O ano que acabou de findar me trouxe muitas reflexões a respeito de como a teocentricidade do ser humano está presente em todos nós, inclusive os descrentes. No Natal, percebi que a alegria e os bons sentimentos que invadem aquela época fazem parte do fato de que o homem foi feito à imagem e semelhança do Criador, logo, ele simplesmente não consegue não celebrar o fato de que tal Criador veio à Terra para trazer salvação e paz. Para o Ano Novo, percebi outros aspectos que explicarei a seguir.

O primeiro deles é que, definitivamente, o ser humano não sabe como lidar com o sofrimento, e a grande prova disso é que todos esperam que o ano seguinte seja melhor que o anterior. Ora, por que esse tipo de raciocínio acontece? Porque o sofrimento nos alcança em todos os anos e, diante da sua presença implacável e inevitável, só podemos desejar que, no próximo ciclo que se inicia, ele simplesmente saia das nossas vidas e nos deixe ser feliz – o grande objetivo de tudo, como diz o senso comum. Se o maior propósito da vida é ser feliz, o sofrimento é a pedra no nosso caminho, logo, espera-se que o Universo finalmente seja justo e nos deixe ter o que realmente merecemos, que é a felicidade.

O segundo trata-se do fato de que o Reveillón é mais uma forma de o ser humano sem Deus buscar redenção fora de Deus. O ano anterior foi ruim? Eu vou fazer o ano seguinte melhor. Houve pessoas que me fizeram sofrer? Agora elas sairão da minha vida. Meus pecados vieram à tona? Eu vou me tornar uma pessoa melhor. Minha “melhor versão”, como é moda dizer. Quem precisa de Cristo quando o ano novo renova as esperanças e a força para ser melhor e tornar tudo melhor sem Ele? Quem precisa de redenção, se “todos os nossos sonhos serão verdade”?

Trago essa reflexão não para tirar o brilho de um novo ciclo que se inicia, que de fato existe e serve para refletirmos a respeito de como estamos vivendo. Porém, para o cristão, todos essas expectativas para o ano novo ficam em segundo ou terceiro, quem sabe último plano. Nosso grande objetivo não é ser feliz. Nossa grande esperança não é que todos os nossos sonhos se realizem. Sermos os responsáveis pela redenção da nossa própria vida é um fardo pesado, cansativo e, em última análise, impossível. Sendo assim, que grande alívio é saber que a única expectativa que precisamos ter para o ano que se inicia é buscar a Deus, e todas as outras coisas nos serão acrescentadas. E que esperança sublime é saber que, independentemente de essas coisas serem boas ou más, estaremos firmes, seguros e plenos em Cristo.

Para 2018, busquemos conforto nas palavras do nosso Mestre: “uma [coisa] só é necessária” (Lucas 10:41).

Isso já nos garante que o nosso ano novo será, de fato, feliz.

Manuela Moraes é uma recifense de 26 anos formada em Comunicação Social e Administração de Empresas. Canta na Igreja Presbiteriana das Graças e fala sobre o Evangelho na Internet através do seu canal no Youtube e do Dois Dedos de Teologia. Apaixonada por cultura pop, música e pelo Luiz. Calvinista por paixão e por opção (de Deus).


A narrativa ocidental da Reforma comumente aceita – ela foi um gatilho para muitos desenvolvimentos que fizeram o Ocidente grande (liberdade política, ciência moderna, etc) – tem estado sob uma crescente onda de críticas recentemente. Muitas dessas críticas refletem o fato de que o peso da narrativa ocidental tem se tornado, em geral, muito mais questionável. O estilo norte americano de vida não mais aparenta ser o destino do mundo como um todo, com Rússia, China e Islã apresentando, cada um, visões alternativas da modernidade.

Nesse contexto, o historiador Brad S. Gregory, da Universidade Notre Dame, ofereceu uma contra narrativa detalhada e poderosa em seu importante livro, lançado em 2015, chamado The Unintended Reformation  [A Reforma não desejada, em tradução livre] (leia aqui uma resenha em inglês no site The Gospel Coalition), onde ele buscou identificar a origem de muitos dos males da modernidade – especialmente o relativismo moral anárquico e o colapso das fontes tradicionais de autoridade – nas contribuições feitas à cultura ocidental pelos reformadores do século 16.

