Uma das marcas históricas da igreja é a unidade. O credo niceno-constantinopolitano (381) confessou uma igreja una, santa, católica e apostólica. Essa confissão e tradição está em harmonia com as Escrituras, de onde retiramos nossa base e verdade para entendermos a igreja de Deus. O Novo Testamento nos aponta uma grande preocupação por essa unidade da igreja. Podemos perceber isso claramente nas cartas de Paulo, principalmente em Efésios. Ali ele convoca os cristãos a se esforçarem diligentemente para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4:3).

A base de Paulo para esse trabalho pela unidade é o Deus Trino. Ele indica que nossa unidade está no fato de termos um só Espírito (4:4), um só Senhor (4:5) e um só Pai (4:6). No final das contas temos um só Deus Trino e, portanto, devemos viver em unidade. Seguindo essa mesma ideia, o próprio Jesus nos apresenta o fundamento da unidade cristã de modo mais aprofundado em sua oração ao Pai no capítulo 17 de João. Ali encontramos o ponto mais alto da unidade nas Escrituras. Deus Filho está orando a Deus Pai pela unidade do seu povo. É a partir dessa oração trinitária que enxergamos a verdade e a importância da unidade na igreja.

Unidade é a Vontade de Deus

“(20) Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; (21) a fim de que todos sejam um…

Jesus cristo orou ao Pai pedindo unidade para todos os cristãos de todas as épocas. Isso é mais do que suficiente para entendermos que unidade é algo da vontade de Deus. E algo que está em destaque nessa vontade. Deus Pai escolheu pessoas e enviou o filho para criar essa unidade. o Filho morreu e ressuscitou por essa unidade. E o Espírito foi enviado por manter essa unidade. Esse é o desejo de Deus. Ele chamou e redimiu um povo para ser um povo unido. Estar em divisão é estar fora da vontade de Deus.

Deus é o Unificador da Igreja

O que, então, nós cristãos temos em comum que é capaz de produzir tamanha unidade na igreja? Algumas pessoas se unem em torno de um time de futebol, de uma banda ou artista, de uma causa humanitária, de grande laços de amizades, de amor entre familiares, etc. Qual é a cola do povo de Deus? A resposta é até óbvia e talvez seja por isso que não paramos para refletir sobre ela. Acima de tudo, o fator de unidade entre os cristãos é o próprio Deus.

 “(21) a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós… (23) eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade”

A lógica que Jesus apresenta em sua oração é a seguinte: Cada cristão, como igreja, está unidade a Jesus. Jesus, como Filho eterno de Deus, está unido ao Pai. Logo, a igreja que está unida a Jesus está unidade a Deus em sua plenitude, tudo isso por meio do Espírito. Nessa união trinitária entre Deus e entre Deus e a igreja é que encontramos nossa cola e somos aperfeiçoados na unidade. É por estarmos todos unidos a Jesus Cristo, e por consequência a Deus em sua plenitude, que somos ou devemos ser plenamente unidos. Por isso é impossível ser cristão e estar dividido da igreja. É impossível estar unido a Deus e em divisão com o povo de Deus que também está unido a Ele.

A Trindade é o Padrão da Unidade

Ao que essa unidade da igreja se assemelha? Qual é o grau de unidade entre os irmãos em Cristo. A comparação de Jesus para oferecer o padrão da unidade cristã é incrível e surpreendente.

“(22) Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos”

Segundo Carson, “glória geralmente refere-se à manifestação do caráter ou da pessoa de Deus em um contexto revelador” (Comentário de João, p. 570). O Filho, portanto, é a glória/revelação do Pai e em seu ministério manifestou essa glória/revelação aos cristãos. Um dos motivos dessa revelação do Pai e do Filho e de como eles se relacionam é para servir de padrão para a unidade da igreja (“para que sejam um, como nós o somos”). O evangelho de João está cheio dessa revelação gloriosa e apresenta algumas características centrais desse relacionamento divino. 

Nosso ponto de partida é que a Trindade se trata de 3 pessoas distintas, mas plenamente unidas ao ponto de serem um único Deus. Não há necessidade de uniformidade (todos serem iguais em tudo). Eles são iguais em essência divina, mas diferentes em pessoalidade e papéis. A beleza eterna da Trindade está justamente no fato de três pessoas distintas viverem em perfeita unidade. Assim a beleza da unidade da igreja não está em todos serem iguais, mas justamente em todos serem diferentes em unidade.

Gostaria de destacar rapidamente 3 características que João apresenta do relacionamento Pai e Filho. Elas servem de padrão revelacional para nossa unidade cristã: (1) Amor/intimidade; (2) Ação no mesmo propósito; (3) Autoridade e submissão. Sem entrar em detalhes em cada ponto, podemos dizer que é claro e repetitivo em João que Pai e Filho desfrutam de uma relação de grande amor e intimidade. Um conhece muito bem o outro. Eles também estão sempre agindo no mesmo propósito. Seus objetivos são os mesmo e sua unidade de missão é nítida. Além disso, é interessantíssimo perceber que o Filho se submete ao Pai. Isso nos mostra que na unidade trinitária a fato de haver uma hierarquia de funções não é um obstáculo para a unidade. 

Esse padrão revelado por Jesus nos ensina que nossa unidade deve ser baseada em amor e intimidade, cultivando afeições santas e conhecendo uns aos outros. Também devemos estar unidos nos mesmos propósitos. Uma missão e padrões de vida foram dados a igreja. Devemos viver juntos neles para glorificarmos a Deus em santidade e unidade. E por fim, a presença de relações de autoridade e submissão não é um obstáculo para a unidade. Eu diria, inclusive, que é um requisito. A presença de pastores e líderes são essenciais para a unidade da igreja. 

O Propósito da Unidade

A unidade tem uma valor eterno em seu propósito. E esse grande propósito da unidade apresentado por Jesus em sua oração tem caráter revelador e missionário.

“(21) para que o mundo creia que tu me enviaste… (23) para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim”

A unidade da igreja é testemunho do amor de Deus pelo seu povo e da missão de Deus em resgate do seu povo. Atenção para as duas conclusões: (1) Se devemos estar unidos no mesmo amor que o Pai tem pelo Filho, e esse amor é o mesmo que ele tem pelo seu povo, nossa unidade revela ao mundo o Amor trinitário de Deus entre si mesmo e esse mesmo amor pela igreja: (2) Se Deus planejou e executou a obra de salvação para redimir e unir um povo em torno de si mesmo, nossa unidade revela ao mundo essa obra missionária de Deus.

Nossa unidade é uma pregação ao mundo do amor e da obra missionária do Deus Trino. Com isso em mente. pare para pensar no que significa estar em divisão e contentas na igreja. Quando nossa unidade está quebrada estamos dizendo ao mundo que Deus não se importa conosco, que Deus não ama o seu povo, e o pior, que Deus Pai não ama o seu eterno Filho. Da próxima vez que você estiver para quebrar a unidade, seja por qualquer coisa, pense nessas implicações. Esse testemunho acerca de Deus é mais importante do que qualquer desejo, indignação, senso de justiça, ativismo (ou seja lá o que for) individual nosso. 

Unidade eclesiástica não é menos, mas é mais que amizade, afetos e afinidades. É parte integral de quem Deus nos tornou e está primeiramente compromissada com Deus e sua revelação. A unidade encontrada na igreja deve ser a maior amostra de amor, união e compromisso do mundo. Só assim o testemunho sobre Deus será dado de maneira adequada e eficaz.

Encerro dizendo que Deus é o Fundamento principal de nossa unidade Cristã. Ela é da vontade de Deus. Deus é nosso unificador, Deus é o nosso padrão e é sobre Deus que a unidade testemunha. Viver em unidade é uma questão, acima dos benefícios para nós, de viver para Deus, como Deus e por Deus. É uma questão de expor a sua glória ou não ao mundo. Pense nisso!

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (Salmos 133:1)

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


A teologia me salvou daquele cara chato que fala mal do natal e me tornou um entusiasta desse feriado e da época de dezembro. Tanto a teologia propriamente dita sobre Deus como a teologia sobre as coisas diárias da vida, ou sobre as coisas da terra, como diz o excelente livro de Joe Rigney. Não que eu fosse aquele tipo de crente que acha que o natal é fruto do paganismo e, portanto, algo pecaminoso. Meu caso era de indiferença. Mas ainda bem que a teologia me mostrou outro caminho. Há uma beleza extraordinária no natal. Na verdade, há várias belezas extraordinárias no natal… várias que podemos e devemos contemplar e aproveitar.

Como não tenho tempo para escrever sobre todas (acho que daria um bom livro), quero apenas resumir aquela que eu penso ser a maior beleza desse feriado: O NATAL É TRINITÁRIO. Totalmente trinitário. Fique comigo mais um pouco nos próximos parágafos e deixe sua mente contemplar essa beleza eterna e natalina por meio do evangelho de João.

IMPORTANTE: A intenção principal do quarto evangelho é bem clara. João a registrou de forma direta dizendo que aqueles atos de Jesus foram registrados para que possais crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida eterna” (Jo 20.31). Da mesma forma, ele define a vida eterna afirmando que ela significa que “conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste” (Jo 17.3). Portanto, a ideia principal de João é apresentar Deus por meio de Jesus Cristo para que seus leitores os conheçam e tenham a vida eterna. É nesse contexto que ele aponta para a Trindade como o Deus que se revela e nos mostra a beleza em torno do natal.

A origem eterna do natal

O prólogo de João (1.1-18) é um introdução a todo esse tema de João. Ele quer mostrar a base teológica da sua ideia de revelação e vida eterna. Para isso, ele faz algo diferente dos outros evangelhos. João começa na eternidade. Ele está falando de Jesus ainda pré encarnado, antes da criação.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1)

Há muito o que dizer sobre esse único versículo, mas quero resumir e destacar alguns pontos: (1) O Verbo sempre existiu, ele não “passou a ser” ou “nasceu” no princípio, ele já “era”; (2) O Verbo é distinto de Deus Pai, pois é dito que estava com ele, há uma relação eterna entre seres eternos; (3) O Verbo era Deus, sua natureza também era divina; (4) Esse Verbo passa a ser identificado como o Filho de Deus nos versos 14 e 18.

João está nos dizendo que antes de tudo existir já existia o relacionamento eterno entre Deus Pai e Deus Filho. O nascimento que celebramos no natal só é importante, único e revelador porque é o nascimento do Filho eterno de Deus que sempre existiu ao lado do seu Pai. Se a existência de Jesus tivesse o seu início naquela manjedoura, seu aniversário seria comum como os nossos. A beleza do natal está no seu caráter eterno e trinitário.

O mistério milagroso do natal

O prólogo de João continua nos dizendo coisas impressionantes. Lá somos informados que esse Filho eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Deus nasceu. Será que conseguimos enxergar o quão milagroso e misterioso é isso? O infinito nasceu como alguém finito. Como isso pode acontecer? Não sabemos, mas cremos que aconteceu.

Anselmo se perguntou porque um Deus-homem (Cur Deus Homo) e ao afirmar que o Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente homem, uma pessoa em duas naturezas e duas naturezas em uma pessoa, ele concluiu que só um Deus-homem poderia oferecer um sacrifício pela salvação dos homens e que ao mesmo tempo fizesse satisfação da justiça e santidade de Deus.

No natal, celebremos não só o nascimento de um Deus ou o nascimento de um homem. Celebramos o nascimento do Deus-homem! E isso faz toda a diferença. Como Deus Filho ele foi enviado para ser também homem por Deus Pai e ungido pelo Deus Espírito Santo. “O Verbos estava no mundo” (Jo 1.10). Que milagre! Que mistério!

