SOLA GRATIA

O casamento é demonstração da graça imensurável de Deus, criado com o propósito de nos fazer experimentar um relacionamento de igualdade, amor, comunhão e complementaridade, assim como é a relação entre a Trindade. Quando um homem e uma mulher se unem estão, pela graça de Deus, tornando-se um só corpo, assim como o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um. A semelhança da Trindade, somos um sem deixar de ser dois, temos funções distintas, mas somos igualmente dignos e valiosos perante o nosso criador.

Não há fórmula mágica para ter um casamento feliz, somente através da graça de Cristo pecadores podem construir uma relação sólida e duradoura. É a graça que transforma homens em bons maridos, capacitando-os para liderar seu lar em amor. Somente a graça capacita mulheres para exercerem o auxílio idôneo para o qual foram criadas.

Sem a graça casamento nenhum resistiria às intempéries cotidianas, sem a graça não haveria renovo, perdão, recomeços. É somente pela graça de Deus que nos tornamos capazes de exercer amor e misericórdia com os nossos cônjuges. Somente um casamento firmado na graça permanece firme até o fim.

SOLA SCRIPTURA

O casamento é uma prática fundamentada nas Escrituras e não existiria a parte delas. Foi o próprio Deus quem celebrou o primeiro casamento quando, no princípio, criou homem e mulher e estabeleceu as regras para que ambos se unissem: “Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne.” (Gênesis 2:24). As bases fundamentais para o casamento estão contidas na palavra de Deus e somente ela deve ser tomada como regra de fé e prática pelos casais cristãos. A Bíblia é o melhor livro sobre relacionamento que existe, pois contém os conselhos deixados pelo próprio autor do casamento, ninguém pode nos instruir melhor que ele. Um casamento que não está fundamentado nas Escrituras irá ruir mais cedo ou mais tarde. Se nos afastarmos da Palavra nos entregaremos às paixões de nossa carne e seguiremos os desejos egoístas dos nossos corações, e nesse contexto um relacionamento que exige entrega e abnegação como o casamento não se justifica.

SOLA FIDE

O casamento é antes de tudo um ato de fé. Somente pela fé podemos confiar que dois pecadores conseguirão permanecer juntos até a morte. Somente pela fé obedecemos a ordem de deixar o conforto e comodidade da casa de nossos pais para nos dedicarmos a luta e ao esforço necessários para construir e manter um lar. Sem fé é impossível permanecer casado, pois as lutas e tentações são constantes. Somente tendo a convicção de que o casamento é a boa, perfeita e agradável vontade de Deus para homens e mulheres é que nos lançamos na aventura da vida a dois. Somente a fé nos faz crer que os filhos são bênçãos do Senhor e que mesmo diante das adversidades dos nossos tempos vale a pena construir uma família. A fé é a fonte de paz, segurança e esperança que todo casamento necessita e sem a qual já não existiriam famílias sobre a terra.

SOLUS CHRISTUS

Não há maior inspiração para os casais do que Cristo Jesus. Somente por meio de Cristo podemos compreender o real sentido do casamento. Somente olhando para o sacrifício dele na cruz homens e mulheres podem encontrar motivação para sacrificarem-se uns pelos outros. Somente olhando para o amor de Cristo um homem encontra forças para amar sua esposa e entregar a própria vida por ela se preciso for. Somente olhando para a humildade de Cristo que sendo igual a Deus se esvaziou de sua glória e se submeteu a vontade de seu pai vindo morrer em favor de pecadores é que mulheres conseguem perceber a beleza e a grandiosidade da submissão bíblica. O casamento deve ser um reflexo do relacionamento de Cristo com sua igreja, e somente mantendo os olhos e corações fixos em Cristo homens e mulheres poderão vivenciar o amor verdadeiro.

SOLI DEO GLORIA

O casamento não é sobre homens e mulheres em busca da felicidade. O casamento é sobre servos e servas buscando glorificar a Deus por meio de suas vidas comuns. Se transformarmos o casamento em algo para nós e sobre nós, ele irá desmoronar, pois nós somos falhos, inconstantes, egoístas e temos um coração desesperadamente corrupto (Jeremias 17:9). Mas quando compreendemos que o casamento é fruto da graça de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, fundamentado nas Escrituras com o propósito de glorificar o Criador, encontramos toda força e motivação que precisamos para permanecer firmes.

Que a graça de Deus, as verdades das Escrituras, o poder de Cristo e o desejo pela glória a Deus sejam os firmes fundamentos a sustentar nossos casamentos. Que cada casal, firmado nessas verdades possa seguir proclamando o lema da reforma: “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est”.

 

Isa Martins



Há um assunto interessantíssimo e muito complexo na teologia: a relação entre a antiga e a nova aliança. Dentro desse campo da teologia bíblica o tema da lei chama atenção. A pergunta principal a se fazer sobre ela é: Como o cristão se relaciona com a lei mosaica de Deus? Digo “lei mosaica de Deus” por estar me referindo a lei de Deus dada ao povo de Israel por meio de Moisés. Uma pergunta mais simples e direta seria: Ela ainda vale hoje?

Quero usar esse pequeno texto para discordar da visão reformada e apresentar introdutoriamente uma visão que penso ser mais bíblica. E claro, quero terminar mostrando que tudo isso faz diferença em nossas vidas. Não espere um grande e detalhado tratado teológico, mas encare as palavras a seguir como um empurrãozinho para você descer nesse grande tobogã da teologia.

A tripla divisão da lei

Se você é um reformado (aqui falo da teologia do pacto/aliancista) ou gosta da teologia reformada ou soteriologia calvinista, provavelmente você já ouviu a resposta que esse sistema oferece para nossas perguntas iniciais. Se trata de uma tripla divisão da lei mosaica. Essa forma de ver a lei enxerga toda a lei dada por Deus à Israel (não só os 10 mandamentos, mas todos os 600 e poucos) separada em três tipos distintos: moral, civil e cerimonial.

Nesse sentido a lei cerimonial diz respeito aos sacrifícios e trabalhos no tabernáculo/templo, a lei civil trata das peculiaridades de Israel como nação e a lei moral trata da vida e santidade de cada indivíduo. Assim, a resposta da teologia reformada é simples e fácil de entender. As leis cerimoniais e civis passaram e já não valem para o cristão, restando apenas a lei moral, os 10 mandamentos, para nós. Esse é um raciocínio que faz sentido, desde que não precisamos mais de sacrifícios e nem pertencemos a nação de Israel.

Argumentando em seu artigo no livro Continuidade e Descontinuidade, Knox Chamblin, defensor dessa posição, afirma que Jesus ensinou a lei de Deus “com base na tríplice tradição da lei” (p. 230). Sua defesa é a de que o Novo Testamento anula as leis cerimoniais e civis (estou de acordo) e confirma/aprofunda a lei moral (aqui discordo). Para Chamblin, “Mateus 5-7 não expõe uma nova lei” (p. 231), mas se trata de “uma forma mais radical de observância da lei” (p. 232), da mesma lei moral mosaica.

Mas será que essa tripartição da lei é bíblica? Por mais que o debate teológico seja bom e intenso, com textos bíblicos e argumentos bem trabalhados de ambos os lados, penso que não.

Porque não acredito nessa divisão

Em primeiro lugar, precisamos olhar para como os judeus receberam a lei. Não encontro base suficiente nas Escrituras que nos ofereça alguma divisão da lei nesses moldes. Como bem lembrou Rômulo Monteiro em seu excelente artigo, “alguns têm recorrido aos contrastes como os que encontramos em Oséias 6:6: ‘Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos’”, para justificar essa divisão. Bem, não é o que esse texto e outros textos do tipo estão sugerindo.

É difícil vermos um judeu entendo a lei mosaica dessa forma. Textos como os de Gálatas 3:10 (“todas as coisas que estão escritas no livro da lei”) e Gálatas 5:3 (“guardar toda a lei”) apontam para uma forte unidade da lei. Uma lei indivisível. Jesus, mesmo falando em uma parte “mais improtante” da lei em Mateus 23:23, ainda manteve uma noção de sua unidade. Não consigo ver nas Escrituras a lei sendo divida em suas partes morais, civis e cerimoniais.

Em segundo lugar temos a questão do sábado. Ele faz parte dos 10 mandamentos, que seriam a lei moral de Deus. Mas o sábado é moral ou cerimonial? Alguns advogam o seu lado moral, enquanto outros dividem o quarto mandamento entre uma parte cerimonial e outra moral. Para esses o princípio moral de guardar um dia da semana continua. Seja qual for a explicação, é comum na teologia reformada encontrarmos uma transferência de continuidade do sábado para o domingo, dia do Senhor.

Bem, novamente, não encontro base bíblica para dividir o sábado ao meio e nem para uma transferência do seu mandamento ou princípio moral para o domingo. Novamente, usam-se textos que se referem ao dia do senhor, mas onde estaria sua continuidade com o sábado? Para mim, o sábado é um excelente estudo de caso para ser feito nesse debate. É o calcanhar de Aquiles dessa visão reformada da lei.

Em terceiro e último lugar, não creio que estamos mais debaixo da lei mosaica. Creio na nova aliança como uma NOVA aliança mesmo, não uma antiga aliança RENOVADA. Gálatas 3:23-25 nos mostra que a lei serviu de guia até a chegada de Cristo e que após esse acontecimento não estamos mais debaixo dela.

“Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor.”

Os textos em Hebreus 7:22 e 8:6 falam de uma “aliança superior” feita em Cristo (tema de Hebreus). Ou seja, não uma renovação da antiga aliança, mas uma outra aliança distinta, superior a antiga. Isso é ainda mais reforçado pela passagem de Hebreus 7:12:

“Pois quando há mudança de sacerdócio, é necessário que haja mudança de lei”

As vezes em que o Senhor Jesus diz “Mas eu lhes digo” em Mateus 5 também sugere uma lista de novos mandamentos. Isso é corroborado quando percebemos que no discurso de Jesus existem coisas que não estão sendo apenas aprofundadas, mas alteradas ou colocadas como novidade. Veja o caso da relação entre “olho por olho e dente por dente” (v.38) e os novos mandamentos de Cristo nos versos 39 a 42. Não me parece um simples aprofundamento, mas algo novo e diferente.