Extenso apanhado histórico

Neste ano de aniversário, Gregory elaborou uma versão popular do seu trabalho anterior, especialmente focado na (embora não restrito a) vida e contribuição de Martinho Lutero. Rebel in the Ranks: Martin Luther, the Reformation, and the Conflicts That Continue to Shape Our World [Um rebelde no banco dos réus: Martinho Lutero, a Reforma e os conflitos que continuam a moldar o nosso mundo, em tradução livre] é tudo que se pode esperar de Gregory: bem escrito, profundo, às vezes divertido, provocativo, e (sob minha perspectiva) profundamente falho em pontos chave do argumento.

O livro possui quatro capítulos. Os três primeiros são notáveis, abordando o período entre a chamada de Lutero para o debate sobre as indulgências e o final do século 17. No percurso, Gregory fornece uma narrativa resumida dos principais eventos, personalidades e ideias que moldaram a Reforma em toda a Europa ocidental. Esse é um feito impressionante. Não consigo lembrar de um único volume que cubra tal extenso apanhado histórico com tamanha concisão e clareza. Só por isso o livro já merece ser lido por todos que desejam compreender de maneira geral a Reforma e ser capaz de identificar os diferentes lugares e personagens relacionados entre si.

Os problemas realmente surgem no último capítulo, onde Gregory apresenta sua tese: a Reforma foi um fenômeno religioso que paradoxalmente conduziu à secularização da sociedade.

Consequências não desejadas

Talvez o mais significativo problema com a tese de Gregory seja o conceito de consequência não desejada que forma a base de sua teoria da Reforma e a secularização. Esse é um conceito bastante elástico pela sua própria natureza.

Por exemplo, dado o modo que os judeus foram transportados para Auschwitz, alguém poderia argumentar que o Holocausto foi uma consequência não desejada da invenção da locomotiva a vapor. Sendo assim, George Stephenson tem alguma responsabilidade por aquele acontecimento? Em um sentido meramente técnico, sim. Se não há meios de transporte em massa, não há assassinato em massa. Mas em um sentido moral significativo, de jeito nenhum. Stephenson disponibilizou uma pré-condição necessária, mas não suficiente.

Então qual a utilidade do conceito “consequência não desejada” quando aplicado à conexão entre os reformadores e, digamos, a subjetividade do expressivo individualismo moderno, que está destruindo a moralidade ocidental tradicional na mesma velocidade com que eu digito este texto?

Se o argumento de Gregory é meramente para traçar conexões narrativas entre um e outro, então sim, pareceria legítimo focar nesse tema. Mas o tom esmagador da narrativa de Gregory é para forçar o significado do conceito e fazer os reformadores serem (ainda que de forma inconsciente) os vilões da história. O conceito, então, deve carregar um peso moral que sua elasticidade não pode suportar.

Quando começar?

Isso também indica o problema inerente ao desafio perene dos historiadores: o ponto de partida da narrativa. Toda narrativa histórica deve começar em algum lugar e, dessa forma, produz um tanto de relativização da importância para o que tenha ocorrido anteriormente. Ainda, deve-se estar atento ao fator potencialmente distorcido, e não permitir que ele exerça indevidamente uma influência decisiva sobre as conclusões.

Essa prática é particularmente relevante se relacionada à Reforma. Estudiosos como Gregory, que querem culpar a Reforma pelos problemas dos anos seguintes, começarão a identificar os problemas que preocuparam a igreja no início do século 16 como sendo meramente morais ou administrativos, não teológicos. Eles, então, apresentarão o Concílio de Trento como a solução e o Protestantismo como desnecessário e como uma aberração teológica. Mas se você começar a história antes de 1517, essa narrativa é insustentável.

