos prepara para estarmos dispostos a perdoar com menos dificuldade, porque o pecado cometido não nos chocará tanto. Uma vez que me preparo para o impacto, posso me preparar para suportá-lo. Não obstante, isso não é uma desconfiança geral em relação ao outro, mas é um entendimento bíblico antropologicamente saudável. Ao contrário de levar a uma desconfiança geral, ela apruma a confiança. Pode parecer estranho afirmar isto: alguém falhará conosco melhora nosso relacionamento. Mas não é. Todos nós temos a tendência de projetar no outro o que esperamos ser para que dessa forma possamos nos relacionar com eles. Queremos que pensem, procedam e até errem nas mesmas coisas que nós, afinal, isso geraria uma empatia com a qual poderíamos lidar.

Se alguém pensa e procede igual a mim, não haverá discordância. Se alguém erra igual a mim, ela é igualmente falha. Porém, não é assim que somos. Aliás, quanto mais buscamos essas projeções mútuas de igualdade entre pessoas, mais estaremos abertos para nos depararmos como as crises que a realidade traz quando tais projeções levam a uma perda de visão do outro como alguém diferente de mim. Ou seja, buscamos projetar nossa imagem em moldes diferentes e nos frustramos por não haver um encaixe adequado. Se meramente a um nível de tentativa de projeção isso já é frustrado, quanto mais ao nível do pecado. O outro é uma pessoa que é diferente de mim, que é pecador como eu, mas que não é tal qual eu sou. O problema de nossos relacionamentos é a construção de expectativas que esperamos não serem frustradas, porém, o que a doutrina da depravação total nos ensina é que algumas delas serão. O outro pecará em outras áreas, ele cairá em outras áreas, nas quais devo estar disposto a perdoar, pois a recíproca é verdadeira: eu pecarei em áreas diferentes do outro.

Assim, em terceiro lugar, essa doutrina deveria nos ensinar que nossa condição de pecadores nos fará realmente pecar contra os outros. Assim como costumamos ver o pecado do outro como uma mera possibilidade com a qual não queremos lidar, podemos nos convencer que nosso pecado cometido é simplesmente uma questão de erro de propósito que acontece ocasionalmente e sem intenção. É difícil pensar em si mesmo como alguém que pecará contra o outro. É difícil pensar de si mesmo como alguém que pode trazer dores, mágoas e pecado para a vida do outro. Porém, é isto que somos: pecadores. Uma hora falharemos com quem amamos assim como aqueles que amamos falharão conosco. Não podemos ter uma imagem demasiadamente elevada de nós mesmos ao ponto de considerarmos que os pecados dos outros são intencionais, ao passo que os nossos sempre são não-intencionais. Não podemos ter uma imagem elevada de nós mesmos ao ponto de não nos vermos como aqueles que pecarão contra os outros, pois iremos.

A doutrina da depravação total não é simplesmente algo que diz respeito a como Deus nos via, mas também é a forma como nos vemos e como vemos os outros. Não é simplesmente: “Eu era totalmente depravado, mas Deus escolheu me salvar. Aleluia!”, mas também é: “Meu próximo é um pecador e eu tenho que escolher perdoá-lo, pois foi assim que Deus fez comigo” e “Eu sou um pecador e eu falharei com meu próximo”.

A doutrina da depravação total nos leva a um relacionamento bíblico, antropologicamente saudável, pelo fato de não limitarmos nossos relacionamentos a como interagimos uns com outros, como se de alguma forma não houvesse intervenção divina. Isto é, não somos corrompidos pelo meio, nem fruto de estímulos comportamentais. Somos depravados, porque essa é nossa natureza. Essa compreensão deve nos levar aos pés da cruz para que tanto clamemos por perdão como intercedamos uns pelos outros. Essa doutrina deve nos levar a orar por aqueles que pecam contra nós por entendermos que eles são pecadores e que somente Cristo pode redimi-los dessa natureza. Devemos orar para que o Espírito Santo revele ao outro – e a nós mesmos – a condição de pecador, pois o pecado cega.

A doutrina da depravação total deve nos levar à humildade. Uma humildade que nos leva a perdoar por enxergar nossas próprias limitações e pecados assim como as limitações e pecados do próximo.

Perdão não é questão de sentimento, mas de escolha. Deus provou do seu amor ao enviar Cristo para morrer por nós enquanto éramos seus inimigos (Rm 5.8). Deus não suprimiu nossa ofensa contra ele, nem a ignorou, nem a desconsiderou. Antes a imputou no seu Filho. Ele escolheu nos perdoar enquanto éramos seus ofensores e não buscávamos reconciliação. Da mesma forma, devemos perdoar o próximo. Devemos nos espelhar no ato de Deus para conosco, para proceder no pensar e no agir em relação ao próximo.