A revelação luminosa do natal

O prólogo ainda nos mostra mais uma grande beleza do natal. E aqui está o centro trinitario dessa celebração. A encarnação tem um objetivo que João faz questão de destacar. Jesus Cristo veio a nós como Deus-homem para revelar o Pai. Ele é descrito como a verdadeira luz (1.9) e luz dos homens (1.4). No verso 18, final do prólogo, João afirma que “ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. O que ele quer dizer é que não há outra forma de ver a Deus a não ser pelo Filho. E isso tem uma explicação, esse Filho está em grande intimidade com o Pai, e por isso é capaz de revelá-lo.

Essa intimidade descrita como estar no seio (ou ao lado, no colo) do Pai fica mais clara no diálogo entre Jesus e Filipe, no capítulo 14. Filipe faz um bom pedido cheio de boa intenção. Ele quer que Jesus mostre a eles o Pai, mas a resposta do Senhor é curiosa: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe?” (Jo 14.9). Jesus está se igualando ao Pai. Ele explica que quem o vê, vê ao Pai. Ele é a revelação exata de Deus andando entre nós.

A ideia fica ainda mais linda e misteriosa. Jesus vai mais fundo e pergunta a Filipe: Tu não crês que estou no Pai e que ele está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo. Mas o Pai, que permanece em mim, é quem faz a suas obras. Crede em mim; eu estou no Pai e ele está em mim…” (Jo 14.10-11). Ele está dizendo que o Pai habita nele e Ele no Pai (Jo 10.38; 14.20; 17.21). Ambos estão em tamanha e perfeita intimidade que um está no outro de forma plena. A teologia chama esse aspecto divino de pericorese: a habitação mútua das pessoas trinitárias. O Pai está no Filho, o Filho no Pai e o Espírito em ambos. Onde um está os três estão, onde um age os três agem.

Há uma beleza pericorética no natal. Ver o filho é ver o Pai. Conhecer o Filho é conhecer o Pai. A encarnação e nascimento do Filho é a Trindade entre nós. Há mais luz em Jesus do que em toda a Nova York no natal. Celebrar o natal é celebrar a Santa Trindade por meios de Jesus Cristo.

A presença diária do natal

Ainda há uma outra beleza nisso tudo. Após morrer e ressuscitar, antes de subir aos céus, Jesus nos deixou o Espírito Santo. Seu ministério é descrito nos capítulos 14 e 16, e uma de suas funções é a de continuar a obra de revelação. Ele apontará para o Filho que revela o Pai. Toda a Trindade está envolvida nessa tarefa de revelar-se ao povo de Deus. A Trindade é um Deus missionário e o natal nos lembra disso!

Há um texto em Romanos que nos aponta para o envolvimento do Espírito na pericorese. Romanos 8.9-11 nos mostra de forma misteriosa que somos habitados pelo Espírito e, junto disso, somos habitados por Cristo e receptores da ação do Pai. O que quero dizer com isso é que além da encarnação, hoje temos a presença diária do Espírito dentro de nós. E isso implica dizer que a Trindade habita em nós de forma especial por meio do Espírito. Tudo o que o natal representa, a pessoa de Cristo e a revelação do Pai, está presente diariamente em nós na pessoa do Espírito Santo! É natal todo dia… Não por mero sentimentalismo, mas porque o Deus Trino habita em nós diariamente!

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” (Gálatas 4.4-6)

Para falar sobre isso de um modo mais “poético”, escrevi um pequeno texto chamado “O Deus Que Desceu Pela Chaminé”. É isso que eu acredito que aconteceu no nascimento de Jesus. O Deus Trino veio até nós pelo Filho e depois pelo Espírito. Fomos tocados e habitados pela Trindade. No natal, celebramos o Deus que está acima de nós, mas que também esteve entre nós e que hoje habita dentro de nós. Essa é a grande beleza do natal! O grande mistério! E é por isso que nunca mais deixarei de celebrá-lo com alegria e empolgação. Emanuel, a Trindade conosco. O Filho eterno de Deus nasceu entre os homens… aleluia!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


É muito provável que você já esteja familiarizado com a doutrina da depravação total. Se esta é a primeira vez que você se depara com o assunto, em linhas bem gerais, ela afirma que todos os homens nascem em pecado (Sl 51.5), não temos justiça em nós mesmos (Rm 3.10), não buscamos a Deus por nossa própria vontade (Rm 3.11) e que o coração do homem – isto é, o centro de suas vontades e do seu ser – é enganoso e facilmente se entrega à idolatria (Jr 17.1, 9). Porém, não é meu objetivo expor a doutrina – você pode conferi-la através das vastas exposições já apresentadas nas mídias sociais e bibliografias relacionadas –, é trazer a reflexão de como essa doutrina tem uma importante aplicação para a vida de um relacionamento saudável na vida da igreja.

Somos todos pecadores. Se cremos em Cristo, se discernimos espiritualmente o que foi feito na cruz, e se o confessamos como nosso Senhor e Salvador, isso significa que estamos em processo de santificação, porém, ainda pecamos. Isso significa que a depravação que corrompeu em totalidade nossa imagem e semelhança a Deus está sendo redimida ao ponto de termos essa imagem plenamente remodelada conforme a imagem de Cristo. Porém, à medida que somos transformados, ainda caímos por infelicidade decorrente dessa natureza que será totalmente glorificada na nossa futura ressurreição.

Nada fora do comum, certo? Nenhuma novidade ou nada que não seja lido em diversos textos. Porém, como isso tem impactado a forma como lidamos com o pecado cometido pelo próximo? Uma vez que entendemos a depravação total, deveríamos estar dispostos a perdoar, visto que entendemos que o outro é pecador e que sua natureza o inclinará para isso, não obstante éramos assim, mas ainda nessa situação fomos amados por Deus.

Isto é, o entendimento dessa doutrina deveria nos levar a perdoar aquele que pecou contra nós ainda que tenhamos de lutar contra a mágoa deixada pelo pecado cometido. Os casos de pecados cometidos podem variar em sua gravidade. Dessa forma, nossa mágoa varia, dificultando nossa disposição para perdoar. Não precisamos ser falsos em nos recusarmos a admitir que algumas vezes é difícil perdoar. Algumas vezes queremos dar o troco. Outras vezes dizemos que perdão é “deixar para lá”, ou “não ligar”. Reprimimos nossa mágoa e a transformamos em desprezo pelo outro. Com o tempo, o acúmulo de mágoas reprimidas pode nos transformar em uma pessoa fria que diz que não se ofende facilmente e aguenta determinadas ofensas, mas na verdade estamos nos tornando menos empáticos e menos sensíveis.

Tornamo-nos pessoas introvertidas, com dificuldade de relacionamentos, de confiança e principalmente de perdoar genuinamente. Perdoar não é ser insensível à ofensa cometida, antes é senti-la e nesses termos escolher perdoar. Perdoar não é desconsiderar a ofensa, é assumir que houve ofensa e decidir perdoar. Perdoar não é ignorar, porém, é buscar a reconciliação na medida do possível. Pecado não é algo que se pode ser insensível, desconsiderado ou ignorado, antes é algo que deve ser redimido. Assim foi a forma que Cristo agiu para com todos aqueles por quem ele morreu. Ele não foi insensível às dores da cruz, nem desconsiderou o peso da ira do Pai que recaía sobre si por causa dos pecados do mundo, nem ignorou os pecados dos eleitos de seu Pai, mas escolheu perdoá-los.

Em segundo lugar, o entendimento dessa doutrina deveria nos levar a uma quebra de expectativa utópicas de relacionamentos. Não basta saber que o ser humano é falho, precisamos saber que ele é pecador. É natural que admitamos a possibilidade da falha do outro, mas muitas vezes essa possibilidade não é trazida para o plano da realidade. Por mais que admitamos a possibilidade, não queremos admitir a realidade. Ou seja, não somente é possível que alguém peque contra você, isso é uma realidade. É uma realidade que pecarão contra você. Tanto aquelas pessoas com quem você só troca algumas palavras quanto aquelas com quem você troca confissões. Elas são pecadoras. Elas vão falhar. Por isso, assim como o pecado é uma realidade, o perdão também deve ser. Se o pecado do outro contra mim é só uma possibilidade, meu perdão para com ele também não passará de uma possibilidade.

Admitir essa realidade nos prepara para estarmos dispostos a perdoar com menos dificuldade, porque o pecado cometido não nos chocará tanto. Uma vez que me preparo para o impacto, posso me preparar para suportá-lo. Não obstante, isso não é uma desconfiança geral em relação ao outro, mas é um entendimento bíblico antropologicamente saudável. Ao contrário de levar a uma desconfiança geral, ela apruma a confiança. Pode parecer estranho afirmar isto: alguém falhará conosco melhora nosso relacionamento. Mas não é. Todos nós temos a tendência de projetar no outro o que esperamos ser para que dessa forma possamos nos relacionar com eles. Queremos que pensem, procedam e até errem nas mesmas coisas que nós, afinal, isso geraria uma empatia com a qual poderíamos lidar.

Se alguém pensa e procede igual a mim, não haverá discordância. Se alguém erra igual a mim, ela é igualmente falha. Porém, não é assim que somos. Aliás, quanto mais buscamos essas projeções mútuas de igualdade entre pessoas, mais estaremos abertos para nos depararmos como as crises que a realidade traz quando tais projeções levam a uma perda de visão do outro como alguém diferente de mim. Ou seja, buscamos projetar nossa imagem em moldes diferentes e nos frustramos por não haver um encaixe adequado. Se meramente a um nível de tentativa de projeção isso já é frustrado, quanto mais ao nível do pecado. O outro é uma pessoa que é diferente de mim, que é pecador como eu, mas que não é tal qual eu sou. O problema de nossos relacionamentos é a construção de expectativas que esperamos não serem frustradas, porém, o que a doutrina da depravação total nos ensina é que algumas delas serão. O outro pecará em outras áreas, ele cairá em outras áreas, nas quais devo estar disposto a perdoar, pois a recíproca é verdadeira: eu pecarei em áreas diferentes do outro.

Assim, em terceiro lugar, essa doutrina deveria nos ensinar que nossa condição de pecadores nos fará realmente pecar contra os outros. Assim como costumamos ver o pecado do outro como uma mera possibilidade com a qual não queremos lidar, podemos nos convencer que nosso pecado cometido é simplesmente uma questão de erro de propósito que acontece ocasionalmente e sem intenção. É difícil pensar em si mesmo como alguém que pecará contra o outro. É difícil pensar de si mesmo como alguém que pode trazer dores, mágoas e pecado para a vida do outro. Porém, é isto que somos: pecadores. Uma hora falharemos com quem amamos assim como aqueles que amamos falharão conosco. Não podemos ter uma imagem demasiadamente elevada de nós mesmos ao ponto de considerarmos que os pecados dos outros são intencionais, ao passo que os nossos sempre são não-intencionais. Não podemos ter uma imagem elevada de nós mesmos ao ponto de não nos vermos como aqueles que pecarão contra os outros, pois iremos.

A doutrina da depravação total não é simplesmente algo que diz respeito a como Deus nos via, mas também é a forma como nos vemos e como vemos os outros. Não é simplesmente: “Eu era totalmente depravado, mas Deus escolheu me salvar. Aleluia!”, mas também é: “Meu próximo é um pecador e eu tenho que escolher perdoá-lo, pois foi assim que Deus fez comigo” e “Eu sou um pecador e eu falharei com meu próximo”.

A doutrina da depravação total nos leva a um relacionamento bíblico, antropologicamente saudável, pelo fato de não limitarmos nossos relacionamentos a como interagimos uns com outros, como se de alguma forma não houvesse intervenção divina. Isto é, não somos corrompidos pelo meio, nem fruto de estímulos comportamentais. Somos depravados, porque essa é nossa natureza. Essa compreensão deve nos levar aos pés da cruz para que tanto clamemos por perdão como intercedamos uns pelos outros. Essa doutrina deve nos levar a orar por aqueles que pecam contra nós por entendermos que eles são pecadores e que somente Cristo pode redimi-los dessa natureza. Devemos orar para que o Espírito Santo revele ao outro – e a nós mesmos – a condição de pecador, pois o pecado cega.