Primeiramente, está sedimentado o entendimento de que a teologia de Lutero possui certa continuidade com seu treinamento medieval, herdeiro do pensamento de Occam. Sem Occam não teríamos Lutero. Por isso, se o secularismo é uma consequência não desejada de Lutero, então Lutero é apenas um aspecto de consequência não desejada da teologia medieval mais recente. Portanto, se nós aceitamos (pelo bem do argumento) consequências não desejadas como uma categoria útil, quem é realmente culpado pela secularização? O homem de Wittenberg ou os filhos fiéis da igreja medieval que o ensinaram?

Em segundo lugar, narrativas como a oferecida por Gregory, que culpam os reformadores pelo colapso da igreja, são expostas no ambiente de um ponto de vista relativamente romântico da Idade Média, com um deficiente, e um tanto idealista, entendimento de mudanças históricas.

Com efeito, a igreja medieval manteve sua unidade não por causa do magistério, mas por causa da interligação entre as realidades eclesiástica, política e social. Tratava-se de uma união heterogênea de igrejas locais vinculadas a Roma. Ela prosperou devido à sua conexão com as elites política e social. Não houve embaraço por parte das massas pela simples razão de se ter feito pouco esforço para cristianizá-los profundamente, e as massas, em retorno, não se importavam suficientemente para abalar o status quo.

Conforme os elementos desse arranjo começaram a ruir, problemas sucederam. E essa queda foi relacionada tanto aos problemas advindos com a alternância de poder na Europa, causada pelo aumento das relações comerciais, quanto a qualquer coisa que Lutero pudesse fazer. A isso devemos acrescentar a descoberta, no final do século 15, de uma terra vasta e fértil, entre Europa e China, uma descoberta que alimentou a ambição colonial e fez nascer o poder naval, e, aqueles com acesso a ele, ainda mais relevantes que em qualquer época anterior.

Em poucas palavras, essas condições tornaram o mundo do início do século 16 preparado para uma ampla transformação política, e em razão da conexão entre Estados e Igreja, seria inevitável acontecer consequências traumáticas no âmbito eclesiástico.

“Lutero não é a causa de uma crise de autoridade, mas uma resposta a ela.”

Em terceiro lugar, utilizando um exemplo específico, Gregory enxerga corretamente a Disputa de Leipzig, de 1519, como central ao desenvolvimento de Lutero. O brilhantismo de John Eck durante o debate forçou Lutero a conceder – e talvez perceber pela primeira vez – que a questão entre eles era relacionada a autoridade. Com a percepção de Lutero de que o papado e os concílios erraram, ele foi forçado a fazer um retorno à Escritura somente. Porém, Gregory falha em reconhecer que Lutero está respondendo à relevância teológica de realidades históricas. O final do século 14 e o início do século 15 estiveram envoltos por múltiplos papados simultâneos, uma questão resolvida apenas pelo Concílio de Constança – uma entidade imperial, não eclesiástica.

Em outras palavras, pode-se encarar corretamente o movimento de Lutero em direção à Escritura como desastroso. Mas também é necessário recordar que aquele movimento não precipitou uma crise de autoridade. Não, ele foi uma resposta a uma crise de autoridade já existente. A realidade de Constança certamente quebrou qualquer noção de uma visão do papado (para usar uma frase anacrônica) “Ultramontânico”[1]. Pode-se até argumentar que a Escritura sozinha é uma base inadequada para reconstruir a fé, mas dificilmente se pode culpa-la pelo colapso de autoridade da Igreja. A Igreja já havia atingido tal ponto em níveis teológico e teórico no início do século 15, embora, na prática, pudesse manter sua autoridade, após Constança, mais em termos políticos e terrenos.

Repetindo: Lutero não causou a crise de autoridade, mas respondeu a ela. E Trento dificilmente pode ser visto como a solução para uma igreja corrupta, simplesmente porque em termos práticos a história da igreja no final do século 14 e no início do século 15 trouxe a noção de que as autoridades papal e conciliar já estavam profundamente problemáticas em um nível teológico. Pode-se ver Trento como uma solução elegante somente se ignoradas as contradições em que se apoiavam o papado e Trento àquela época, ou, alternativamente, historicizando a autoridade da igreja e fazendo-a produto de um processo histórico nebuloso. E qual seriam as consequências não desejadas desse último movimento? Pode-se questionar.