Finalmente, assim como a doutrina da depravação total não é fácil de lidar, o perdão não também não é fácil de ser dado. Não precisamos negar o fato de que algumas ofensas de fato são mais difíceis de serem perdoadas. Porém, na medida em que nos aproximamos da Palavra de Deus, na medida em que somos santificados pelo Espírito e que somos transformados à imagem de Cristo, as difíceis doutrinas que confrontam nosso pecado se tornam uma verdade em nossa vida, de modo que não podemos mais viver sem e admitimos sua vital importância. Assim também acontece com as implicações de tais doutrinas.

Portanto, o que precisamos não é somente das declarações doutrinárias, mas que o ensino bíblico nos transforme ao ponto de aperfeiçoar nosso ser interior para que sejamos cada vez mais semelhantes àquele que nos salvou. Não é fácil, mas ninguém disse que seria. Nosso chamado não começa com um chamado ao conforto, mas à cruz. Se começamos com uma cruz, certamente temos que esperar um caminho tão difícil quanto. Porém, ao passo que começamos com morte, terminaremos com vida. Começamos com uma cruz, terminaremos com uma coroa. Começamos como pecadores, terminaremos como Cristo.

Matheus Fernandes, Membro da Igreja Batista Filadélfia e seminarista no Seminário e Instituto Bíblico Maranta – SIBIMA. 


Usei meu final de semana para maratonar a segunda temporada de uma das minhas séries favoritas. Foi bom demais! Como é de se esperar, em Stranger Things coisas estranhas acontecem na cidade de Hawkins. Na verdade, coisas bem estranhas e inesperadas por todos. A história gira em torno da existência e de interação com um mundo ou dimensão invertida. Assistam!

Um mundo invertido com coisas estranhas e inesperadas… O que isso me lembraria? Se você pensou em ministério de jovens, acertou! Foi isso que veio a minha cabeça no dia seguinte. Acompanhe meu raciocínio inicial. Ao meu ver, o direcionamento de muitos ministérios de jovens é criar um mundo invertido ao mundo do restante da igreja. É como se os jovens necessitassem viver na mesma vida, mas numa dimensão diferente, só para eles. E nessa visão o que difere as dimensões são exatamente as coisas estranhas que permeiam nossa juventude. Espero me tornar mais claro com os pontos a seguir.

Um deus estranho

O primeiro aspecto de um mundo invertido no ministério de jovens é um deus estranho. Se Ele é o criador e a fonte de toda realidade, um mundo diferente começa com um Deus diferente. No deserto Deus deu ao seu povo hebreu um ambiente (o tabernáculo), uma forma de louvor (o sistema sacrificial) e uma forma de ensino e comportamento (a lei). O Deus único instituiu uma maneira de ser adorado. Seu povo o adorava como Ele queria. Isso quer dizer que a adoração a outro deus seria diferente (ex: bezerro de ouro) ou que outros povos não saberiam adorar a Deus corretamente, isso porque nem o conheciam.

Realmente me parece que o deus de boa parte dos jovens é estranho às Escrituras e ao restante da igreja. Costumam pensar num deus menos irado e mais complacente com o pecado. Num deus mais camarada com irreverente. Ou talvez um deus que não se importe tanto com as normas que Ele mesmo criou. O jovem costuma ver a Deus como o tiozão descolado, não como pai. Os filósofos atenienses convocaram Paulo a falar por acharem que ele ensinava coisas estranhas (At 17.20), mas o apóstolo começa dizendo que a razão pela qual acham seu ensino estranho está no fato de que adoram a um deus desconhecido (At 17.23), não o Deus único e verdadeiro de Paulo.

Não é novidade vermos jovens achando ensinos bíblico estranhos. Temo que isso se deve ao desconhecimento de Deus por conta do deus estranho que constroem em suas mentes. E isso afeta todo o resto.

Um ambiente estranho

Se temos um Deus estranho provavelmente teremos um ambiente estranho de vida e adoração. Isso é perceptível em muitos ministérios de jovens. Existe uma grande tentativa de criar um ambiente “diferentão”, uma outra dimensão da igreja. Por exemplo, sabemos que o Deus da Bíblia é um Deus de decência e ordem (1 Co 14.40), não sabemos? Por que então tanta desordem e indecência no meio dos jovens? A resposta: a visão de Deus estranha às Escrituras. Pense num culto normal de domingo de uma igreja e pense naquele culto de jovens badalado da sua cidade. Por que eles são tão diferentes. Por que as coisas valorizadas no culto dominical normal não são valorizadas no sábado a noite.