Para encerrar essa rápida resposta, preciso mostrar o argumento de Douglas Moo em relação a Jesus como cumprimento da lei (Mt 5.17). Para ele a continuidade da lei e o fato de Jesus a cumprir se dá no “plano de um esquema histórico de salvação, de ‘expectativa-concretização’”. Isso quer dizer que Jesus é aquilo que a lei sempre pretendeu antecipar. Isso está em harmonia com o que Paulo afirma ao dizer que Cristo é o telos da lei (Rm 10:4). Moo resume:

“No contexto da teologia de Paulo, dizer que Cristo é o Telos da lei é o mesmo que dizer que ele é o ponto culminante para a lei mosaica. Ele é seu ‘objetivo’, no sentido de que a lei sempre previu e esperou ansiosamente por Cristo. Mas ele é também o seu ‘fim’, visto que nele o cumprimento da lei encerra aquele período de tempo quando a lei foi um elemento fundamental no plano de Deus.” (Continuidade e Descontinuidade, p. 252)

Vivemos sem lei nenhuma?

Muitos acusam essa posição que estou defendendo de ser antinomiana. Em outras palavras, que negamos a necessidade e/ou existência de uma lei para os cristãos. Isso não é verdade. Para não deixar esse texto muito longo, quero resumir esse ponto e responder dizendo que estamos debaixo da lei de Cristo. Em sua argumentação em 1 Coríntios 9:20-21 Paulo fala daqueles que não estão debaixo da lei como os judeus, ou seja, da lei mosaica, mas se refere a estes como estando agora debaixo da lei de Cristo.

“Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, mas sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a lei.” (1 Co 9:21)

Portanto, meu argumento final e resumido seria esse: Como igreja, comunidade da nova aliança, não estamos mais debaixo da lei mosaica da antiga aliança, nem mesmo de sua parte moral, visto que não existe essa tripartição. Estamos agora debaixo da lei de Deus que foi dada por meio do seu filho, ou seja, a lei de Cristo.

Isso muda alguma coisa?

Muda. Mas antes de qualquer coisa é preciso fazer uma observação. Não desprezamos os 10 mandamentos e a lei mosaica. Ela é útil como toda palavra de Deus é útil (2 Tm 3:16). Nela podemos ver expressões do caráter eterno de Deus e também retirar princípios eternos para nossas vidas cristãs. Só não estamos mais debaixo da obrigação de guardá-la.

Uma consequência prática e bem visível dessa visão que apresento como resposta é a questão do sábado/domingo. Não temos a obrigação de guardar nenhum dos dois. Sabemos que precisamos descansar e congregar, mas não devemos nos sentir em pecado por não estarmos fazendo isso num dia determinado, como o domingo por exemplo. Se você trabalha num shopping aos domingos e só pode frequentar com regularidade o culto da quarta, não se veja como um transgressor por isso.

Um direcionamento interessante que temos ao entrarmos nessa visão de uma nova aliança com uma nova lei é o de mudar o nosso ponto focal de discussão ética. Talvez devêssemos olhar mais para a perspectiva escatológica da lei de Cristo e do seu reino e menos para os 10 mandamentos. Elas se parecem em muito, mas podemos perder pontos interessantes olhando mais ou somente para trás.

Olhando a questão por uma lente macro, esse entendimento influenciará toda nossa hermenêutica do antigo testamento. Questões como circuncisão e batismo sofrerão alterações e estaremos mais próximos de entender alguns pontos importantes da teologia bíblica e das relações entre os testamentos. Como o querido professor Rômulo Monteiro costuma dizer em seu canal, essa é uma “provocação teológica” que tem muitas ramificações.

Se você se sentiu provocado no bom sentido, então esse texto cumpriu seu objetivo. Que possamos estudar e nos aprofundar no assunto. Não se fechando em apenas uma visão, mas buscando compreender da forma mais fiel possível a revelação bíblica.

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Um homem nu sendo tocado por outras pessoas, incluindo uma criança, dentro de um museu e sob a prerrogativa de arte… (não vou colocar nenhuma foto disso aqui) Um cena grotesca como essa não surge do nada. Na verdade, muito já aconteceu para chegarmos até aqui. Há um grande arcabouço teórico e ideológico por trás de tamanha atrocidade.

Tudo começa no reconhecimento famoso de Nietzsche (imagem acima) que “Deus está morto. Deus continua morto. E nós o matamos”. A morte de Deus não é simplesmente a morte de uma figura divina, mas de todo o padrão absoluto de verdade e de moral. Derrida é um grande exemplo disso. Pegando carona na morte de Deus, ele tratou de matar o significado autoral dos textos. Sua teoria hermenêutica desconstrucionista tratou livros e escritos como conjuntos de signos que são interpretados livremente pelos leitores. O significado não está em alguém que intencionalmente escreveu aquilo, mas no sentido que eu, como leitor, quiser dar aos signos.

Uma soma de Nietzsche e Derrida nos mostra a morte do autor da criação e da intenção desse autor para sua obra. Isso abre portas, por exemplo, para a famosa frase de Simone de Beauvoir: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. A realidade (signo) do “ser mulher” deixa de ter um significado fixo e passa a ser uma construção social livre de um padrão absoluto. Aqui temos a origem da nefasta ideologia de gênero. Perguntas que nunca passaram pelas nossas cabeças e nem deveriam passar surgiram: Nascemos homens e mulheres ou isso é uma construção social?

Hermenêutica (como interpretemos) e cosmovisão (como enxergamos o mundo) tem tudo a ver. A interpretação extrapola textos e nos diz como lemos o mundo e assim construímos uma cosmovisão. Se Deus, o autor da criação está morto, o padrão hermenêutico absoluto está perdido. E com ele o padrão moral e ético. O que é arte? Quais são os seus limites? O que é pedofilia? O que é imoral ou moral? Sem Deus, essas respostas estão nas mãos de qualquer um, principalmente daqueles que dominam o mainstream. Uma das resposta sobre a expressão artística em questão foi que as obras e interações da mostra visam a mostrar a “pluralidade de influências que ajudam a criar a identidade da arte no Brasil” (O Globo). Quando Deus é excluído, ficamos a mercê dessa “pluralidade de influências”, incluindo a imoralidade e pedofilia.

Eu não sei se você é protestante, adventista, católico ou de qualquer outra vertente cristã, mas precisamos bater o pé e dizer basta. O ocidente foi erguido sobre valores eternos e absolutos de uma cosmovisão judaico-cristã. Para nós, Deus não está morto e por isso ainda existe e sempre existirá um padrão hermenêutico e moral para tudo, inclusive para a arte. E sim meus amigos, Deus impõe limites a sua criação como um autor impõe limites de significado a um livro. O pecado é real e identificável. Chame de censura se você quiser. eu chamo de moral. Um homem nu sendo tocado não é arte, doa a quem doer. Como li meu irmão escrever, “se tudo é arte nada é arte”. Precisamos erguer a voz em defesa dos nossos valores morais!

Aliás, me chame do que você quiser, religioso, fundamentalista, alienado, fanático, fascista, moralista ou de qualquer xingamento desses inventados pela esquerda. Prefiro receber todos esses adjetivos do que ver nossos filhos sendo atraídos pela arte da pedofilia e imoralidade. Se você quer defender nossas crianças dessas vergonhosas e imorais iniciativas só há uma solução definitiva, voltarmos para o centro absoluto de toda verdade e moral: DEUS. Foi Ele que deu significado a tudo que existe! E esse significado único continuará como verdade enquanto Deus existir, ou seja, para sempre.

Deus só morreu na cabeça de alguns, mas continua vivo e voltará em breve para que toda a verdade absoluta brilhe sobre cada um de nós, dobrando todo joelho e fazendo toda língua confessar que ele é o Senhor. Que Deus proteja nossas crianças, no ventre e fora dele! Que haja juízo e redenção sobre os imorais travestidos de artistas!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Na primeira parte desse artigo foquei na parte mais doutrinária do culto. De forma resumida mostrei que existe sim uma forma correta de cultuar a Deus, e que sim, Ele se importa muito com essa maneira. Maneira essa que está revelada somente nas Escrituras, de onde retiramos o conceito de princípio regulador do culto. Essa é a nossa base para responder de forma mais prática como deve ser um culto de jovens. E é isso que faremos nessa segunda parte. Como Deus deseja que o adoremos? Quais são os elementos de culto autorizados pela Palavra de Deus? Como podemos aplicar o princípio regulador em nossos cultos de jovens? Espero responder essas perguntas de forma resumida e oferecer um guia simples para todo e qualquer culto de jovens.

É bom lembrar que tudo o que escreverei a partir de agora não é uma mera opinião pessoal. Lembre-se que estou afirmando que, no culto, não há liberdade do tipo “podemos fazer o que quisermos”. Minha preocupação é com o que a Bíblia requer. Precisamos sempre lembrar que a adoração ao Deus santo só pode ser feita da maneira santa que foi planejada pela mente santa do próprio Deus. Portanto, vamos começar mostrando quais são os santos elementos de culto que estão autorizados em sua santa Palavra.

…a adoração ao Deus santo só pode ser feita da maneira santa que foi planejada pela mente santa do próprio Deus.

Elementos de culto

Mark Dever tem, repetidas vezes em seus livros e palestras, afirmado os cinco elementos de culto dessa forma: “ler a Palavra, pregar a Palavra, orar a Palavra, cantar a Palavra e ver a Palavra” (DEVER, Igreja Intencional). Esse é o padrão que, principalmente as igrejas reformadas, tem usado ao longo da história. É um bom padrão para usarmos, mesmo que ainda possa deixar algumas dúvidas. Todos esses elementos estão presentes de forma clara no Novo Testamento e juntos, formam o princípio que deve regular a liturgia de todos os cultos a Deus.

Ler a Palavra:  A carta pastoral de Paulo a Timóteo é de grande ajuda nesse assunto. Nela encontramos o direcionamento de Paulo para que a Palavra seja lida em público: “Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura…” (1 Tm 4.13).Essa era a prática comum nos cultos nas sinagogas, onde a Palavra era lida e também explicada. Foi isso que Esdras fez num dia especial de adoração pública onde todo o povo se reuniu em praça pública para ouvir a leitura da lei de Deus (Neemias 8). A famosa frase de Jesus “não só de pão viverá o homem, mas de toda Palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4) indica que a Palavra é o alimento do crente, portanto, deve fazer parte da dieta do culto. Dever lembra algo importante:

“Separar tempo, no culto de domingo de manhã, para ler as Escrituras em voz alta, a cada semana, sem comentá-las, expressa o valor que tributamos à Palavra de Deus. Mostra que estamos ávidos por ouvir a Palavra do Senhor – nós a desejamos.” (DEVER, Igreja Intencional)

Qual foi a última vez que você viu um momento dedicado especialmente no culto de jovens só para ler uma passagem ou capítulo inteiro das Escrituras? Essa é um elemento importante que precisamos retomar.