A doutrina da depravação total deve nos levar à humildade. Uma humildade que nos leva a perdoar por enxergar nossas próprias limitações e pecados assim como as limitações e pecados do próximo.

Perdão não é questão de sentimento, mas de escolha. Deus provou do seu amor ao enviar Cristo para morrer por nós enquanto éramos seus inimigos (Rm 5.8). Deus não suprimiu nossa ofensa contra ele, nem a ignorou, nem a desconsiderou. Antes a imputou no seu Filho. Ele escolheu nos perdoar enquanto éramos seus ofensores e não buscávamos reconciliação. Da mesma forma, devemos perdoar o próximo. Devemos nos espelhar no ato de Deus para conosco, para proceder no pensar e no agir em relação ao próximo.

Finalmente, assim como a doutrina da depravação total não é fácil de lidar, o perdão não também não é fácil de ser dado. Não precisamos negar o fato de que algumas ofensas de fato são mais difíceis de serem perdoadas. Porém, na medida em que nos aproximamos da Palavra de Deus, na medida em que somos santificados pelo Espírito e que somos transformados à imagem de Cristo, as difíceis doutrinas que confrontam nosso pecado se tornam uma verdade em nossa vida, de modo que não podemos mais viver sem e admitimos sua vital importância. Assim também acontece com as implicações de tais doutrinas.

Portanto, o que precisamos não é somente das declarações doutrinárias, mas que o ensino bíblico nos transforme ao ponto de aperfeiçoar nosso ser interior para que sejamos cada vez mais semelhantes àquele que nos salvou. Não é fácil, mas ninguém disse que seria. Nosso chamado não começa com um chamado ao conforto, mas à cruz. Se começamos com uma cruz, certamente temos que esperar um caminho tão difícil quanto. Porém, ao passo que começamos com morte, terminaremos com vida. Começamos com uma cruz, terminaremos com uma coroa. Começamos como pecadores, terminaremos como Cristo.

Matheus Fernandes, Membro da Igreja Batista Filadélfia e seminarista no Seminário e Instituto Bíblico Maranta – SIBIMA. 


Usei meu final de semana para maratonar a segunda temporada de uma das minhas séries favoritas. Foi bom demais! Como é de se esperar, em Stranger Things coisas estranhas acontecem na cidade de Hawkins. Na verdade, coisas bem estranhas e inesperadas por todos. A história gira em torno da existência e de interação com um mundo ou dimensão invertida. Assistam!

Um mundo invertido com coisas estranhas e inesperadas… O que isso me lembraria? Se você pensou em ministério de jovens, acertou! Foi isso que veio a minha cabeça no dia seguinte. Acompanhe meu raciocínio inicial. Ao meu ver, o direcionamento de muitos ministérios de jovens é criar um mundo invertido ao mundo do restante da igreja. É como se os jovens necessitassem viver na mesma vida, mas numa dimensão diferente, só para eles. E nessa visão o que difere as dimensões são exatamente as coisas estranhas que permeiam nossa juventude. Espero me tornar mais claro com os pontos a seguir.

Um deus estranho

O primeiro aspecto de um mundo invertido no ministério de jovens é um deus estranho. Se Ele é o criador e a fonte de toda realidade, um mundo diferente começa com um Deus diferente. No deserto Deus deu ao seu povo hebreu um ambiente (o tabernáculo), uma forma de louvor (o sistema sacrificial) e uma forma de ensino e comportamento (a lei). O Deus único instituiu uma maneira de ser adorado. Seu povo o adorava como Ele queria. Isso quer dizer que a adoração a outro deus seria diferente (ex: bezerro de ouro) ou que outros povos não saberiam adorar a Deus corretamente, isso porque nem o conheciam.

Realmente me parece que o deus de boa parte dos jovens é estranho às Escrituras e ao restante da igreja. Costumam pensar num deus menos irado e mais complacente com o pecado. Num deus mais camarada com irreverente. Ou talvez um deus que não se importe tanto com as normas que Ele mesmo criou. O jovem costuma ver a Deus como o tiozão descolado, não como pai. Os filósofos atenienses convocaram Paulo a falar por acharem que ele ensinava coisas estranhas (At 17.20), mas o apóstolo começa dizendo que a razão pela qual acham seu ensino estranho está no fato de que adoram a um deus desconhecido (At 17.23), não o Deus único e verdadeiro de Paulo.

Não é novidade vermos jovens achando ensinos bíblico estranhos. Temo que isso se deve ao desconhecimento de Deus por conta do deus estranho que constroem em suas mentes. E isso afeta todo o resto.

Um ambiente estranho

Se temos um Deus estranho provavelmente teremos um ambiente estranho de vida e adoração. Isso é perceptível em muitos ministérios de jovens. Existe uma grande tentativa de criar um ambiente “diferentão”, uma outra dimensão da igreja. Por exemplo, sabemos que o Deus da Bíblia é um Deus de decência e ordem (1 Co 14.40), não sabemos? Por que então tanta desordem e indecência no meio dos jovens? A resposta: a visão de Deus estranha às Escrituras. Pense num culto normal de domingo de uma igreja e pense naquele culto de jovens badalado da sua cidade. Por que eles são tão diferentes. Por que as coisas valorizadas no culto dominical normal não são valorizadas no sábado a noite.

Um ambiente de jovens invertido não se justifica. Nenhum ministério tem a prerrogativa bíblica de criar um ambiente estranho. O que estou querendo dizer com isso? Não me oponho a contextualização de linguagem e roupagem, mas tudo deve ser feito dentro do limite bíblico. Esse mundo totalmente diferente e invertido acaba viciando os jovens e o mantendo preso a um formato. Muitos não crescem, não gostam de ir a igreja aos domingos e querem continuar mimados pelo deus estranhos dos jovens. E o grande problema é esse: a criação de uma realidade jovem paralela ao restante da igreja é a busca por tornar o ministério mais parecido com o presente século.

Um louvor estranho

No culto de domingo as luzes estão acessas, no de sábado apagadas. No de domingo a música está num volume agradável onde podemos ouvir os demais irmãos cantando, no sábado o volume é máximo. No domingo a liturgia segue normal, no sábado ela é substituída pelo entretenimento. No domingo temos um pregador bem vestido, normalmente, no sábado temos alguém fantasiado ou com roupas que não usaríamos no domingo. No domingo fazemos uma adoração voltada para os crentes, no sábado um show voltado para os incrédulos. Por que duas realidades diferentes? Só podemos encontrar resposta numa visão de Deus diferente.

Deus deixou claro um padrão de louvor ao seu nome. Seria enorme a defesa bíblica de cada passagem, mas podemos resumir e ficar com o princípio de que Ele está procurando adoradores em “Espírito e em Verdade” (Jo 4.24), ou seja, cristãos verdadeiros adorando através da verdade aplicada pelo Espírito. No mundo invertido dos ministérios de jovens a verdade nas letras musicais pouco parecem importar diante da forma de apresentação. Aliás, as letras estranhas que cantam por ai é a maior expressão do deus estranho que pregam por ai.

Uma pregação estranha

Falando em pregação… quanta coisa estranha é feita com ela no meio dos jovens. Não vou nem falar de reduzir o tempo, eu bem queria que fosse apenas isso. Deus nos deixou um modelo de pregação (ver Atos), nos deixou um conteúdo de evangelização e exortação (Ler Jesus e Paulo) e nos disse como Ele chama pessoas a fé (Rm 10.13-17). Por que o restante da igreja tenta seguir essas verdades e o ministério de jovens parece ter descoberto uma forma mais legal de fazer?

A pregação estranha é a propagação e perpetuação do mundo estranho invertido. A realidade bíblica da pregação expositiva (por passagem ou temas) é substituída por coisas estranhas do tipo motivacional, humorística, entretenimento, graça barata, loucuras, e secularismo. Como disse Hernandes Dias Lopes, quando a teologia é ruim (estranha), quanto mais se prega pior fica. O monstro da realidade paralela se alimenta de pregações estranhas às Escrituras.

Um comportamento estranho

Tudo isso que acabei de citar gera um relacionamento estranho. Nesse mundo invertido a lei de Deus se faz também estranha. Jovens homens estão cada vez mais ameninados e jovens mulheres cada vez mais sensualizadas. É comum ver um palavreado estranho (entenda palavrões), vestes estranhas e brincadeiras estranhas. E o que é pior, esses jovens pensam que podem transitar o tempo todo entre as duas realidades sem nenhum desgaste ou prejuízo. Nesse caso esses ministérios de jovens são piores do que o misterioso centro de pesquisas de Hawkins.

Aqui fica a lição que até a série pode nos ensinar. O contado entre essas duas realidade e o trânsito entre elas é perigo e pode se tornar devastador. Na primeira temporada encontramos um professor de ciências afirmando que é necessário uma grande quantidade de energia para abrir portais entre as duas dimensões. E é triste ver tantos líderes e jovens gastando inutilmente uma grande quantidade de energia justamente para viverem num mundo invertido cheio de coisas estranhas por conta de uma visão estranha de Deus (Os 4.6)

Como fechamos esse portal?

A resposta é uma: não dividamos a realidade da igreja em duas. Só existe uma realidade e uma das piores coisas que podem acontecer numa igreja é esse mundo invertido jovem se tornar tão forte ao ponto de engolir toda a verdadeira dimensão eclesiástica. Jovens não precisam de um mundo invertido, ninguém precisa. Aqui estão alguns pontos para lutarmos contra essa dupla dimensão:

  • Elime o foco no entretenimento
  • Centralize o culto em Deus, não nos visitantes
  • Envolva os jovens com os mais velhos da igreja (incentive esses momentos)
  • Utilize o mesmo padrão de liturgia (bíblico) em todos os cultos
  • Pregue de forma simples e bíblica em todos os cultos
  • Não vista o ambiente jovem com a roupagem do mundo
  • Cante músicas com letras bíblicas em todos os cultos
  • Não se importe tanto com a quantidade de pessoas

Voltemos ao ambiente bíblico de culto, ao louvor bíblico, a pregação bíblia e ao comportamento bíblico. Voltemos a realidade que tem sua expressão máxima na verdade encarnada (Cristo) e escrita (Bíblia). Deixemos as “stranger things” apenas no Netflix…

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Pano de fundo do final da idade média

A Reforma começou com Martinho Lutero, mas ele foi influenciado pela doutrina e práticas pastorais que o precederam por séculos. Precisamos começar compreendendo alguns dos principais fatores que impactaram os avanços feitos na Reforma por Lutero.

1. Antes de Lutero outros viram problemas na Igreja Católica:

  • John Wycliffe (m. 1320) e Jan Hus (m. 1415), por exemplo, viram erros doutrinários dentro da Igreja Católica que precisavam ser tratados.
  • Mesmo alguns católicos humanistas como Cardinal Gasparo Contarini (m. 1542) ensinaram a justificação pela fé até que o Concílio Católico de Trento (1545–63) condenou essa visão.
  • O grande humanista Desidério Erasmo [Erasmo de Roterdã] e outros sabiam que a igreja precisava de uma reforma moral no seu alto escalão, incluindo o papado, e escreveram sátiras ácidas contra sua imoralidade.