Importância do contexto social

E ainda há mais aspectos da narrativa do secularismo que Gregory ignora. Sim, ideias têm consequências. Mas elas apenas podem ter consequências dentro da extensão permitida pelas condições sociais, culturais, econômicas e tecnológicas que as tornam plausíveis, praticáveis e atrativas. E às vezes essas condições materiais possuem mais condições de conduzir a uma mudança ideológica que as ideias por si só.

Assim, por exemplo, o muito propalado flagrante caos desencadeado pelo princípio das Escrituras de Lutero é frequentemente visto como um resultado direto do Protestantismo e como algo conducente ao “penetrante pluralismo interpretativo”, no coração da impotência da igreja moderna. Mas é? Estudos sobre alfabetização na América do Sul nos anos 1960, e um recente relatório da UNESCO, demonstram que há uma importante conexão entre o aumento dos índices de alfabetização e uma autoconsciência política. Em outras palavras, quando uma sociedade se torna mais letrada, aumentam grandemente as chances de as estruturas de autoridade, que supõem baixa alfabetização, serem desafiadas.

Esse é o muito do século 16. A teologia de Lutero foi um distinto resultado de sua personalidade, diante das circunstâncias. Mas a imprensa e o aumento do comércio e dos negócios certamente fizeram com que as estruturas de autoridade do mundo medieval fossem postas sob forte tensão, com ou sem Lutero, Zuínglio, ou seus co-beligerantes. Ensine as pessoas a ler e elas vão questionar a autoridade, e discutir sobre os significados dos textos.

Novamente, para retornar a um ponto anterior: a estabilidade da igreja medieval dependia de condições materiais que estavam sob uma massiva transformação no final do século 15 e no século 16, devido a mudanças econômicas, às viagens de descobrimento e à imprensa. Independentemente de Lutero, o papado medieval não poderia continuar como estava. Mudanças – mudanças traumáticas – de certa forma eram inevitáveis.

As partes boa e ruim da modernidade

Gregory conclui com um lamento acerca da eleição de Donald Trump, mas, fazendo isso, evidencia mais um problema em sua abordagem. Não se pode lamentar coisas da modernidade que se desaprova sem refletir sobre suas conexões com aquilo que nós desejamos afirmar.

Democracia sempre carrega consigo o risco de um Trump. Mas eu prefiro correr esse risco, em detrimento de um sistema que viabiliza um Kim Jong Um ou um Xi Jinping. Eu prefiro saber ler e escrever e estar submetido ao risco de um penetrante pluralismo interpretativo, em detrimento de ser iletrado. Eu prefiro viver em um mundo de transporte barato, sistema de aquecimento central e antibióticos, apesar de esse mundo estar sempre suscetível ao desencantamento, ou pior, à guerra nuclear e a um genocídio facilitado pela tecnologia. Mas, no que concerne à modernidade, você não pode ter a parte boa sem estar sempre sob o risco da parte ruim.

Por todas essas críticas, entretanto, eu repito o que disse no início: esse é um livro provocativo e bem escrito, que eu vou usar em sala de aula como forma de levar os estudantes a pensarem sobre as conexões existentes entre a Reforma e a modernidade ocidental. Parafraseando um comentário de Lutero sobre Erasmo: o autor deve ser elogiado por não desperdiçar nosso tempo com trivialidades, mas colocar o dedo no ponto vital, a dobradiça a partir da qual tudo se movimenta. A história contada é profundamente falha, mas talvez esse aspecto a faça digna de ser lida.

[1] Expressão utilizada para se referir à teologia romana, em referência à sua posição geográfica além das montanhas (alpes), do ponto de vista de quem está na França ou na Alemanha (N. T.).