Pregar a Palavra: Creio que não dúvidas sobre a presença da pregação no culto. O livro de Atos é uma demonstração da expansão do evangelho através da pregação. Podemos ver o destaque que Lucas dá a esse elemento sempre que ele faz questão de registrar o conteúdo das pregações de Pedro e Paulo, por exemplo. A continuação do verso de 1 Tm 4.13 é para exortação e ensino, o mesmo que Paulo ordena em 2 Timóteo 4.2 quando diz “prega a Palavra”. E aqui está algo que vale a pena ser discutido: a forma e conteúdo da pregação. A ordem é para pregar a Palavra. O culto não está centrado na Palavra quando o pregador está centrado em seus próprios pensamentos ou pensamento ideológicos e filosóficos de outro ser humano. A pregação deve ser da Palavra e a melhor forma para isso é o sermão expositivo. Podemos defini-lo assim:

Orar a Palavra: Esse elemento está na mesma situação da leitura. Nós oramos no culto, mas talvez ainda falte aquele momento dedicado de oração. E oração bem baseadas na Palavra. O segundo capítulo de 1 Timóteo nos instrui sobre a adoração corporativa. Ele começa da seguinte maneira: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças”. O fato de Jesus citar Isaías ao dizer “a minha casa será chamada casa de oração” também chama a atenção para esse elemento. Dever sugere orações de adoração, confissão, agradecimento e súplicas. Meu conselho é: separe um tempo para uma oração formal. Convide um jovem antecipadamente para orar. Peça que ele prepare a oração escrita e a sature com a Palavra de Deus. Tente harmonizar a oração com a pregação ou ocasião. Por exemplo: no próximo sábado teremos nosso último culto do ano, então, convidarei alguém para uma oração de ação de graças.

Cantar a Palavra: Acredito que nenhum jovem questione a presença do canto no culto. O problema que temos hoje é exatamente a idolatria da música e as formas erradas em que ela é utilizada. Por isso vou gastar algumas linhas a mais nesse ponto. O texto bíblico que deixa esse elemento claro é o de Efésios 5.19: “falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor”. Isso não quer dizer que louvor e adoração naquela época estavam ligados a música como hoje. Mesmo assim posso dizer que cantar louvores a Deus é parte importante do culto e deve ser uma prática preservada. Assim como na pregação é importante lembrar que precisamos cantar a Palavra. Toda música precisa estar em harmonia com a boa teologia. Em minha opinião, baseada nos Salmos, doxologias e orações de louvor presentes na Bíblia, as melhores músicas são aquelas que exaltam os atributos do Deus Trino e o evangelho. Por outro lado, todas as que exaltam o homem devem ser evitadas.

Como usar a música no ministério de jovens? Além da letra das músicas precisamos lembrar de outros aspectos. Em primeiro lugar, no louvor o ato de cantar é o mais importante (Ef 5.19; Cl 3.16). Nesses dois versos neotestamentários encontramos o foco no canto. Portanto, as vozes tanto do grupo de louvor, quanto de toda a congregação de jovens deve ser valorizada. O foco nos instrumentos e o volume mais elevado deles pode atrapalhar o canto. Em segundo lugar, o canto é congregacional. A igreja foi chamada a cantar junta. As músicas, com seus ritmos e tons, devem permitir que toda a igreja cante junta. O grupo de louvor deve apenas guiar e facilitar o canto congregacional. Jovens não podem ir ao culto para assistir uma apresentação musical. O foco no ministro de louvor ou na banda é prejudicial. Quando todas as luzes estão no palco e a igreja fica escura isso já é um grande indício dessa troca de prioridades. E um terceiro direcionamento, a música não pode fugir daqueles dois conceitos que Deus gosta: decência e ordem. O louvor deve ser alegre, mas sempre mantendo a decência e ordem. Deus não aprova a bagunça e as loucuras dentro do seu culto.

“A voz coletiva do seu grupo de jovens cantando louvores a Deus é o mais importante instrumento musical em qualquer tempo da adoração… A voz coletiva do povo de Deus é o instrumento primário em qualquer reunião de adoração… Cantar é uma ferramenta dada por Deus e uma oportunidade de tornar nossos jovens profundamente enraizados no evangelho” (Tom Olson. Gospel Centered Youth Ministry, p. 143)

Ver a Palavra: Acredito que você se perguntou “como assim ver a Palavra”. O elemento visual, digamos assim, está nas ordenanças, ou seja, na ceia do Senhor e no batismo. Essas foram as maneiras pelas quais Deus decidiu dramatizar ou encenar o evangelho. Podemos dizer que as ordenanças são o teatro autorizado por Deus para o culto público. A ceia foi instituída por Cristo (Lc 22.19) e Paulo a tratou de suas normas como elemento de culto (1 Co 11.20-29). Esse é o memorial da obra expiatória de Cristo. O batismo também foi instituído como prática da igreja por Cristo na grande comissão (Mt 28.29) e temos vários exemplos de batismos em Atos. As cartas de Gálatas e de Romanos também falam da simbologia teológica do batismo. Por ser caráter normativo, visual e didático o batismo, mesmo que não esteja “preso” ao culto, pode ser considerado um elemento autorizado da adoração pública. Não entrarei em muitos detalhes nesse ponto. O motivo é esse: Considero que as ordenanças devem ser feitas publicamente por toda a congregação na presença de pastores e presbíteros. Portanto, por mais que não seja proibido creio ser melhor esperar que toda a igreja esteja reunida para o momento de ceia e batismo.

Um ponto importante aqui é que a ceia e o batismo são os únicos elementos visuais ou “teatrais” claramente citados como prática da igreja. No ambiente de culto creio não caber as práticas de teatro e dança. Nesse último ponto sou totalmente contrário ao conceito de dança litúrgica. Fora do culto creio que o teatro possa ser usado para evangelismo, assim como a dança sendo expressão de arte, mesmo que eu prefira não utiliza-la. Sei que aqui entro em conflito com muitos jovens, mas este é o meu ponto. Pense nisso não pelo seu gosto, mas biblicamente.

Em resumo, parece realmente que esses são os elementos encontrados nos cultos da igreja primitiva. Em Atos 2.42-47 encontramos: “ensino dos apóstolos”, “partir do pão” (ceia), “orações” e “louvando a Deus”. Também encontramos nessa passagem uma referência às ofertas para o sustento da igreja. Como prática bíblica as ofertas estão incluídas na vida de adoração dos cristãos e o culto é um bom momento para fazer isso de forma pública. Também considero o momento de ofertas como mais adequado para o momento onde toda a igreja está reunida, não recomendado para o culto de jovens, a não ser em ocasiões especiais e justas. Ainda poderíamos falar das práticas de confissões de pecado e de fé (que podem estar incluídas nas orações).

Dito isso posso afirmar que um culto de jovens deveria ter os seguintes elementos:

  • (1) leitura pública da Palavra
  • (2) cânticos de louvor
  • (3) oração pública
  • (4) pregação.
  • (5) cântico de encerramento

Não existe uma regra de ordem dos elementos, mas ai está uma sugestão de ordem que já estamos acostumados e que considero boa (o cântico de encerramento é uma sugestão pessoal, pois a pregação da verdade deve nos levar ao louvor). Não podemos esquecer que todo culto, de jovens ou não, deve ser alegre! Estamos cultuando ao Deus Criador e redentor. Nossos corações devem estar cheios de santa alegria ao cultuarmos ao Senhor!

Princípio regulador moderado

Até aqui, desde a primeira parte, tenho defendido o princípio regulador do culto (PRC). Depois dessa parte mais prática chegou a hora, então, de um esclarecimento necessário sobre o meu ponto de vista. Vou usar as palavras “radical” e “moderado” para fins didáticos. Posso dizer então que defendo um PRC moderado em comparação com o PRC radical (não uso essa expressão como pejorativa). Vou exemplificar para entendermos a diferença. O PRC radical toma se preocupa mais com os detalhes práticos e até matérias que estão ou não descritos na Bíblia. Por exemplo, algumas igrejas não usam instrumentos, ou restringem o uso somente a aqueles que são citados em alguma parte da Bíblia. Outras igrejas são cantam os salmos ou textos retirados diretamente das Escrituras, não permitindo novas composições. Poderíamos citar outros exemplos, mas creio já ter sido suficiente.

Não sigo essa linha de pensamento. Para mim, como o nome já diz, o PRC trata-se de princípios, não de regras detalhistas. Minha leitura moderada me leva a considerar apenas os elementos que a Bíblia considera, mas permite uma liberdade submissa aos princípios bíblicos de culto que regem os elementos. Vamos para o exemplo dos instrumentos e músicas. Já toquei nesse assunto acima e vamos aplica-lo agora. Se o foco está nas vozes e os instrumentos estão em harmonia, servindo como fundo musical para ajudar a congregação a cantar, não vejo esse princípio proibindo instrumentos, até mesmo uma bateria. Da mesma forma, se tal música é composta por uma letra bíblica que adore a Deus como Ele, edifique os irmãos no evangelho e seu ritmo seja acompanhado pela congregação em decência e ordem, não há porque proibi-la. Se seguirmos bem os princípios nossa liberdade estará adorando a Deus corretamente.

Contextualização do culto

Então podemos contextualizar o culto e até fazer um culto de jovens de certa forma diferente do culto de domingo? Sim. Eu afirmei que o culto de jovens não tem necessidade e nem liberdade para ser diferente. Isso é verdade dentro dos elementos e princípios de culto, mas não exclui diferenças em aspectos secundários e detalhes. Vejamos como isso pode acontecer:

Na música: No louvor as músicas devem ser escolhidas e arranjadas para que a congregação cante. Num culto de jovens, diferente do culto de domingo, a congregação é composta apenas de jovens. Isso significa que eles conseguem cantar e acompanhar músicas com arranjos diferentes, ritmos um pouco mais rápidos e até tons diferentes. Também é importante lembrar das boas músicas que os jovens conhecem e apreciam. Muitas delas podem ser desconhecidas do mais velhos, impedindo que cantem no domingo, mas podem fazer parte do culto de jovens. Embora eu defenda essa contextualização musical, creio que as mudanças não devem ser grandes. Os princípios estão aí para dizer isso.

Na pregação: O conteúdo e a forma de pregação devem ser a mesma. A prioridade da pregação bíblica expositiva deve estar presente também no culto de jovens. O que pode ser contextualizado então. Quem já passou por algum curso ou aula de homilética sabe… A linguagem, as ilustrações e aplicações podem e devem mudar de acordo com o público. Nós pregadores temos a tarefa de tornar a mensagem acessível e penetrante para os ouvintes. No culto de jovens podemos usar uma linguagem (santa) mais jovem e fazer ilustrações e aplicações e façam mais sentido e identifiquem-se mais com a vida dos jovens.