2. Havia várias doutrinas católicas de salvação:

  • Houve um interesse renovado no pensamento de Agostinho (m. 430), incluindo sua ênfase na completa soberania de Deus. Esse, entretanto, foi a menor dos fatores.
  • A maioria, como Tomás de Aquino [1], acreditava que deveríamos cooperar com a graça de Deus, disponível aos homens através dos sacramentos.
  • Alguns poucos — nominalistas, ou “o jeito moderno” — criam que antes que, alguém pudesse receber a graça de Deus nos sacramentos, deveria dar o primeiro passo. Esse ensinamento de ter que “fazer o seu melhor” para receber a graça de Deus (em latim: facere quod in se est) foi o que Martinho Lutero aprendeu. Isso quase o deixou louco enquanto lutava com sua sensível consciência para saber se havia feito o suficiente.
  • Essas duas últimas visões levaram muitos a duvidar se haviam feito boas obras o suficiente para entrar no céu ou se seriam punidos por séculos no purgatório.
  • Em certo sentido podemos dizer então que a Reforma foi fundamentalmente uma reação bíblica e pastoral contra a teologia católica, e que a segurança da salvação era sua questão existencial mais importante. Na teologia de Lutero havia uma resposta bíblica para a pergunta “o que devo fazer para ser salvo?”, uma que não tinha sua ênfase no esforço humano, mas na graça de Deus que nos é dada em Cristo.

3. O humanismo foi importante.

  • Humanismo foi uma abordagem educacional que enfatizou a necessidade de ir ad fontes (“às fontes”) , lendo no original grego e latim a literatura greco-romana.
  • Nesse interesse humanista, Erasmo publicou o Novo Testamento Grego em 1516. Isso teve mais impacto na Reforma do que qualquer outro evento, pois agora pensadores acadêmicos poderiam, pela primeira vez em séculos, ler o NT em sua língua original.
  • Por exemplo, um ano após a publicação de Erasmo, ela foi usada por Lutero nas 95 Teses, quando ele disse que a mensagem de Jesus era “arrependimento” (em grego) e não “faça penitência”, o que foi a leitura latina por séculos.

Martinho Lutero (1483–1546) e o Luteranismo

A busca de Lutero pela certeza da salvação — juntamente com sua leitura de Agostinho e, especialmente, do Novo Testamento — levaram aos avanços da Reforma Protestante. Ela começou com Lutero esforçando-se para entender Romanos 1:17 em seu contexto imediato, o que o fez questionar se a venda de indulgências era apropriada, posteriormente a crítica de outras doutrinas católicas na esperança da reforma da igreja, e acabou com sua excomunhão. Assim começaram os primeiros grupos “protestantes”, apropriadamente nomeados por causa de seu fundador. James Atkinson está certo: “A Reforma é Lutero e Lutero é a Reforma”.

  • Pelo seu desejo de salvar sua alma, Lutero entrou em um monastério agostiniano em 1505.
  • Batalhando contra profundas dúvidas espirituais (em alemão: Anfechtungen), Lutero encontrou conforto na leitura de Santo Agostinho. Mas foi especialmente ajudado pelo Novo Testamento na língua original.
  • Para que tirasse a cabeça de suas perguntas introspectivas, seus superiores o mandaram fazer um Ph.D, e em 1512 se tornou professor de Bíblia de Wittenberg.
  • Ele poderia ensinar quaisquer livros da Bíblia que estivesse interessado, e suas escolhas foram uma incrível lista de “quero-me-tornar-um-protestante”: Salmos (1513–1515); Romanos (1515–1516); Gálatas (1516–1517); Hebreus (1517–1518); e Salmos mais uma vez (1518–1519).
  • Em 31 de Outubro de 1517, Lutero publicou suas 95 Teses para debater com outros acadêmicos se era apropriada a venda de indulgências para diminuição do tempo que uma alma passaria no purgatório, sofrendo pelos seus pecados. Lutero nem imaginava que isso seria um toque de trombeta para a Reforma. Na verdade, refletindo tempos deles, ele chamou as teses de “fracas e papistas”.
  • Mas sua obra atraiu a atenção da igreja, e sua resposta para Lutero obrigaram o monge a desenvolver sua teologia rapidamente. Alguns dos eventos mais importantes foram:
  • Sua exposição da “teologia da cruz” (em contraste com a “teologia da glória”, que marcava a justificação pelas obras e orgulho da igreja Católica) na Disputa de Heidelberg (1518). O reformador Martin Bucer disse que se converteu ouvindo Lutero em Heidelberg.
  • Em “Dois Tipos de Justiça” (1518) Lutero distingue entre a “justiça outra” de Cristo, que é dada para o cristão pela fé, e a “justiça própria”, resultado da justiça imputada de Jesus.
  • Na Disputa de Leipzig (1519) contra Johann Eck, Lutero chegou a conclusão que apenas a Bíblia (sola Scriptura) era a autoridade em questões de doutrina e prática cristãs.
  • No Cativeiro Babilônico da Igreja (1520) Lutero negou os sete sacramentos da igreja em prol das suas ordenanças bíblicas — batismo e eucaristia.
  • Lutero ensinava a presença corpórea de Cristo “em, com e sob” (nas palavras dos teólogos luteranos posteriores) o pão e vinho da Ceia.
  • Lutero acreditava que crianças deveriam ser batizadas depois que o Evangelho fosse pregado no culto batismal já que Deus soberanamente daria fé através do Evangelho.
  • Em A Liberdade do Cristão (1520) Lutero expôs com muita beleza o papel da fé em unir o cristão com Jesus, assim entregando todos os benefícios de Cristo desde que começamos a crer.
  • Lutero foi inicialmente protegido da Igreja Católica por Frederico o Sábio, da Saxônia, e pelo jovem Imperador Romano-Germânico, Carlos V, que não desejava assumir seus deveres imperiais rapidamente. Mas com o desenvolvimento de sua teologia, Lutero invocou a ira tanto da igreja como do Império. Ele foi excomungado pela Igreja Católica em Janeiro de 1521, e declarado criminoso pelo Império na Dieta de Worms em Abril o mesmo ano, depois de um discurso onde declarava que era cativo da Escritura, e não da tradição da igreja.
  • Após isso foi exilado por Frederico no castelo de Wartburg, onde, apesar de afirmar ser atormentado pela preguiça, traduziu o Novo Testamento para o alemão em cerca de 11 semanas!
  • Lutero retornou para Wittenberg e liderou os esforços da Reforma pelo resto de sua vida. Sua abordagem era uma reforma lenta, só mudando a liturgia e práticas católicas no que era essencial para o Evangelho.
  • Isso levou ao chamado “princípio normativo” do luteranismo (e anglicanismo), a ideia que qualquer coisa era permitida durante o culto da igreja, desde que as Escrituras não a proibissem explicitamente.
  • Em contraste temos o “princípio regulador” do calvinismo, a noção de que Deus cuidadosamente regulou nas Escrituras como quer ser adorado. A igreja então é obrigada a só fazer durante o culto o que a Escritura explicitamente requer ou modela.
  • Lutero casou com Catarina von Bora em 1525.
  • Também em 1525, Lutero escreveu um de seus grandes tratados, A Escravidão da Vontade, em resposta a obra do ano anterior, Sobre o Livre Arbítrio, de Erasmo. A Escravidão de Lutero é uma defesa exaustiva da doutrina bíblica da soberania de Deus na salvação, exigida devido a morte da humanidade em pecado.
  • Na Disputa de Malburgo (1529), Lutero e Ulrico Zuínglio falharam em chegar num consenso Protestante quanto a Ceia do Senhor. Por causa disso, as tradições luterana e reformada do protestantismo continuaram como movimentos distintos ao longo do século dezesseis.
  • Os luteranos foram chamados de “protestantes” pela primeira vez na Dieta de Speyer, em 1529.
  • Lutero acreditava que a justificação pela fé somente (sola fide) era central para a fé cristã. Nos Artigos de Esmalcalde de 1537 disse: “Nada nesse artigo [justificação] pode ser abandonado ou comprometido, mesmo se o céu, a terra e as coisas temporais sejam destruídos… Nesse artigo está tudo o que ensinamos e praticamos contra o papa, o diabo e o mundo. Portanto devemos estar certos e não ter dúvidas quanto a ele. Caso contrário, tudo estará perdido, e o papa, o diabo e todos nossos adversários serão vitoriosos”.
  • No final de sua vida Lutero falava com uma frustração cada vez maior contra os judeus, decepcionado por ainda não haver uma conversão em massa para Cristo como seu Messias. Seus comentários ácidos e pecaminosos foram usados por nazistas em defesa do Holocausto.
  • Depois da morte de Lutero em 1546, Filipe Melanchthon (m. 1560) passou a liderar o Luteranismo. Ele mudou a teologia agostiniana de Lutero, dando ênfase na necessidade de cooperação humana com a persuasão divina do pecador pelo Evangelho. No final do século o Luteranismo havia caminhado em uma direção que — pelo menos soteriologicamente falando — Lutero não reconheceria [2].

João Calvino (1509–64) e a tradição Reformada

A outra principal tradição Protestante traça suas raízes até Calvino. O calvinismo[3] tinha muito em comum com o luteranismo (i.e., sola Scriptura, justificação sola fide, pedobatismo). Ainda assim se desenvolveu em direções mais consistentemente bíblicas em doutrinas como predestinação e adoração na igreja.

  • O fundador dessa tradição foi Zuínglio, que ministrava em Zurique, na Suíça em 1519–1531. Morreu lutando contra Católicos que invadiam a cidade. Suas ênfases teológicas eram:
  1. Pregação expositiva (não sabendo onde começar, já que nunca havia visto alguém pregar assim, escolheu Mateus 1:1).

2. O princípio regulador do culto.

3. Uma abordagem aliancista na leitura das Escrituras, vendo uma grande continuidade do Antigo para o Novo Testamento, diferente da abordagem de Lutero, que focava em uma descontinuidade da Lei e do Evangelho.

  • João Calvino então tornou-se o líder dessa tradição. Sua biografia não é tão empolgante quanto a de Lutero e Zuínglio.
  • Nascido na França e formado como um advogado na tradição humanista, Calvino se converteu para o Protestantismo entre 1533 e 1535.
  • Desejando ser um escritor, enquanto fugia da França por conta de sua fé parou por uma noite em Genebra, na Suíça, em 1536. O evangelista protestante Guilherme Farel (m. 1565) convenceu Calvino para ficar e ajudar a liderar a causa da Reforma na cidade.
  • Calvino foi exilado de Genebra durante 1538–41 para Estrasburgo, onde foi grandemente influenciado por Martin Bucer (m. 1551), um dos grandes pastores da Reforma. Ali Calvino casou com Idelette de Bure.
  • Quando voltou para Genebra, Calvino foi o principal promotor teológico contra o unitário Michael Servetus, que foi executado como herege em 1553. Calvino não era o juiz nem fazia parte do júri. Essa honra duvidosa vai para o conselho da cidade de Genebra.
  • Calvino trabalhou incansavelmente até quase o final de sua vida, sofrendo problemas de saúde causados em parte pelas poucas horas de sono (ao redor de 4 horas) todas as noites pela maior parte de sua vida adulta.
  • Calvino foi o grande sistematizador da Reforma. Algumas de suas contribuições teológicas mais importantes incluem:
  1. As Institutas da Religião Cristã. A primeira edição foi publicada em 1536; e a última em 1559 era cerca de cinco vezes maior. As importantes doutrinas que Calvino discute na obra compreendem:

— Conhecimento de Deus;

— As Escrituras. Deus utiliza uma linguagem adequada a nossa capacidade limitada, comparável a como um pai fala com seu filho; o Espírito autentica a veracidade das Escrituras para os cristãos enquanto esses as leem;

— A absoluta providência de Deus;

— Devido a nosso pecado em Adão, Deus deve nos salvar; não podemos fazer nada para nossa própria salvação;

— Justificação é pela fé somente, através da obra de Cristo somente, somente por causa da graça de Deus;

— Ela resulta na união com Cristo;

— Ela só ocorre pela obra de Deus em predestinar os eleitos, uma predestinação graciosa, soberana e dupla (o que significa que Deus também decidiu eternamente o destino dos não-eleitos) [4];

— A principal metáfora para a vida cristã é a de um peregrino; um crente em terra estranha, levando a cruz de Cristo em seu caminho para o céu;

— A igreja visível não é a mesma que a igreja invisível, essa última consistindo apenas pelos eleitos;

— Cristo está espiritualmente presente na Ceia do Senhor, enquanto o Espírito levanta o cristão para ter comunhão com Cristo no céu;

— Defende o pedobatismo, enxergando a continuidade do rito da circuncisão da antiga aliança com o batismo na nova aliança.