Texto original aqui.
Tradução: João Guilherme


O grande pastor e teólogo Dr. R. C. Sproul faleceu ontem, 14 de Dezembro, aos 78 anos.

Há alguns meses eu fiz alguns stories comentando sobre como o Dr. Sproul era um dos meus pastores favoritos. A sua capacidade sobrenatural de ensinar tópicos complexos com simplicidade, lógica e inteligência foi o que me atraiu à sua obra e, enquanto escrevo esta homenagem, posso lembrar-me de textos e vídeos que solucionaram minhas dúvidas e me fizeram crescer no entendimento da fé.

Augustus Nicodemus publicou um texto emocionante, comentando sobre a importância do Dr. Sproul em sua caminhada cristã. Há um aspecto curioso sobre o texto: ele basicamente descreveu a obra de um homem que fez exatamente a mesma coisa que ele mesmo faz por outras pessoas. Sim, até Augustus Nicodemus tem o seu Augustus Nicodemus. E isso me faz refletir em como devemos ser gratos a Deus por esses homens cujo trabalho pelo Evangelho é inestimável. Seus ensinos impactam pessoas e marcam gerações.

O Dr. Sproul me ensinou que o Evangelho pode ser duro e leve, exatamente ao mesmo tempo. Ele dava a entonação correta a cada frase e mostrava a gravidade de cada palavra para, logo em seguida, abrir um sorriso e derramar, como um bálsamo, as verdades sobre a graça e o amor de Deus. Com ele, eu aprendi que realmente não há nada de bom em nós e até as obras que nos parecem boas sempre guardarão nem que seja um pouco da mancha do pecado. Com ele, eu aprendi sobre o Calvinismo. Com ele, eu aprendi sobre o viver cristão. E o legado dele que fica para mim é a sua leveza e simplicidade, inteligência e coerência, que ainda impactarão muitas e muitas gerações. Um simbólico exemplo disso é a última frase do último sermão pregado por ele, no final de Novembro, em Hebreus 2:1-4:

“Eu oro com todo o meu coração para que Deus desperte cada um de nós hoje para a doçura, a beleza e a glória do Evangelho anunciado por Cristo.”

Normalmente, se diria: “Dr. Sproul, descanse em paz.”
Mas acho que faz mais sentido dizer: “Dr. Sproul, celebre, comemore e regozije eternamente ao contemplar a concretização da sua fé e da sua luta neste mundo! Ela não será esquecida. Nem o senhor.”
Oremos pela família e pelo seu ministério.

Manuela Moraes é uma recifense de 26 anos formada em Publicidade e Propaganda pela UFPE e Administração de Empresas pela UPE. Canta no Ministério de Louvor da Igreja Presbiteriana das Graças e fala sobre o Evangelho na Internet através do Dois Dedos de Teologia e do seu canal também sobre Teologia, o canal Manuela Moraes

 



Eu estava empacada com a ideia de escrever mais um texto com a temática “É possível ser cristã e feminista?” quando percebi um fato: esse assunto, principalmente nos meios reformados, já é old news. Todo mundo já sabe que não dá (e, se você não sabe, recomendo que assista a este vídeo aqui). “Ah, Manu, então eu não posso defender a igualdade de direitos entre homem e mulher?” Você não precisa ser feminista para fazer isso. Deus foi o primeiro defensor dessa igualdade ao criar homem e mulher com exatamente o mesmo valor, ambos à Sua imagem e semelhança (Gênesis 1.27). Além do mais, o Feminismo se tornou um movimento que apenas defende a igualdade de direitos na teoria, tendo uma atuação que vai da liberação sexual da mulher a passeatas defendendo o aborto, passando pela defesa à causa LGBT e da Ideologia de Gênero, entre tantas outras.

Porém, o reconhecimento de que o Feminismo não é conciliável com o Cristianismo é apenas o ponto inicial dessa discussão. A causa feminista se infiltrou de um jeito tão sutil dentro das igrejas que foram necessários muitos textos, artigos, estudos, livros, vídeos e sermões para que esse problema fosse identificado e remediado. Agora partimos para a próxima fase da questão: será que o Feminismo é mesmo tão distante assim do Evangelho? Não há nenhum ponto em comum? O que motivou as precursoras do movimento feminista a pensar daquela forma? É isso que analisaremos neste texto.