No ambiente: O jovem é mais aberto para a criatividade. Não vejo problema em criar um ambiente com mais cara de jovem. Sei que muitas igrejas erram nesse ponto, criando ambientes totalmente diferentes e descaracterizando a igreja, mas não é por causa disso que devemos proibir que a criatividade dos jovens não possa dar uma mão na hora de preparar um ambiente. Talvez colocar a logo do ministério no fundo do púlpito, ou quem sabe uma decoração simples que aponte para o tema da mensagem. Podemos pensar em coisas simples, que não roubem o foco e que estejam dentro dos princípios (decência e ordem).

Para encerrar essa parte, deixo aqui uma sugestão. Podemos usar o antes de o depois do culto para outras atividades. Que tal planejar uma boa recepção para os visitantes? E o momento de fotos enquanto chegam? Aqui em nossa igreja costumamos usar muito o momento após o culto. Comemos juntos, jogamos alguns jogos de tabuleiro, conversamos e muitos até brincam de esconde-esconde pelo terreno da igreja. Já fizemos até cinema ao ar livre. Podemos usar desses momentos fora do culto para promover uma boa e divertida comunhão.

 

Conclusão

Quero concluir toda essa análise do culto dizendo aos jovens que Deus decretou os fins e os meios. Ele está interessado tanto no resultado final como nos procedimentos para alcançar os resultados. Frases como “eu adoro do meu jeito” ou “cada um que cultue como acha melhor” não honram nosso Deus. Ele nos deu princípios que nos levam à uma pratica santa e regida por Ele mesmo. Pense numa composição musical… Quem define a letra, tom, notas, arranjos e solos é o compositor. No culto, Deus é o grande compositor, autor da nossa fé e Senhor da Igreja.

Isso não significa, como eu já argumentei, que como jovens não temos a liberdade de usar nossa juventude e criatividade no culto. Deus nos criou para isso também. Seguindo seus princípios podemos cultua-lo com nossa identidade jovem! O problema em muitas igrejas é que essa identidade jovem é buscado em padrões mundanos e não bíblicos, tornando a igreja mais parecida com o mundo na justificativa de torna-la mais relevante aos jovens. Se seguirmos o Sola Scriptura e o Soli Deo Gloria não cairemos nesse terrível erro. Seguindo o princípio regulador do culto estamos pisando em liberdade no terreno seguro de Deus. Kevin De Young escreveu um pequeno e excelente texto sobre essa liberdade, sugerindo que o PCR nos liberta do cativeiro cultural, das brigas por preferências, do peso na consciência e para sermos multiculturais e focar no que é central.

Espero que possamos cultuar a Deus de maneira que toda glória seja dada a Ele, e isso só acontece quando todo o culto acontece segundo a sua vontade expressa nas Escrituras. Que Deus nos faça jovens que verdadeiramente cultuam e adoram em espírito e em verdade!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Sábado após sábado milhões de jovens se reúnem em suas igrejas para cultuar a Deus. E algo a ser notado é que os cultos de jovens estão cada vez mais diversificados. Você pode encontrar cultos de todos os estilos, desde os mais tradicionais até aqueles que focam em determinado tribo ou nicho de jovens. Um fato marcante o principal fator dessa diversidade é que as igrejas têm utilizado o culto de sábado a noite como isca para atrair os jovens “de fora” e manter os “de dentro”. Você já deve ter ouvido falar, visitado ou até participado de “cultos-boate”, cultos em formato de teatro, talk shows, com gincanas antes da pregação, sem pregação, com pastores fantasiados, apresentações de dança, com festival de bandas, torta na cara e momentos de reflexão e emoção com a luz apagada. As estratégias estão cada vez mais criativas.

Não vou perder muito tempo criticando essas práticas. A crítica já está até batida. Inclusive, foi uma luta achar uma boa imagem no Google para um culto de jovens. Sugiro esse desafio: procure por “culto de jovens” e conte quantas imagens de jovens cantando e pulando diante de um palco luminoso em comparação com quantas imagens com jovens ouvindo uma pregação… Mas melhor do que apontar erros individuais e isolados é apresentar a verdade que identifica e combate todos os erros de uma vez só. O que quero propor é o seguinte: vamos descobrir na Palavra de Deus como deve ser um culto de jovens. Farei isso de forma resumida em duas partes. Nessa primeira vamos focar na parte mais doutrinária e deixarei questões mais práticas para a segunda. Meu objetivo é esse: que nós jovens cultuemos a Deus como ele gosta e requer ser cultuado.

Existe um padrão correto?

A primeira objeção que surge contra a ideia de que existe uma forma correta de cultuar a Deus é a defesa da liberdade cristã. O texto bíblico usado para defender uma liberdade espiritual no culto cristão é o de 2 Coríntios 3.17: “…onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade”. Com essa frase de Paulo muitos argumentam que não há uma norma que padronize como deve ser o culto cristão, pois o Espírito tem liberdade de agir de diversas formas, até mesmo naquelas que parecem estranhas aos homens.

Bem, aqui temos um problema básico de interpretação, um texto fora do seu contexto. Uma regra basilar da hermenêutica é a de que todo texto precisa ser interpretado a luz do seu contexto. Usar versículos, frases e expressões bíblicas soltas é uma prática perigosa. Dito isso podemos extrair o verdadeiro significa do texto. Paulo está falando sobre o véu que está encobrindo a mente dos judeus (3.14). Quando o antigo testamento era lido eles não compreendiam a verdade, pois havia um véu (símbolo aqui para cegueira ou incapacidade espiritual) em seus corações (3.15). Então Paulo afirma que a conversão retira esse véu (3.16) e que o agir do Espírito atua nos convertidos para dar a liberdade para entender a Palavra e a vontade de Deus (3.17)

Esse é um texto soteriológico. Não há nada nele sobre o culto, apenas sobre regeneração e conversão. Somos livres do véu do pecado para entender e obedecer a Palavra de Deus, não para fazermos coisas estranhas a ela. Precisamos entender a liberdade cristã como a liberdade para fazermos aquilo que fomos feitos para fazer, não para fazermos o que quisermos fazer. Portanto, vamos ver agora nas escrituras como Deus se importa com a forma de cultua-lo.

O culto no Antigo Testamento

Selecionei três exemplos, entre muitas, para mostrar como Deus se importou como a forma de culto no antigo testamento. A primeiro deles está no decálogo. O segundo mandamento diz o seguinte: “Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor teu Deus…” (Êxodo 20:4,5). Deus está sendo claro que, ao contrário das outras culturas e religiões, não deveria haver nenhuma imagem de ídolo no culto judeu.

O segundo exemplo está diretamente ligado ao primeiro. Israel tentou prestar culto de uma forma diferente à aquela que Deus instituiu. Fizeram então uma imagem de bezerro em ouro e foram repreendidos veementemente por Deus: “Muito depressa se desviaram daquilo que lhes ordenei e fizeram um ídolo em forma de bezerro… Deixe-me agora, para que a minha ira se acenda contra eles, e eu os destrua” (Êxodo 32.8,10). Ainda encontramos em nosso terceiro exemplo, Deus instituindo como o tabernáculo (local de culto) deveria ser construído (Êxodo 35) e posteriormente Deus instituindo toda a liturgia (ordem de culto) que o povo deveria realizar (Levítico 1-8). Fica claro que Deus sempre ensinou ao povo que Ele se importava com a forma de culto.

O culto no Novo Testamento

No novo testamento Deus continua importando-se com a maneira que o cristão deveria cultua-lo. Dois exemplos são importantes para nosso estudo aqui. O primeiro deles é a famosa passagem em que Jesus conversa com a mulher samaritana no capítulo 4 do evangelho de João. Ali Ele diz algo importante sobre adoração: “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24). Encontramos Jesus instituindo dois padrões aqui. O ponto é: que padrões são esses? Muitos afirmam que “espírito” e “verdade” querem dizer no Espírito Santo e com sinceridade. Penso que essa é uma interpretação reducionista.

Pelo contexto percebemos que Jesus está dizendo que o local não mais importa (4.21). O local exclusivo de culto do AT foi extinto em Jesus, mas o padrão de culto continua. Quando Cristo fala que Deus é Espírito e requer adoração em Espírito Ele está falando sobre o culto que não requer elementos materiais, como as imagens que haviam no culto em Samaria. A adoração é uma ação espiritual e não depende e nem deve estar focada em elementos materiais como o templo, instrumentos, holofotes, etc. John McArthur (Adoração, 2014) enumera alguns pontos sobre essa verdadeira adoração em espírito:

  • Salvação – necessitamos do Espírito Santo para adoramos a Deus.
  • Centralidade em Deus – Nossos pensamentos devem estar em Deus.
  • Coração íntegro – Nosso ser precisa estar focado em Deus de forma inabalável.
  • Arrependimento – A verdadeira adoração é fruto do verdadeiro arrependimento.

McArthur (2014, p. 197)complementa nos lembrando que o principal obstáculo para a adoração é o ego. Em suas próprias palavras, “esse é o principal obstáculo à adoração em espírito – alguém colocar suas necessidades, seus benefícios e suas bênçãos acima de Deus”.

Quando Ele diz que os samaritanos adoram o que não conhecem isso nos leva a entender que a verdade está relacionada ao verdadeiro conhecimento de Deus. Saber quem Ele é nos levará a saber como Ele deseja ser adorado. Fica claro, portanto, que Cristo dá uma grande importância à forma de adoração e culto. Além disso, podemos perceber que a adoração só é possível para o verdadeiro crente. O culto é realizado, então, para Deus e para o povo regenerado de Deus. Não há sentido bíblico em preparar cultos focados nos incrédulos.

O segundo exemplo está no capítulo 14 da primeira carte de Paulo aos coríntios. Não vamos entrar em cada detalhe, mas esse é um capítulo em que Paulo oferece instruções normativas para o culto. O apóstolo trata sobre o dom de línguas e do papel da mulher. Aqui temos um caso claro que existe uma forma de cultuar errada, que Paulo está combatendo, e uma forma correta, aquela que Paulo está instruindo. O versículo chave do capítulo é o 33: “Pois Deus não é Deus de desordem, mas de paz. Como em todas as congregações dos santos”. O contexto é o culto, e aplicação da ordem e da paz é para todas as igrejas. Em outras palavras, Deus gosta e institui uma boa ordem para o culto, o que chamamos também de liturgia.