Um ambiente de jovens invertido não se justifica. Nenhum ministério tem a prerrogativa bíblica de criar um ambiente estranho. O que estou querendo dizer com isso? Não me oponho a contextualização de linguagem e roupagem, mas tudo deve ser feito dentro do limite bíblico. Esse mundo totalmente diferente e invertido acaba viciando os jovens e o mantendo preso a um formato. Muitos não crescem, não gostam de ir a igreja aos domingos e querem continuar mimados pelo deus estranhos dos jovens. E o grande problema é esse: a criação de uma realidade jovem paralela ao restante da igreja é a busca por tornar o ministério mais parecido com o presente século.

Um louvor estranho

No culto de domingo as luzes estão acessas, no de sábado apagadas. No de domingo a música está num volume agradável onde podemos ouvir os demais irmãos cantando, no sábado o volume é máximo. No domingo a liturgia segue normal, no sábado ela é substituída pelo entretenimento. No domingo temos um pregador bem vestido, normalmente, no sábado temos alguém fantasiado ou com roupas que não usaríamos no domingo. No domingo fazemos uma adoração voltada para os crentes, no sábado um show voltado para os incrédulos. Por que duas realidades diferentes? Só podemos encontrar resposta numa visão de Deus diferente.

Deus deixou claro um padrão de louvor ao seu nome. Seria enorme a defesa bíblica de cada passagem, mas podemos resumir e ficar com o princípio de que Ele está procurando adoradores em “Espírito e em Verdade” (Jo 4.24), ou seja, cristãos verdadeiros adorando através da verdade aplicada pelo Espírito. No mundo invertido dos ministérios de jovens a verdade nas letras musicais pouco parecem importar diante da forma de apresentação. Aliás, as letras estranhas que cantam por ai é a maior expressão do deus estranho que pregam por ai.

Uma pregação estranha

Falando em pregação… quanta coisa estranha é feita com ela no meio dos jovens. Não vou nem falar de reduzir o tempo, eu bem queria que fosse apenas isso. Deus nos deixou um modelo de pregação (ver Atos), nos deixou um conteúdo de evangelização e exortação (Ler Jesus e Paulo) e nos disse como Ele chama pessoas a fé (Rm 10.13-17). Por que o restante da igreja tenta seguir essas verdades e o ministério de jovens parece ter descoberto uma forma mais legal de fazer?

A pregação estranha é a propagação e perpetuação do mundo estranho invertido. A realidade bíblica da pregação expositiva (por passagem ou temas) é substituída por coisas estranhas do tipo motivacional, humorística, entretenimento, graça barata, loucuras, e secularismo. Como disse Hernandes Dias Lopes, quando a teologia é ruim (estranha), quanto mais se prega pior fica. O monstro da realidade paralela se alimenta de pregações estranhas às Escrituras.

Um comportamento estranho

Tudo isso que acabei de citar gera um relacionamento estranho. Nesse mundo invertido a lei de Deus se faz também estranha. Jovens homens estão cada vez mais ameninados e jovens mulheres cada vez mais sensualizadas. É comum ver um palavreado estranho (entenda palavrões), vestes estranhas e brincadeiras estranhas. E o que é pior, esses jovens pensam que podem transitar o tempo todo entre as duas realidades sem nenhum desgaste ou prejuízo. Nesse caso esses ministérios de jovens são piores do que o misterioso centro de pesquisas de Hawkins.

Aqui fica a lição que até a série pode nos ensinar. O contado entre essas duas realidade e o trânsito entre elas é perigo e pode se tornar devastador. Na primeira temporada encontramos um professor de ciências afirmando que é necessário uma grande quantidade de energia para abrir portais entre as duas dimensões. E é triste ver tantos líderes e jovens gastando inutilmente uma grande quantidade de energia justamente para viverem num mundo invertido cheio de coisas estranhas por conta de uma visão estranha de Deus (Os 4.6)

Como fechamos esse portal?

A resposta é uma: não dividamos a realidade da igreja em duas. Só existe uma realidade e uma das piores coisas que podem acontecer numa igreja é esse mundo invertido jovem se tornar tão forte ao ponto de engolir toda a verdadeira dimensão eclesiástica. Jovens não precisam de um mundo invertido, ninguém precisa. Aqui estão alguns pontos para lutarmos contra essa dupla dimensão:

  • Elime o foco no entretenimento
  • Centralize o culto em Deus, não nos visitantes
  • Envolva os jovens com os mais velhos da igreja (incentive esses momentos)
  • Utilize o mesmo padrão de liturgia (bíblico) em todos os cultos
  • Pregue de forma simples e bíblica em todos os cultos
  • Não vista o ambiente jovem com a roupagem do mundo
  • Cante músicas com letras bíblicas em todos os cultos
  • Não se importe tanto com a quantidade de pessoas

Voltemos ao ambiente bíblico de culto, ao louvor bíblico, a pregação bíblia e ao comportamento bíblico. Voltemos a realidade que tem sua expressão máxima na verdade encarnada (Cristo) e escrita (Bíblia). Deixemos as “stranger things” apenas no Netflix…

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.