Um ponto em comum

Em seu necessário livro Feminilidade Radical, Carolyn McCulley humildemente reconhece que o Feminismo tem uma origem genuína. Ela afirma, e eu reitero, que:

Acontece que o feminismo está parcialmente certo. Os homens pecam. Eles podem diminuir as realizações das mulheres e limitar a liberdade delas por razões egoístas. Alguns homens abusam sexualmente de suas esposas e de seus filhos. Muitos homens degradam as mulheres através da pornografia. O feminismo não surgiu por causa de ofensas fabricadas. (pag. 37)

Seguindo adiante em sua preciosa obra, Carolyn faz um compilado sobre a vida de quatro grandes precursoras do movimento feminista e uma coisa chama a atenção na vida de três delas: o sofrimento. Elizabeth Cady Stanton tinha um casamento infeliz com um esposo insensível. Simone de Beauvoir se envolveu em um relacionamento abusivo com um homem sem escrúpulos que só lhe trouxe infelicidade. Betty Friedan afirmou viver um casamento baseado em “ódio dependente”, divorciou-se e, ao final da vida, arrependeu-se dessa separação. Todas elas sofreram de diversas formas, majoritariamente por causa de homens, e encontraram (ou criaram) na causa feminista um escape para a sua dor. Gostaria que você parasse por um segundo e se imaginasse tendo um marido insensível e desrespeitoso que, em vez de praticar uma liderança amorosa, exerce uma dominação isenta de amor e compreensão. Você também iria sofrer. Você também iria sentir raiva desse homem. Você também desejaria um escape. E, com isso, só podemos chegar a uma conclusão:

A base do Feminismo foi o sofrimento humano.

Seu próprio lar

Recentemente tive contato com uma música que, segundo a manchete, está indicada ao Grammy Latino. Ela se chama “Triste, Louca ou Má” e a letra diz o seguinte:

E um homem não me define

Minha casa não me define

Minha carne não me define

Eu sou meu próprio lar

Se eu tivesse lido essa letra antes de escutar a música, provavelmente teria feito cara feia, fechado a janela do Chrome e ido assistir a algum vídeo do Dois Dedos. Só que eu ouvi antes de ler e a música tem esse poder de nos fazer sentir aquilo que possivelmente rejeitaríamos racionalmente. E o que eu senti foi dor. O que eu vi na autora dessa letra foi uma mulher que já vivenciou o sofrimento e que precisou de um escape, mais ou menos como eu e você. Você também já sofreu, quem sabe por causa de um homem. Você também já quis um refúgio para essa dor, quem sabe provocada pelo seu pai ou um ex-namorado. Estamos falando de sofrimento. E a Bíblia afirma que o criador do Cristianismo foi “homem de dores e que sabe o que é padecer” (Isaías 53.3). Logo:

O sofrimento é o ponto em comum entre o Cristianismo e o Feminismo.

Porém, é na solução para esse sofrimento que eles se separam irremediavelmente. A ideologia feminista enxergou o sofrimento humano e, precisando lidar com isso de alguma forma, colocou a culpa no homem. Os homens são opressores enquanto as mulheres são vítimas. Os homens só possuem maldade enquanto as mulheres são cheias de beleza, principalmente quando se unem em “sororidade”. Os homens destroem tudo, enquanto as mulheres são a única esperança de uma sociedade melhor.

Só que a lógica do Evangelho diz que não é bem assim. Os homens não são a desgraça da humanidade enquanto as mulheres são a salvação. Ambos são a desgraça pois ambos são cheios de destruição. Se o homem pecou ao oprimir, a mulher pecou em não perdoar. Se o homem errou ao dominar quem lhe era semelhante, a mulher também se equivocou ao se colocar no centro do universo. O Feminismo defende que o seu grande problema são os homens, enquanto o Evangelho deixa bem claro que o seu grande problema é a “natureza pecaminosa (Tiago 4.1-3), são as forças do mal (Efésios 6.12) e a sedução do mundo presente (1 João 2.15-17)” (Feminilidade Radical, pag. 38). E enquanto você não souber o verdadeiro problema, você não encontrará a verdadeira solução.

A partir dessa reflexão, acho que podemos ter uma visão um pouco mais branda no que se refere ao que leva mulheres (inclusive cristãs – inclusive eu, no passado) a achar o Feminismo tão atraente. O Feminismo, assim como o Cristianismo, oferece uma chance de redenção e salvação. Isso é tudo que uma mulher ferida pela sociedade, principalmente pelos homens, gostaria de ter. Porém, o Evangelho apresenta um caminho que vai muito além de responsabilizações e culpas. Ele apresenta uma promessa de redenção que diz que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8.28) e também que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Romanos 8.18). O Evangelho te liberta da necessidade de culpar alguém ou todo um grupo de pessoas pelas suas tragédias pessoais. O Evangelho te liberta da tentação de ser definida pelo seu sofrimento. Você sabe que Deus é Soberano. Você sabe que aquilo coopera para o seu bem. Você crê que Deus é bom mesmo quando você não consegue entender o que está acontecendo. Você é feliz e completa nEle, mesmo em meio à dor. Ele é a sua esperança e isso é suficiente.

Conclusão

O Feminismo é um movimento cuja origem está no sofrimento humano e, por desconhecerem o Evangelho, mulheres como Elizabeth Stanton e Simone de Beauvoir criaram um escape para sua dor dentro delas mesmas. A Palavra afirma que dentro de nós há apenas destruição e é por isso que precisamos de um Salvador para nos tirar desse estado de morte, delitos e pecados (Efésios 2.1). Diante disso, a única solução para a dor de qualquer mulher não é buscar o empoderamento e lutar contra o patriarcado, e sim, conhecer a redenção do Cristo que transforma o mal em bem. A maravilhosa e redentora proposta do Evangelho é que a mulher não seja mais “seu próprio lar”, e sim, que ela procure abrigo nAquele que levou sobre si todas as nossas dores (Isaías 53.4).

Manuela Moraes é uma recifense de 26 anos formada em Publicidade e Propaganda pela UFPE e Administração de Empresas pela UPE. Canta no Ministério de Louvor da Igreja Presbiteriana das Graças e fala sobre o Evangelho na Internet através do Dois Dedos de Teologia e do seu canal também sobre Teologia, o canal Manuela Moraes. Apaixonada por música e pelo Luiz. Calvinista por paixão e por opção (de Deus).


Eu tenho, e muita.

Eu me converti aos 11 anos em uma igreja com tendências neopentecostais e zero conhecimento de uma tal de Teologia Reformada. Um dos únicos aspectos que me fazem crer que eu de fato me converti, mesmo tão nova e em um ambiente tão desfavorável a isso, é a simples convicção de pecado que tive no ato de minha entrega a Cristo. E, a partir desse momento, em 16 de abril de 2003, eu me tornei uma cristã. Só que havia um problema: eu estava em uma igreja que não havia me ensinado a ser cristã. Eu lembro claramente que, no dia seguinte ao da minha conversão, eu olhei para minha mãe e disse:

“Agora eu preciso ler a Bíblia, né?”

E foi aí que começou a minha saga dentro desse universo fascinante que é a devocional, a qual é constituída, genericamente, por leitura da Bíblia e oração. Se eu pensava que “precisava ler a Bíblia” e apenas isso, imaginem qual era o meu conceito de oração: algo abstrato, metafórico, solto no Universo, que precisava ser tirado da minha mente (distraída) e do meu coração (corrupto).