Liturgia é uma palavra feia para muitos cristãos, principalmente entre os jovens. Logo vem algo chato, enfadonho e católico a cabeça. Não podemos deixar uma concepção errada roubar a preciosidade da liturgia. Daniel Darling escreveu algo importante:

“Para alguns evangélicos, a palavra “liturgia” evoca um tradicionalismo abafado em desacordo com a fé genuína em Cristo. Mas cada igreja tem uma liturgia, uma maneira de ordenar o seu culto de adoração. E a liturgia de cada igreja comunica muito sobre o que ela valoriza.”

Nenhuma igreja pode escapar. Todo culto tem uma liturgia. A questão é: a sua é bíblica?

O principal propósito da igreja

Um argumento a mais precisa ser adicionado para pensarmos sobre a importância de uma forma correta de cultuar a Deus. E este é o argumento: o principal propósito da igreja é a adoração a Deus, ou seja, prestar culto a Ele. Foi para isso que o homem foi criado (Is 43.7) e foi para isso que a igreja foi escolhida e redimida (Ef 6.6,12,14). Mark Dever (Igreja Intencional, 2015, p. 102) fez a seguinte pergunta: Seria Deus tão leviano que entregaria o resultado de sua obra redentora às imaginações de um povo idolatra?”. Creio que não. Se o culto de adoração corporativa é a principal atividade da igreja, Deus nunca o deixaria sem o seu direcionamento santo, sábio e divino. Leland Ryken cita o puritano Richard Cox:

“Sou da opinião de que todas as coisas na igreja deveriam ser puras, simples e afastadas o mais longe possível dos elementos e pompas deste mundo” (Santos no Mundo, 2013, p. 193).

Deus com certeza não deixaria o principal propósito que ele deu ao homem nas mãos de nossos corações enganosos e mentes pervertidas. A adoração é importante demais para ser regulada e entregue aos caprichos de criaturas caídas. Até mesmo no ambiente pré-queda foi Deus quem instituiu a forma de serviço e adoração que o homem desempenharia. É o rei quem determina a forma como seus súditos deverão se achegar até ele, nunca o contrário. Então minha pergunta é a seguinte: em torno de quem o culto de jovens deve ser planejado? Sei que todos responderiam “em Deus”, mas se sua ideia é a de que o culto precisa principalmente agradar os jovens incrédulos para que eles se sintam atraídos e persuadidos a ficarem, então sua resposta não é essa. Um culto planejado segundo os gostos dos incrédulos não honra a Deus e nem mesmo pode ser chamado de culto. Seria mais apropriado chama-lo de ação de marketing.

 “Sola Scriptura”

Se Deus revela de forma clara e bem definida a maneira como devemos cultua-lo isso só pode estar revelado na Bíblia. Nesse ponto o conceito de Sola Scriptura (somente a Escritura) nos ajudará bastante a definir uma liturgia cristã correta. Calvino e os puritanos focaram demais nesse ponto: somente as Escrituras podem determinar e influenciar a forma pela qual adoramos e cultuamos a Deus. Eis aqui uma citação do grande reformador que vale a pena ser destacada:

“Sei como é difícil convencer o mundo de que Deus desaprova todas as formas de adoração que não são expressamente sancionadas por sua Palavra. A convicção oposta, que se agarra a eles – estando, por assim dizer, em suas entranhas – é de que qualquer coisa que façam recebe boa aprovação, desde que exiba algum zelo para a honra de Deus. Mas, visto que Deus considera não apenas infrutífero, mas também absolutamente abominável qualquer coisa que, por motivo de zelo, façamos para adorá-lo, porém e desacordo com seu mandamento, o que ganhamos se seguirmos o caminho contrário? As palavras de Deus são claras e inconfundíveis: “obedecer é melhor do que oferecer sacrifícios”; “em vão me adoram ensinando doutrinas que são preceitos humanos” (1 Sm 15.22; Mt 15.9). Todo acréscimo a sua Palavra, especialmente nesse assunto é uma mentira.” (Teologia Puritana, 2016, 940)

A ideia é a de que a Escritura e somente a Escritura devem regular os cultos cristãos. Somente os elementos apresentados na Palavra de Deus podem fazer parte do culto público nas igrejas Cristãs.  Os puritanos chamavam essa regra de “princípio regulador do culto”. Uma rápida explicação sobre esse conceito é importante. Temos duas expressões históricas que precisam ser diferenciadas.

Princípio regulador do culto: seus defensores afirmavam que somente aquelas práticas claramente afirmadas nas Escrituras poderiam fazer parte do culto. As demais práticas deveriam ser evitadas.

Princípio normativo do culto: seus defensores afirmavam que as práticas que não eram claramente proibidas nas Escrituras poderiam fazer parte do culto.

Por toda a preocupação de Deus com a forma de culto e a importância que a adoração tem na vida da igreja, estou certo de que o princípio regulador do culto faz mais sentido para a vida da igreja, além de valorizar e demonstrar o sola scriptura. Creio que Deus não deixaria um assunto tão importante às cegas e solto para decisões invenções humanas. John Owen foi um importante defensor do princípio regulador. No seu Catecismo Maior Owen pergunta e responde:

“Como, então ficamos sabendo quais são os meios e os métodos da adoração a Deus? Somente na Palavra escrita e por meio dela, a qual contém uma revelação completa e perfeita da vontade de Deus quanto à totalidade da sua adoração e a tudo que diz respeita a ela.” (Teologia Puritana, 2016, 944)

Estou convicto que a santidade do culto requer uma forma santa de culto. E que somente um ser totalmente santo poderia pensar e instituir essa forma totalmente santa. Abrir espaço para elementos humanos é abrir espaço para elementos perigosos que não vieram da mente santa de Deus. Ele é quem melhor sabe como Ele mesmo deve ser cultuado.

Conclusão

Na segunda parte voltaremos ao princípio regulador para falar sobre os elementos de culto autorizados pela Bíblia e em outros aspectos práticos, onde também colocarei minha opinião pessoal. Para encerrar ainda preciso responder à pergunta do nosso título. Você pode estar pensando que falei apenas do culto em geral e não diretamente do culto de jovens. E essa foi realmente minha intenção. Quero que fique claro o seguinte: o culto de jovens não tem nem a necessidade e nem a liberdade para ser diferente dos outros cultos que a igreja possa realizar. E claro, estou falando dos elementos de culto, não dos detalhes do culto. Falarei mais disso na segunda parte.

Nós jovens temos um desejo de ser diferentes. Muitos ministérios de jovens têm na sua ideia principal a vontade de ser o ministério mais descolado da igreja ou da cidade. Temos a ânsia por inventar algo novo, que ninguém mais faça, de inovar e atrair mais pessoas. Queremos ser diferentes dos adultos, ter outros elementos e elementos mais empolgantes e divertidos. Queremos ser diferentes até de Deus e da sua forma de adoração. O jovem busca autenticidade, mas esquece que ser um cristão autêntico não é ser quem ele acha que realmente é, mas quem Deus quer que ele seja. Da mesma forma acontece na adoração.

O chamado da igreja e do jovem é para ser diferente do mundo e não dos preceitos bíblicos normativos para a igreja. O cristianismo não é uma busca por novidades e inovações. Temos um livro milenar autoritativo e seguimos suas regras e tradições instituídas pelo autor divino. Por mais que nossa mente jovem pós moderna chore de raiva, existe um maneira correta de adorar sim! Deus se importa e muito com isso. Ao contrário do grande engano que rodeia o coração e a mente do jovem, o culto não é sobre nós, nem gira em torno das nossas vontades. E isso deveria servir de lição para o resto da vida. O culto de jovens deve ser como qualquer outro culto cristão: bíblico, santo, simples, litúrgico e alegre. Negar a liturgia de Deus e cultua-lo segunda as nossas próprias liturgias é o pior tipo de idolatria, a idolatria do eu.

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Eu sempre fui nerd.

O negócio tá no sangue. Meu pai sempre foi apaixonado por games e filmes. Comecei pequena, com os animes, e hoje em dia sou uma entusiasta das séries. A ficção sempre fez parte da minha vida e, sendo assim, norteou a minha visão de mundo.

Só que todo esse universo fictício e cuidadosamente desenhado visando à perfeição acabou me trazendo uma espécie de negação da minha própria realidade. Eu nunca estava satisfeita, afinal, minha mãe não era tão legal como a Lorelai Gilmore e o meu pai não era tão divertido como o pai da Sakura Kinomoto. Eu não tinha avós tão generosos como a Rory, nem tios tão bondosos como a Elizabeth Bennet. Quando eu abria a porta do meu quarto, eu via uma casa mais ou menos, uma mãe reclamando por causa da lavagem dos pratos e um pai agitado pois quase teve um infarto ao falar com a moça do telemarketing. Só que eu podia abafar tudo isso, afinal, havia tantas coisas para me preocupar: faculdade, estágio, trabalhos, namoro. Não havia tempo para a minha própria casa.

Até que eu decidi estudar para concursos públicos. E todo mundo sabe que “concurseiros” acabam virando seres reclusos por tabela. E foi aí que eu, pela primeira vez na vida, me vi presa em casa com os respectivos integrantes dela. Eis que esses dois, que para mim eram quase estranhos até um dia desses, eram a única companhia que eu tinha.

A realidade caiu como uma bomba.

De repente problemas como a lavagem de pratos e a esterilização das frutas se tornaram cotidianos para mim. De repente eu precisava cuidar da organização da casa e, quem sabe, até do almoço. De repente eu precisava lidar com meus pais bastante inquietos. Talvez você precise lidar com seu marido que não te ajuda tanto nas tarefas domésticas ou com o seu irmão que é conhecido pela arrogância. A vida doméstica possui desafios em duas frentes que se correlacionam: pessoas e ambiente.

Se você também possui uma forte vivência doméstica, você sabe que:

  1. Problemas com sujeiras, melecas e coisas nojentas em geral se tornam sua realidade;
  2. Você tem que lidar com todas as mínimas idiossincrasias que um ser humano pode conceber e percebe o quanto nós somos tendenciosos a brigar pelas coisas mais irrelevantes do universo;
  3. Você tem acesso à primeira fileira do espetáculo de imperfeições daqueles que moram debaixo do mesmo teto que você;
  4. Você precisa engolir a raiva 1, 10, 1 milhão e 600 mil vezes por dia;
  5. Seus pecados mais domesticados vêm à tona como em um show de horrores quase diário.

Não é bonito, não é desejável. Mas sabem o que eu tenho aprendido? Que é justamente nesse contexto de absurdos e extremos que o Senhor quer que eu (ou você) esteja, pois é exatamente em uma realidade de puro caos em que todos demonstram seu pior que você pode crescer, amadurecer e se tornar uma pessoa segundo a imagem de Cristo. Viver na realidade utópica das ficções não te permitirá isso. Pensar que a sua vida deveria ser que nem a do novo lançamento da Netflix não fará isso por você. Como você pode exercitar a sua nova criação estando imersa em universos fictícios? Como você pode amar, servir e perdoar se seu coração está em personagens que não existem de verdade?