2. Calvino era um energético escritor de comentários, sendo seu primeiro o do livro de Romanos (1540). Seu objetivo era ser “claramente breve”.

3. Sua Resposta a Sadoleto (1539) é a mais curta e vigorosa introdução a teologia de Calvino. Também incluiu alguns dos únicos trechos autobiográficos de sua obra.

  • Calvino seguia firmemente o princípio regulador, chegando a só permitir o canto acapella dos Salmos durante o culto.
  • O conselho da cidade de Genebra pagava um estenógrafo para escrever os sermões de Calvino (ele pregava várias vezes por semana, normalmente sem anotações, apenas com o Antigo Testamento em hebraico ou o Novo Testamento em grego), que seriam então publicados.
  • Calvino deu destaque para a importância de missões, enviando mais de 100 jovens para a França católica como plantadores de igrejas e até mesmo mandando dois genebrinos para o Brasil. Calvino não era um hipercalvinista! [5]

A tradição anabatista

Lutero e Calvino foram “reformadores magistrais” pois foram, em certo sentido, ajudados pelo governo (o magistério). Os anabatistas foram a primeira tradição de “igreja livre” pois achavam que a igreja e o governo deveriam se desassociar um do outro. Apesar do nome que pode dar a entender que eram proto ou pré-batistas, eles tinham muitas visões únicas. Foram ferozmente perseguidos tanto por protestantes quanto católicos em quase toda a Europa, encontrando abrigo apenas em partes da Morávia e Holanda.

  • Alguns de seus líderes e eventos mais importantes foram:

— 1525: o primeiro batismo de alguém como professo seguidor de Cristo em Zurique, com imediata perseguição em todos os lugares que fugiam.

— 1527: a publicação da Confissão de Schleitheim, uma declaração de sete pontos doutrinários essenciais da fé anabatisma.

— 1528: o teólogo anabatista mais bem treinado, Balthasar Hubmaier, e sua mulher foram executados por católicos em Vienna.

— 1529: a Dieta de Speyer tornou ilegal que qualquer pessoa no Sacro Império Romano-Germânico fosse “rebatizada” (ana-batizada),

— Thomas Müntzer (m. 1525), um radical que comandou exércitos durante a Guerra dos Camponeses, e a queda em imoralidade da cidade de Münster liderada por dois anabatistas em 1534–35, manchou a reputação dos anabatistas, retratados como uma seita pecaminosa

— Menno Simons (m. 1561) foi o escritor anabatista mais antigo e que viveu por mais tempo.

  • Algumas crenças distintivas dos anabatistas:

— A igreja era uma comunidade de discípulos comprometidos que haviam considerado o custo de seguir Jesus, incluindo o sofrimento pela sua fé. Ela é distinta da sociedade secular ao seu redor.

— O batismo (geralmente feito por aspersão, e não a imersão na água) era somente para aqueles que fizessem uma profissão de fé em Jesus.

— Cristãos devem ser separados do mundo, então não devem servir o governo municipal ou os militares.

— A igreja deveria “banir” (i.e., excomungar) aqueles que falharam em viver de acordo com seus requisitos.

— Uma aversão a soteriologia calvinista.

Reação católica no Concílio de Trento

Já percebemos como Lutero se posicionou quanto a Igreja Católica. Finalmente, de 1545–1563, o Concílio de Trento respondeu ao protestantismo de forma decisiva, fazendo contrapontos as doutrinas da autoridade da igreja, justificação, sacramentos, etc.

  • Quanto a autoridade em matéria de doutrina, Trento disse que a verdade é contida tanto “nos livros escritos [da Bíblia] quanto nas tradições não escritas — essas tradições não escritas, isto é, recebidas ou do próprio Cristo ou pelos próprios apóstolos (sendo ditadas pelo Espírito Santo) e vieram até nós sendo transmitidas como de mão em mão”. Anularam o sola Scriptura.
  • Quanto a justificação, Trento claramente a identificou como consistindo tanto do perdão de pecados como da santificação: “Justificação não é apenas a remissão de pecados, mas a santificação e renovação do interior do homem através do recebimento voluntário da graça e dádivas pelas quais um homem se torna justo ao invés de injusto”.
  • Trento tornou anátema (excomungou) aqueles que ensinavam que a justificação era sola fide (“pela fé somente”) pela imputação da justiça de Cristo somente.
  • Trento também tornou anátema a visão de que uma pessoa justificada poderia ter a segurança de sua salvação nessa vida (esse privilégio sendo dado apenas a alguns “santos”).
  • Trento também reafirmou o ensinamento católico dos sacramentos, incluindo a doutrina da transubstanciação (que o pão e o vinho miraculosamente se transformam no corpo e no sangue de Cristo), juntamente com a crença de que a Missa é um sacrifício propiciatório que representa de uma maneira não-sangrenta auto-oferta de Cristo no altar da cruz novamente para os fiéis quando tomam a eucaristia.
  • A reação de Trento para o “princípio formal” (sola Scriptura) e o “princípio material” (justificação sola fide) demonstra que a Reforma ainda tem uma profunda importância para os cristãos que creem na Bíblia. Já que reconhecemos nosso pecado e nossa inabilidade de fazer o bem, e já que vimos que Cristo conquistou todas as coisas necessárias para nossa salvação, dependemos totalmente de Sua misericórdia e encontraremos descanso para nossas almas apenas nele. O que Lutero, Calvino e outros redescobriram no século dezesseis ainda é tão relevante para nós quanto foi para eles.

Autor: Shawn Wright
Original: What Your Church Members Should Know About the Reformation
Tradução: Eduardo Almeida

[1] nota do tradutor: teólogos como R.C. Sproul acreditam que Tomás de Aquino possuía uma visão soteriológica mais agostiniana do que normalmente é retratado.

[2] n.t.: alguns teólogos discordariam desse ponto. O seguinte trecho de um dos principais documentos de fé luteranos deve exemplificar como o debate do monergismo/sinergismo luterano é mais complexo do que aparenta: “A eterna eleição de Deus, porém, não só vê e sabe antecedentemente a salvação dos eleitos, mas por sua graciosa vontade e beneplácito de Deus em Cristo Jesus, também é causa que cria, opera, ajuda e promove a nossa salvação e tudo o que a ela pertence. E nossa salvação está fundamentada nisso de maneira tal que “as portas do inferno” (Mt 16.18) nada podem contra ela..” (Livro de Concórdia. In: Fórmula de Concórdia. Declaração Sólida — Artigo XI, pp. 661,663,664)

[3] n.t.: nome nunca incentivado por Calvino, assim como luteranismo não era incentivado por Lutero

[4] n.t.: a discussão sobre predestinação dupla divide opiniões entre teólogos reformados e seus pormenores fogem do escopo do autor nesse artigo

[5] n.t.: nome pejorativo dado aqueles que, usando como desculpa a soberana eleição de Deus, ignoram a necessidade de evangelismo e missões



Qualquer um que conheça um pouco do humor cearense conhece os personagens Coxinha e Doquinha. Para quem não conhece, Coxinha é o estereótipo daquele que na frente de alguém esbanja elogios, mas quando esse alguém dá as costas, ele começa a difamar, ou tesourar, na linguagem coloquial, o dito cujo. Tanto Coxinha como Doquinha são exemplificações de como o pecado da fofoca e difamação pode ser esvaziado de seu caráter negativo quando a situação que deveria criar repulsa é vertida em risos.

O irônico é que sempre somos levados a rir com Coxinha e Doquinha, mas nunca nos colocamos no lugar daquele que é difamado. Aliás, quem gosta de ser difamado e por cima disso ser motivo de piada? Então por que tantas vezes somos estes que fofocam sobre os outros? E o que é pior, por que isso acontece em nossas igrejas? Por que aqueles que louvam no início do culto são aqueles que saem para comer aquela pizza e fofocar sobre os outros depois do culto?

Várias desculpas podem ser apresentadas para a fofoca: “Ele fez isso em público, estamos só comentando”; “Isso não é mais segredo, todo mundo já sabe”; “Ela não se preserva” e por aí vai.  A fofoca é uma deturpação da correta aplicação da disciplina eclesiástica e uma autoflagelação do corpo de Cristo. Ela não só contribui para o não crescimento em maturidade do corpo de Cristo, como é uma forma que esconder seus próprios pecados fazendo parecer que o outro é mais pecador do que você quando fofoca. A fofoca também não contribui para a santificação do corpo, pois o alvo da fofoca só saberá que é motivo de conversas pelas bocas que estão sendo difamadoras, mas não santificadoras.  Ou seja, a pessoa continua em pecado, ou em simplesmente algo que foi desagradável, enquanto outros se acovardam fofocando sobre ela.  Isso é o contrário do que A Bíblia nos ensina.

A Bíblia não ensina que devemos falar sobre os pecados ou falhas dos outros para terceiros, quartos e quintos, mas para aquele que se encontra em erro. Quer seja um pecado contra nós mesmos (Mt 18.15), quer seja porque percebemos o erro do outro e engajamos um processo de convertê-lo desse erro (Tg 5.19-20), o correto a ser feito é falar com a pessoa o erro cometido por ela para que possamos “salvar a alma da morte” e “ganhar o irmão”.

O processo de disciplina, caso a conversa em particular não resolva e seja necessário outras testemunhas, sempre deve ser mantida no menor número possível de pessoas para que a imagem do irmão em pecado seja preservada. O que a fofoca faz o oposto disso, ao contrário de salvá-la da morte, estamos apressando sua autodestruição, e ao contrário de ganhar o irmão, estamos perdendo-o, ao contrário de preservá-lo, estamos difamando-o.  Ao invés de tratar a ferida, a fofoca é como o dedo que cutuca e ri disso.

A fofoca é uma mácula para a unidade do corpo de Cristo. A igreja deve ser uma comunidade de pessoas que se admoestam em bondade e em conhecimento uns aos outros (Rm 15.14).  Devemos ser aqueles que zelam pela integridade do corpo de Cristo, devemos ser aqueles que zelam pelo bom nome da Noiva de Cristo. Imagine que uma pessoa fofoque ou fale mal de sua namorada(o)/noiva(o)/cônjuge. Certamente você não gostará. Quanto maior deve ser então o desgosto de Cristo quando ele vê que crentes falam mal uns dos outros, comportando-se como descrentes e escarnecendo da Noiva pela qual ele se sacrificou?

Não se engane. Tanto erra aquele que fofoca quanto aquele que ouve sem encerrar o assunto. Ser conivente com o erro é contribuir para sua propagação. Novamente, não se engane. Quem fofoca PARA você, fofoca DE você. O fofoqueiro não é uma pessoa confiável. Ele é uma pessoa que precisa de exortação, ele precisa aprender a lidar com os pecados cometidos pelos outros de forma madura, indo tratar com aquele que pecou primeiramente.

O fofoqueiro precisa se arrepender de seus pecados, porque é bem provável que por detrás da fofoca exista uma pessoa que não reconhece seus próprios pecados, que faz questão de falar do pecado dos outros como uma forma de esconder os seus. O fofoqueiro é uma pessoa falsa e suas palavras de bênção não terão valor algum, pois da mesma fonte não pode jorrar bênçãos e maldições. O fofoqueiro provavelmente tem problemas de perdão e precisa aprender a perdoar, pois a boca fala do que enche o coração. Se ele é aquele que faz questão de aviltar o pecado alheio sem contribuir para a santificação, ele não deve ter aprendido o valor do perdão.