E foi com esse conceito que eu cheguei aos 26 anos, 14 anos após eu perceber que sequer precisava orar. Uma coisa precisa ser dita: todo crente PRECISA orar, e eu digo “precisa” no sentido de que é uma necessidade urgente do nosso ser. Mesmo sem saber orar (cognitivamente falando), eu sinto que, sem aquilo, não poderei prosseguir. E foi isso que me levou a buscar aprender mais sobre esse tema, visto que cansei de orações com um profundo sentimento de que eu estou fazendo tudo errado e/ou orações cheias de necessidade, mas carentes de vontade. E eis que eu descobri algo óbvio, porém extraordinário:

A Bíblia ensina a orar.

E ela o faz a partir de dois princípios:

  1. Ela literalmente traz orações para você se inspirar e, quem sabe, até copiar.

Existe um livro inteiro de orações chamado Salmos, além de inúmeras orações, súplicas, pedidos e expressões de louvor, desde Gênesis até Apocalipse. Com isso, a Palavra não só nos ensina a orar como nos mostra a dinâmica das orações que agradam a Deus. Se Davi se preocupa tanto em louvar ao Senhor, existe uma razão. Se Paulo ora tanto pelo bem das igrejas e da comunidade dos santos, fica aí a dica para nós. A Bíblia é uma verdadeira aula de oração. A sua devocional não deve ser leitura bíblica + oração. Ela deve conter as duas atividades de uma forma intimamente relacionada e dependente.

  1. Ela mostra quem você é e quem Deus é, e a partir disso, você tem uma base para suas orações autorais.

Ao contrário do que eu pensava, a oração não é uma coisa abstrata que você tira da sua cabeça do nada e cria de acordo com a aleatoriedade do seu raciocínio. A oração é um diálogo entre você e o seu Criador, logo, você precisa se conhecer (locutor) e conhecer a Ele (interlocutor) para que o processo de comunicação seja executado com sucesso, como acontece com qualquer outra conversa que você tem no seu dia-a-dia. Se você sabe que alguém é engenheiro, você não vai perguntar se é veterinário. Se você sabe que determinada pessoa tem problemas com os pais, você não vai iniciar a conversa falando sobre isso. No caso da oração, quem é o seu Deus? Ele é Todo-Poderoso (Apocalipse 4:8), então você pode pedir pela Sua intervenção para sair de uma situação difícil no trabalho. Ele é um Pai Perfeito (Mateus 5:48), então você pode confessar seus sentimentos mais profundos sem qualquer medo de rejeição. Ele é Bom e Misericordioso (Salmo 145:8), portanto, você deve louvá-Lo pela tão grande salvação que chegou a você somente por escolha dEle. E quem é você? Você é pecador (I João 1:8), portanto, achegue-se diante dEle em contrição e arrependimento. Você não pode fazer nada sem Ele (João 15:5), então peça pela Sua ajuda para executar suas atividades diárias. Você é filho de Deus (Romanos 8:16), comprado por um alto preço de sangue (I Coríntios 6:20), logo, a sua única atitude diante disso tudo é glorificá-Lo e exaltá-Lo com todo o seu coração.

Diante disso, eu afirmo que você não precisa se sentir inseguro e ansioso diante da necessidade de realizar uma oração. Apesar de sabermos que nossas súplicas sempre serão falhas e inapropriadas (Romanos 8:26), isso não tira a nossa responsabilidade de fazê-las, e o Senhor deixou caminhos claros em Sua Palavra para que supríssemos essa carência gritante das nossas almas. Você não precisa confiar no seu raciocínio disperso ou no seu coração corrupto para falar com o seu Pai. Confie em Sua Palavra. Essa é a melhor forma de fazer uma oração conforme a Sua Vontade, assim na Terra como no Céu.

Manuela Moraes é uma recifense de 26 anos formada em Publicidade e Propaganda pela UFPE e Administração de Empresas pela UPE. Canta no Ministério de Louvor da Igreja Presbiteriana das Graças e fala sobre o Evangelho na Internet através do Dois Dedos de Teologia e do seu canal também sobre Teologia, o canal Manuela Moraes. Apaixonada por música e pelo Luiz. Calvinista por paixão e por opção (de Deus).