Somos a geração do amor livre. Nós o transformamos até mesmo num dogma como pregado, cantado e demonstrado nessa edição do Rock in Rio, e ai de quem opor-se a ele. Ele é dogma no sentido de que todos têm total liberdade para escolher o que quiserem quanto a sua sexualidade, contudo, entretanto, todavia, porém, não se alguém quiser iniciar um processo para deixar de ser gay, se assim for, a liberdade tão apregoada já não será mais tão prezada.

O problema com a ideia dogmática do amor livre é que ela carrega em seu cerne uma contradição essencial: o amor não pode ser medido apenas pelo seu grau de liberdade, pois amar não é um ato que constitui-se apenas de liberdade. Liberdade elevada à última potência atende pelo nome de anarquia, não amor.

Dentro das relações de amor existem muitos outros fatores que vão além da liberdade, existe comprometimento, responsabilidade, sacrifício, resignação, renúncia. Estamos com a falsa impressão de que nos libertamos da opressão da família patriarcal tradicional, quando na verdade estamos apenas trocando o suposto e famigerado agente opressor, que agora atende por outro nome: impulsos afetivos. Nossa geração rendeu-se ao sensorial, ao afeto como senhor sobre todas as coisas.

Na esteira do mesmo pensamento, transformamos o Estado numa máquina cada vez maior e mais reguladora de nossas vidas. Entregamos nas mãos dessa distinta, eficiente e altamente estimada instituição a prerrogativa de definidor das relações afetivas humanas. Pergunto, diante disso: o que nos espera ali adiante? A legalização do poliamor, da pedofilia, do ecoamor, do canibalismo, da zoofilia? Tudo em nome do amor, não é? Afinal, consideramos justa toda forma de amor, diria o poeta, não? O Estado falou? Tá falado! Ou seria tá lacrado?

Se nossa geração agnóstica secularizada que cita inúmeras vezes muito seletivamente as palavras de Jesus quando ele versa sobre amar ao próximo como a ti mesmo, soubesse, verdadeiramente, a respeito de qual amor Jesus estava se referindo, não se utilizaria de forma tão equivocada das palavras do Cristo para justificar tais práticas. O amor sobre o qual Jesus está falando – e basta olhar sua vida e obra que isso ficará evidente – tem muito mais a ver com a renúncia cabal de si mesmo para o cumprimento e obediência da vontade de Deus em humilde resignação, do que com uma liberação ilimitada de todos os impulsos carnais humanos sob o pretexto de uma irracional e ensandecida liberdade.

O homem pensa ter assumido o Trono de Deus e ter realocado o próprio Deus para o banco dos réus, mas só pensa. Pobre homem, um sopro nas mãos do Criador, um vento passageiro que ousa todos os dias rebelar-se contra o Senhor de Toda Criação. Não enganem-se, meus amigos! Deus continua reinando e chamando os homens a arrependerem-se de seus maus caminhos e tornarem-se para Ele. Muito em breve todos os pingos serão colocados nos is e toda língua tremulará dizendo em alto e bom som que Jesus Cristo é o Senhor de todas as coisas.

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. Atualmente cursa o oitavo semestre de teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP.

 

 



Rodrigo Hilbert, famoso ator e galã da TV Globo, recentemente virou um fenômeno na internet por causa de sua peculiar disponibilidade em servir e ajudar sua família – em especial, sua esposa. O rapaz parece gostar de cozinhar, arrumar, consertar e prestar todo tipo de auxílio necessário dentro de casa. Ao que parece, ele faz muita coisa e tudo que faz, faz muito bem feito.

Obviamente, o fato de Rodrigo ser uma pessoa pública, exposto nas televisões de todo país e ainda ser marido de Fernanda Lima, certamente faz com que todo esse frisson ganhe ainda mais volume, contudo, mesmo assim, gostaria de propor um motivo mais estrutural e profundo para todo esse barulho.

Por que atitudes cotidianas e cuidados comuns de homens para com suas esposas e famílias há 20 ou 30 anos atrás, em certo sentido, transformaram-se em algo absolutamente raro atualmente? Por que as mulheres identificaram-se tanto com o jeito de ser de Rodrigo Hilbert? Será mesmo apenas uma identificação com os dotes físicos e com a conta bancária do galã ou existe algo a mais por trás desse movimento todo?



Há uma verdade que precisamos nos recordar constantemente: “nada há de novo debaixo do sol” (Ec 1.9) – apesar de que as circunstâncias atuais não nos tem deixado esquecê-la. Esta verdade antiga deve estar cravada em nossas mentes de tal forma que nos lembremos dela em cada texto lido e em cada mensagem pregada, pois nos ajudará a combater as falsas doutrinas, que falsos mestres têm ensinado na Igreja de Deus. Ao olhar uma doutrina surgindo no meio da Igreja, saiba: “já sucedeu nos séculos passados, que foram antes de nós” (Ec 1.10).

O Diabo é sagaz. Desde o Éden ele age sempre da mesma maneira: deturpando a Palavra de Deus. A sua sagacidade, porém, não está em fazer sempre a mesma coisa; mas sim em dar uma embalagem nova às velhas mentiras. E a datar do nascimento da Igreja, há uma heresia terrível (dentre muitas outras) que, vez ou outra, resolve aparecer para nos assolar: a tentativa de judaização da Igreja. Esta é a mentira contada por Satanás, através de seus servos, de que precisamos resgatar os elementos cerimoniais do culto judeu do Antigo Testamento, prescrito na Lei de Moisés.

Já nos dias do Novo Testamento, o apóstolo Paulo lutou bravamente contra homens que insistiam em levar o culto veterotestamentário para dentro do seio da igreja cristã. Dentre muitas outras coisas, aqueles homens queriam estabelecer na igreja o calendário judaico, o cardápio deles e a circuncisão (Cl 2.11-16). Paulo sempre ergueu sua voz contra estes homens (Gl 2; Tt 1.10,11). Não há razão para restabelecer estas coisas na Igreja, pois elas mesmas são sombras daquelas que já vieram (Cl 2.17; cf. Hb 8.5; Hb. 10.1). Estes homens, o apóstolo conclui para Tito, afirmam conhecer a Deus, mas são abomináveis, desobedientes e réprobos em toda boa obra (Tt 1.16).

Os judaizantes, como são chamados os adeptos desta heresia, tentam sempre resgatar de alguma maneira os objetos de culto prescritos na Lei e introduzi-los no culto cristão. A arca da aliança, a pia de bronze, o incenso de ouro e o candelabro, por exemplo, são todos objetos do culto judaico que tais homens tentam reviver e trazer para a Igreja. Apesar da aparência de piedade, estas coisas são vazias de poder (2Tm 2.5). Paulo trata estes homens com muita firmeza, ordenando a Tito novamente que os repreendesse “severamente, para que sejam sãos na fé, não dando ouvidos a fábulas judaicas, nem a mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tt 1.14, ênfases acrescentadas).

O grande e verdadeiro objetivo dos judaizantes é sepultar a Nova Aliança, mesmo que isto seja totalmente reprovado pela Palavra de Deus – tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Isto se torna claro pelo fato de o Antigo Testamento clamar o tempo todo por uma nova aliança, superior àquela (Jr 31.31-34; Ez 36.22-30). Assim, a tentativa de reconstrução de um templo terreno ou a restauração do ofício de um sumo sacerdote em uma igreja dita cristã é realmente uma blasfêmia diante do Senhor. Uma análise mais profunda de todo o Novo Testamento nos permite perceber que estas ações são deturpações de homens insubordinados, faladores vãos, enganadores e cheios de torpe ganancia (Tt 1.10,11).

No Antigo Testamento, uma vez por ano, o sumo sacerdote adentrava o Santo dos Santos, ou Santíssimo Lugar, para fazer expiação pelo pecado do povo (Lv 16.34). O Santo dos Santos ficava separado do restante do Templo por um espesso e alto véu (Lv 16.2,12,15). Dentro do Santíssimo Lugar, estava a Arca da Aliança, que representava a presença de Deus com o povo (Nm 10.33-36; cf. Hb 9.4). Já no Santo dos Santos, com o sangue de um novilho e de um bode sacrificado, o sumo sacerdote espargia o sangue sobre a tampa da Arca da Aliança, que se chamava propiciatório, para expiar os seus próprios pecados e os pecados que o povo cometera durante aquele ano (Lv 16. 6.14, 15, 16, 34).

Muitos séculos passaram desde a instituição destes sacrifícios. Milhares de animais haviam sido oferecidos no Templo como oferta pelos pecados do povo. Então, na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, sob a Lei, para resgatar aqueles que viviam debaixo da Lei (Gl 4.4). Em outras palavras, Jesus veio para fazer aquilo que a antiga Lei não tinha poder para fazer: salvar pecadores (Hb 7.19; cf. Rm 3.20; Rm 7.7, Gl 3.23,24). Se a Lei tivesse poder para salvar pecadores e os sacrifícios de outrora fossem de fato eficazes não haveria a necessidade de Deus enviar Seu único Filho para nos salvar (Hb 7.11).

Na cruz, então, Jesus é o sumo sacerdote que oferece a si mesmo como oferta pelo pecado do povo. Ele é o sumo sacerdote que adentra o Santo dos Santos com seu próprio sangue, expiando os pecados do Seu povo de uma vez por todas (Hb 7.27). Não há mais necessidade de outro sumo sacerdote na Igreja, pois o sacrifício oferecido por Cristo é eterno em Seu poder. O véu do templo se rasgou de alto a baixo (Mt 27.51), simbolizando que aquele antigo sistema de sacrifícios perdera sua eficácia e que agora podemos nos achegar com confiança ao trono de Deus, sem a intercessão de nenhum outro homem, pois Jesus Cristo é o nosso grande sumo sacerdote (Hb 4.14, 16).

O autor aos Hebreus, aliás, é cirúrgico na sua explicação deste ofício para a Igreja. Ao longo de sua carta, ele faz uma correta conexão entre aquilo que é sombra e o seu cumprimento, entre o tipo e o seu antítipo (Hb 8.5; 10.1). Sua análise começa pela comparação do ofício sacerdotal da linhagem de Levi e o sacerdócio da ordem de Melquisedeque, que não tem princípio de dias, nem fim de vida, semelhante ao Filho de Deus (Hb 7.3). A conclusão óbvia que o autor da carta aos Hebreus chega é que o sacerdócio segundo Melquisedeque é infinitamente superior ao sacerdócio levítico (Hb 7.15,16,22). E Jesus, complementa o autor, é “sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7.17).

É evidente, então, que diante de tamanho sacrifício oferecido por Jesus, que é sumo sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque, “o mandamento anterior”, isto é, do sacerdócio levítico, “é ab-rogado por causa da sua fraqueza e inutilidade” (Hb 7.18), pois a antiga lei não aperfeiçoou a nada, mas o Filho é para sempre aperfeiçoado (Hb 7.19,28). Ademais, o autor tece mais uma comparação fatal ao antigo sistema de sacrifícios: um sumo sacerdote segundo a Lei tem seu sacerdócio limitado, pois a morte o impede de continuar; mas Aquele que não tem fim de dias tem seu sacerdócio perpetuamente e intercede por seu povo para sempre (Hb 7.23-25).

A nossa salvação, portanto, só está segura se o nosso sumo sacerdote vive para sempre, pois só assim Ele pode nos salvar perfeitamente, intercedendo diante de Deus (Hb 7.25). Qualquer sumo sacerdote eleito no meio da Igreja hoje não tem poder para interceder por nós, muito menos para nos salvar. Nenhum homem pode tomar este ofício hoje (1Tm 2.5). O nosso sumo sacerdote é Jesus Cristo “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime que os céus” (Hb 7.26). Toda tentativa de representação de um sumo sacerdote hoje é querer viver pela Lei que foi ab-rogada devido à sua fraqueza e inutilidade.

A Igreja de Jesus tem “um sumo sacerdote tal, que se assentou nos céus à direita do trono da Majestade, ministro do santuário, e do verdadeiro Templo, que o Senhor fundou, e não o homem” (Hb 8.1,2). Só mesmo mentes diabólicas, como a dos judaizantes, tentariam anular o sumo sacerdócio de Alguém que está à direita do Pai no Templo celestial, a fim de instaurar o sumo sacerdócio de um pecador miserável aqui na Terra. Voltar a viver pela Antiga Aliança depois de tamanha revelação de Deus, adverte o autor da carta aos Hebreus, é crucificar novamente o Filho de Deus, expondo-O ao vitupério, e para estes já não há mais esperança (Hb 6.4-6).

“Porque se voluntariamente continuarmos no pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma expectação terrível de juízo, e um ardor de fogo que há de devorar os adversários” (Hb 10.26,27). Desprezar a Nova Aliança é pisar o Filho de Deus, e ter por profano o sangue do pacto e ultrajar o Espírito da graça. Em outras palavras, desprezar o sumo sacerdócio de Jesus é um pecado contra o Pai, que enviou a Jesus, contra Jesus, que morreu por nós, e contra o Espírito Santo (Hb 10.29). Certamente, tais pessoas não escaparão do juízo vindouro, pois Deus é vingador do mal e, por isso, “horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.30,31).

A Igreja não pode se calar. Não podemos tratar tais coisas com leviandade. Diante de tal afronta a Deus, nossa obrigação como cristãos é levantar a nossa voz e denunciar tal blasfêmia. “E quando alguma pessoa pecar, ouvindo uma voz de blasfêmia, de que for testemunha, seja porque viu, ou porque soube, se o não denunciar, então levará a sua iniquidade” (Lv 5.1). Que Ele use esta denúncia para trazer arrependimento e quebrantamento sobre a Igreja Brasileira. Que Deus tenha misericórdia de nós!

Rafael Almeida. 24 anos, nascido em Passa Quatro – MG. Formado em Redes de Computadores pela Fatec/Cruzeiro – SP. Coordenador dos trabalhos da Igreja Batista Reformada em Passa Quatro – MG. Tem interesse especial em hermenêutica e exegese. Rafael é casado com Ana Cristina.


Defendo que é, no mínimo, uma incoerência lógica sustentar um discurso como esse no cotidiano da vida real. Ao que parece, o ser humano atualmente não pode mais corrigir e contestar, ao passo que também não pode ser contestado ou corrigido, e a razão para isso é o fato de que temos de ‘amar mais e julgar menos’. O fato é que a possibilidade de existir amor, afeto, bondade e piedade em um ato de correção parece ser nula nos dias atuais, e isso, de fato, é um caos!

O cenário é caótico

Discernir, julgar, tomar decisões, escolher entre um caminho e outro, uma opção e outra, corrigir, retomar, rejeitar, são atitudes inerentes à vida, fazem parte do desafio de existir desde quando o mundo é mundo. Estão querendo, então, pintar uma realidade em que o discernimento entre o bom e o ruim, o justo e o injusto, é algo dispensável e desprezível? Estão querendo que rasguemos nosso senso crítico como uma folha de papel rascunho e o atiremos na lata do lixo? Como assim, minha gente? Negar isso é privar o ser humano da construção sadia da sua própria personalidade e de seus próprios valores, negar esse processo crítico inerente a personalidade de cada um e todas as suas implicações seria o cúmulo da relativização. Se formos privados do direito e, por que não, do dever de julgar, cairemos num completo suicídio existencial, pense comigo, como poderiam se sustentar as relações e a convivência humana diante de tal quadro?

Temos fortes sinais deste tipo de pensamento, que é chamado de liberalismo moral, já presentes no seio da sociedade atual. Impunidade escancarada, multiculturalismo em prol do “bem comum”, relativização de inúmeros valores inegociáveis pela sociedade até então, flerte, pelo menos no ocidente, com a legalização de práticas como o aborto, zoofilia, pedofilia, canibalismo, e a máxima “o corpo é meu faço dele o que eu quiser” proclamada aos quatro cantos, gostem ou não.

Tudo em nome da liberdade e da autonomia do ser humano. A mentira da vez é que o ser humano é livre, mesmo sendo claramente, escravo de suas próprias vontades, por mais bizarras que elas sejam. Não existe mais errado, tudo é relativo, cada um constrói a sua verdade e ninguém mais julga ninguém. Pergunta honesta: qual pessoa com o mínimo de senso crítico realmente acredita num discurso como esse? Então, quer dizer que todas estas pessoas que exigem que se pare com julgamentos também não julgam mais nada e ninguém? Isso não faz sentido!

Estamos sendo imbecilizados, estão querendo impor sobre nós um consciente coletivo onde todo mundo deve pensar dentro de uma determinada caixa que abrange certas ideologias e aquele que não o fizer, automaticamente é considerado fundamentalista, retrógrado, mente fechada, ridículo, burro, ignorante, ditador e por aí vai. Querem nos tirar a capacidade de entender e discernir a realidade até o ponto que nos transformemos em seres de pensamento monotemático e acrítico.

O perigo irreversível

Deixar de exercer juízo sobre as pessoas e seus comportamentos em sociedade é escancarar as portas para que em pouquíssimo tempo coisas que hoje, ainda, são absolutos inquestionáveis tornem-se questionáveis, combatidos e vencidos. Imagine dentro de poucos anos, pedófilos com aval da sociedade para agirem livremente, como já tem sido amplamente discutido em países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Ou então que o canibalismo seja legalizado mediante consenso mútuo dos envolvidos. O que você pensaria? Ah não! Vamos com calma, não podemos julgar! Percebem onde isso pode parar?

Se o ser humano excluiu Deus de sua agenda e trabalha numa velocidade cada vez maior para extinguir todos os valores judaico-cristãos extraídos da Escritura Sagrada que ajudaram a construir toda a moral do ocidente, o que vai nos restar? Qual balança iremos usar? A qual absoluto iremos recorrer? Amigos e amigas, se cada um tem a sua verdade, pensa o que quer, faz o que quer, se não existe absoluto moral algum porque ninguém pode julgar ninguém em nome do amor, quem poderá falar com propriedade sobre o que é certo ou errado? Não existe autoridade. A alegação de um pedófilo será, por exemplo, que se envolver sexualmente com uma criança é uma forma que ele tem de demonstrar amor por ela. Se tudo é relativo e cada um tem sua verdade, quem, legitimamente, poderá contestar o argumento deste homem? Conseguem compreender que se aprofundarmos um pouco mais as implicações desse discurso politicamente correto no cotidiano da vida poderemos estar comprometendo a nossa ordem como humanidade?

Obviamente, esse texto não tem por objetivo esgotar a discussão, mas o argumento que o ser humano é autônomo e pode fazer o que quiser, contanto que não desrespeite a existência do outro é perigosíssimo. O ser humano não é autônomo, antes, é formado por inúmeros fatores que o afetam desde criança; família, ambientes, crenças, sejam religiosas ou não, atividades, criação, escolaridade, tudo isso compõe uma gama enorme de influências sobre a mente de um indivíduo. O ser humano não pode conceber sua existência como uma ilha, esse argumento é falho, fomos criados para viver em comunidade, tudo que fizermos reverberará direta ou indiretamente no nosso próximo. Amigos, o que seria do “eu” sem o “tu”? Em última instância, não estaríamos nem aqui, não haveria raça humana. O indivíduo achar que aquilo que ele faz, seja de bom ou de ruim, repercute apenas e exclusivamente nele mesmo é, no mínimo, inocência.

E o que Jesus tem a ver com tudo isso?

Por tudo isso, o exercício do discernimento e do julgamento tão combatido atualmente, é e sempre foi fundamental para o bom andamento da convivência e da ordem das coisas. No entanto, a ideia aplaudida e reverenciada nos dias atuais é o franco combate ao ato de se julgar, esta ideia, na grande maioria das vezes, tem sido fundamentada erradamente sobre os ensinos de Cristo registrados na Escritura Sagrada, e a este ponto gostaria de me dedicar neste momento. Vejamos o principal texto utilizado para sustentar essa posição:

Não julguem os outros para vocês não serem julgados por Deus. Porque Deus julgará vocês do mesmo modo que vocês julgarem os outros e usará com vocês a mesma medida que vocês usarem para medir os outros. Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: “Me deixe tirar esse cisco do seu olho”, quando você está com uma trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão. (Mt 7.1-5 NTLH)

O julgamento que agrada a Deus

Claro que a prática de se julgar indiscriminada e levianamente é combatida de forma contundente por Cristo! Isso é óbvio! Nós como seres humanos falhos, temos de nos policiar em todo o tempo, pois, para nós é natural criticar e denegrir o outro com muito mais facilidade do que a nós mesmos. Esse posicionamento é desprezível e aquele que age assim é chamado pelo próprio Cristo de “hipócrita”. O julgamento hipócrita é feito por aqueles que não têm autoridade alguma para julgar o assunto que estiver em questão. O ensinamento de Cristo nesse caso é “tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão”. Notem que ele diz “tire a trave do olho para que, então, esteja apto para tirar o cisco do olho do seu irmão”. Jesus não condena o ato de tirar o cisco do olho do irmão, e sim, a atitude hipócrita, desprovida de amor, de condenar alguém sem que tenhamos autoridade alguma para fazê-lo.

O julgamento cristão nunca deve ser desprovido de compaixão e amor por aquele que está sendo julgado. O próprio Deus “corrige a quem ele ama e castiga a quem ele aceita como filho” (Hb 12.6-7). Dizer que Jesus condena todo e qualquer julgamento é infantilidade mimada de quem busca um espaço inexistente nos ensinos bíblicos para avalizar suas práticas erradas. O próprio Cristo combate a postura infantil dos judeus de sua época e ordena: “julguem segundo a reta justiça”, leiam João 7 e tirem suas próprias conclusões. O mesmo Jesus que diz “não julgueis”, agora diz “julgai segundo a reta justiça”? Está Cristo se contradizendo ou somos nós que não estamos o entendendo? Fico com a última resposta. Basta uma busca honesta e corajosa pela Escritura e veremos que somos ordenados a combater falsos mestres, falsos ensinos, dominar, administrar e sujeitar a terra como bons mordomos, trata-se de uma tarefa grandiosa e para cumprimos estas coisas julgar é e sempre será imprescindível.

Com esse discurso politicamente correto de “não julgueis” estamos barateando o sacrifício de Jesus Cristo na cruz do calvário, como se todo seu sofrimento e morte fossem o passe-livre que precisávamos para viver uma vida promíscua e despreocupada com a santidade. As vezes tenho a impressão que em certas ocasiões a expressão “não julgueis” significa muito mais um “deixe-me pecar em paz” do que qualquer outra coisa.

Sinceramente, esse pensamento me assusta. Todo o plano de Deus não é e nunca foi sacrificar o seu Filho para que o homem pudesse ficar livre e tranquilo para praticar seus pecados sentido-se perdoado, não! Deus penalizou-se a si mesmo, matando seu Filho amado, para que pudéssemos, enfim, nos livrar do jugo do pecado! Por mais formoso que possa parecer aos nossos olhos, o pecado é mau e nos afasta de Deus. Parece que estamos tentando arrumar uma desculpa para trilhar exatamente o caminho oposto.

O ser humano é pecador e vai cair, sim! Vai pecar, sim! E justamente nesta hora temos de ser ainda mais amorosos e gentis com aquele que cai, estendo-lhe mãos de socorro, perdão e correção. No entanto, não é porque temos de ser amorosos, que faremos vistas grossas e seremos condescendentes com o erro. Se você quer saber o quanto o pecado é detestável para Deus, olhe para a cruz, veja o que Ele fez Cristo, seu Único Filho, padecer por causa do seu e do meu pecado! Se você quer saber o quanto Deus ama o ser humano e quer que ele se livre do salário do pecado, olhe para cruz! A cruz é o cenário mais estonteante da história!

Deixemos a imaturidade do discurso fácil e leviano

Muitos pregam o maravilhoso evangelho do “eu também não a condeno” de João 8.11, mas, se esquecem de pregar o não menos maravilhoso evangelho do “agora vá e abandone sua vida de pecado” do mesmo João 8.11. É preciso entender que esta segunda afirmação também é carregada de amor, bondade e cuidado de Deus. Cristo só pôde dizer àquela mulher “eu também não a condeno” porque sabia que muito em breve ele padeceria horrores numa cruz em pagamento dos pecados dela, alguém teria de pagar aquela conta.

O Filho de Deus ofereceu sacrifício alto demais para que vivamos conformados à lama do pecado. É importante refletir que na grande maioria das vezes crescemos e aprendemos muito mais com as dificuldades e tempestades da vida do que com os momentos de bonança. Correção é dádiva! Seguir a Cristo implica em constante luta contra nossa natureza pecaminosa. Foi sempre assim, o apóstolo Paulo já dizia aos coríntios: “esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado”. Vejo muita gente falando por aí que Deus é amor, mas quase ninguém dizendo com a mesma ênfase que Ele também é santo, do mesmo jeito e na mesma essência. Permitam-me uma ousadia teológica, se fôssemos examinar ao longo de toda Escritura, o único atributo de Deus que é repetido três vezes é o atributo de sua santidade. Em nenhum lugar vemos Deus sendo chamado de justo, justo, justo, ou, amor, amor, amor.

Servimos a um Deus que é Santo, Santo, Santo e seu amor não existe e nunca existiu em detrimento de sua santidade. Portanto, por mais dolorido que seja, que nos alegremos nos momentos em que formos julgados “segundo a reta justiça”, este será sempre um grande sinal de que Deus nos ama e quer o melhor para nós.

Que combatamos sim, em nosso meio, a prática leviana do julgamento hipócrita, desprovido de amor que não aponta para glória de Deus e para recuperação do próximo, tal comportamento deve ser banido do nosso coração e da nossa prática. Mas, que também nos posicionemos de modo a trazer maior lucidez e coragem para este tema que tem sido grosseiramente manipulado em detrimento de interesses que não atendem em absoluto a agenda do Reino de Deus.

Que não transformemos o evangelho do Cristo Bendito em uma ideologia barata, ou numa espiritualidade a la carte onde cada um se serve daquilo que bem entende e julga ser correto e mais confortável para si.

Aliás, já perceberam que todos nós julgamos todo mundo e todas as coisas o tempo todo, e exigir que alguém pare de julgar é uma contradição lógica e ao mesmo tempo uma hipocrisia? Que tenhamos maior profundidade, coragem e maturidade em encarar as questões sérias que compõem a nossa realidade, sempre em amor, para glória de Deus e zelosos pelo próximo. As vezes é bem difícil, mas nunca foi tão necessário.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. Atualmente cursa o oitavo semestre de teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP.


Não tenho tempo para nada!

Uma frase muito comum nos dias atuais é a seguinte: “Estou sem tempo para mim, estou sem tempo para nada.” A grande ironia contida nesta frase é que geralmente ela é dita por pessoas que decidiram, intencionalmente, preencher suas respectivas agendas com uma quantidade tão exacerbada de compromissos que, como consequência inevitável, tornaram suas próprias vidas complexas, ramificadas e cheias. E ainda assim, desejam que tudo desacelerasse um pouco e se tornasse mais simples. Impossível.

Acesso a quantidade de informações sem fim, globalização, tecnologia acessível, conectividade em alta velocidade, todas essas “facilidades” possuem um preço: a vida se tornou mais complexa. E nesta busca incessante de aproveitar cada segundo, pois afinal “a vida é curta”, a geração atual tem sido consumida por uma agenda que insiste afirmar que 24 horas já não são mais suficientes.

O resultado, seja a curto ou a longo prazo, é certo: a conta chega para todos.

Vidas complexas se desenvolvem em vidas desestruturadas.

Me assustei recentemente com a notícia de que seis casos de tentativas de suicídio foram registrados entre alunos do quarto ano de medicina da USP[1]. Dentre as várias causas de angústias dos alunos citadas pelo Instituto de Psiquiatria da USP, uma delas me chamou a atenção: todos reclamam que não há tempo suficiente para atividades que não estejam ligadas ao mundo médico. A complexidade das agendas estão arruinando vidas diariamente.

Jovens que antes aspiravam com a tão sonhada faculdade de medicina estão desanimando e desistindo não apenas da profissão, mas da vida. Sem conseguir avistar uma possibilidade de vida simples a sociedade tem adoecido com o que eu chamo de esgotamento da complexidade.

Está mais do que na hora de revermos as nossas agendas, administrar o nosso tempo com discernimento, de modo que saiamos de uma vida complexa e bagunçada para uma vida simples, com margem e sustentável.

Identificando o problema

Albert Einsten disse certa vez que a “falta de tempo é desculpa daqueles que perdem tempo por falta de método”. Ora, a maioria dos palestrantes especialistas em gestão de tempo afirmam que não existe a “falta” de tempo, mas sim o “mau uso” do tempo. E a pergunta que nos move pode ser esta: no que a geração atual tem investido tempo? Ou melhor: quais são as suas prioridades?

No pastorado, cada vez mais tenho ouvido frases do tipo: “Eu queria mais tempo com a família, ou, eu não tenho tempo para lazer, ou ainda, não tenho tempo nem para descansar direito”. E quando pergunto sobre as agendas de compromissos, percebo que são inseridas cada vez mais atividades profissionais como cursos, um segundo emprego, uma especialização, entre outras atividades, de forma que a vida familiar, descanso, lazer e, principalmente, vida com Deus não se revelam como prioridades na agenda da sociedade pós-moderna.

Se o problema não é falta de tempo, então estamos diante de um caso clássico de falta de planejamento e decisões equivocadas no que se refere a prioridades.

Certa vez Jesus Cristo disse que por mais que alguém se preocupe diante do espelho, não pode acrescentar nenhuma hora que seja à sua vida.[2] Ou seja, por mais que alguém deseje que o tempo acelere ou diminua, ele faz aquilo que deve fazer: o tempo continua passando.

Jesus com toda a simplicidade e profundidade nos chama para uma vida simples com margem e sustentável.

Encontrando a resposta

No texto de Lucas 10.38-42 encontramos uma narrativa belíssima que trata a respeito de investimento saudável de tempo. Nos textos bíblicos encontramos várias referencias sobre a amizade que Cristo Jesus tinha com a família de três irmãos, Maria, Marta e Lázaro.[3]

E lá está Jesus chegando novamente a este doce lar para estar com essa família tão querida, porém no meio da narrativa percebe-se que Marta decide correr por todos os lados da casa arrumando cada detalhe para a melhor recepção do Mestre. Preocupada com a arrumação da casa, bem como a preparação de uma boa refeição, Marta está ocupada com muito serviço enquanto sua irmã está sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra.

Obviamente não podemos negar que em Marta havia um desejo bom, mas ela fez uma escolha desacertada. Isso é perceptível quando, ao reclamar com Jesus, Ele a repreende não porque estava cozinhando, não porque ela estava sendo hospitaleira, não porque ela não tivesse fé, mas sim porque ela estava investindo seu tempo de forma equivocada.

Enquanto Maria estava ouvindo as palavras do Senhor, o narrador informa que Marta estava “ocupada”,[4] uma palavra que faz toda a diferença na narrativa, pois o mesmo verbo grego περισπάω (perispao) pode ser traduzido nesta narrativa como “distrair”. Ou seja, Marta estava distraída daquilo que realmente importava para a sua alma,

naquele momento importante a sua atenção não estava onde deveria estar, seus olhos não estavam fitos para o alvo, seus ouvidos não estavam atentos ao doce som da vida e a sua preocupação estava fora do foco prioritário para a vida plena: Jesus Cristo.

Diante deste cenário, Jesus a repreende em três movimentos e tal advertência se aplica perfeitamente para nós que temos nos perdido em meio a complexidade da vida.

Menos é mais

  • Marta! Marta!

Ao chamá-la pelo nome, e duas vezes, Jesus comunica a sua amizade e carinho por essa família. Nesta advertência amorosa, o Mestre demonstra que as preocupações de Marta são boas, porém estão fora de foco. “Marta! Marta! Menos é mais, chega de tanta complexidade. Eu estou aqui!”

Como é real o sentimento de autojustificação que nos invade quando estamos investindo em coisas “boas”, não é verdade?! Parece que sempre temos ótimas desculpas para continuarmos com nossas agendas complexas e perfeitas. Como somos parecidos com Marta!

Até que chega um momento em que Jesus nos chama pelo nome e revela que precisamos realinhar nossas vidas. Ele nos diz: menos é mais.

Esperar é caminhar

  • Você está preocupada e inquieta com muitas coisas.

“Marta, espere um pouco! Você está ansiosa e preocupada[5], esperar é caminhar, deixe um pouco a arrumação da casa, espere, fique calma e visualize a situação.”

É exatamente a preocupação exagerada que produz a inquietação, e que por fim, gera a ansiedade. Sabemos que viver imerso em ansiedade é perder a vida.

Jesus diz: Pare! Pare de complicar as coisas e desfrute da vida plena.

Esperar nunca foi sinônimo de retroceder, pelo contrário, esperar é contar com a ação de Deus em nossas vidas, esperançar-se no que é verdadeiro, bom e eterno.

Esperar é dizer não até para coisas que são boas para a sua vida, mas que neste exato momento em que você se encontra não são prioridades.

Ele nos diz: esperar é caminhar.

Ouvir é crescer  

  • Apenas uma coisa é necessária.

Maria escolheu a boa parte, uma coisa é necessária: ouvir as palavras de Jesus! Aqui Cristo Jesus afirma o simples para Marta, passar tempo com Ele, desfrutar de sua presença, olhar para Jesus, aprender com Jesus.

Somente quando conseguimos compreender que existe a necessidade de realinharmos as nossas vidas complexas é que percebemos a importância de focar no que realmente importa. Como resultado, descobrimos que a vida pode não ser complexa e superficial, mas sim profunda e simples quando estamos caminhando com Jesus.

Uma importante lição recebemos, se você não tem tempo para ouvir as palavras de Jesus então você nunca desenvolverá a sua caminhada com Ele, pois você deixou a simplicidade de crescer ouvindo as palavras do Mestre para viver na complexidade que conduz ao distanciamento do Eterno.

Ele nos diz: ouvir é crescer.

Conclusão

Ao se preocupar com o banquete que iria oferecer a Jesus e seus amigos, Marta estava perdendo um preciosíssimo tempo com o banquete que Jesus estava oferecendo ao seu coração.

Jesus não envia Maria para a cozinha, mas afirma que ela fez a escolha certa, priorizou aproximar-se das palavras que Ele profere e de sua presença.

Nestes tempos complexos e de agendas superlotadas, lembre-se que tudo o mais, por mais importante que seja, é secundário. Jesus oferece algo primordial: relacionamento com Ele.

Menos é mais, esperar é caminhar e ouvir é crescer. O objetivo da vida simples não é apenas diminuir o stress e gerar tempo, mas a prioridade é aproximar os nossos corações em direção ao coração do Eterno.

E o caminho para isso… bom, você sabe quem é o único caminho verdadeiro e vivo. Portanto, invista tempo no que realmente importa: passe tempo com Jesus.

E que o Eterno nos abençoe na certeza de que todas as coisas ficarão bem.

Lacy Campos é casado com Junia e pai da Bella Hadassa, pastor na Igreja Presbiteriana de Leme/SP; graduado em Direito; Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul; Mestrando em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Um discípulo trilhando a jornada espiritual e que acredita que, em Cristo Jesus, todas as coisas ficarão bem.

 

[1] http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/04/1874794-medicina-da-usp-se-mobiliza-apos-tentativas-de-suicidio.shtml

[2] Mateus 6.27 [NVI]

[3] O Evangelho de João narra, de forma mais enfática, esse relacionamento de amizade.

[4] Tanto a NVI, quanto a ARA e a NVT traduzem o verbo grego para “ocupada”.

[5] Jesus utiliza outros dois verbos gregos para ansiedade e inquietação, μεριμνάω; θορυβάζω

 



De Gênesis a Apocalipse, o Senhor nos adverte a respeito da astúcia de Satanás. Aquele que é “o príncipe dos demônios” (Mt 12.24) busca uma ocasião oportuna para nos devorar. É isto que Pedro diz em seu livro: “Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8). Na verdade, estas palavras escritas por Pedro refletem a exortação de nosso Senhor dirigidas anos antes a ele mesmo: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo.” (Lc 22.31).

Por muitas vezes ao longo dos Evangelhos, vemos um encontro direto de Jesus com os demônios. Muitas destas vezes, os demônios se prostram diante dele com uma forte declaração a respeito de Sua pessoa (Mt 8.9; Mc 1.24; Mc 3.11; Lc 4.41; Lc 8.28). Era evidente, até mesmo para os demônios, que Aquele Homem era o Cristo, o Filho Santo do Deus Altíssimo. Não há nenhuma ocasião em que os demônios se deparem com Jesus e que não saiam dizendo: “Tu és o Filho de Deus”, ou algo semelhante.

Ainda assim, o príncipe dos demônios, Satanás, só fala por três vezes em toda a Escritura. Embora, de alguma maneira, direta ou indiretamente, ele esteja por trás de toda maldade que há no mundo e até mesmo do pecado e miséria que há no homem, sua voz nas Escrituras só podem ser ouvidas diretamente em três ocasiões. Sendo assim, analisaremos, neste pequeno texto, o que está por trás de cada uma de suas falas.

Ao homem

A primeira ocasião em que a voz de Satanás é ouvida diretamente é no Éden. Ali, Satanás se apresenta em forma de serpente para enganar a mulher (Gn 3.1; cf. Ap 12.9). E depois de introduzir uma pergunta perniciosa a respeito da Palavra de Deus (Gn 3.1), Satanás afirma categoricamente a Eva que a Palavra do Senhor é mentirosa e que Deus temia que os homens fossem como Ele. “Disse a serpente à mulher: certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo bem e mal” (Gn 3.4,5).

Muitas coisas poderiam ser ditas aqui. Poderíamos analisar a forma como ele desacredita a Palavra de Deus ou o porquê de ele usar a Palavra de Deus como tema inicial de sua conversa. Porém, como eu já disse, o que quero frisar hoje é o que está por trás do que ele diz à mulher. Repare que, nesta ocasião, Satanás vem ao ser humano para falar a respeito de Deus. E, em outras palavras, o que ele diz é: “Deus teme que vocês sejam iguais a Ele; Ele não quer que vocês conheçam a verdade. Libertem-se dEle; sejam deuses de si mesmos, porque Deus não é tão bom assim para vocês como Ele diz”.

A Deus

A segunda ocasião em que suas palavras são registradas se encontra no livro de Jó. Aqui, a situação é completamente diferente. Ao que parece, enquanto os anjos do Senhor se apresentam perante Ele, Satanás se apresenta também (Jó 1.6). E depois de uma pergunta perspicaz (Jó 1.7), o Senhor introduz Jó na conversa. Ao que Satanás responde: “Porventura, Jó teme a Deus debalde? Não o tens protegido de todo lado a ele, e a sua casa e a tudo quanto possui? Tens abençoado a obra de suas mãos, e os seus bens se multiplicam na terra. Mas estende agora a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemará de ti na tua face.” (Jó 1.9-11). Mais uma vez, o cenário básico se repete e Satanás diz algo semelhante (Jó 2.4,5).

Outras muitas coisas poderiam ser notadas destas passagens. Poderíamos falar a respeito do propósito divino na vida dos seus servos ou da soberania de Deus sobre todas as coisas – até mesmo sobre Satanás. Todavia, mais uma vez veremos o que está por trás das palavras do diabo.  Interessante notarmos que, agora, o Maligno adota uma postura completamente diferente. Se na primeira ocasião ele fala ao homem a respeito de Deus, desta feita ele fala a Deus a respeito do homem. E, naturalmente, o teor de sua fala não é o mesmo. Ele não está mais diante de Eva; desta vez, ele se encontra diante do Sapientíssimo Deus – e ele sabe disso.

Como vimos acima, na primeira ocasião em que sua fala é registrada, ele mentiu para Eva sugerindo que Deus não é tão bom assim. Contudo, ele sabe que Deus é infinitamente bom para os Seus (Sl 73.1; 107.1; 136.1). Por isso, sua estratégia aqui foi frisar justamente a bondade de Deus. O que ele sugere, agora, é totalmente contrário do que ele sugeriu à Eva. Aqui ele diz: “O Senhor cerca a Jó com muitas bênçãos. Ele tem tudo que precisa, e muito mais. Deixe de ser o Deus dele para ver se ele não blasfema de ti. Ele só te serve porque o Senhor é muito bom para ele.” Percebem a sutil, embora drástica, diferença?

Ao Deus-Homem

A terceira e última ocasião em que o próprio Satanás tem sua fala registrada nas Escrituras se encontra nos Evangelhos. Depois de ter sido batizado, Jesus é levado, pelo Espírito Santo, ao deserto para ser tentado por Satanás (Mt 4.1; Lc 4.1). Após 40 dias sem comer, o diabo se aproxima do Filho de Deus para tentá-lo. Ele faz três investidas contra Jesus, das quais a última, certamente, é sua cartada mais forte. “Novamente, o diabo o levou a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles; e disse-lhe: ‘Tudo isto te darei, se prostrado me adorares’” (Mt 4.8,9).

Se na primeira ocasião Satanás se apresenta ao homem e na segunda a Deus, na terceira ele se encontra diante do Deus-Homem – e ele sabe disso. Jesus é Deus como o Pai e homem como Adão, que também foi enganado pela mentira de Satanás (Gn 3.6; cf. 1Tm 2.14). O diabo sabe que Jesus veio para lhe esmagar a cabeça. O próprio Deus disse isto para ele quando este enganou a Eva (Gn 3.15). Sabendo disto, o que ele diz a Jesus no texto de Mateus supracitado é: “Prostre-se diante de mim que eu te darei toda glória do mundo. Você não precisa passar pela morte da cruz para receber a glória; eu te darei toda ela se me fizeres seu deus. Deixe-me ser o seu deus, afinal eu posso ser um deus melhor do que Ele é para Você.”.

Atenção, zelo e vigilância

Veja que na primeira vez ele se apresenta ao homem; na segunda vez, a Deus; e na terceira, ao Deus-Homem. Na primeira, ele sugere sutilmente que Deus não é tão bom assim; na segunda, ele diz a Deus que Ele é muito bom para Jó; e na terceira ele se propõe a ser melhor do que Deus para Jesus. Na primeira ocasião, ele sugere a Eva que ela e seu marido fossem deuses de si mesmo; na segunda, ele sugere a Deus que deixasse de ser o Deus que Ele era para Jó; na terceira, ele se propõe a ser o deus de Jesus. Em todas estas ocasiões, o que ele está tentando fazer é usar de suas artimanhas para que não adoremos ao único e verdadeiro Deus, embaçando-nos a vista para que não enxerguemos a Deus como Ele deve ser visto.

E para isto, se necessário for, ele buscará perverter até mesmo a Palavra de Deus (cf. 2Co 11.14; Gl 1.8,9). Ele usa até mesmo a Palavra para tentar a Jesus, mas partindo de uma interpretação propositalmente equivocada (Mt 4.6). De várias formas e com vários estratagemas diferentes, seu objetivo é sempre o mesmo: tirar Deus do centro de nossas vidas. Às vezes ele nos dirá que Deus não é tão bom para nós quanto Ele diz ser; outras vezes chegará até mesmo a propor de ser um deus melhor para nós, ou então perverterá a doutrina da bondade de Deus com alegações de uma bondade amoral, levando-nos, assim, a abusar de nossa liberdade em Cristo (Jd 4; Ap 2.20).

“Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8). “Sujeitai-vos, pois, a Deus, mas resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós.” (Tg 4.7). Quem tem ouvidos ouça.

 

Rafael Almeida. 24 anos, nascido em Passa Quatro – MG. Formado em Redes de Computadores pela Fatec/Cruzeiro – SP. Coordenador dos trabalhos da Igreja Batista Reformada em Passa Quatro – MG. Tem interesse especial em hermenêutica e exegese. Rafael é casado com Ana Cristina.


O conceito de livre-arbítrio tem sido sustentado ao longo da história como algo absolutamente óbvio nos círculos de compreensão teológica e sociológica da vida. É como se esta premissa fosse tão evidente que não precisasse ser provada filosófica e logicamente. Contudo, alguém que crê na existência do livre-arbítrio quando desafiado a prová-lo filosófico, teológico e logicamente, geralmente se vê em grandes apuros, devido a inconsistência e até mesmo a irracionalidade da ideia.

Primeiro, se faz necessário definir o conceito de livre-arbítrio. A premissa básica nada mais é que afirmar a autonomia da vontade do ser humano, como se esta fosse livre de qualquer causação, ou seja, não existe nada que limite ou domine a liberdade do homem, ele escolhe o que bem entender, do modo que bem entender, livre de qualquer influência definitiva nas escolhas que faz.

Compreender a irracionalidade do conceito de livre-arbítrio é fundamental para uma avaliação mais assertiva da realidade que se vive. Para os cristãos esta compreensão é ainda mais importante, pois, tira o homem do centro da vida, como se ele fosse o motivo último da existência do universo, local em que a renascença e o iluminismo colocaram-no nos últimos séculos, conceito que tem sido tristemente absorvido e avalizado por grande parte da cristandade desde então. Compreender que não somos tão poderosos assim, traz o Deus das Escrituras de volta ao lugar de governador do universo e restabelece a ordem da criação: Deus como criador e sustentador de todas as coisas e os homens como suas criaturas, submissos a seu governo soberano.

Pretendo analisar brevemente o conceito sob dois aspectos: o cotidiano, que em primeira instância não envolve nosso relacionamento com Deus, e, o espiritual, que, aí sim, diz respeito a Deus, a religião, a espiritualidade e afins. Podemos facilitar a compreensão como sendo a primeira abordagem, sociológica, e a segunda, teológica.

Vamos a análise sociológica: 

A vontade está atrelada a mente. A mente é o mecanismo que julga o que é melhor para ser feito, esta decisão causa a nossa vontade, que por sua vez, causa a nossa ação. E sobre quais bases está fundamentada a nossa mente? Sobre as bases do nosso caráter. Nosso caráter é uma composição complexa de inúmeros fatores como, educação familiar, formação acadêmica, influências culturais, espiritualidade, influências psicossociais, influências químicas, físicas, geográficas e uma imensa gama de outros fatores.

Diante disso, uma pergunta deve ser respondida: o que faz com que a mente de uma pessoa escolha a alternativa ou atitude A em detrimento da alternativa ou atitude B, ou vice-versa? Se entende-se que esta escolha é autônoma, não foi causada e não está baseada em nenhum elemento influenciador, teremos de descartar da lógica do raciocínio, toda esta gama de elementos reais descritos acima, inerentes a vida de todo ser humano. Se a escolha é autônoma e livre de causação, o que fez com que a mente desta pessoa escolhesse A ou B? O que tirou a escolha do ponto neutro? Se não é nenhum dos elementos vinculados ao caráter que influencia a mente, que por sua vez influencia a vontade, que por sua vez influencia a ação, é impossível não concluir que o que rege a decisão de alguém que tem ‘livre-arbítrio’ é o acaso. Pois, se meu caráter não causa minhas ações, porque minhas ações são livres de causação, minhas ações estão sendo regidas por impulsos autoimpostos da minha vontade completamente aleatórios. O que é completamente irracional. Em suma, se minha escolha é baseada na autonomia da vontade, ela está irremediavelmente vinculada ao acaso. Se ela é vinculada ao meu caráter, ela é causada, portanto, já não é mais livre.

Muitas vezes o conceito de livre-arbítrio é considerado como necessário para a existência da responsabilidade humana. Entretanto, ao analisarmos cautelosamente a questão, perceberemos que ao invés de subscrever a responsabilidade humana, ele na verdade a invalida. Pois, como alguém que tem suas ações desvinculadas de qualquer tipo de causação (caráter) e atreladas a instabilidade do acaso autônomo pode ter suas ações como sendo responsáveis e julgáveis? Responsabilidade é um conceito atrelado ao conhecimento e não a autonomia da vontade. Existe liberdade da vontade, sim! Mas esta está circunscrita a um sem número de fatores causativos e não ao conceito irracional de livre-arbítrio tal como se nos é apresentado corriqueiramente.

Analisemos agora, a partir da premissa teológica:

Seguindo a mesma linha de raciocínio, a vontade está atrelada a mente, a mente é o mecanismo que decide o que é melhor para ser feito, esta decisão causa a nossa vontade, que por sua vez causa a nossa ação. E sobre quais bases está fundamentada a nossa mente? Sobre as bases do nosso caráter. Analisando o caráter da raça humana à luz das Escrituras Sagradas, encontraremos inúmeras sentenças tanto no antigo como no novo testamento que apontam para uma grande e irremediável problemática no cerne daquilo que o constitui: somos pecadores, escravos do pecado e odiamos a Deus! (Rm 1.28-31, Jo 8.34) Dentre o sem número de textos bíblicos que apontam nossa depravação, escolhi o que julgo ser mais contundente quanto a questão, que se encontra nos versos 10, 11 e 12 do capítulo 3 da carta do apóstolo Paulo aos Romanos, que diz: “Como está escrito: Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer”. Como pode haver autonomia da vontade se nosso coração, apresentado nas Sagradas Escrituras como o âmago da nossa existência, está corrompido pelo efeito devastador do pecado?

Como descrito pelo apóstolo, nosso caráter está absolutamente comprometido com a maldade e com a inimizade contra Deus, o próprio Paulo em outra oportunidade diz que, na verdade, estamos mortos em delitos e pecados (Ef 2.1) e não apenas mortos, mas trabalhamos contra Deus, odiamos a luz e amamos as trevas. O homem na Escritura Sagrada, mais particularmente na carta aos Romanos, no capítulo 1, é apresentado como conhecedor de Deus, que preferiu suprimir a verdade em detrimento da justiça, e por isso é considerado indesculpável. Notem que o conceito de responsabilidade está atrelado ao conhecimento e não a um suposto livre-arbítrio.

Também em Romanos, no verso 23 do capítulo 14, o apóstolo diz que tudo que não provem de fé é pecado. Se todas as ações dos homens, incluindo seus pensamentos e expressões, que não vem de fé são pecado, onde está a neutralidade na escolha do homem? Como pode o homem não regenerado (que não recebeu fé de Deus) fazer algo que seja de fé? Toda a ação humana é permeada pelo pecado, não existe zona neutra. Um teste simples que comprovaria a inexistência do livre-arbítrio é o seguinte: comprometa-se consigo mesmo que pelos próximos 12 meses você não vai mais pecar. Você conseguiria? Quem conseguiria? Se temos autonomia e domínio exaustivo de nossa vontade por que não somos capazes de parar de pecar?

Podemos tirar algumas conclusões

O que faz o ser humano diante da pregação do evangelho optar por receber ou negar a Cristo? A vontade autônoma ou o caráter humano? A hipótese da autonomia da vontade invalidaria todo o argumento bíblico que apresenta a raça humana como não livre, mas decaída, escrava do pecado e incapaz de buscar a Deus como atesta categoricamente o capítulo 3 da carta aos Romanos. Se a hipótese correta é que o que causa a escolha do homem é seu caráter, como poderia o homem optar por buscar a Deus se sua natureza foi completamente corrompida pelo pecado a ponto do apóstolo sustentar que não há quem busque a Deus? Se a despeito de toda a argumentação acima, ainda seja sustentada a ideia de que o homem rompe todas estas barreiras e escolhe a Deus fundamentado em sua própria capacidade, então já não há mais espaço para a graça, que não vem de nós, antes, é dom de Deus.

Somos seres livres, que fazem escolhas reais a todo o momento, a Escritura jamais negou isso. Contudo, nossas escolhas foram cabalmente afetadas pela queda, estão circunscritas a natureza humana caída que será regenerada por completo, apenas no dia da vinda de nosso Senhor. Nossa liberdade de escolha não pode ser confundida com o conceito de livre-arbítrio ou da autonomia da vontade, como se em algum lugar da natureza humana existisse neutralidade. Quando a Escritura nos impele a fazer escolhas, ela não está afirmando a existência do livre-arbítrio. A lei nos foi dada para que compreendêssemos nossa miserabilidade e assim corrêssemos para o único Salvador que pode nos ajudar a cumpri-la. Aquele que vive para Deus, já não vive mais por si mesmo, mas é Cristo quem vive nele, e uma vez distante de Jesus, absolutamente nenhum ser humano seria capaz de cumprir qualquer requisito exigido por Deus.

O conceito de liberdade na Escritura Sagrada nunca esteve atrelado ao conceito de livre-arbítrio e sim ao novo nascimento. Lembremo-nos das palavras de Jesus: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará!” Jesus não disse: e tereis livre-arbítrio e o livre-arbítrio vos libertará. Só existe verdadeira liberdade de escolha em Cristo Jesus, pois, ele irrompe nossa desgraça espiritual e regenera nosso caráter, fazendo com que tenhamos condições para servir a Deus. Foi ele mesmo quem disse: “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44). Se ninguém pode ir a Jesus sem que o Pai o leve, onde fica o livre-arbítrio humano? É Deus quem nos vivifica da nossa morte em delitos e pecados. É Ele que nos atrai com cordas de amor. É Ele quem chama, justifica, santifica e glorifica (Rm 8.30). Compreender a irracionalidade do conceito de livre-arbítrio é compreender que se algum dia algum homem amou a Deus, foi porque Deus amou este homem primeiro, e que se algum dia algum homem escolheu a Deus, foi porque Deus escolheu este homem primeiro, de graça, nunca partiu de nós, para que não viéssemos a nos gloriar. Jamais teríamos capacidade de buscar a Deus, mortos em nossos pecados. Jamais escolheríamos a Deus, se ele não nos escolhesse para si, em Cristo, para sua própria glória. A salvação pertence a Deus e não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus demonstrar sua misericórdia (Jn 2.9, Rm 9.16).

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. Atualmente cursa o oitavo semestre de teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP.


Uma das séries mais assistidas e comentadas nas redes sociais nos últimos meses, principalmente entre o público jovem, se chama “13 Reasons Why” ou “Os 13 porquês”. A plataforma de streaming NetFlix se nega a divulgar os números de audiência, porém, é notório o quanto a série que é baseada no livro de Jay Asher tornou-se um sucesso global e chamou atenção de jornais, revistas e blogs.

A sinopse já é uma espécie de spoiler: depois de sofrer abusos físicos, sexuais e psicológicos, Hannah Baker de 17 anos vê-se completamente destruída a ponto de enxergar apenas uma resposta para seus problemas: por fim a sua própria vida.

É nesta temática a respeito do suicídio que a trama desenvolve sua narrativa, “Talvez eu nunca saiba por que vocês fizeram o que fizeram. Mas eu posso fazê-los sentir como foi”, diz Hannah ao gravar fitas cassetes para narrar em detalhes os porquês de sua ruína antes de se suicidar

Lado A 

A série rapidamente se torna um sucesso global, uma vez que o assunto bullying, cyberbullying, depressão e suicídio atingem em cheio a geração atual de adolescentes e jovens. É de se elogiar a coragem em abordar assuntos tão delicados e que ao mesmo tempo são de extrema importância. Devemos sim falar sobre agressões físicas e psicológicas, estupro, assédios, depressão e suicídio, pois tratam de assuntos reais e problemas atuais do qual atinge a grande maioria dos jovens do ensino fundamental, médio e também superior.

Atualmente, o Brasil está entre os 10 países com maior número de registros de suicídios no mundo, de acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que significa que suicídio não é brincadeira, frescura e precisa ser conversado e discutido seriamente. Entretanto, a série acabou fazendo um desserviço maior do que sua beneficência, e explicarei os porquês.

Lado B

Ao mesmo tempo que se aborda assuntos delicados e profundos a série “Os 13 porquês”, simplesmente ignora e contraria as principais recomendações da OMS a respeito do suicídio. Ora, a série acaba romantizando este ato negativo trazendo “justificativas” para que o mal tenha uma certa aparência de bem.

Em vários momentos, os personagens abordam e trazem a ideia de que o suicídio é uma opção plausível quando na verdade ignora-se o fato de que mais de 90% dos casos estão relacionados a um adoecimento mental, onde a pessoa fragilizada está aprisionada num cenário falso de opções.

Outro ponto é que sua personagem principal, Hannah Baker deixa 13 fitas, 13 porquês, 13 pessoas, 13 culpados. Não há que se negar os atos criminosos e desumanos que ela sofreu durante sua adolescência, mas atribuir a total culpa de seu ato a terceiros e de forma vingativa, do qual a personagem retribui maldade com mais maldade é um ponto em que nada se edifica.

E por fim, o erro mais absurdo e escancarado da série é a exposição detalhada da cena de suicídio de Hannah Baker. Existe, na psicanálise um estudo a respeito de quanto um suicídio pode inspirar outras pessoas que se identificam em sua fragilidade e dor a cometer a mesma atitude gerando um efeito cascata.

Parece que, na sua negligência ou busca por sucesso através de temas delicados, a produção da série decidiu ir contra todos os Manuais de Prevenção de Suicídio gerando assim, um perigoso gatilho para aqueles que lutam contra a depressão. O mundo está cheio de porquês para a morte e, nós, não podemos ignorar o fato de que esse sucesso da série é, na verdade, um grito da sociedade contra a morte. Aliás, esse é o problema.

A morte destrói tudo ao seu redor.

Existe uma narrativa muito interessante em Lucas 7.11-17. Jesus, seus discípulos e uma grande multidão que os seguia se aproximam de uma cidade chamada Naim e se deparam com um funeral de caixão aberto: o único filho de uma viúva ia ser enterrado.

Dia horrível para aquela mulher, um dia onde sua alma fora destruída pela perda de seu único filho e todo o seu sofrimento está exposto ali diante de todos.

Ao longo dos anos, na jornada da vida, eu e você passaremos por momentos de sofrimento, dor e destruição, pois sabemos que não somos imunes ao sofrimento. Na série “Os 13 porquês” Hannah Baker também não era imune ao sofrimento e mais do que isso, ela foi machucada diariamente por diversos tipos de agressões. Ela precisava de ajuda e todo o seu sofrimento culminou com sua trágica morte.

A morte de Hannah Baker destruiu as pessoas que estavam a sua volta, acabou com seu amigo Clay Jensen que, nutria uma paixão secreta por ela e não deixou de aniquilar a vida de seus pais que tanto a amavam e que ficaram extremamente abalados com a perda.

É isso que a morte faz. Ela afeta a todos e destrói tudo ao seu redor. O texto bíblico nos informa que uma grande multidão chorava a dor da viúva de Naim, bem como seus amigos, familiares e toda a aldeia destruída lamentando a morte de um jovem.

Vários porquês.

De maneira semelhante essa é a dor que Hannah Baker deixou com sua atitude suicida. Obviamente o texto bíblico não diz que o filho daquela viúva suicidou-se aliás, de acordo com a narrativa, com o contexto bíblico e cultural, tenho a mais absoluta certeza de que o suicídio não foi a causa mortis daquele jovem. Mas ao nos conectarmos emocionalmente com a dor daquela viúva percebemos claramente que ela está destruída, quebrada e vivendo o pior dia da sua vida.

Uma mulher pobre e de uma cidade insignificante que enfrenta o seu segundo funeral. Sim, o texto nos informa que, anteriormente, esta mulher já havia enterrado o seu marido.

Logo numa época onde não havia previdência social, temos uma mulher desamparada, completamente destruída, que antes tinha uma família e agora está no funeral de seu próprio filho.

Sinceramente, não sei se existe algo mais devastador do que um pai e uma mãe enterrarem seu filho. Eu não consigo mensurar a dor daquela viúva, mas em sua angústia ela poderia afirmar, como disse Hannah Baker, que “a partir de hoje ela estava morta por dentro.”

Aos olhos de um mundo desconectado de Deus, essa viúva de Naim não tinha apenas uma certa quantidade de porquês, mas sim todos os porquês do mundo para desistir de viver. Pode-se dizer que, a partir da filosofia do seriado essa viúva de Naim não tinha outra saída a não ser desistir.

Porém, a verdade é que,

por mais que todas as coisas estejam caindo ao seu redor a morte nunca tem a última palavra, pois nada, absolutamente nada, é significativo para que alguém tire a sua vida. Existe uma resposta para viver: Cristo Jesus.

Uma resposta para viver: Jesus de Nazaré!

Uma das coisas mais belas desta narrativa bíblica é vermos Cristo Jesus saindo de Cafarnaum e caminhando 35km num terreno montanhoso em direção a Naim. Podemos até imaginar a situação e os discípulos questionando Jesus: “Mestre você precisa parar e ensinar este povo… Mestre, você precisa curar… Mestre, não há nada e ninguém em Naim! Mestre, faremos o quê naquela cidadezinha sem importância?”

E Jesus vai para Naim com o propósito de encontrar aquela viúva no meio da sua dor e de seu sofrimento. Jesus persegue, intencionalmente, uma mulher que nem o conhecia. Jesus a escolhe, Jesus a busca, pois Jesus decidiu amar aquela viúva de Naim e restaurar a sua vida.

É isso que Cristo Jesus faz. Ele vai ao encontro de pessoas totalmente destruídas para trazer vida e vida em abundância.

Movido por uma profunda compaixão Jesus se identifica com o sofrimento daquela mulher e ordena: “Não chore!”. Em seguida, toca o caixão e ordena ao jovem: “Levante-se!”, então jovem que antes estava morto volta a viver.
Dois imperativos, “Não chore!” e “Levante-se”, e neste momento Cristo Jesus alcança literalmente a morte restaurando não só a vida daquele jovem, mas a alma de sua mãe.

Jesus revela que Ele é a resposta e que a morte nunca tem a última palavra, pois Ele é a ressurreição e a vida.

Hannah Baker, Viúva de Naim, eu e você.

Quando falamos sobre a morte como uma desconexão com Deus, eu e você não somos em nada diferentes de tantas Hannah Bakers e viúvas de Naim espalhadas por aí, mas Deus é tão rico em misericórdia e nos amou tanto que, embora estivéssemos mortos por causa de nossos pecados, ele nos deu vida juntamente com Cristo. É pela graça que vocês são salvos!

Essa é a nossa má notícia. Embora fisicamente vivos, estávamos mortos em nossos pecados, mortos por dentro, sem nenhuma condição de nos relacionarmos com Deus. Mas a boa notícia é que Deus, por seu incalculável amor veio restabelecer essa conexão perdida por meio de Cristo Jesus.

E é Cristo Jesus que nos encontra em meio ao nosso sofrimento, é Cristo Jesus que nos toca, é Cristo Jesus que encara a morte numa cruz no nosso lugar e vence a morte ressuscitando no 3º dia. Então Ele nos dá um novo coração, uma nova vida, uma nova natureza, um novo poder pelo Espírito Santo de Deus e te diz que a morte nunca terá a ultima palavra!

Compartilhando a vida!

Se o mundo está cheio de porquês para a morte e o sucesso da série “Os 13 porquês” revela um grito de socorro da sociedade então, mais do que nunca o dever de proclamar a resposta está sobre os discípulos de Jesus que, pela graça já desfrutam da vida plena e abundante.

Hoje, eu e você somos comissionados a proclamar a resposta para aqueles que estão destruídos por abusos físicos e psicológicos, sofrem com depressão, não conseguem enxergar um cenário positivo por estarem adoecidos mental e espiritualmente e pensam em desistir de viver.

A resposta para a dor nunca será um seriado da Netflix ou uma atitude desesperada de por fim a sua própria vida. A resposta para o sofrimento sempre será o nome daquele que não é indiferente ao sofrimento, aquele que carregou todos os nosso pecados, que sabe o que é sofrer, que sabe o que é morrer, e que se entregou por amor com o único propósito de restaurar vidas: Jesus Cristo.

Ele é a resposta que deve ser proclamada. Ele é a Ressurreição e a Vida.

Que Deus te abençoe na certeza de que em Cristo Jesus todas as coisas ficarão bem.

Lacy Campos é casado com Junia e pai da Bella Hadassa, pastor na Igreja Presbiteriana de Leme/SP; graduado em Direito; Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul; Mestrando em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Um discípulo trilhando a jornada espiritual e que acredita que, em Cristo Jesus, todas as coisas ficarão bem.



É cada vez mais notória a expansão do pensamento teológico protestante de matriz reformada em nosso país. O movimento se faz ainda mais presente entre os jovens, e com o advento da celebração dos 500 anos da Reforma Protestante, que ocorre este ano no mês de Outubro, os pensadores e as obras dessa cena teológica têm ganhado ainda mais voz e campo entre os cristãos protestantes. Muito disso se dá em função da internet e do grande investimento que editoras cristãs têm feito na publicação de literatura de altíssimo gabarito em nosso país. Tudo isso certamente é motivo de grande alegria e de gratidão ao Senhor, que, por Sua graça, tem presenteado a igreja brasileira com gente cada vez mais capacitada e preparada para o ensino bíblico fiel das Escrituras Sagradas e da teologia cristã.

Contudo, me atreverei a tecer algumas considerações sobre um ponto que tem me deixado um tanto quanto preocupado a respeito da real compreensão da integralidade dos desdobramentos do que a tradição reformada nos legou, e este ponto em especial diz respeito a estética e a arte. Foram os reformadores que nos ajudaram a enxergar a supremacia do senhorio de Cristo sobre todas as coisas e é exatamente nesse sentido que pretendo caminhar neste texto.

Estética? Arte?

Permitam-me explicar, quando falo sobre estética e arte, falo de toda e qualquer iniciativa, atividade e/ou artefato que expresse algo que acreditamos e fazemos, estou falando de produção cultural como um todo: músicas, filmes, artes plásticas, teatro, pintura, festivais culturais de toda sorte, livros, histórias, eventos, palestras; mas não falo apenas do evento e do artefato em si, falo também da forma como estes eventos e artefatos são apresentados, nisso poderíamos incluir, vídeo, fotografia, sonorização, design (guarde bem esta palavra), decoração, recepção, comunicação e mais uma infinidade de aspectos que poderiam ser apontados.

Claro que em um espaço como este não temos tempo nem de arranhar a superfície do que o assunto realmente demanda. Portanto, pretendo falar predominantemente sobre a segunda parte da lista apontada acima, que diz respeito em especial à forma como apresentamos e comunicamos os artefatos culturais que produzimos e a mensagem que temos em mãos.

Ele é Criador e Senhor. De tudo.

Com a expansão da teologia reformada em solo brasileiro, expandiu-se também os eventos e as atividades das igrejas reformadas. Esse movimento, no entanto, deixou patente um problema: muitas vezes temos um conteúdo excelente, porém transmitido de forma vergonhosamente precária. São convites mal elaborados, artes gráficas de gosto extremamente duvidoso, organização e recepção atabalhoadas, comunicação nas redes sociais provinciana, sonorização dos eventos/cultos de baixíssima qualidade, até mesmo a hospitalidade em alguns círculos reformados tende a ser mais fria e distante.

Acredito que o fundamento que deva servir de pano de fundo para a compreensão da  ideia que pretendo sublinhar aqui, é o fato de que Cristo também é Senhor da arte e da estética. De que existe um padrão revelado na criação daquilo que é belo e bom e de que Deus se importa com isso. Talvez tenhamos de ser desafiados a olhar para a criação, reconhecendo nela o maior e mais espetacular Artista que já existiu desde toda a eternidade. Tudo de mais belo que existe no universo desde as mais distantes estrelas que decoram as noites sem luar, até as mais suntuosas maravilhas naturais do nosso planeta Terra, são obras das mãos deste Magnífico Artista, e estão gritando bem diante de nossos olhos o quão interessado Ele é no que é esteticamente belo.

Todos os dias temos oportunidades reais de contemplar o horizonte, a metamorfose de cores do firmamento, o canto sereno de uma ave, o brilho ofuscante do sol, as frondosas e, por vezes intimidadoras, árvores. Diariamente estamos expostos a um festival repleto de cores, traços, linhas, curvas, sons, cheiros e sabores de todos os tipos, pra todos os gostos. Você já parou pra pensar que Deus escolheu que Sua criação fosse assim? Que Ele escolheu agir assim e que Ele é assim? Deus é um Deus que se preocupa com o design e com a beleza das coisas, com a organização, com a estética, com a harmonia dos elementos, Ele não é e nunca foi um Deus de bagunça, desleixado e indiferente ao que bom e belo.

Além da apreensão deste conceito fundante em nosso coração, é preciso também, que restauremos a central importância da arte na vida humana. Ora, uma parcela avassaladora daquilo que influenciou a humanidade e nos influencia todos os dias até hoje, são artefatos culturais e artísticos: desde as grandes obras clássicas da música e da pintura, as artes plásticas, os grandes clássicos da literatura e do teatro, as incontáveis tradições orais que resguardaram por séculos a fio a história e a cultura de inúmeros povos, até a contemporaneidade e suas séries de televisão, filmes, novelas, peças de marketing e propaganda, stand-up comedys, hits musicais, e tantos outros empreendimentos artísticos, tudo, desde sempre possuiu e ainda possui um poder incrível de comunicação e influência na vida do homem. Olhem para toda cultura que tem sido disseminada por este inúmeros veículos artísticos citados acima, não são exatamente eles que têm formado a mentalidade secularizada do homem pós-moderno do século XXI?

Como disse, não vou entrar no mérito de como anda a produção artística cristã em todas essas áreas e qual a relevância e influência que nossos artistas têm como um todo nestes meios, antes, gostaria de lançar um olhar para dentro da igreja, mais especificamente ainda, para o movimento reformado, e como parte deste movimento, me incluo como merecedor de tudo que vou apontar.

Glória de Deus?

Não somos nós que prezamos pela teologia que subscreve o Soli Deo Gloria, a Soberania de Deus sobre todas as coisas, a Supremacia de Cristo, o comer e beber e o fazer qualquer outra coisa para a glória de Deus? De que adianta, meus caros irmãos e irmãs, termos tanta ortodoxia bíblica se não existe de nossa parte o mínimo entendimento dos desdobramentos mais elementares desta tão maravilhosa compreensão que aponta Cristo como Senhor de absolutamente cada palmo do que fazemos e de cada segundo em que existimos?

Como podemos falar tanto na glória de Deus quando, por vezes, não conseguimos refletir essa consciência na confecção de um simples anúncio de um evento que organizaremos? Numa simples arte para internet, num banner, num outdoor, num cartaz, num vídeo, na gravação, mixagem e masterização de uma música? Como podemos com nossas bocas e livros anunciar que tudo pertence a Deus e deve ser feito para Sua glória e continuar apresentando toda essa riqueza que temos em mãos de forma tão precária e medíocre? O que perdemos no meio desse processo todo?

Como, diante do Deus que criou toda essa beleza estonteante da criação, continuamos com nossas igrejas visualmente pensadas e ornamentadas de forma tão desleixada? Por que tanta pobreza estética? Por que os músicos nas igrejas reformadas geralmente parecem ser os menos aplicados e ensaiados? Por que o som em igrejas reformadas predominantemente é tão precário e mal equalizado? Por que sempre que vamos exibir algum vídeo no datashow as coisas nunca dão certo de primeira? Por que as bandas e cantores de tradição reformada quando gravam seus trabalhos em um CD, parecem estar anos-luz do mínimo que existe no mundo atual do áudio? Por que temos de ser sempre tão atrasados e retrógrados em todos estes aspectos? Será que já não passamos da hora de perceber o quanto isso é vergonhoso e o quanto uma mudança em nosso comportamento poderia contribuir para o avanço da poderosa mensagem que temos em mãos?

Proponho uma nova forma de encarar não apenas as atividades da igreja, mas a vida.

É triste quando somos tomados de assalto por um pragmatismo doentio, pensando que tudo isso tem menos importância para Deus, ou pior, nem importância tem. Por isso, gostaria de encorajar você a, de agora em diante, esmerar-se o máximo possível em qualquer atividade que colocar as mãos, tendo sempre em mente todos estes aspectos que abordamos neste texto. Encarar o mundo desta perspectiva pode mudar a sua vida. Quando você for organizar um evento que envolva a mensagem do evangelho, não deixe para última hora, não seja negligente, monte uma equipe disposta a trabalhar, planeje-se em todos os detalhes, não subestime a arte, o design, a ordem, nem a estética, eles comunicam muito mais a seu respeito e a respeito de sua comunidade de fé do que você pode imaginar.

Mas podemos ainda ir muito adiante, quando você for arrumar e organizar a cozinha, o guarda-roupa, seus livros, a estante, o quintal, o escritório, quando for decorar um ambiente, fazer uma propaganda, um folheto, um cartaz, um site, um vídeo, quando for consertar a próxima torneira, trocar o próximo chuveiro, organizar seus documentos, quando for fazer aquela pintura em casa, por a mesa para o almoço de domingo, lembre-se do Deus a quem você serve e o quão detalhista e caprichoso Ele é. Comece a reparar nos detalhes, nos sabores, nas cores, nas letras, nos tamanhos, nos timbres, nas pequenas coisas feitas com excelência, dê valor a tudo isso. Não relativize o belo, ainda existe beleza no mundo de Deus. Ele mesmo deu uma incrível capacidade criadora e embelezadora a todos nós, Ele nos fez assim porque Ele é assim, e somos criados a Sua imagem e semelhança. Não jogue isso fora.

Porventura, eu estou falando que a eficácia da mensagem do evangelho depende destas coisas? Claro que não! O Espírito faz o quer, como quer, quando quer e do jeito que quer, entretanto, isso não abre precedente para que sejamos desleixados esteticamente. É importante dizer também que nada do que foi apontado aqui precisa necessariamente depender de muito dinheiro, é bem possível sermos organizados e esteticamente comprometidos, dispondo de poucos recursos, a questão tem muito mais a ver com o coração e com a forma de encarar as coisas do que com dinheiro. O ponto é que nós temos um padrão estético a seguir, e o padrão é de altíssimo nível, é o padrão da criação.

É hora de valorizar e encorajar nossos músicos, compositores, fotógrafos, sonoplastas, decoradores, poetas, designers gráficos (estes são muito necessários), artesãos, artistas plásticos, iluminadores, escritores, engenheiros de áudio, pintores, escultores, roteiristas, produtores musicais, enfim, designers e artistas de toda a sorte. Temos de erradicar de nossas concepções aquela ideia tão peculiar aos círculos evangélicos de que no Reino de Deus não existem artistas. Deus não é contra os artistas, pelo contrário, Deus é um deles. O maior de todos eles.

Que o Senhor desperte as igrejas reformadas para este aspecto do Senhorio de Cristo e que possamos glorificá-lo com muito mais fidelidade na esfera da arte, da estética e do design.

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. Atualmente cursa o oitavo semestre de teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP.


Em meu primeiro texto aqui para os dois dedos de teologia não poderia deixar de convidar cada leitor a pensar sobre a minha maior inquietação no momento. E ao mesmo tempo não posso jamais deixar a reflexão artística de lado. Tenho uma dívida histórica com isso. Dessa forma, procuro colocar em pauta o nosso culto público, bem como a nossa visão e relação com as artes, seja ela clássica, reformada ou moderna. Como forma de avaliarmos se o que vivemos diariamente está pautado e amparado pelas escrituras e encontra descanso na graça divina. Assim, convido todos vocês para alguns momentos de reflexão, inspiração e leitura bíblica.

A POSE FOTOGRÁFICA: uma artificialidade realista

Pense em uma reunião familiar. Em cada família existe um membro metido a fotógrafo. Com sua câmera profissional, ou até mesmo com o celular, um momento que todos partilhamos surge. A foto do dia. Na sala, todos os membros se amontoam, abraçam-se, forçam um sorriso e esperam o click, para depois subirem suas fotos como um incenso perfumado em seus instagrams e facebooks. O convívio familiar é mostrado publicamente na rede, e todos podem ver os sorrisos expressos. É a felicidade sentida no momento familiar agora eternizado. A foto é tirada e aquele cenário é lembrado para sempre.

Agora pense em uma segunda foto, ou uma sequência de fotos. Elas se originam em uma reunião dominical, ou mesmo em um grande evento cristão. Luzes, pessoas de braços levantados, sorrisos e até mesmo rostos emocionados. Um arauto com uma expressão intensa e mão especulando, dando ensinamento à um povo totalmente hipnotizado por palavras grandiosas. Uma série de imagens mostrando a banda do domingo, a adoração pública, a exaltação à Deus e o momento de comunhão dominical. Dezenas de fotos tiradas, agora na rede para que a comunidade tenha um destaque, seja conhecida, e muitos ainda possam visitar e aproveitar do que a igreja local pode oferecer. O culto público em foto, eternizado como um momento único, especial, de alegria, louvor e adoração. Intenso e emocionante, racional e interessante. Fervoroso e acolhedor. As fotos estão feitas, este momento também se encontra eternizado.

Além dos sorrisos amarelos, cenografias e todo o convencimento para que aquela pessoa que odeia fotos saia juntamente de todo o grupo, o que essas duas situações fotográficas têm em comum?

Cada uma das fotos tem algo extremamente importante. Somente as fotos possuem isso, ou talvez apenas a elas deveria pertencer tal façanha. Possuem a pose. Sim, a pose fotográfica, aquela cara de feliz que você faz. As caretas que seus amigos fazem ao tirarem uma foto para um grupo de whatsapp. Aquela cara de Jimmy Hendrix que o guitarrista da igreja faz quando sabe que o fotógrafo está apontando para ele. O reino da pose fotográfica começa ao saber que estamos sendo vigiados, que nossa imagem será mostrada para alguém. É uma artificialidade realista, uma manufatura real de um cenário imaginário.

O RETRATO HUMANO: uma contrapartida do ordinário

A arte tem um poder incrível de conseguir retratar a humanidade das coisas. Sejam pensamentos, comportamentos ou até mesmo fatores importantes da sociedade. A arte fotográfica, mesmo sendo incrível e realista, talvez perca de longe para algumas obras do século XVII.

Jan Steen foi um pintor holandês do século XVII. Com um olhar cuidadoso nas obras dele podemos entender algo sobre o reino da pose fotográfica. A grande maioria dos seus quadros capturam momentos cotidianos, muitas vezes familiares e comunitários. Há quadros sobre o dia de Natal, em que uma família se encontra na sala e as crianças estão recebendo seus presentes de São Nicolau (ou o famoso Papai Noel). Há pinturas sobre casamentos em praça pública, trabalhadores em frente a uma taverna, uma garota comendo ostras, outra garota tocando piano, uma família apreciando um concerto caseiro, outra família desfrutando um banquete. Também a celebração de um nascimento, crianças ensinando um gato a dançar e uma infinidade de temas que normalmente chamamos de fúteis ou irrelevantes. Usarei aqui para descrever as obras de Steen uma palavra que deverá descrever nossa “normalidade” de vida. As suas obras têm uma capacidade de reviver e demonstrar o ordinário.

Sim, quadros com cenas ordinárias, comuns, até mesmo feias e sem fatores interessantes. Aquele tipo de coisa que conseguimos observar todos os dias, mas que nunca paramos para olhar direito. Aquele fator mesquinho, desinteressante, pouco atrativo, que ao mesmo tempo tão familiar ao ponto de gerar em nós o balanço da cabeça e o sonoro “é isso mesmo”. No ordinário habita um segredo que o reino da pose fotográfica jamais poderá encontrar, a humanidade pura, desnuda, simples e direta.

Tanto Jan Steen, quanto vários outros pintores daquele século, tinham uma sutil e justa intenção, retratar o ordinário, em seus pequenos detalhes. Mesmo não tendo ali uma cena explicitamente real, estavam revelando para cada observador toda a realidade da expressão humana. Em detalhes como expressões faciais, movimento dos braços, posições de cada pessoa na divisão do quadro, a humanidade estava sendo desvendada. O retrato humano sendo colocado sem artificialidades. Não há pose, sorrisos amarelos, fingimento. No retrato destacado nas pinturas, rostos raivosos e infelizes aparecem, dramas são revelados e a realidade social desmascarada. O segredo da humanidade revelada. Por mais que o retrato em forma de pintura seja muito mais artificial que uma fotografia, talvez consiga revelar muito mais humanidade sem o fingimento da pose.

E é nesse paradoxo que nos encontramos hoje. Estamos entre a vivência ordinária e o domínio da artificialidade. Entre o reino da pose fotográfica e o puro retrato humano. O retrato humano, puramente simples e estranhamente familiar, é a contrapartida ordinária à nossa vida de poses fotográficas.

A POSE ARTIFICIAL NO DOMÍNIO RELIGIOSO

Vamos pensar no cenário da igreja atual. Agora não é a hora de lembrarmos do passado, seja da antiguidade clássica, dos pais da igreja, da reforma protestante, dos grandes avivamentos ou qualquer coisa que nos distancie de olharmos apenas para o que fazemos atualmente. Quantos congressos realizamos por ano? Cultos, acampamentos, eventos evangelísticos, reuniões, grandes momentos de louvor, ou seja lá que nome damos para tais atividades. São eles baseados na pose fotográfica ou no retrato humano?  Seja na sua essência, na imagem demonstrada nas redes, ou na própria estética, uma grande demonstração artificial, ou a vivência do ordinário comum?  

Percebe a diferença? O que estamos fazendo como Igreja de Cristo? Como estamos encarando o culto público? Será que ele é uma tarefa artificial, para a sustentação de uma fé fingida, que precisa se manter por conta do tradicionalismo ou será que é um viver humano, que divide a mesa da tradição cristã, compartilha a fé, de fé em fé, e em graça em graça cresce, se edifica e glorifica o Pai? Preferimos poses, postagens, likes e divulgação, ou a simplicidade, talvez até o anonimato do viver ordinario?

Não quero aqui condenar as luzes, os grandes congressos, eventos gigantescos e todas as parafernalhas que gostamos. Se gostamos e nos sentimos bem com isso, está tudo bem. Cada comunidade deve escolher estratégias que significam para elas aquilo que Deus tem movimentado pela Palavra em cada localidade. Podem haver congressos, eventos e grandes luzes, shows e seja lá o que mais inventarmos. O que é condenável, pelas palavras do nosso Cristo, é o depender de tudo isso. Gerar uma imagem sem vida. O problema é justamente a essência de todas as coisas ser baseada na artificialidade das poses fotográficas que temos hoje em dia.

Para deixar claro, uso pose fotográfica apenas como um nome um pouco mais ameno para idolatria da imagem.

O CHAMADO AO ORDINÁRIO DE JESUS CRISTO

Fui apresentado à Jan Steen, esse pintor holandês, católico, do século XVII e extremamente ordinário através de um livro do Hans Rookmaaker. Também a Rembrandt, Jan Van Goyen, Ticiano e tantos outros. É incrível como a arte pode expressar muito sobre a nossa visão de mundo. Foi assim que fui arrebatado no pensamento sobre o nosso culto cristão, nossas reuniões, e o nosso viver fotográfico. O nosso viver deve ser influenciado por Cristo Jesus. As escrituras nos revelam o caminho traçado por Ele e o plano do Eterno. E o alicerce principal das escrituras nos mostra que não existe nada de pose fotográfica nessa grande história.

 

“Essa compreensão vem, como eu disse, da Reforma, o que significa que é fruto do modo como a Bíblia vê a vida. É uma compreensão que remonta a vida ao alicerce do cristianismo bíblico, o próprio Jesus Cristo. É uma percepção que provém da fonte de vida, das escrituras.”

(H. R. Rookmaaker, A arte moderna e a morte de uma cultura, p.35)

 

Creio que a humanidade ordinária, tal qual como estamos tentando refletir aqui neste primeiro texto, seja escancarada à nós nas palavras de Jesus em Lucas 18.9-14. Nela temos um fariseu e um publicano, ou cobrador de impostos. O fariseu é religioso, fiel, comprometido e ativista. O publicano é pecador, impuro, traidor e odioso. A oração do fariseu ao chegar no templo é uma pose fotográfica. Ele fala de suas atividades, mostra suas fotos no instagram, revela os números de seu mais recente congresso. Enche o peito para falar de sua teologia e de seu conhecimento histórico. Se coloca de pé, é seu próprio senhor. Já o publicano revela o retrato humano, ordinário e desinteressante. Tem vergonha de se aproximar, se reconhece como pecador. Bate no peito, clamando por misericórdia, sem ter nenhuma teologia para o justificar. Não ousa levantar os olhos, sabe quem é o seu Senhor.

E Jesus afirma: “Eu lhes digo que foi o cobrador de impostos, e não o fariseu, quem voltou para casa justificado diante de Deus. Pois aqueles que se exaltam serão humilhados, e aqueles que se humilham serão exaltados.” (Lc 18.14 NVT)

Cristo nos dá esse convite, muito antes de Jan Steen e Rookmaaker. Muito antes dos pais da igreja, da Reforma, dos avivamentos puritanos e das revoluções libertárias. Bem antes de qualquer movimento que possamos imaginar e imagear, Jesus Cristo já nos revelou a beleza do viver ordinario. Não precisamos criar uma imagem para nós mesmos, uma fotografia falsa. Deus não está no camarote esperando a nossa performance para então se colocar de pé e aplaudir.

A partir da reflexão da pose fotográfica e do retrato humano, podemos encontrar no cerne das escrituras o convite simples à vida. É um convite à mesa, ao comum. Sem talvez grandes feitos e alvoroços (o que nos levará à um próximo texto), mas intensamente vivida naquilo que é explicitamente tornado habitual. Não precisamos de artificialidades teológicas, eventos imageados como grandes para ganharmos destaque e reconhecimento, tampouco fotos incríveis que mostram como temos sido melhores que outros. A autopromoção, a imageação da religião e a pose teológica não precisam ser perseguidas. Antes, podemos aproveitar o descanso que a graça proporciona, a simplicidade do Cristo em nós, o viver arrependido e o coração quebrantado.

Como temos nos reunido? Estamos pensando apenas em deixar registrado imagens que simbolizem nosso trunfo religioso através dos congressos, cultos maravilhosos e palavras encorajadoras? Nossas reuniões são voltadas para gerarem fotografias eternizadas de momentos superficiais e vazios, desprovidos de humanidade? Ou será que o nosso caminho tem sido o da mesa, e mesmo com congressos, luzes e grandes eventos, ressaltamos o valor do relacionamento, da humanidade por vezes feia e daquilo que não é mercadológico? Nosso maior problema é nos perdemos na pose, quando na verdade precisamos viver um retrato humano da vida com Cristo.

O retrato humano sempre será perdido quando criarmos a pose teológica, a pose de eventos, a pose dos congressos, a pose das grandes igrejas, a pose dos louvores apelativos. No fim, uma pose sempre será apenas uma pose, enquanto o retrato procura demonstrar o que se é na realidade. Renovar a mente com as escrituras é sempre dar valor àquilo que Cristo demonstra no caminho da vida e não na pose religiosa.

Saber que o retrato humano não se encontra na pose artificial nos traz ânimo para um vínculo real e perpétuo com as palavras do nosso Senhor e Rei. Vivendo no Caminho, na liberdade trazida ao nosso cativeiro. Assim, finalmente podendo desfrutar daquele que sendo Rei dos Reis, esvaziou-se para viver o ordinário, destruindo nossas próprias tentativas de nos fazermos senhores inúteis e reis de reinos imaginários.

Guilherme Iamarino, nascido em Campinas-SP, é compositor, multi-instrumentista, professor de música, membro do Projeto Sola, estuda teologia pela Universidade Metodista e é membro da IBAVIVA em Vinhedo-SP.