Irmãos, não há motivo para fofoca. Cristo perdoou todos nossos pecados. Os passados, os presentes e os futuros. Isso significa que Cristo morreu por tudo aquilo que deveríamos ser motivo para santificação mútua e não fofoca. Devemos ser os instrumentos que contribuem para a santificação daqueles por quem Cristo morreu. Pense o quão ridículo é fofocar de um pecado de um crente pelo qual Cristo já morreu. Pense o quão patético é levantar sua voz para difamar aquele por quem Cristo já levantou a voz para dizer “está consumado”.

Portanto, da próxima vez que alguém disser: “Nem te conto”, responda: “Pois não conte mesmo e se arrependa!”.  Além disso, seja aquele que preserva a imagem daquele que foi adotado como filho de Deus pelo alto preço da morte de Cristo. Seja aquele que trata o pecado do outro admoestando-o com vistas a ganhar o irmão para que o corpo de Cristo cresça em santidade rumo à estatura do homem perfeito.

Matheus Fernandes, Membro da Igreja Batista Filadélfia e seminarista no Seminário e Instituto Bíblico Maranta – SIBIMA. 


SOLA GRATIA

O casamento é demonstração da graça imensurável de Deus, criado com o propósito de nos fazer experimentar um relacionamento de igualdade, amor, comunhão e complementaridade, assim como é a relação entre a Trindade. Quando um homem e uma mulher se unem estão, pela graça de Deus, tornando-se um só corpo, assim como o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um. A semelhança da Trindade, somos um sem deixar de ser dois, temos funções distintas, mas somos igualmente dignos e valiosos perante o nosso criador.

Não há fórmula mágica para ter um casamento feliz, somente através da graça de Cristo pecadores podem construir uma relação sólida e duradoura. É a graça que transforma homens em bons maridos, capacitando-os para liderar seu lar em amor. Somente a graça capacita mulheres para exercerem o auxílio idôneo para o qual foram criadas.

Sem a graça casamento nenhum resistiria às intempéries cotidianas, sem a graça não haveria renovo, perdão, recomeços. É somente pela graça de Deus que nos tornamos capazes de exercer amor e misericórdia com os nossos cônjuges. Somente um casamento firmado na graça permanece firme até o fim.

SOLA SCRIPTURA

O casamento é uma prática fundamentada nas Escrituras e não existiria a parte delas. Foi o próprio Deus quem celebrou o primeiro casamento quando, no princípio, criou homem e mulher e estabeleceu as regras para que ambos se unissem: “Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne.” (Gênesis 2:24). As bases fundamentais para o casamento estão contidas na palavra de Deus e somente ela deve ser tomada como regra de fé e prática pelos casais cristãos. A Bíblia é o melhor livro sobre relacionamento que existe, pois contém os conselhos deixados pelo próprio autor do casamento, ninguém pode nos instruir melhor que ele. Um casamento que não está fundamentado nas Escrituras irá ruir mais cedo ou mais tarde. Se nos afastarmos da Palavra nos entregaremos às paixões de nossa carne e seguiremos os desejos egoístas dos nossos corações, e nesse contexto um relacionamento que exige entrega e abnegação como o casamento não se justifica.

SOLA FIDE

O casamento é antes de tudo um ato de fé. Somente pela fé podemos confiar que dois pecadores conseguirão permanecer juntos até a morte. Somente pela fé obedecemos a ordem de deixar o conforto e comodidade da casa de nossos pais para nos dedicarmos a luta e ao esforço necessários para construir e manter um lar. Sem fé é impossível permanecer casado, pois as lutas e tentações são constantes. Somente tendo a convicção de que o casamento é a boa, perfeita e agradável vontade de Deus para homens e mulheres é que nos lançamos na aventura da vida a dois. Somente a fé nos faz crer que os filhos são bênçãos do Senhor e que mesmo diante das adversidades dos nossos tempos vale a pena construir uma família. A fé é a fonte de paz, segurança e esperança que todo casamento necessita e sem a qual já não existiriam famílias sobre a terra.

SOLUS CHRISTUS

Não há maior inspiração para os casais do que Cristo Jesus. Somente por meio de Cristo podemos compreender o real sentido do casamento. Somente olhando para o sacrifício dele na cruz homens e mulheres podem encontrar motivação para sacrificarem-se uns pelos outros. Somente olhando para o amor de Cristo um homem encontra forças para amar sua esposa e entregar a própria vida por ela se preciso for. Somente olhando para a humildade de Cristo que sendo igual a Deus se esvaziou de sua glória e se submeteu a vontade de seu pai vindo morrer em favor de pecadores é que mulheres conseguem perceber a beleza e a grandiosidade da submissão bíblica. O casamento deve ser um reflexo do relacionamento de Cristo com sua igreja, e somente mantendo os olhos e corações fixos em Cristo homens e mulheres poderão vivenciar o amor verdadeiro.

SOLI DEO GLORIA

O casamento não é sobre homens e mulheres em busca da felicidade. O casamento é sobre servos e servas buscando glorificar a Deus por meio de suas vidas comuns. Se transformarmos o casamento em algo para nós e sobre nós, ele irá desmoronar, pois nós somos falhos, inconstantes, egoístas e temos um coração desesperadamente corrupto (Jeremias 17:9). Mas quando compreendemos que o casamento é fruto da graça de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, fundamentado nas Escrituras com o propósito de glorificar o Criador, encontramos toda força e motivação que precisamos para permanecer firmes.

Que a graça de Deus, as verdades das Escrituras, o poder de Cristo e o desejo pela glória a Deus sejam os firmes fundamentos a sustentar nossos casamentos. Que cada casal, firmado nessas verdades possa seguir proclamando o lema da reforma: “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est”.

 

Isa Martins



Há um assunto interessantíssimo e muito complexo na teologia: a relação entre a antiga e a nova aliança. Dentro desse campo da teologia bíblica o tema da lei chama atenção. A pergunta principal a se fazer sobre ela é: Como o cristão se relaciona com a lei mosaica de Deus? Digo “lei mosaica de Deus” por estar me referindo a lei de Deus dada ao povo de Israel por meio de Moisés. Uma pergunta mais simples e direta seria: Ela ainda vale hoje?

Quero usar esse pequeno texto para discordar da visão reformada e apresentar introdutoriamente uma visão que penso ser mais bíblica. E claro, quero terminar mostrando que tudo isso faz diferença em nossas vidas. Não espere um grande e detalhado tratado teológico, mas encare as palavras a seguir como um empurrãozinho para você descer nesse grande tobogã da teologia.

A tripla divisão da lei

Se você é um reformado (aqui falo da teologia do pacto/aliancista) ou gosta da teologia reformada ou soteriologia calvinista, provavelmente você já ouviu a resposta que esse sistema oferece para nossas perguntas iniciais. Se trata de uma tripla divisão da lei mosaica. Essa forma de ver a lei enxerga toda a lei dada por Deus à Israel (não só os 10 mandamentos, mas todos os 600 e poucos) separada em três tipos distintos: moral, civil e cerimonial.

Nesse sentido a lei cerimonial diz respeito aos sacrifícios e trabalhos no tabernáculo/templo, a lei civil trata das peculiaridades de Israel como nação e a lei moral trata da vida e santidade de cada indivíduo. Assim, a resposta da teologia reformada é simples e fácil de entender. As leis cerimoniais e civis passaram e já não valem para o cristão, restando apenas a lei moral, os 10 mandamentos, para nós. Esse é um raciocínio que faz sentido, desde que não precisamos mais de sacrifícios e nem pertencemos a nação de Israel.

Argumentando em seu artigo no livro Continuidade e Descontinuidade, Knox Chamblin, defensor dessa posição, afirma que Jesus ensinou a lei de Deus “com base na tríplice tradição da lei” (p. 230). Sua defesa é a de que o Novo Testamento anula as leis cerimoniais e civis (estou de acordo) e confirma/aprofunda a lei moral (aqui discordo). Para Chamblin, “Mateus 5-7 não expõe uma nova lei” (p. 231), mas se trata de “uma forma mais radical de observância da lei” (p. 232), da mesma lei moral mosaica.

Mas será que essa tripartição da lei é bíblica? Por mais que o debate teológico seja bom e intenso, com textos bíblicos e argumentos bem trabalhados de ambos os lados, penso que não.

Porque não acredito nessa divisão

Em primeiro lugar, precisamos olhar para como os judeus receberam a lei. Não encontro base suficiente nas Escrituras que nos ofereça alguma divisão da lei nesses moldes. Como bem lembrou Rômulo Monteiro em seu excelente artigo, “alguns têm recorrido aos contrastes como os que encontramos em Oséias 6:6: ‘Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos’”, para justificar essa divisão. Bem, não é o que esse texto e outros textos do tipo estão sugerindo.

É difícil vermos um judeu entendo a lei mosaica dessa forma. Textos como os de Gálatas 3:10 (“todas as coisas que estão escritas no livro da lei”) e Gálatas 5:3 (“guardar toda a lei”) apontam para uma forte unidade da lei. Uma lei indivisível. Jesus, mesmo falando em uma parte “mais improtante” da lei em Mateus 23:23, ainda manteve uma noção de sua unidade. Não consigo ver nas Escrituras a lei sendo divida em suas partes morais, civis e cerimoniais.

Em segundo lugar temos a questão do sábado. Ele faz parte dos 10 mandamentos, que seriam a lei moral de Deus. Mas o sábado é moral ou cerimonial? Alguns advogam o seu lado moral, enquanto outros dividem o quarto mandamento entre uma parte cerimonial e outra moral. Para esses o princípio moral de guardar um dia da semana continua. Seja qual for a explicação, é comum na teologia reformada encontrarmos uma transferência de continuidade do sábado para o domingo, dia do Senhor.

Bem, novamente, não encontro base bíblica para dividir o sábado ao meio e nem para uma transferência do seu mandamento ou princípio moral para o domingo. Novamente, usam-se textos que se referem ao dia do senhor, mas onde estaria sua continuidade com o sábado? Para mim, o sábado é um excelente estudo de caso para ser feito nesse debate. É o calcanhar de Aquiles dessa visão reformada da lei.

Em terceiro e último lugar, não creio que estamos mais debaixo da lei mosaica. Creio na nova aliança como uma NOVA aliança mesmo, não uma antiga aliança RENOVADA. Gálatas 3:23-25 nos mostra que a lei serviu de guia até a chegada de Cristo e que após esse acontecimento não estamos mais debaixo dela.

“Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor.”

Os textos em Hebreus 7:22 e 8:6 falam de uma “aliança superior” feita em Cristo (tema de Hebreus). Ou seja, não uma renovação da antiga aliança, mas uma outra aliança distinta, superior a antiga. Isso é ainda mais reforçado pela passagem de Hebreus 7:12:

“Pois quando há mudança de sacerdócio, é necessário que haja mudança de lei”

As vezes em que o Senhor Jesus diz “Mas eu lhes digo” em Mateus 5 também sugere uma lista de novos mandamentos. Isso é corroborado quando percebemos que no discurso de Jesus existem coisas que não estão sendo apenas aprofundadas, mas alteradas ou colocadas como novidade. Veja o caso da relação entre “olho por olho e dente por dente” (v.38) e os novos mandamentos de Cristo nos versos 39 a 42. Não me parece um simples aprofundamento, mas algo novo e diferente.

Para encerrar essa rápida resposta, preciso mostrar o argumento de Douglas Moo em relação a Jesus como cumprimento da lei (Mt 5.17). Para ele a continuidade da lei e o fato de Jesus a cumprir se dá no “plano de um esquema histórico de salvação, de ‘expectativa-concretização’”. Isso quer dizer que Jesus é aquilo que a lei sempre pretendeu antecipar. Isso está em harmonia com o que Paulo afirma ao dizer que Cristo é o telos da lei (Rm 10:4). Moo resume:

“No contexto da teologia de Paulo, dizer que Cristo é o Telos da lei é o mesmo que dizer que ele é o ponto culminante para a lei mosaica. Ele é seu ‘objetivo’, no sentido de que a lei sempre previu e esperou ansiosamente por Cristo. Mas ele é também o seu ‘fim’, visto que nele o cumprimento da lei encerra aquele período de tempo quando a lei foi um elemento fundamental no plano de Deus.” (Continuidade e Descontinuidade, p. 252)

Vivemos sem lei nenhuma?