A vida abundante acontece na mediocridade do cotidiano.

Entrar em universos imaginários de vez em quando não é pecado. Se imaginar no castelo de Downton Abbey tomando um belo chá da tarde não é quebra de nenhum mandamento bíblico. Mas é preciso entender que o agir do Senhor ocorre na realidade da sua casa com o encanamento entupido e o ar condicionado quebrado há 3 meses. É quando sua mãe grita com você sem motivo ou quando seu marido não te ajuda na limpeza da casa pela 149ª vez. É na imperfeição, na feiura, no incômodo. Porque o Senhor escolheu ” as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e […] as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes” (1 Coríntios 1:27). E quer coisa mais louca do que uma vida doméstica constituída pelo inesperado e por seres humanos completamente imprevisíveis?

 

Manuela Moraes é uma recifense de 26 anos formada em Comunicação Social e Administração de Empresas. Ama falar sobre o Evangelho na Internet e faz isso através do Dois Dedos de Teologia e do seu canal também sobre Teologia, o Manuela Moraes. Canta no Ministério de Jovens da Igreja Presbiteriana das Graças e é calvinista por paixão e por opção de Deus.


O mais novo filme de Christopher Nolan conta a história do milagre de Dunkirk, fato ocorrido em 1940 durante a segunda guerra mundial. Na ocasião, aproximadamente 400 mil soldados que estavam encurralados pelo exército alemão no litoral da França foram resgatados heroicamente por meio de uma grande travessia no canal da mancha. A situação era parecida com a do povo Hebreu quando ficou encurralado entre o exército egípcio e o mar vermelho. Ali Deus abriu o mar, mas em Dunkirk o milagre ficou marcado pelas centenas de embarcações civis que foram a guerra para resgatar os soldados. Foi algo realmente impressionante e que teve grande influência na futura vitória dos Aliados.

Impressionante também é o filme de Nolan. Ele foge ao padrão convencional de filmes de guerra. Não há um herói principal e nem uma saga focada em algum personagem ou grupo específico. Dunkirk é um filmes de grandes cenas e uma trilha sonora espetacular. A imagem e o som são os grandes protagonistas. A experiência que tive em Imax foi sensacional! Vale a pena pagar um pouco mais caro por isso. As belas e intensas imagens unidas a uma trilha sonora com ritmo angustiante e emocionante nos dão uma sensação de movimento intenso que está sempre subindo para o clímax sem nunca chegar ao fim. Essa união entre imagens e sons orquestrada por um grande diretor nos deixa as quase 2 horas de filme sem piscar e com “o coração na mão”.

Essas características de Dunkirk e sua pegada mais diferente me lembraram do ato da pregação. A relação que há entre imagens, sons e atores em Dunkirk pode ser uma boa comparação com as “imagens”, “sons” e “atores” da pregação. Creio que podemos tirar 2 lições dessa comparação.

Imagens Intensas e Belas

Nolan conta a história de Dunkirk em 3 linhas de tempo diferentes: 1 semana na Praia, 1 dia no mar e 1 hora no ar. As cenas, principalmente na praia e no ar, são bem intensas e muito bonitas. Há um grande trabalho de fotografia. O visual de Dunkirk é realmente lindo. E assim como Nolan trabalhou suas cenas, Deus também tem nos dado lindas imagens sobre o seu ser e sua obra. A Palavra revelada de Deus é a sua produção visual a nós. Nas escrituras encontramos imagens belíssimas sobre o Deus que servimos e pregamos. Em Jesus e no evangelho encontramos o ápice de intensidade e beleza dessas imagens “revelacionais”.

Aqui está um dos grandes elementos da pregação: a verdade de Deus sendo exposta ao povo como belas imagens de um filme que saltam da Palavra de Deus. É fundamental que a pregação seja uma exposição dos fatos e das doutrinas que foram reveladas pelo grande diretor do universo. A pregação segue o mais lindo roteiro de todos os tempo e precisa mostrar ao mundo as cenas intensas que foram planejadas e executadas pelo diretor. Encontramos no evangelho a grande cena, mais bela e intensa! A pregação consiste em exposição da verdade, assim como Dunkirk está mostrando o que realmente aconteceu durante a guerra.

Lição 1: O pregador é responsável somente por expor a verdade intensa e bela dos fatos e doutrinas da Palavra de Deus assim como as imagens intensas e belas em Dunkirk tentam ser fiéis a verdade sobre a realidade da segunda guerra. Não há espaço para seus achismos e invenções sem fundamento. A exposição precisa ser fiel ao que está escrito.

Sons Intensos e Emocionantes

Sem uma trilha sonora ou com um trilha sonora ruim, Dunkirk seria um filme entediante. A cenas, por mais reais e movimentadas que sejam, não seriam capazes de gerar as emoções que sentimos quando sons e imagens se misturam. É por isso que a experiência em Imax (sala com maior qualidade de imagem e som) é ainda melhor. Os sons dos bombardeiros inimigos e a música que marca um ritmo sempre “subindo” tornam as cenas angustiantes e desesperadoras, causando uma grande conexão emocional com as imagens. E é exatamente esse o ponto: a pregação também precisa de uma “trilha sonora” que conecte as pessoas emocionalmente com as “cenas” que estão sendo expostas.

Esse é o segundo grande elemento da pregação: a verdade de Deus em conexão com o coração do povo como uma bela trilha sonora que vem de um pregador impelido pelo Espírito Santo. É fundamental que a pregação não se limite a somente expor fatos e doutrinas, mas que a exposição se conecte com o coração da pessoas e mexa com suas emoções. O púlpito não é lugar de palestras ou aulas, mas da ação sobrenatural do Espírito Santo atuando como uma trilha sonora que toca nossos corações profundamente. Como o grande pregador Martyn Lloyd Jones diria, pregação não é só teologia, mas teologia em chamas!

Aqui chamo atenção para dois pontos. (1) O grande compositor dessa trilha sonora é o Espírito de Deus. Ele é o responsável pelas chamas. Só ele alcança os corações através de suas notas e tons sobrenaturais. (2) Dependendo disso está a postura do pregador como alguém que acompanha a trilha sonora peculiar da pregação. John Wesley também disse algo interessante ao afirmar que ou colocamos fogo em nosso sermão ou colocamos nosso sermão no fogo. É o Espírito que dá o tom, mas o pregador deve acompanhar esse tom peculiar da pregação.

Lição 2: O pregador dependente do Espírito também tem papel no tom da pregação, que é diferente de aulas e palestras. É preciso saber quando um homem está pregando ou simplesmente palestrando. Só o Espírito toca os corações, mas é papel do pregador, no seu estilo (sem imitações ou artificialidades), pregar com intensidade e emoção.

O Resultado da Obra

Em Dunkirk o grande artista é o diretor Christopher Nolan. Mesmo com um bom e badalado ator como Tom Hardy, o público sairá dos cinemas lembrando das grandes cenas e suas emocionantes músicas e efeitos sonoros. A união entre imagens e sons é tão grandiosa que o filme consegue emocionar, prender a atenção e impactar com poucos diálogos e foco em personagens/atores. Assim deve ser também o resultado da pregação. Seu grande artista e diretor é Deus. E a grandiosa união de sua Palavra revelada como belas imagens e seu Espírito impelindo pregadores como uma intensa trilha sonora coloca pregadores em segundo plano, sem necessidade do foco na personalidade.

O resultado é uma exposição pura da verdade através do poder do Espírito Santo que impele pregadores a serem intensos e vívidos, tocando e impactando o coração dos ouvintes sem exaltar a figura do pregador. Dunkirk é um exemplo de como um filme pode fazer isso, e podemos aprender que a pregação também pode e deve. Exponha as belas verdades das Escrituras e dependa do Espírito para pregar com intensidade e emoção para a glória de Deus!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Eu comecei a namorar com 24 anos. É uma história de amor inusitada, mas ao contrário do que se pode pensar, não tão incomum. Durante os 24 anos de “preparação” para esse momento, eu pensei, senti, orei, imaginei, sonhei acordada (e dormindo também), conversei, debati, investiguei, analisei. E tudo isso me fez chegar ao dia 13 de julho de 2015 com incontáveis ideias, expectativas e certezas. Só que havia um problema com elas:

Elas ainda não haviam encontrado a realidade.

Quando esse encontro finalmente aconteceu, houve choque, dúvida, conflito. E uma das mais inesperadas surpresas que vieram com o “Sim, vamos namorar” foi uma dificuldade inerente de ser misericordiosa com o objeto do meu amor. Não me levem a mal: este não é um caso de jugo desigual ou pais contra o relacionamento. Tudo está nos conformes, exceto a realidade de que ele não é o rapaz sem rosto que eu imaginei durante 24 anos.

O “Sim”, seja a um pedido de namoro, noivado ou casamento, significa muito mais do que um “Eu te amo” diário. Ele também quer dizer “Você não é totalmente como eu imaginei”. E, a partir desse momento, há um pedido (na verdade, uma ordem) para que sirvamos, suportemos e tenhamos misericórdia e graça para com aqueles que dizemos amar. Sim, “dizemos”, pois muitas vezes esse amor fica apenas na mensagem do WhatsApp antes de dormir.

Papeis para o mal

Conhecer os papeis do homem e da mulher no casamento (e como seres humanos em geral) é uma exigência que todo cristão deve cumprir. Só que nosso coração pode transformar esse precioso conhecimento em pecado, nos fazendo achar que somos mais sábias, mais inteligentes, mais “crentes” ou superiores a alguém por “dominar” esse assunto, e, dentre as principais vítimas da nossa arrogância, está o nosso amado. Nosso coração está tão imerso em si mesmo que passamos a achar que o parâmetro somos nós, então se meu companheiro está fazendo aquém do que eu costumo fazer, que homem falho que ele é, não é verdade?

A nossa insatisfação vem, muito mais, do pecado do nosso próprio coração do que das falhas dele.

E é justamente por isso que é tão difícil sermos misericordiosas, graciosas e compassivas com nossos amados. Estamos constantemente insatisfeitas com seus defeitos e achando que eles nos devem alguma coisa por serem assim, então obviamente a única coisa a se fazer é julgar, criticar e reclamar, afinal, eles estão errados, eles precisam de conserto urgentemente… E enquanto nos deixamos levar por esse pecado, muitos outros estão escondidos em nosso coração e não os tratamos, não nos arrependemos e nem buscamos melhorar.