Muitos acusam essa posição que estou defendendo de ser antinomiana. Em outras palavras, que negamos a necessidade e/ou existência de uma lei para os cristãos. Isso não é verdade. Para não deixar esse texto muito longo, quero resumir esse ponto e responder dizendo que estamos debaixo da lei de Cristo. Em sua argumentação em 1 Coríntios 9:20-21 Paulo fala daqueles que não estão debaixo da lei como os judeus, ou seja, da lei mosaica, mas se refere a estes como estando agora debaixo da lei de Cristo.

“Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, mas sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a lei.” (1 Co 9:21)

Portanto, meu argumento final e resumido seria esse: Como igreja, comunidade da nova aliança, não estamos mais debaixo da lei mosaica da antiga aliança, nem mesmo de sua parte moral, visto que não existe essa tripartição. Estamos agora debaixo da lei de Deus que foi dada por meio do seu filho, ou seja, a lei de Cristo.

Isso muda alguma coisa?

Muda. Mas antes de qualquer coisa é preciso fazer uma observação. Não desprezamos os 10 mandamentos e a lei mosaica. Ela é útil como toda palavra de Deus é útil (2 Tm 3:16). Nela podemos ver expressões do caráter eterno de Deus e também retirar princípios eternos para nossas vidas cristãs. Só não estamos mais debaixo da obrigação de guardá-la.

Uma consequência prática e bem visível dessa visão que apresento como resposta é a questão do sábado/domingo. Não temos a obrigação de guardar nenhum dos dois. Sabemos que precisamos descansar e congregar, mas não devemos nos sentir em pecado por não estarmos fazendo isso num dia determinado, como o domingo por exemplo. Se você trabalha num shopping aos domingos e só pode frequentar com regularidade o culto da quarta, não se veja como um transgressor por isso.

Um direcionamento interessante que temos ao entrarmos nessa visão de uma nova aliança com uma nova lei é o de mudar o nosso ponto focal de discussão ética. Talvez devêssemos olhar mais para a perspectiva escatológica da lei de Cristo e do seu reino e menos para os 10 mandamentos. Elas se parecem em muito, mas podemos perder pontos interessantes olhando mais ou somente para trás.

Olhando a questão por uma lente macro, esse entendimento influenciará toda nossa hermenêutica do antigo testamento. Questões como circuncisão e batismo sofrerão alterações e estaremos mais próximos de entender alguns pontos importantes da teologia bíblica e das relações entre os testamentos. Como o querido professor Rômulo Monteiro costuma dizer em seu canal, essa é uma “provocação teológica” que tem muitas ramificações.

Se você se sentiu provocado no bom sentido, então esse texto cumpriu seu objetivo. Que possamos estudar e nos aprofundar no assunto. Não se fechando em apenas uma visão, mas buscando compreender da forma mais fiel possível a revelação bíblica.

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Um homem nu sendo tocado por outras pessoas, incluindo uma criança, dentro de um museu e sob a prerrogativa de arte… (não vou colocar nenhuma foto disso aqui) Um cena grotesca como essa não surge do nada. Na verdade, muito já aconteceu para chegarmos até aqui. Há um grande arcabouço teórico e ideológico por trás de tamanha atrocidade.

Tudo começa no reconhecimento famoso de Nietzsche (imagem acima) que “Deus está morto. Deus continua morto. E nós o matamos”. A morte de Deus não é simplesmente a morte de uma figura divina, mas de todo o padrão absoluto de verdade e de moral. Derrida é um grande exemplo disso. Pegando carona na morte de Deus, ele tratou de matar o significado autoral dos textos. Sua teoria hermenêutica desconstrucionista tratou livros e escritos como conjuntos de signos que são interpretados livremente pelos leitores. O significado não está em alguém que intencionalmente escreveu aquilo, mas no sentido que eu, como leitor, quiser dar aos signos.

Uma soma de Nietzsche e Derrida nos mostra a morte do autor da criação e da intenção desse autor para sua obra. Isso abre portas, por exemplo, para a famosa frase de Simone de Beauvoir: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. A realidade (signo) do “ser mulher” deixa de ter um significado fixo e passa a ser uma construção social livre de um padrão absoluto. Aqui temos a origem da nefasta ideologia de gênero. Perguntas que nunca passaram pelas nossas cabeças e nem deveriam passar surgiram: Nascemos homens e mulheres ou isso é uma construção social?

Hermenêutica (como interpretemos) e cosmovisão (como enxergamos o mundo) tem tudo a ver. A interpretação extrapola textos e nos diz como lemos o mundo e assim construímos uma cosmovisão. Se Deus, o autor da criação está morto, o padrão hermenêutico absoluto está perdido. E com ele o padrão moral e ético. O que é arte? Quais são os seus limites? O que é pedofilia? O que é imoral ou moral? Sem Deus, essas respostas estão nas mãos de qualquer um, principalmente daqueles que dominam o mainstream. Uma das resposta sobre a expressão artística em questão foi que as obras e interações da mostra visam a mostrar a “pluralidade de influências que ajudam a criar a identidade da arte no Brasil” (O Globo). Quando Deus é excluído, ficamos a mercê dessa “pluralidade de influências”, incluindo a imoralidade e pedofilia.

Eu não sei se você é protestante, adventista, católico ou de qualquer outra vertente cristã, mas precisamos bater o pé e dizer basta. O ocidente foi erguido sobre valores eternos e absolutos de uma cosmovisão judaico-cristã. Para nós, Deus não está morto e por isso ainda existe e sempre existirá um padrão hermenêutico e moral para tudo, inclusive para a arte. E sim meus amigos, Deus impõe limites a sua criação como um autor impõe limites de significado a um livro. O pecado é real e identificável. Chame de censura se você quiser. eu chamo de moral. Um homem nu sendo tocado não é arte, doa a quem doer. Como li meu irmão escrever, “se tudo é arte nada é arte”. Precisamos erguer a voz em defesa dos nossos valores morais!

Aliás, me chame do que você quiser, religioso, fundamentalista, alienado, fanático, fascista, moralista ou de qualquer xingamento desses inventados pela esquerda. Prefiro receber todos esses adjetivos do que ver nossos filhos sendo atraídos pela arte da pedofilia e imoralidade. Se você quer defender nossas crianças dessas vergonhosas e imorais iniciativas só há uma solução definitiva, voltarmos para o centro absoluto de toda verdade e moral: DEUS. Foi Ele que deu significado a tudo que existe! E esse significado único continuará como verdade enquanto Deus existir, ou seja, para sempre.

Deus só morreu na cabeça de alguns, mas continua vivo e voltará em breve para que toda a verdade absoluta brilhe sobre cada um de nós, dobrando todo joelho e fazendo toda língua confessar que ele é o Senhor. Que Deus proteja nossas crianças, no ventre e fora dele! Que haja juízo e redenção sobre os imorais travestidos de artistas!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.


Na primeira parte desse artigo foquei na parte mais doutrinária do culto. De forma resumida mostrei que existe sim uma forma correta de cultuar a Deus, e que sim, Ele se importa muito com essa maneira. Maneira essa que está revelada somente nas Escrituras, de onde retiramos o conceito de princípio regulador do culto. Essa é a nossa base para responder de forma mais prática como deve ser um culto de jovens. E é isso que faremos nessa segunda parte. Como Deus deseja que o adoremos? Quais são os elementos de culto autorizados pela Palavra de Deus? Como podemos aplicar o princípio regulador em nossos cultos de jovens? Espero responder essas perguntas de forma resumida e oferecer um guia simples para todo e qualquer culto de jovens.

É bom lembrar que tudo o que escreverei a partir de agora não é uma mera opinião pessoal. Lembre-se que estou afirmando que, no culto, não há liberdade do tipo “podemos fazer o que quisermos”. Minha preocupação é com o que a Bíblia requer. Precisamos sempre lembrar que a adoração ao Deus santo só pode ser feita da maneira santa que foi planejada pela mente santa do próprio Deus. Portanto, vamos começar mostrando quais são os santos elementos de culto que estão autorizados em sua santa Palavra.

…a adoração ao Deus santo só pode ser feita da maneira santa que foi planejada pela mente santa do próprio Deus.

Elementos de culto

Mark Dever tem, repetidas vezes em seus livros e palestras, afirmado os cinco elementos de culto dessa forma: “ler a Palavra, pregar a Palavra, orar a Palavra, cantar a Palavra e ver a Palavra” (DEVER, Igreja Intencional). Esse é o padrão que, principalmente as igrejas reformadas, tem usado ao longo da história. É um bom padrão para usarmos, mesmo que ainda possa deixar algumas dúvidas. Todos esses elementos estão presentes de forma clara no Novo Testamento e juntos, formam o princípio que deve regular a liturgia de todos os cultos a Deus.

Ler a Palavra:  A carta pastoral de Paulo a Timóteo é de grande ajuda nesse assunto. Nela encontramos o direcionamento de Paulo para que a Palavra seja lida em público: “Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura…” (1 Tm 4.13).Essa era a prática comum nos cultos nas sinagogas, onde a Palavra era lida e também explicada. Foi isso que Esdras fez num dia especial de adoração pública onde todo o povo se reuniu em praça pública para ouvir a leitura da lei de Deus (Neemias 8). A famosa frase de Jesus “não só de pão viverá o homem, mas de toda Palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4) indica que a Palavra é o alimento do crente, portanto, deve fazer parte da dieta do culto. Dever lembra algo importante:

“Separar tempo, no culto de domingo de manhã, para ler as Escrituras em voz alta, a cada semana, sem comentá-las, expressa o valor que tributamos à Palavra de Deus. Mostra que estamos ávidos por ouvir a Palavra do Senhor – nós a desejamos.” (DEVER, Igreja Intencional)

Qual foi a última vez que você viu um momento dedicado especialmente no culto de jovens só para ler uma passagem ou capítulo inteiro das Escrituras? Essa é um elemento importante que precisamos retomar.

Pregar a Palavra: Creio que não dúvidas sobre a presença da pregação no culto. O livro de Atos é uma demonstração da expansão do evangelho através da pregação. Podemos ver o destaque que Lucas dá a esse elemento sempre que ele faz questão de registrar o conteúdo das pregações de Pedro e Paulo, por exemplo. A continuação do verso de 1 Tm 4.13 é para exortação e ensino, o mesmo que Paulo ordena em 2 Timóteo 4.2 quando diz “prega a Palavra”. E aqui está algo que vale a pena ser discutido: a forma e conteúdo da pregação. A ordem é para pregar a Palavra. O culto não está centrado na Palavra quando o pregador está centrado em seus próprios pensamentos ou pensamento ideológicos e filosóficos de outro ser humano. A pregação deve ser da Palavra e a melhor forma para isso é o sermão expositivo. Podemos defini-lo assim:

Orar a Palavra: Esse elemento está na mesma situação da leitura. Nós oramos no culto, mas talvez ainda falte aquele momento dedicado de oração. E oração bem baseadas na Palavra. O segundo capítulo de 1 Timóteo nos instrui sobre a adoração corporativa. Ele começa da seguinte maneira: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças”. O fato de Jesus citar Isaías ao dizer “a minha casa será chamada casa de oração” também chama a atenção para esse elemento. Dever sugere orações de adoração, confissão, agradecimento e súplicas. Meu conselho é: separe um tempo para uma oração formal. Convide um jovem antecipadamente para orar. Peça que ele prepare a oração escrita e a sature com a Palavra de Deus. Tente harmonizar a oração com a pregação ou ocasião. Por exemplo: no próximo sábado teremos nosso último culto do ano, então, convidarei alguém para uma oração de ação de graças.