É bom que toda moça cristã deseje um esposo sábio, maduro na fé e capaz de lhe liderar em amor no casamento, mas… assim como você nem sempre será submissa e respeitosa, ele nem sempre saberá liderar. Ou organizar o culto doméstico. Ou lhe dar o melhor conselho. Ou ser o companheiro todo-poderoso com o qual você um dia sonhou. Antes de conhecermos nosso amado, pensamos que estamos desejando o melhor “para a glória de Deus”, mas esse melhor, na grande maioria das vezes, na verdade é uma forma de dizer:

O melhor para mim é o que não me traga conflitos, dor ou sofrimento de qualquer forma.

Força para ser misericordiosa

O “melhor”, para nós, significa segurança, conforto, comodidade, alegria 24 horas por dia e um companheiro que atenda a cada uma das nossas infinitas expectativas. Só que isso nunca esteve na agenda do Senhor. A intenção de Deus nunca foi que você não sofresse em seu relacionamento, e sim, que você crescesse de várias maneiras, e isso sim irá glorificar o Seu Santo Nome. O que Ele deseja é um relacionamento que te faça amadurecer e, assim, te torne mais parecida com Cristo. E quer maneira mais prática de fazer isso do que quebrando cada uma de suas expectativas equivocadas?

Acredito que se pedirmos a Deus para nos deixar mais conscientes sobre nosso pecado, consequentemente focaremos menos no pecado do outro e ainda teremos mais sabedoria para tratar as falhas e defeitos dele quando isso se fizer necessário. Nossa luta é contra o pecado, não contra quem dizemos amar. Devemos suplicar para que o Senhor tire de nosso coração a idolatria pelas nossas próprias idealizações e expectativas e transforme isso em amor por quem nosso amado realmente é, com todas as suas falhas e imperfeições. E, se realmente os amamos, seremos pacientes e tudo suportaremos.

[Inspirado no texto Give Your Suitor Some Grace]

Manuela Moraes é uma recifense de 26 anos formada em Comunicação Social e Administração de Empresas. Ama falar sobre o Evangelho na Internet e faz isso através do Dois Dedos de Teologia e do seu canal também sobre Teologia, o Manuela Moraes. Canta no Ministério de Jovens da Igreja Presbiteriana das Graças e é calvinista por paixão e por opção de Deus.


Anos atrás, um amigo chamado John encontrou-se com um grupo de jovens. Ele era o único homem casado na época e o resto dos rapazes estava lidando com a pornografia. Em um momento de sinceridade brutal, um deles disse a John: “Eu simplesmente não entendo como você pode fazer sexo com a mesma mulher o tempo todo. Isso parece entediante.”

Sem hesitação, John disse calmamente: “Eu não faço sexo com a mesma mulher o tempo todo”.

Os olhares silenciosos ansiavam por uma explicação.

John explicou que sua esposa não era a mesma mulher com quem ele se casou. Ela sempre estava crescendo e mudando como mulher, e ele sempre estava crescendo e mudando como homem. Eles não eram as mesmas pessoas que eram quando se casaram e sua intimidade sexual também não. Como um bom vinho, eles e sua intimidade haviam amadurecido ao longo do tempo. O sexo nem sempre estava cheio das chamas da paixão – mas isso não é tudo que o sexo pretende ser.

O sexo se fortalece com o tempo

Deus criou o sexo para ser um vínculo entre marido e mulher que se fortalece ao longo do tempo. Casais casados fazem amor em sua lua-de-mel e após um aborto. Eles fazem amor para conceber crianças e depois de enterrá-las. Eles fazem amor quando seus corpos estão saudáveis e durante batalhas contra o câncer. À medida que um marido e uma esposa se buscam através do serviço íntimo, do sacrifício e da luta, Deus os abençoa de uma maneira que o mundo nunca poderá conhecer.

John explicou a seus amigos que, ao continuamente negligenciar o bom propósito de Deus para o sexo, eles estavam se preparando para faíscas de paixão pecaminosa em vez da força branda da intimidade duradoura. Deus criou o sexo para ser melhor aproveitado quando se baseia em algo diferente de aparência ou desempenho. Ele o baseia no amor comprometido, que reflete o amor infinito que Ele tem para com todos aqueles que confiam em Cristo.

O mundo retrata o prazer como uma paixão frustrada que se move de amante para amante e de fantasia para fantasia. Mas esse tipo de prazer realmente satisfaz? Ou ele na verdade intensifica o nosso descontentamento? Quem clica em uma imagem pornográfica e para, satisfeito? Quem investe em fantasias por alguns segundos e para, satisfeito? A oferta de prazer mundano não pode satisfazer um coração que foi criado para um prazer mais profundo e duradouro.

O pecado proporciona o tipo de prazer que um homem sedento tem quando vê uma miragem de água. Ele sente uma adrenalina de esperança, porém, no final, a decepção apenas intensifica o vazio.

A busca pelo prazer

Mas Deus criou o sexo para ser diferente para marido e mulher. Em Provérbios 5:18-19, Salomão diz a seus filhos,

Seja bendita a sua fonte! Alegre-se com a esposa da sua juventude. Gazela amorosa, corça graciosa; que os seios de sua esposa sempre o fartem de prazer, e sempre o embriaguem os carinhos dela.

Deus usa imagens vívidas para comunicar que Ele pretende que maridos e esposas aproveitem a intimidade um com o outro de maneira profunda. O sexo é um bom presente de um Deus bom que se deleita em nossa alegria.

Isso não significa que o sexo é sempre agradável ou fácil para casais casados. Como o casamento é a união de um par de pecadores em constante mudança e crescimento, podemos ter certeza de que a intimidade sexual terá dias e estações doces e amargas. Isso é parte do sábio propósito de Deus. Ele chamou homens e mulheres para se comprometer um com o outro e fazer amor um com o outro durante todas as estações da vida.

Deus é melhor do que o sexo

Deus ordena o sexo para os casais na riqueza ou na pobreza, na doença e na saúde, quando a vida é melhor ou pior – até que a morte os separe – porque isso reflete seu amor duradouro por nós.

Descobrimos uma profundidade de prazer quando rimos, choramos, oramos, confiamos, pranteamos, nos entristecemos e esperamos juntos. O sexo é mais do que um prazer erótico: é uma intimidade de alma que se aprofunda com o tempo. Deus projetou essa intimidade no nível da alma para refletir o compromisso profundo, íntimo, comprometido, fiel e sacrificial entre Jesus e sua noiva, a igreja.

O objetivo do sexo não é, em última instância, apenas aproveitar seu cônjuge, e sim, desfrutar de Deus como o doador de boas dádivas. Deus é melhor do que o melhor sexo. Nós sabemos disso porque, por toda a eternidade, viveremos em um novo céu e uma terra nova melhor do que esta, um mundo no qual não iremos experimentar casamento ou sexo como fazemos agora, mas teremos um prazer melhor e duradouro com Deus (Mateus 22:30; Salmo 16, Isaías 51:11; Apocalipse 21-22).

Para os casados

1. Confie em Deus quando a intimidade estiver ausente.

Às vezes, a intimidade sexual pode parecer estagnada ou inexistente. Não desistam. Orem juntos. Superem o sentimento de estranheza e a dor. Confessem suas amarguras. Peçam a Deus que os ajude.

Por favor, não pense que estou dizendo que se você apenas confiar em Deus e lhe obedecer, todas as suas lutas sexuais desaparecerão. Isso não é verdade. O que estou dizendo é que o verdadeiro prazer vem de receber o que Deus nos deu pela fé, confiar que Ele é bom e que tenciona tudo isso para nosso o bem (Salmo 119:68).

O verdadeiro prazer não é encontrado ultimamente em ter uma vida sexual incrível, mas em um Deus incrível. Traga sua satisfação sexual e disfunção sexual a Jesus, porque esse é o objetivo final de tudo isso: aproximar você a Ele.

2. A comunicação torna a intimidade mais íntima.

Simplesmente fazer amor em dias de alegria e tristeza não o aproximará de seu cônjuge. A intimidade é cultivada através da comunicação. Tenha conversas regulares sobre como as coisas estão acontecendo nessa área e sobre como vocês podem servir melhor um ao outro. Falar com sinceridade e escutar um ao outro em relação a questões íntimas é parte do plano de Deus para aproximar vocês dois.

3. O contentamento no sexo vem de encontrar deleite em Deus.

Você pode ter o melhor cônjuge do planeta e desfrutar da vida sexual mais satisfatória que se possa imaginar e ainda assim um fato permanece: se nossos corações não estão satisfeitos em Deus, eles nunca estarão satisfeitos. Cônjuges podem ser parceiros maravilhosos, mas eles ainda são pecadores lamentáveis. A melhor maneira de ter uma vida sexual abençoada é deleitar-se no Deus que te dá esse presente. Jesus é sempre melhor do que qualquer presente que Ele te dá, incluindo o sexo no casamento.

Para os não casados

1. Não compre prazeres falsificados.

Satanás proporcionará muitas oportunidades para satisfazer sua frustração sexual, mas as chamas temporárias da pornografia ou os passatempos vazios de sexo pré-marital acabam por roubar o próprio prazer que você está procurando. Eu percebo que parece loucura resistir, especialmente quando não há nenhuma perspectiva de realização, mas Deus promete ajudá-lo. Ao se apegar a Ele na batalha, você encontrará a verdadeira alegria que o pecado sexual jamais pode fornecer.

2. Proteja o seu futuro casamento.

O casamento já é difícil por si só. Mas se você preencher seu coração com imagens e experiências sexuais, você encaminha a si mesmo e a seu futuro cônjuge em direção a uma dificuldade adicional desnecessária. Se Deus lhe der um cônjuge, essa pessoa será o que você realmente precisa. Preencher seu coração com expectativas irrealistas ou injustas pode acabar prejudicando a intimidade que Deus tem para vocês no futuro.

3. Encontre contentamento em Deus hoje.

Lembre-se de que a sua realização como pessoa não depende de você ser satisfeito sexual ou romanticamente. Jesus nunca se casou, nunca se envolveu romanticamente e nunca teve relações sexuais. No entanto, Jesus foi a pessoa mais completa e plena que já existiu.

Agora você pode pensar: “Sim, obrigado, mas eu não sou Jesus”. Eu entendo. Mas, por favor, leia isto: o prazer sexual nunca irá satisfazê-lo em última instância. Um cônjuge maravilhoso nunca irá preenchê-lo. Nem sexo nem um cônjuge podem fazer o que só Deus pode. Procure estar satisfeito nEle, e se Deus lhe der um cônjuge, você estará livre para apreciá-lo ainda mais.

 

Texto Original - Desiring God: Good Lovemaking Is About God
Autor: Garret Kell
Tradução: Manuela Moraes


A teologia da prosperidade já apanhou demais. Seus grandes ícones já foram expostos e desmascarados. Infelizmente ela ainda faz vítimas pela falta de conhecimento do povo, principalmente nas periferias, público alvo desse tipo de “teólogos”. Felizmente ela está cada vez mais marginalizada e ficando limitada a determinadas igrejas. Um bom números de crentes tem um grande repúdio por esse tipo de abordagem “evangélica”. Pois bem, eis que temos uma substituta para a tal da teologia da prosperidade (TP). Eu a chamo de teologia do coaching (TC). Usareis as siglas a partir de agora.

A Cultura do Coaching

Sou formado em administração. Cursei quatro anos de faculdade e fiz outros cursos na área. Na época o coaching não era tão conhecido como hoje. Sempre valorizei cursos com conteúdos práticos como finanças, marketing e recursos humanos. Nunca fomos ensinados que precisaríamos de pessoas nos acompanhando para ensinar, direcionar, motivar e cobrar. Nós mesmos faríamos isso. Então a cultura do coaching chegou. Vá a uma seção de administração e negócios de uma livraria hoje e você perceberá o que estou dizendo. Nunca me dei bem com ela para ser sincero. E quero explicar a razão usando duas citações do Instituto Brasileiro de Coaching. Primeiro, o que é o coaching?

“Um mix de recursos que utiliza técnicas, ferramentas e conhecimentos de diversas ciências como a administração, gestão de pessoas, psicologia, neurociência, linguagem ericksoniana, recursos humanos, planejamento estratégico, entre outras visando à conquista de grandes e efetivos resultados em qualquer contexto, seja pessoal, profissional, social, familiar, espiritual ou financeiro”

Agora pergunto: como o coaching acontece?

“Conduzido de maneira confidencial, o processo de Coaching é realizado através das chamadas sessões, onde um profissional chamado Coach tem a função de estimular, apoiar e despertar em seu cliente, também conhecido como coachee, o seu potencial infinito para que este conquiste tudo o que deseja”

Antes de continuar deixe-me dizer algo para que fique claro. Acredito na liberdade de trabalho honesto. Se você gosta ou trabalha honestamente com isso, ok, é a sua escolha. Por mais que eu tenha críticas a essa prática, aqui entrarei na relação do coaching com a igreja. Usarei essas duas respostas dadas para analisar biblicamente o que chamo de TC. Minha argumentação será essa: Igreja e evangelho não combinam com o coaching e não devem se misturar jamais. Quando isso acontece temos uma nova TP com uma roupagem mais humanista e existencialista.

Junto com o coaching cresceu o chamado empreendedorismo de palco (EP). São aqueles profissionais que trabalham com palestras motivacionais e grandes palestras de coaching. Esse mercado tem crescido assustadoramente e também tenho sérias dificuldades com ele. Aqui se aplica a mesma observação que fiz aos profissionais de coaching. Mesmo assim indico um ótimo texto escrito por Ícaro de Carvalho chamado Por que o empreendedorismo de palco irá destruir você. O autor começa com uma afirmação que capta bem o ponto onde quero chegar:

“O empreendedorismo é a nova religião do homem moderno. Materialista e secular, ele substituiu os Santos do seu altar por fotografias de homens bem sucedidos; os seus Evangelhos são livros como “O sonho grande” e “A força do Hábito”. Ele acredita, de alguma maneira, que tudo aquilo irá aproximá-lo do seu objetivo principal: sucesso, fama e dinheiro…de preferência agora!”³

Essa cultura construída em torno do coaching e do EP é em sua maioria materialista. O objetivo de muitos é o sucesso financeiro, e isso significa enriquecer. Com um fator especial: o mais rápido possível. É comum ler e ouvir grandes promessas e ensinamentos sobre como trabalhar menos e ganhar mais. O foco está no esforço intelectual e físico daquele que está buscando seu lugar ao sol. É dessa cultura de palco, sonhos, riquezas e promessas que estou falando. Já viu onde isso vai chegar na igreja? Vamos falar disso agora!

O Coaching na Igreja

Eu já vi palestras de coaching acontecendo onde deveria haver uma pregação da Palavra. Isso mesmo, em pleno culto público. Infelizmente essa cultura chegou em muitas igrejas. E se eu já não me dou bem com ela no mercado de trabalho, na igreja não tenho medo de dizer que ela é minha inimiga. Assim como repudio a TP também o faço com essa nova onda da TC. Em alguns sentidos essa segunda chega a ser pior do que a primeira. Vamos analisar três pontos que constroem a TC.

Humanismo: O coaching utiliza de técnicas humanas num indivíduo que é o centro de tudo para que este alcance seus objetivos humanos. Muitos pastores e líderes tem enveredado por esse caminho. Tratam suas pregações como palestras motivacionais da fé que confundem fé com força e vontade, evangelho com motivacionismo e Cristo com um palestrante. O foco está naquilo que o homem pode fazer através da sua fé pessoal. Fé essa que passa por Cristo, mas que tem seu objeto na própria pessoa e nos seus esforços dirigidos. Muitas “pregações” tem o mesmo objetivo do coaching, ou seja, estão “visando à conquista de grandes e efetivos resultados em qualquer contexto, seja pessoal, profissional, social, familiar, espiritual ou financeiro”. O apelo pode ser até espiritual, mas ainda assim Você já deve ter escutado muito coisas do tipo “como ser o melhor marido”, “como atrair e fidelizar pessoas para o reino”, “alcançando sucesso através da fé.”. Tudo isso travestido de espiritualidade…

Materialismo: há um desejo enorme em conquistar coisas. Sejam elas produtos do mercado como carros, casas, roupas, viagens ou algo mais “espiritual” como paz, pessoas, bom casamento, filhos educados, castidade, etc. As pessoas querem conquistar, possuir e avançar, sendo tudo isso fruto não da humilhante auto confrontação e negação de si mesmo, mas da auto-afirmação. O papel do pastor se tornou muito parecido com o do coach: “estimular, apoiar e despertar em seu cliente (ovelha)… o seu potencial infinito para que este conquiste tudo o que deseja”. É exatamente isso que essa mistura humanista-materialista busca: o potencial infinito de cada ser humano para conquistar aquilo que ele deseja. Há uma conexão com o existencialismo, onde o indivíduo e sua busca pessoal por significado em si mesmo passa a ser o centro do pensamento filosófico.

Ceticismo: Humanismo e materialismo são marcas de seres céticos. A crença no Deus da Bíblia é cada vez mais fraca onde esse tipo de cultura se manifesta. Como eu já disse, a TC busca descobrir o potencial de cada pessoas para que ela alcance seus próprios objetivos. Dependência de Deus é algo apenas fantasiado. Orações são feitas apenas para que Deus abençoe nossos planos e para que Ele nos dê apoio em nossa própria empreitada. O sobrenatural é esquecido e Deus vai ficando cada vez mais distante. Na TC o soberano é o indivíduo com suas decisões de fé e sucesso. Em muitas igrejas tudo que você vai encontrar nos púlpitos são mensagens sobre o que os homens podem fazer para serem alguma coisa melhor do que já são. Até a mistura com conteúdos de coaching, marketing pessoal e psicologia você encontrará. Aliás, tem sido comum pastores e líderes entrarem nesses cursos e palestras para serem mais persuasivos, contagiantes e teatrais (pra não usar manipuladores). O Espírito Santo não tem muito espaço na TC, mesmo que usem seu nome.

São por esses motivos principais que digo que a TC está substituindo a TP. Esse discurso tem atraído jovens, empresários, profissionais liberais, e todo o tipo de gente, principalmente na classe média. E aqui está a transição entre as duas abordagens. A TP faz uma barganha com Deus crendo que Ele efetuará milagres para benefício material e espiritual do homem. A TC eliminou a barganha ao deixar Deus de longe, mas passou a ter no próprio homem a força “milagrosa” para seu benefício material e espiritual. Na TP ainda há uma certa dependência de Deus e seu agir sobrenatural, enquanto na TC o homem declarou sua independência. O relacionamento de barganha foi substituído para o relacionamento de platéia. O Deus da TC está assistindo e torcendo pelos grandes empreendedores no palco da fé. Talvez você ache ruim o uso do palavra coaching, mas pelo que você entenda a expressão completa “teologia do coaching” que estou usando para definir esse tipo de abordagem..

Essa é uma teologia mais sutil, que parece mais humilde, mas na verdade transborda soberba ainda mais do que a tenebrosa TP. Seu ambiente menos escandaloso e mais conformado a cultura secular permite que esse tipo de abordagem lote igrejas e obtenha grande aceitação. Geralmente se fala o que as pessoas querem ouvir e pecados são tratados como pedra e obstáculos no caminho que devem ser superados. A pregação fica até mais dinâmica, com uso de mídias, frases de efeito e motivação mútua. Tudo isso associado com o desejo material dos nossos dias só contribuem para que a TC ganhe terreno. Logo logo nós teremos grandes problemas com ela e talvez ela chegue ao mesmo patamar da TP. Que Deus nos livre e proteja disso!

O que Jeremias e Tiago Diriam?

Não quero tornar esse texto num texto longo demais. Portanto, encerrarei apenas com três passagens bíblicas (quem sabe um artigo completo poderá sair em breve sobre o tema). Compare com as ideias da TC e veja como a Bíblia é contrária a isso. Jeremias profetizou para um povo orgulho e que confiava em suas próprias forças e em sua “tradição espiritual”. Contra isso Deus falou por meio do profeta:

“Assim diz o Senhor: “Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor, e ajo com lealdade, com justiça e com retidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado”, declara o Senhor” (Jeremias 9:23,24) 

Num momento mais a frente ele resume bem sua mensagem ao povo:

“Assim diz o Senhor: Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor… Mas bendito é o homem cuja confiança está no Senhor, cuja confiança nele está” (Jeremias 17:5-7)

Encerro com a passagem de Tiago, um verdadeiro balde de água fria na teologia do coaching:

“Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna.” (Tiago 4:13-16)

TP e TC, ambas são maléficas e distantes do cristianismo bíblico que leva o homem a negar a si mesmo, humilhar-se diante de Deus e depender dele em tudo. Ter sucesso profissional e conquistar riquezas não é pecado em si, mas isso não pode ser um dos pontos centrais de nossa espiritualidade cristã. Cuidado para não substituir a teologia da prosperidade pela teologia do coaching, em ambas o deus que adoram é o mesmo: o homem.

 

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.