Cantar a Palavra: Acredito que nenhum jovem questione a presença do canto no culto. O problema que temos hoje é exatamente a idolatria da música e as formas erradas em que ela é utilizada. Por isso vou gastar algumas linhas a mais nesse ponto. O texto bíblico que deixa esse elemento claro é o de Efésios 5.19: “falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor”. Isso não quer dizer que louvor e adoração naquela época estavam ligados a música como hoje. Mesmo assim posso dizer que cantar louvores a Deus é parte importante do culto e deve ser uma prática preservada. Assim como na pregação é importante lembrar que precisamos cantar a Palavra. Toda música precisa estar em harmonia com a boa teologia. Em minha opinião, baseada nos Salmos, doxologias e orações de louvor presentes na Bíblia, as melhores músicas são aquelas que exaltam os atributos do Deus Trino e o evangelho. Por outro lado, todas as que exaltam o homem devem ser evitadas.

Como usar a música no ministério de jovens? Além da letra das músicas precisamos lembrar de outros aspectos. Em primeiro lugar, no louvor o ato de cantar é o mais importante (Ef 5.19; Cl 3.16). Nesses dois versos neotestamentários encontramos o foco no canto. Portanto, as vozes tanto do grupo de louvor, quanto de toda a congregação de jovens deve ser valorizada. O foco nos instrumentos e o volume mais elevado deles pode atrapalhar o canto. Em segundo lugar, o canto é congregacional. A igreja foi chamada a cantar junta. As músicas, com seus ritmos e tons, devem permitir que toda a igreja cante junta. O grupo de louvor deve apenas guiar e facilitar o canto congregacional. Jovens não podem ir ao culto para assistir uma apresentação musical. O foco no ministro de louvor ou na banda é prejudicial. Quando todas as luzes estão no palco e a igreja fica escura isso já é um grande indício dessa troca de prioridades. E um terceiro direcionamento, a música não pode fugir daqueles dois conceitos que Deus gosta: decência e ordem. O louvor deve ser alegre, mas sempre mantendo a decência e ordem. Deus não aprova a bagunça e as loucuras dentro do seu culto.

“A voz coletiva do seu grupo de jovens cantando louvores a Deus é o mais importante instrumento musical em qualquer tempo da adoração… A voz coletiva do povo de Deus é o instrumento primário em qualquer reunião de adoração… Cantar é uma ferramenta dada por Deus e uma oportunidade de tornar nossos jovens profundamente enraizados no evangelho” (Tom Olson. Gospel Centered Youth Ministry, p. 143)

Ver a Palavra: Acredito que você se perguntou “como assim ver a Palavra”. O elemento visual, digamos assim, está nas ordenanças, ou seja, na ceia do Senhor e no batismo. Essas foram as maneiras pelas quais Deus decidiu dramatizar ou encenar o evangelho. Podemos dizer que as ordenanças são o teatro autorizado por Deus para o culto público. A ceia foi instituída por Cristo (Lc 22.19) e Paulo a tratou de suas normas como elemento de culto (1 Co 11.20-29). Esse é o memorial da obra expiatória de Cristo. O batismo também foi instituído como prática da igreja por Cristo na grande comissão (Mt 28.29) e temos vários exemplos de batismos em Atos. As cartas de Gálatas e de Romanos também falam da simbologia teológica do batismo. Por ser caráter normativo, visual e didático o batismo, mesmo que não esteja “preso” ao culto, pode ser considerado um elemento autorizado da adoração pública. Não entrarei em muitos detalhes nesse ponto. O motivo é esse: Considero que as ordenanças devem ser feitas publicamente por toda a congregação na presença de pastores e presbíteros. Portanto, por mais que não seja proibido creio ser melhor esperar que toda a igreja esteja reunida para o momento de ceia e batismo.

Um ponto importante aqui é que a ceia e o batismo são os únicos elementos visuais ou “teatrais” claramente citados como prática da igreja. No ambiente de culto creio não caber as práticas de teatro e dança. Nesse último ponto sou totalmente contrário ao conceito de dança litúrgica. Fora do culto creio que o teatro possa ser usado para evangelismo, assim como a dança sendo expressão de arte, mesmo que eu prefira não utiliza-la. Sei que aqui entro em conflito com muitos jovens, mas este é o meu ponto. Pense nisso não pelo seu gosto, mas biblicamente.

Em resumo, parece realmente que esses são os elementos encontrados nos cultos da igreja primitiva. Em Atos 2.42-47 encontramos: “ensino dos apóstolos”, “partir do pão” (ceia), “orações” e “louvando a Deus”. Também encontramos nessa passagem uma referência às ofertas para o sustento da igreja. Como prática bíblica as ofertas estão incluídas na vida de adoração dos cristãos e o culto é um bom momento para fazer isso de forma pública. Também considero o momento de ofertas como mais adequado para o momento onde toda a igreja está reunida, não recomendado para o culto de jovens, a não ser em ocasiões especiais e justas. Ainda poderíamos falar das práticas de confissões de pecado e de fé (que podem estar incluídas nas orações).

Dito isso posso afirmar que um culto de jovens deveria ter os seguintes elementos:

  • (1) leitura pública da Palavra
  • (2) cânticos de louvor
  • (3) oração pública
  • (4) pregação.
  • (5) cântico de encerramento

Não existe uma regra de ordem dos elementos, mas ai está uma sugestão de ordem que já estamos acostumados e que considero boa (o cântico de encerramento é uma sugestão pessoal, pois a pregação da verdade deve nos levar ao louvor). Não podemos esquecer que todo culto, de jovens ou não, deve ser alegre! Estamos cultuando ao Deus Criador e redentor. Nossos corações devem estar cheios de santa alegria ao cultuarmos ao Senhor!

Princípio regulador moderado

Até aqui, desde a primeira parte, tenho defendido o princípio regulador do culto (PRC). Depois dessa parte mais prática chegou a hora, então, de um esclarecimento necessário sobre o meu ponto de vista. Vou usar as palavras “radical” e “moderado” para fins didáticos. Posso dizer então que defendo um PRC moderado em comparação com o PRC radical (não uso essa expressão como pejorativa). Vou exemplificar para entendermos a diferença. O PRC radical toma se preocupa mais com os detalhes práticos e até matérias que estão ou não descritos na Bíblia. Por exemplo, algumas igrejas não usam instrumentos, ou restringem o uso somente a aqueles que são citados em alguma parte da Bíblia. Outras igrejas são cantam os salmos ou textos retirados diretamente das Escrituras, não permitindo novas composições. Poderíamos citar outros exemplos, mas creio já ter sido suficiente.

Não sigo essa linha de pensamento. Para mim, como o nome já diz, o PRC trata-se de princípios, não de regras detalhistas. Minha leitura moderada me leva a considerar apenas os elementos que a Bíblia considera, mas permite uma liberdade submissa aos princípios bíblicos de culto que regem os elementos. Vamos para o exemplo dos instrumentos e músicas. Já toquei nesse assunto acima e vamos aplica-lo agora. Se o foco está nas vozes e os instrumentos estão em harmonia, servindo como fundo musical para ajudar a congregação a cantar, não vejo esse princípio proibindo instrumentos, até mesmo uma bateria. Da mesma forma, se tal música é composta por uma letra bíblica que adore a Deus como Ele, edifique os irmãos no evangelho e seu ritmo seja acompanhado pela congregação em decência e ordem, não há porque proibi-la. Se seguirmos bem os princípios nossa liberdade estará adorando a Deus corretamente.

Contextualização do culto

Então podemos contextualizar o culto e até fazer um culto de jovens de certa forma diferente do culto de domingo? Sim. Eu afirmei que o culto de jovens não tem necessidade e nem liberdade para ser diferente. Isso é verdade dentro dos elementos e princípios de culto, mas não exclui diferenças em aspectos secundários e detalhes. Vejamos como isso pode acontecer:

Na música: No louvor as músicas devem ser escolhidas e arranjadas para que a congregação cante. Num culto de jovens, diferente do culto de domingo, a congregação é composta apenas de jovens. Isso significa que eles conseguem cantar e acompanhar músicas com arranjos diferentes, ritmos um pouco mais rápidos e até tons diferentes. Também é importante lembrar das boas músicas que os jovens conhecem e apreciam. Muitas delas podem ser desconhecidas do mais velhos, impedindo que cantem no domingo, mas podem fazer parte do culto de jovens. Embora eu defenda essa contextualização musical, creio que as mudanças não devem ser grandes. Os princípios estão aí para dizer isso.

Na pregação: O conteúdo e a forma de pregação devem ser a mesma. A prioridade da pregação bíblica expositiva deve estar presente também no culto de jovens. O que pode ser contextualizado então. Quem já passou por algum curso ou aula de homilética sabe… A linguagem, as ilustrações e aplicações podem e devem mudar de acordo com o público. Nós pregadores temos a tarefa de tornar a mensagem acessível e penetrante para os ouvintes. No culto de jovens podemos usar uma linguagem (santa) mais jovem e fazer ilustrações e aplicações e façam mais sentido e identifiquem-se mais com a vida dos jovens.

No ambiente: O jovem é mais aberto para a criatividade. Não vejo problema em criar um ambiente com mais cara de jovem. Sei que muitas igrejas erram nesse ponto, criando ambientes totalmente diferentes e descaracterizando a igreja, mas não é por causa disso que devemos proibir que a criatividade dos jovens não possa dar uma mão na hora de preparar um ambiente. Talvez colocar a logo do ministério no fundo do púlpito, ou quem sabe uma decoração simples que aponte para o tema da mensagem. Podemos pensar em coisas simples, que não roubem o foco e que estejam dentro dos princípios (decência e ordem).

Para encerrar essa parte, deixo aqui uma sugestão. Podemos usar o antes de o depois do culto para outras atividades. Que tal planejar uma boa recepção para os visitantes? E o momento de fotos enquanto chegam? Aqui em nossa igreja costumamos usar muito o momento após o culto. Comemos juntos, jogamos alguns jogos de tabuleiro, conversamos e muitos até brincam de esconde-esconde pelo terreno da igreja. Já fizemos até cinema ao ar livre. Podemos usar desses momentos fora do culto para promover uma boa e divertida comunhão.

 

Conclusão

Quero concluir toda essa análise do culto dizendo aos jovens que Deus decretou os fins e os meios. Ele está interessado tanto no resultado final como nos procedimentos para alcançar os resultados. Frases como “eu adoro do meu jeito” ou “cada um que cultue como acha melhor” não honram nosso Deus. Ele nos deu princípios que nos levam à uma pratica santa e regida por Ele mesmo. Pense numa composição musical… Quem define a letra, tom, notas, arranjos e solos é o compositor. No culto, Deus é o grande compositor, autor da nossa fé e Senhor da Igreja.

Isso não significa, como eu já argumentei, que como jovens não temos a liberdade de usar nossa juventude e criatividade no culto. Deus nos criou para isso também. Seguindo seus princípios podemos cultua-lo com nossa identidade jovem! O problema em muitas igrejas é que essa identidade jovem é buscado em padrões mundanos e não bíblicos, tornando a igreja mais parecida com o mundo na justificativa de torna-la mais relevante aos jovens. Se seguirmos o Sola Scriptura e o Soli Deo Gloria não cairemos nesse terrível erro. Seguindo o princípio regulador do culto estamos pisando em liberdade no terreno seguro de Deus. Kevin De Young escreveu um pequeno e excelente texto sobre essa liberdade, sugerindo que o PCR nos liberta do cativeiro cultural, das brigas por preferências, do peso na consciência e para sermos multiculturais e focar no que é central.

Espero que possamos cultuar a Deus de maneira que toda glória seja dada a Ele, e isso só acontece quando todo o culto acontece segundo a sua vontade expressa nas Escrituras. Que Deus nos faça jovens que verdadeiramente cultuam e adoram em espírito e em verdade!

Pedro Pamplona é casado com Laryssa e formado em administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE). Serve integralmente como líder de jovens na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza.