Estive pensando sobre esse assunto nesses dias e resolvi escrever algo. O texto abaixo é uma pequena contribuição para o debate sobre as ilustrações de Jesus e a quebra do segundo mandamento. Leia com atenção e com o coração aberto e tranquilo.

Westminster e o segundo mandamento

A maioria dos irmãos presbiterianos e outros reformados que seguem os documentos confessionais de Westminster afirma que fazer ou usar ilustrações de Jesus é um ato pecaminoso. Isso inclui vitrais, pinturas, e até o uso de materiais didáticos com ilustrações de Jesus para ensinar crianças em nossas igrejas. A base dessa crença está na interpretação que os teólogos de Westminster fizeram do texto bíblico do segundo mandamento. No catecismo maior de Westminster (CMW), encontramos essa afirmação em forma de pergunta e resposta:

“Quais são os pecados proibidos no segundo mandamento?

Os pecados proibidos no segundo mandamento são o estabelecer, aconselhar, mandar, usar e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído por Deus; o fazer qualquer imagem de Deus, de todas e qualquer das três pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente em qualquer forma de imagem ou semelhança de criatura alguma; toda a adoração dela, ou de Deus nela ou por meio dela; o fazer qualquer imagem de deuses imaginários e todo o culto ou serviço a eles pertencentes; todas as invenções supersticiosas, corrompendo oculto de Deus, acrescentando ou tirando dele, quer sejam inventadas e adotadas por nós, quer recebidas por tradição de outros, embora sob o título de antiguidade, de costume, de devoção, de boa intenção, ou por qualquer outro pretexto; a simonia, o sacrilégio; toda a negligência, desprezo, impedimento e oposição ao culto e ordenanças que Deus instituiu.”[1]

Ao defender essa interpretação, Brian Cosby oferece o seguinte argumento:

Ao criar uma imagem de Jesus (por exemplo, em uma pintura ou um vitral), uma pessoa está inserindo suas ideias pessoais de como Jesus era. Como nós não sabemos como era sua aparência, essa imagem não seria uma verdadeira imagem ou representação de Cristo. Pelo contrário, seria simplesmente uma imagem de um homem originada na imaginação do artista, a qual ele chamou de “Jesus”.[2]

A ideia de Cosby é que nossa incapacidade de representar perfeitamente Jesus nos impede de representa-lo em qualquer forma e de qualquer maneira. A ilustração num livro infantil, por exemplo, não é uma imagem fiel de Jesus, mas apenas o Jesus idealizado por uma mente humana. Logo, se não é o Jesus verdadeiro, trata-se de um ídolo, algo que substitui o verdadeiro Deus. É nesse caminho teológico que a maioria dos teólogos reformados segue em relação a esse assunto. Em seu blog pessoal, Ageu Magalhães oferece uma lista de citações de teólogos que defendem essa posição. Entre elas está uma citação categórica de Geerhardus Vos, grande teólogo bíblico de Princeton:

“É errado fazer pinturas ou quadros de nosso Salvador Jesus Cristo?
De acordo com o Catecismo Maior isso, com certeza, é errado, pois ele interpreta que o segundo mandamento proíbe a feitura de qualquer representação de qualquer uma das três pessoas da Trindade, o que certamente inclui Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade, Deus Filho.

Desde que não sejam adoradas nem utilizadas como ‘auxílio à adoração’, não seriam legítimas as representações de Jesus? Conforme a interpretação da Assembleia de Westminster, o segundo mandamento certamente proíbe toda a representação de qualquer uma das Pessoas da Trindade… É claro que há uma diferença entre utilizar figuras de Jesus para ilustrar lições ou livros de histórias bíblicas para crianças e usar figuras de Jesus na adoração, como fazem os Católicos Romanos. É óbvio que a primeira situação não é um mal da mesma classe dessa última, entretanto, apesar dessa diferença, há bons motivos para se afirmar que os nossos ancestrais da Reforma estavam certos ao se oporem a toda representação pictórica do Salvador.”[3]

Existe um mundo de citações e obras que falam sobre isso, mas creio que aquilo que foi colocado aqui já é suficiente para entendermos a afirmação do padrão de Westminster. Qualquer ilustração de Jesus Cristo, assim como de qualquer outra pessoa da Trindade, é um pecado condenado no segundo mandamento. De vez em quando encontro esse debate nas redes sociais e acho realmente interessante. No período do Natal, quando encontramos muitas ilustrações de Jesus, esse assunto sempre aparece com mais frequência. Quero, a partir de agora, oferecer uma argumentação bíblica simples e direta contra a posição de Westminster e da maioria dos reformados.

O que o segundo mandamento realmente proíbe?

No texto do segundo mandamento, em Êxodo 20, lemos o seguinte:

“Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Ex 20.4-6)

Atente para o contexto do mandamento. Devemos ler esse trecho em sua totalidade e em conexão com o primeiro mandamento. O texto anterior diz “não terás outros deuses além de mim” (Ex 20.3). Esse é o primeiro e único mandamento que fala de um relacionamento e não de um ato. É o mandamento de abertura justamente porque estabelece o padrão para os demais. O povo de Yahweh só tem a ele como Deus. Somente ele deve ser adorado e somente a ele deve ser prestado culto, dízimos, ofertas, sacrifícios, etc. O segundo mandamento vem logo depois para completar o primeiro. No verso 4, lemos que não devemos fazer imagens de nada nos céus, na terra ou nas águas debaixo da terra. O verso 5 nos mostra o contexto de adoração ao completar o mandamento, dizendo que não devemos nos prostrar diante dessas imagens, nem prestar culto a elas. Baseado no uso do termo hebraico “persel” (v. 4), John Frame afirma:

“O que Êxodo 20.4–5 ensina, ao contrário, é que não devemos fazer imagens com o propósito de nos curvar a elas e servi-las. Isso é claro a partir do uso da palavra pesel (traduzida como “imagem esculpida”) no verso 4. Um pesel na Escritura nunca é simplesmente uma obra de arte. É sempre uma imagem usada para fins idólatras. Além disso, a conexão entre os versos 4 e 5 mostra implicitamente que o que Deus proíbe não é arte em si mesma, ou mesmo arte localizada em um lugar de adoração, mas arte feita como um objeto de adoração.”[4]

A afirmação de Frame é ousada para um reformado. Ele é claro ao dizer que o segundo mandamento não proíbe nem mesmo a arte no local de adoração. Seu argumento é baseado no uso de imagens de querubins no local mais sagrado do tabernáculo (Ex 25.18-20). Se qualquer imagem fosse proibida, a ordem de Deus de fazer imagens de anjos com ouro seria contraditória ao seu mandamento de não fazer qualquer imagem de coisa no céu. A argumentação de Frame faz sentido, visto que aquelas imagens estariam presentes em local de adoração, mas não seriam adoradas. Portanto, concluo que a proibição do segundo mandamento é feita no contexto de adoração. Nenhuma imagem deve ser adorada.

Imagens de Deus são adequadas?

A pergunta que pode surgir a partir da minha primeira conclusão é: e as imagens de Deus, podemos fazê-las e adorá-las? Essa é uma dúvida interessante. O texto do capítulo 20 de Êxodo não menciona diretamente imagens do próprio Deus de Israel. Será então que podemos representá-lo de alguma forma? Para responder, precisamos olhar para um texto paralelo ao segundo mandamento em Deuteronômio:

“No dia em que o Senhor lhes falou do meio do fogo em Horebe, vocês não viram forma alguma. Portanto, tenham muito cuidado,para que não se corrompam e não façam para si um ídolo, uma imagem de qualquer forma semelhante a homem ou mulher, ou a qualquer animal da terra ou a qualquer ave que voa no céu, ou a qualquer criatura que se move rente ao chão ou a qualquer peixe que vive nas águas debaixo da terra.” (Dt 4.15-18)

O texto faz menção ao evento em que os dez mandamentos foram dados por Deus ao povo por meio de Moisés. Frank Brito comenta muito bem quando diz que “o modo com que o Senhor se manifestou a Israel tinha um propósito pedagógico”[5]. Quando Deus falou ninguém viu forma alguma, somente se ouviu a voz do Senhor. Isso é usado como base para que ninguém se corrompa ao fazer qualquer tipo de imagem que represente o Deus de Israel. O texto indica que não devemos fazer imagens de Deus, mesmo que seja para adorá-lo. Nesse ponto, concordo com Brito:

“É importante observar que não é somente proibido prestar culto a Deus por meio de imagens, mas é proibido até mesmo fazer imagens para representá-lo, ainda que não seja especificamente para culto. É isso que Deus quis enfatizar no modo com que Ele se manifestou a todo povo”[6]

Yahweh era o Deus invisível para Israel. Nem mesmo quando Moisés pediu para ver a sua glória ele se revelou visivelmente: Então ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória […] E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá (Ex 33.18, 20). O máximo que Moisés consegue é ouvir o nome (Ex 33.19) e o caráter de Deus sendo proclamados (Ex 34.6-7). Essa invisibilidade de Deus aponta para o direcionamento de que não devemos tentar representá-lo. Deus é Espírito (Jo 4.24) e, portanto, invisível (Cl 1.15). O texto de Deuteronômio nos leva à segunda conclusão: não devemos fazer imagens ou ilustrações do Deus invisível.

Isso inclui não apenas imagens para adoração, mas qualquer tipo de representação. Quando falamos em ministério infantil, por exemplo, não considero adequado o uso de ilustrações de Deus, o Pai. Muitas vezes ele é retrato como um velhinho de barba branca, quase como um papai noel. Esse tipo de ilustração constrói uma ideia errada sobre Deus na mente das crianças e pode dificultar o aprendizado bíblico posterior sobre Deus e sobre a Trindade. Se Deus se revelou como Espírito invisível, que o mantenhamos assim para sermos fiéis à sua revelação pedagógica de si mesmo.

A encarnação visível

Aqui está o grande PORÉM desse texto. Deus se fez visível na encarnação do Filho. O envio de Jesus Cristo para andar e viver entre nós foi um fato sem precedentes na história da humanidade. Deus estava entre nós em corpo. Os olhos de seus contemporâneos o viram! Perceba comigo a transição da revelação invisível a Moisés para a revelação visível descrita por João.

“Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1.12)

Aquela glória que Moisés não viu no monte estava agora sendo vista pelos homens. O que Moisés somente ouviu, João viu com seus próprios olhos! Essa é uma transição incrível. O texto de Colossenses mencionado acima diz que Cristo é a “imagem do Deus invisível” (Co 1.15). A revelação progrediu e agora temos uma imagem de Deus, a expressão exata do seu ser (Hb 1.3). Se o texto de Deuteronômio nos dizia para não fazermos qualquer imagem de Deus porque ele não se revelara de forma visível, agora esta revelação chegou até nós e não temos mais esse problema com a invisibilidade. Concluo que se a imagem era errada por falta de revelação visível, a presença dessa revelação possibilita algum tipo de ilustração. Portanto, não vejo pecado em usarmos ilustrações de Jesus Cristo. John Frame aponta para 1 João 1.1-3 como uma descrição de um banquete visual divino que os discípulos experimentaram![7]

Nesse ponto, coloco-me contra a afirmação do CMW de que não podemos fazer qualquer ilustração de qualquer das três pessoas da Trindade. Creio que além de possuirmos essa liberdade, é bom usar as ilustrações para ensinar crianças. Elas precisam aprender desde cedo que Deus, o Filho, encarnou, se fez homem e, por ser 100% humano e divino, foi capaz de oferecer sacrifício perfeito por nós. O uso de ilustrações é uma excelente maneira de mostrar isso para uma criança. Leia esta ótima citação de Frame:

“Alguns materiais de escola dominical, buscando respeitar o Catecismo Maior, incluíram fotos de personagens e lugares da Bíblia, mas não de Jesus. Essa prática dá ao estudante a impressão de que Jesus, durante seu ministério terreno, era uma presença invisível. Mas isso encoraja o docetismo, a heresia que o apóstolo João nos advertiu nos textos citados anteriormente. O docetismo diz que Jesus não veio realmente em carne. Esse é um erro muito sério, que devemos desencorajar em nossos filhos. Em vez disso, devemos incluir imagens de Jesus em nossos materiais de ensino, de modo a dar aos nossos alunos algum sentido da visibilidade profunda da vinda de Deus para o nosso meio ”.

Sensacional! Continuando… Também não vejo problema em vitrais, pinturas ou outras representações artísticas sobre Cristo (feitas com respeito e certa fidelidade às Escrituras, claro). É interessante comentar que essa posição de Westminster proíbe, inclusive, filmes e peças teatrais com a figura de Jesus. Essa era a opinião de Vos, por exemplo: “A Sociedade Bíblica Americana (The American Bible Society) merece ser elogiada pela decisão de não deixar mostrar a figura do Salvador nos filmes produzidos por ela”[8]. Filmes como a Paixão de Cristo seriam proibidos para os reformados. Felizmente, não penso que esse seja o caso.

O imaginário escatológico

Um último ponto que preciso tocar é o da imaginação. O texto do CMW afirma que não devemos construir imagens de Cristo nem mesmo interiormente em nosso espírito. Ou seja, não poderíamos nem mesmo imaginar o Filho de Deus em nossas mentes. Brian Cosby explica:

“Os Padrões de Westminster não somente identificam a criação física de uma imagem de Deus (ou de uma das pessoas das Trindade), eles também miram a ideia por trás disso como uma violação do Segundo Mandamento. Não importa se a ideia é expressa em papel ou permaneça na mente, o mesmo princípio se aplica: inserir um Cristo ‘inventado’ no lugar do verdadeiro Cristo revelado na Escritura é idolatria.”[9]

O raciocínio parece ser o seguinte: se eu não posso conceber em minha mente a imagem físico-divina perfeita de Jesus, então, qualquer imagem dele construída em minha mente se torna uma quebra do segundo mandamento. Novamente discordo de Westminster (acho que você já percebeu que não tenho nenhum problema com isso). E não só discordo, mas creio que eles foram longe demais nessa posição. Não há qualquer base bíblica para afirmar isso em relação a Jesus. O que dizer dos discípulos que viram Jesus? Eles não poderiam ter lembranças imperfeitas sobre ele? E o que dizer das imagens misteriosas que a própria Bíblia nos oferece sobre o Cristo que voltará? Você lembra da imagem cristológica-escatológica de Apocalipse 19?

“E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça.E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo.E estava vestido de veste tingida em sangue; e o nome pelo qual se chama é A Palavra de Deus.E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro.E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso.E no manto e na sua coxa tem escrito este nome: Rei dos reis, e Senhor dos senhores.” (Ap 19.1-16)

Essa passagem está cheia de significados. Percebemos que a visão apresenta Jesus em seu caráter e ações. Chamo atenção para a função dessa passagem em nosso imaginário escatológico. O texto nos chama a visualizar em nossa mente Jesus Cristo como um rei guerreiro e vitorioso. Osborne argumenta que a figura do cavaleiro no cavalo branco, com suas vestes, espada e coroas, é uma imagem em comparação com as figuras de César e do anticristo. Ele diz sobre o uso dessa imagem:

“Aquilo que tipificava o imperador para os pagãos romanos e tipificará o Anticristo para a humanidade iludida, Cristo, e somente Cristo, exemplificará em seu sentido final e definitivo […] Seus olhos serão como chama de fogo, ou seja, ele verá tudo e saberá tudo, e seu juízo será executado em caráter definitivo. Sua veste está salpicada do sangue dos seus inimigos em antecipação à vitória final.”[10]

Esse texto é um convite claro das Escrituras para criamos uma imagem de Jesus em nosso imaginário e esperarmos em grande expectativa por ela. É um convite para colocarmos essa imagem de Cristo lado a lado com a imagem do imperador e do anticristo, e visualizarmos a superioridade do nosso Rei e Salvador Jesus. Apocalipse é um livro que mexe com nosso imaginário teológico-escatológico! Além de ser permitido imaginar a forma visível de Deus em Jesus, somos encorajados a fazer isso para gerar expectativa e louvor a esse Deus que se fez visível e que ainda nos fará vê-lo em toda sua glória. O progresso escatológico da história é um progresso do invisível para o visível. Nossa mente precisa caminhar também nesse progresso. Concluo que não há problema nenhum em construir imagens de Jesus na mente, pelo contrário, devemos fazer. É por isso que, como John Frame, preciso dizer sobre isso: “eu devo discordar do catecismo”[11].

Conclusões

Concluo dizendo que esse não é um texto que visa esgotar o assunto. Coloco aqui apenas uma posição resumida que estive estudando e pensando por alguns dias. Respeito meus amigos reformados que estão ao lado do CMW e tenho muito apreço por eles. Estou apenas discordando em amor e tentando mostrar que essa posição que defendo não é nenhuma heresia digna de divisão e repúdio sem filtro. Creio que ela é bíblica e que podemos e devemos discordar de Westminster nesse ponto, inclusive quem subscreve a confissão. Resumo meus argumentos nos pontos abaixo:

  1. O contexto do segundo mandamento é adoração. Logo, não devemos fazer imagem nenhuma para prestar culto a elas.
  2. Não devemos fazer imagens ou ilustrações do Deus invisível. Não é adequado retratar humanamente Deus, o Pai, por exemplo.
  3. Deus, o Filho, é a imagem do Deus invisível. Ele se fez visível, logo, podemos usar ilustrações dele para ensinar sobre ele.
  4. A Bíblia mexe com nosso imaginário escatológico sobre Jesus. Logo, não há problema em construir uma imagem de Cristo na mente, pelo contrário, somos encorajados a isso.
  5. Discordo com absoluto respeito ao Catecismo Maior de Westminster e aos irmãos que concordam com ele nesse ponto.

 

Pedro Pamplona é casado com Laryssa, pai do Davi e pastor na Igreja Batista Filadélfia, em Fortaleza. Formado em Administração pela Faculdade 7 de Setembro (Fortaleza/CE), pós-graduado em Estudos Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (São Paulo/SP) e estudante do Sacrae Theologiae Magister (Th.M) em Teologia Sistemática do Instituto Aubrey Clark (Fortaleza/CE).  
[1]Pergunta 109. http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm

[2]http://reforma21.org/artigos/o-segundo-mandamento-os-padroes-de-wesminster-e-as-imagens-de-jesus.html

[3]http://resistenciaprotestante.blogspot.com/2016/01/podemos-usar-imagens-de-jesus.html

[4]A Doutrina da Vida Cristã (Uma Teologia do Senhorio). iBooks, p. 1444.

[5]https://resistireconstruir.wordpress.com/2014/07/25/o-segundo-mandamento/?fbclid=IwAR2knAEXrRmxK1-UsfNW8PkBHB0hEYkBwXzat6sTaMcIuCxBb3qOcKDUnFM

[6]Ibid.

[7]A Doutrina da Vida Cristã (Uma Teologia do Senhorio). iBooks, p. 1540.

[8]http://resistenciaprotestante.blogspot.com/2016/01/podemos-usar-imagens-de-jesus.html

[9]http://reforma21.org/artigos/o-segundo-mandamento-os-padroes-de-wesminster-e-as-imagens-de-jesus.html

[10]OSBORNE, Grant. Apocalipse. Vida Nova, 2014, p. 774

[11]A Doutrina da Vida Cristã (Uma Teologia do Senhorio). iBooks, p. 1540.


Uma alegria

É motivo de nos alegrarmos a ascensão no meio cristão do cuidado da igreja com a arte, com a estética, com a liturgia e  com a dinâmica do culto. Cuidado este, que toca tanto a ação intramuros da igreja, como também extramuros, entretanto, esta última é assunto especialíssimo do qual não trataremos hoje.

Todavia e traduzindo em miúdos, estamos falando da estética dos templos, das programações, dos detalhes, das decorações, dos simbolismos. Da preocupação em prestarmos um culto organizado, pensado, dinâmico e planejado, e, não aquelas reuniões que muitas vezes nos fazem corar de vergonha, tamanho o nível de improviso e despreparo de seus dirigentes.

Este apreço pela estética, pela dinâmica, pela contemporaneidade da linguagem das ocasiões em que nos reunimos, é algo bastante positivo, que deve ser preservado, pensado e cuidado pelas igrejas com todo zelo. O teólogo anglicano John Stott, certa feita disse:

Ser bíblico e não ser contemporâneo é fácil, ser contemporâneo e não ser bíblico também é fácil, o verdadeiro desafio está em conseguir ser ao mesmo tempo, bíblico e contemporâneo”.

Um alerta

Precisamos, portanto, pegando a esteira do proposto por Stott, empenharmo-nos em não transformar as ocasiões de culto numa espécie de celebração comunitária daquilo que nós mesmos julgamos bom e gostamos de fazer. Este é um perigo sutil, uma tentação silenciosa com a qual temos de ter muito cuidado.

Por vezes, é possível, e este é o grande ponto para o qual gostaria de chamar sua atenção, que fiquemos tão envolvidos com a programação, com os convidados, com a decoração, com o tema, com a comunicação do evento, com os encontros que dali surgirão, enfim, com toda a demanda que envolve aquele determinado tempo, que corremos sérios riscos de inverter a ordem que deve balizar o processo na igreja.

E a ordem é esta: na igreja de Cristo, o centro nunca deve ser aquilo ou o que me apraz, antes, todo meu trabalho e dedicação deve ser na direção de iluminar o Cristo, de modo que seu nome e sua mensagem sejam alçados aos mais altos lugares daquela oportunidade. E isto, por vezes, poderá nos causar desconforto e desconforto aos presentes, afinal, estaremos diante da mensagem do Evangelho, e a mensagem do Evangelho, nem sempre é algo fácil de se ouvir e comunicar.

Lógicas invertidas

Entretanto, mesmo diante de desconfortos e confrontos, estes princípios fundamentais cristocêntricos jamais devem ser passíveis de negociação. Temos de entender que a dinâmica e a missão da igreja são únicas e completamente distintas da dinâmica e da missão de uma empresa, de uma universidade ou de uma ONG.

Na igreja, Cristo deve sempre ser o centro. Não o evento, não a decoração, as luzes e o som. Não a bela campanha de marketing acompanhada de uma brilhante peça de design eficientemente divulgada e trabalhada nas redes sociais. Não as comidas, a atmosfera, o lugar, o pregador, o palestrante, o fórum, o convidado ‘x’ ou a banda ‘y’. Todas estas coisas são maravilhosas, mas não podem ser o centro, antes, devem apontar para o centro que é Cristo.

Aproveitando a imagem do professor e filósofo brasileiro Jonas Madureira, proponho que todas estas coisas devem funcionar como holofotes, que saem completamente de cena a fim de iluminar aquilo que verdadeiramente merece ser iluminado.

O que precisamos na verdade é do evangelho. De ensino sólido da inesgotável Palavra de Deus que revela, de fato, quem é Deus, e nos livra da tentação de construirmos um deus imaginário e falso, criado à nossa imagem e semelhança, que nada tem a ver com o Deus das Escrituras. Nossa necessidade suprema e vital sempre será conhecer a Deus, é nisto que deve estar a âncora de nossas vidas e de nossas programações, pois, como poderemos temê-lo, servi-lo, amá-lo acima de todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos, sem conhecê-lo?

Não temos de nos reunir apenas para falar de nós e de nossas questões em comum, temos de nos reunir para falar de Deus e de Suas questões eternas, pois as eternas questões de Deus permeiam todas as nossas questões em comum, desde todas as eras e em todos os lugares. A lógica não pode ser invertida e o centro nunca deve deixar de ser a glória da graça de Deus.

O problema de se inverter as prioridades colocando a programação e suas características no lugar de Cristo, é que, primeiramente, você avilta a glória de Deus, e, quando o evento não for daquele jeitinho que você tanto gosta, você não irá mais. Ou seja, não é sua comunhão com Deus que motiva seu trabalho feito com excelência para Ele, é o trabalho feito com excelência que motiva sua comunhão com Deus. Aí temos um problema de idolatria, pois se para você sentir-se motivado a buscar Deus, você precisa de um motivo maior do que o próprio Deus, o que você está buscando não é Deus, mas um ídolo, que atende pelo nome de entretenimento.

Uma igreja à minha imagem e semelhança.

Devemos nos empenhar a que nossos esforços estéticos e litúrgicos não acabem desviando o foco de nossos irmãos do Cristo e segmentando nossas igrejas, ou seja: naquela igreja só vão os hipsters, naquela apenas os nerds, na outra os jovens com mais de 25 anos, naquela outra os intelectuais de meia idade, na outra os da terceira idade e naquela outra mulheres com mais de 40.

Podem existir afinidades e programações especiais para os diversos segmentos que compõem a igreja? Claro que sim e devemos até mesmo trabalhar para a viabilização de tais atividades. O que julgo ser pernicioso e preocupante, todavia, é que busquemos na igreja irmãos que sejam espelhos apenas. Que caiamos no equívoco de buscarmos uma igreja à nossa imagem e semelhança.

Que menosprezemos a riqueza de uma moça aprendendo a ser mulher com uma senhora, de uma mulher sendo revigorada pela vida e inocência de uma criança, de um jovem rapaz sendo ensinado no caminho da justiça pelo homem de meia idade, e do homem de idade já avançada sendo visitado e amado por um grupo de jovens cheios de alegria e ternura no coração.

Meu receio é que tenhamos uma igreja para cada segmento estético-cultural e nos furtemos ao desafio da luta pela unidade na diversidade, com base no poder agregador do evangelho de Cristo nosso Senhor, uma vez que a beleza da igreja é justamente o fato dela ser uma família com gente de todas as classes, povos, costumes, idades e lugares, reunida pelo Espírito Santo com o propósito único e sobrenatural de servir e confessar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É na beleza da diversidade que habita a essência da unidade da igreja de Cristo.

Emprestando a belíssima figura dos irmãos do Movimento Mosaico, devemos olhar para a dinâmica da igreja a fim de descobrir quais pobrezas nossas riquezas dadas por Deus podem suprir nos irmãos aos nosso redor, e quais riquezas os irmãos ao nosso redor têm para suprir nossas constantes e insistentes pobrezas.

Sendo assim, não nos utilizemos de argumentos estéticos, artísticos, culturais ou litúrgicos para dividir o corpo de Cristo. Não fomos chamados a comungar numa igreja de espelhos, feita à nossa imagem e semelhança, antes, somos chamados à brava luta de todos os dias, fundamentados no Cristo e em Seu evangelho, provarmos da beleza, das alegrias e dos desafios de se viver a igreja como ela é, em toda a sua diversidade e riquíssima pluralidade.

O evangelho de Cristo é infinitamente mais poderoso para nos unir do que qualquer diferença estético-cultural é para nos separar. Todas estas coisas nos servem como ferramentas para iluminar o Cristo, e sobre o Cristo devemos nos manter em uma só fé e uma só voz.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.


Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; [Rm 1.16]

O verso acima sempre mexeu sobremaneira comigo. A expressão da glória da intensidade do poder do Evangelho contida neste verso é algo que nos escapa a compreensão. Imaginar que esta impressionante mensagem do nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo, graciosamente revelada a nós nas páginas das Escrituras Sagradas, condensa o poder da Majestade Divina, é assustadoramente impressionante, ou pelo menos deveria ser.

Pensemos em toda imponência da criação, em toda sua beleza, força, complexidade, fulgor, harmonia e exuberância. Pensemos na glória eterna da Trindade que nos é revelada ainda que timidamente ao observarmos tudo isso. Pensemos na cruz, nos milagres de Jesus, no consolo do Espírito Santo e no amor de Deus Pai que entrega seu Filho Eterno e Unigênito para morrer no lugar de gente rebelde e desobediente como eu e você. O Apóstolo está afirmando que o Evangelho que nos foi revelado e no qual cremos, é nada mais nada menos, que a expressão fidedigna de todo este poder! Toda esta força está condensada ali.

Ora, gente! Definitivamente. Não há algo mais importante e impressionante do que isto! Não há nada mais poderoso, eficaz e sublime do que o Evangelho de Cristo Jesus. Não há mensagem mais significativa e eficaz, cativante e impressionante, a ser anunciada. Nada há com o que o ser humano deva se ocupar mais em conhecer e desfrutar do que o Evangelho de Jesus. Todavia, me parece que temos nos perdido quanto à compreensão e ao discernimento desta realidade.

Não é incomum que nossas igrejas apresentem constantemente – isto quando apresentam – a mensagem do Evangelho apenas como uma porta de entrada para a vida com Deus, como se o Evangelho fosse apenas um portal que levasse-nos a lugares mais importantes da caminhada cristã. Não é incomum que o Evangelho fique escanteado de nossos púlpitos, como uma mensagem reduzida apenas aos que não creem, aos visitantes, aos iniciantes na fé, de modo que aqueles que já o compreenderam (?) e receberam a Cristo como Senhor de suas vidas, agora devessem ocupar-se de estágios mais elevados da carreira cristã.

E quais estágios seriam estes? É exatamente neste ponto que corremos o trágico risco de erigir ídolos que nos afastam da vida que glorifica a Deus. Ídolos que insolentemente colocamos no lugar do belíssimo Evangelho da graça de Cristo, como por exemplo, a busca por um estágio espiritual superior, por um cargo de expressão ou um lugar de evidência na vida da igreja, um dom espiritual, crescimento e sucesso financeiro, realizações pessoais tais como casamento, vida acadêmica, curas, e inúmeros outros objetivos, que se vividos à parte do Evangelho, nos farão desobedecer flagrantemente a Deus e Seu primeiro mandamento revelado a nós em Êxodo 20.3.

Todas estas coisas citadas acima podem ser muito positivas e abençoadoras, aliás, não só o que foi citado acima, mas todos os campos e atividades da vida humana podem ser positivos e frutíferos se vividos para a glória de Deus. Entretanto, o que sustenta uma vida vivida para a glória de Deus é a consciência constantemente submetida ao Evangelho.

O Evangelho é o poder de Deus para nossa salvação, nossa salvação se faz necessária por causa de nossa idolatria manifestada contra Deus, refletida nos pecados que cometemos. Pois bem, salvação não é apenas um aspecto passado ou futuro de nossa caminhada com Deus, antes, também é um aspecto do presente, que está se estabelecendo em nossas vidas através do processo de santificação. Ao nos depararmos cotidianamente com nossos pecados, é o Evangelho que sempre nos ajuda neste processo e nos aponta o caminho de arrependimento e retorno a Jesus.

Assim sendo, se trocarmos displicentemente o Evangelho por outros aspectos da vida cristã supostamente mais importantes, nosso senso de pecaminosidade e idolatria ficará comprometido, e possivelmente, passaremos a pecar com mais facilidade e licenciosidade, afinal, não será mais a glória de Deus revelada no Evangelho que nos interessará primariamente, mas nossos próprios objetivos pessoais. Isso nos transformará em falsos cristãos muito mais preocupados com a glória de nossas próprias realizações do que com a glória de Deus.

É o Evangelho que denuncia o coração idólatra. É o Evangelho que resguarda a consciência que se pretende santa. É o Evangelho que nos mantém cônscios do amor de Deus por nós mesmo nos momentos em que mais nos sentimos sujos. Por isso mesmo, o Evangelho jamais deve deixar de ser pregado do alto de nossos púlpitos, nem deve deixar de ser lapidado e alimentado como o tesouro de mais estimado valor de nossos corações, acima de quaisquer aspirações pessoais ou institucionais.

Não carecemos do poder e da eficácia da mais exuberante mensagem da história da humanidade em nossas vidas, apenas quando estamos nos primeiros passos da carreira cristã, antes, carecemos e careceremos do Evangelho ao longo de todos os dias de nossas vidas, pois, em todos os dias de nossas vidas, arrependimento e fé nos serão necessários.

Minha oração é para que o Espírito Santo agracie-nos dia após dia com a capacidade de nos fascinarmos com o poder e com a beleza do Evangelho, com a sabedoria de internalizarmos deslumbrados seu insubstituível significado, a ponto de que jamais percamos de vista nossa necessidade constante de exame pessoal e arrependimento diante de Deus. E que Cristo, não os ídolos, seja sempre o único alvo de nossa esperança de redenção, realização e contentamento, tanto aqui e agora, como ali e além.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.


Com o avanço da religião evangélica pelos quatro cantos da nação, é comum encontrarmos um sem número de jeitos de ser e pensar a igreja — litúrgica, estética e operacionalmente.

Ocorre que infelizmente, com o desprezo da Escritura Sagrada como fonte primaz de autoridade sobre os cristãos, muitos destes caminhos eclesiásticos adotados são dúbios, frouxos, confusos, e mais prejudicam do que edificam, mais confundem do que esclarecem.

É possível que encontremos hoje, vários grupos — principalmente de jovens — bem mais interessados no formato do que estão engajados, do que com o conteúdo propriamente dito do que estão consumindo e compartilhando.

Isto caracteriza um exercício oco de fé cristã. Um exercício morto, disfuncional, preocupado exacerbadamente com coisas periféricas e cosméticas que não podem gerar vida por si mesmas, que envolvem e entretém por algum tempo, mas rapidamente passam. Não geram transformação real, confissão de pecados, arrependimento, altruísmo, maturidade cristã e uma nova cosmovisão.

Eu já quis muito que a igreja fosse “cool”, tivesse um ambiente agradável, fosse descolada, contextualizada, tivesse um som bom, um belo palco, iluminação, uma galera com “mente aberta”, um layout moderno, uma banda sincronizada e uma mensagem que não abusasse tanto do evangeliquês. Entretanto, eu ligava muito pouco para Palavra que era pregada do alto do púlpito da minha comunidade.

Sabe aquele tipo que toca na banda e se acha importante demais para sentar-se humilde e atentamente no banco da igreja a fim de ouvir a pregação do pastor após o período de louvor? Este era eu.

Hoje continuo apreciando todas estas coisas que compõem as questões estéticas e operacionais da igreja, mas com uma diferença vital: se a igreja não for moderninha, se tiver um somzinho sofrível e uma banda de um moço só no violão, e nem palco tiver, se o povo for simples de tudo e mal souber falar o evangeliquês, mas a verdade do Evangelho for pregada fervorosamente e prezada seriamente pela congregação, ali estará um facho de luz radiante da glória da graça de Deus, que jamais deverá ser diminuído, substituído ou almejado menos do que todas estas outras coisas. Sem elas a igreja vive, sem o Evangelho a igreja morre.

Percebam que não existem problemas com a busca por excelência estética, funcional e operacional, muito ao contrário, o problema é idolatrá-las, é querê-las mais do que o fundamento da fé cristã, é preza-las mais do que o próprio Evangelho. O problema é deixar-se entreter tanto por todas estas outras coisas e nem ao menos perceber que o poder de Deus que reside em Seu Evangelho está, inacreditavelmente, sendo prescindido das preocupações centrais da missão da igreja com a qual devemos estar fundamentalmente comprometidos.

Ansiar mais por todas estas coisas mas esquecer o Evangelho é um caminho perigosíssimo, que engana, distorce, inebria e dá a falsa impressão de engajamento e comunhão, quando na verdade, toda fonte de sustentação e poder real para a vida do seguidor de Jesus está sendo suprimida, negando a este uma transformação real, duradoura, consistente e, sobretudo, bíblica.

Minha oração é para que o Espírito Santo dê-nos discernimento para uma atuação e um engajamento bíblico em Sua igreja. Que Ele nos ajude a manter a essência da glória do Evangelho protegida e sempre presente como fundamento de cada ação que realizarmos, e que seja o poder de Deus contido neste Evangelho que nos leve a trabalhar em todas as outras áreas da vida da igreja, a fim de que Cristo e Sua mensagem revelada jamais deixem de ser o centro de tudo que pregamos e fazemos.

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.


Uma das maiores pautas do feminismo na atualidade é o empoderamento feminino. Todas as atrocidades defendidas por esse movimento tais como o aborto, o abandono dos lares e a depravação dos corpos são realizadas em busca e em defesa desse tal empoderamento. Mas o que a maioria das mulheres que se deixa enganar pelas pautas feministas não consegue compreender, é que o verdadeiro empoderamento só pode ser conquistado e garantido por alguém que, de fato, tenha poder para transformar a realidade de homens e mulheres caídos e depravados.

Só Deus, por meio de sua graça, pode transformar mulheres e capacitá-las para realizar sua boa, agradável e perfeita vontade. Só a graça divina pode nos tirar de nosso total estado de rebeldia e pecado e nos conceder uma vida de obediência e santidade. O verdadeiro empoderamento feminino foi conquistado por Cristo na cruz. Foi lá, através de seu sacrifício, que o Salvador levou sobre si nossas culpas e dores. E ao tomar o cálice da ira de Deus por causa da nossa desgraça, Cristo nos tornou empoderadas por sua graça.

Mulheres empoderadas pela graça encontram forças em Cristo para rejeitar as ideologias mundanas e viver segundo as Escrituras.

Mulheres empoderadas pela graça são livres para desfrutar a alegria e o prazer de seus lares. São plenamente capazes de gerar e cuidar de muitos filhos ao lado do homem a quem escolheram amar e auxilar. Não são escravas do próprio corpo e dos desejos, mas vivem satisfeitas em Cristo e são totalmente preenchidas e saciadas por sua glória.

Mulheres empoderadas pela graça são fortes na luta contra o pecado e firmes na defesa do Evangelho. Compreendem que sua força vem do Senhor e que estando protegidas e amparadas por suas fortes mãos jamais serão abaladas.

Mulheres empoderadas pela graça estão plenamente conscientes do seu valor, sabendo que na cruz, Cristo lhes garantiu dignidade, equidade e liberdade que nenhum movimento político seria capaz de lhes conceder.Se você deseja ser livre, feliz e empoderada de verdade, pare de lutar sozinha, busque aquele que tem todo o poder, domínio e autoridade sobre céus e terra, o único capaz de nos libertar não só das opressões terrenas como o machismo e a misoginia, mas das algemas da morte e do pecado, Cristo Jesus. Somente ele através de sua graça pode nos emancipar para vivermos eternamente livres, realizadas e satisfeitas ao seu lado em sua glória.

O feminismo só te concede o direito de ser quem você sempre foi: pecadora, rebelde e morta em seus próprios delitos e pecados. Mas a graça de Cristo é poderosa para lhe transformar em uma mulher santa e vitoriosa, uma mulher verdadeiramente empoderada.

“E Deus é poderoso para fazer que toda a graça lhes seja acrescentada, para que em todas as coisas, em todo o tempo, tendo tudo o que é necessário, vocês transbordem em toda boa obra.” (2 Coríntios 9:8)

Feliz dia da mulher!

Isa Martins é graduada em Ciências Sociais e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará. Esposa de pastor, casada com Yago Martins e congrega na Igreja Batista Maanaim. 



Nós brasileiros, temos sido ensinados ao longo das últimas décadas, a olhar nosso trabalho por duas grandes perspectivas: a financeira e a hedonista. Geralmente, pensamos a escolha da carreira profissional sobre bases bastante pragmáticas, ou seja, o que acaba sempre tendo maior preponderância é o dinheiro que vamos ganhar ou o prazer que vamos sentir ao desenvolvermos esta ou aquela atividade.

Mas há algo de grande valor do qual, predominantemente, prescindimos em nossas escolhas. Há algo anterior ao dinheiro e ao prazer que deveria balizar nossas opções, a fim de que trilhássemos caminhos de vida coerentes e equilibrados com aquilo que verdadeiramente somos, e não que vivêssemos escravizados a ídolos perversos como o materialismo, o dinheirismo, o hedonismo e tantos outros. O que tem nos faltado, então, é um senso apurado do que é vocação.

Disfunções de um protestantismo sem lastro

Curiosamente, o Brasil é hoje uma das 10 maiores nações protestantes do mundo em números totais, são cerca de 43 milhões de brasileiros que se identificam como cristãos protestantes. Todavia, ainda que tão representativos numericamente, nós, protestantes brasileiros, somos parte da realidade de uma das nações mais corruptas, subdesenvolvidas, mal-educadas e desiguais em todo planeta.

Isso, necessariamente, faz pulular nas mentes protestantes mais inquietas uma pergunta: por que nossa fé, tão influente historicamente em inúmeros países que colhem frutos disso até hoje, não tem efeitos positivos e transformadores visíveis nestas realidades tão sombrias do nosso país? Por que somos tantos, em tantos lugares, e ao mesmo tempo nossa nação continua mergulhada neste lamaçal de ignorância e privações das mais variadas e destrutivas, sem a mínima perspectiva de mudanças verdadeiramente significativas?

Respondo-lhes com raro senso de certeza absoluta: falta-nos o ensino da teologia da vocação, feito de forma bem estruturada e constante, tanto dentro de nossos lares, como dentro de nossas igrejas!

Foi o professor brasileiro Olavo de Carvalho – católico romano até a medula – que numa de suas infinitas concatenações, chamava a atenção dos protestantes brasileiros a que deixassem de ser preguiçosos e ignorantes, e se dessem, no mínimo, ao trabalho de conhecer a teologia da vocação ensinada por Lutero, algo que certamente poderia auxiliar a população brasileira em seu desenvolvimento em múltiplos sentidos.

Assertivas como estas, advindas de pessoas de fora do nosso arraial evangélico, deveriam no mínimo nos fazer corar de vergonha, pois desvendam a triste realidade de que temos em mãos a teologia da vocação mais linda e eficaz da história, mas que, infelizmente, não é valorizada, tampouco conhecida, e muito menos ensinada à esmagadora maioria dos cristãos evangélicos brasileiros. Isto precisa mudar!

Um chamado para toda a vida

Vocação vem do latim ‘vocare’, que significa chamar. Para o cristão, este chamado vem de ninguém mais, ninguém menos, do que do próprio Deus, que o capacita e o comissiona a alguma missão específica no mundo. Esta capacitação geralmente é um dom, um talento, uma facilidade, uma habilidade, uma sensibilidade, um incômodo, uma revolta, uma inconformidade com algo, ou uma combinação de vários destes aspectos, que o estimulará a trabalhar, labutar e entregar, se preciso for, a própria vida àquela determinada causa.

Vocação diz respeito a algo muito mais profundo e significativo do que a mera busca passageira por sensações, dinheiro e prazer, antes, a ideia de vocação dialoga com a ideia de sentido da vida. Aquela razão última pela qual você existe, aquela missão única que foi entregue a você e a mais ninguém, que lhe desperta um senso de responsabilidade tamanho, como que o de prestar um fundamental trabalho ao próprio Deus.

Quem descobre seu chamado de vida, supera os momentos em que o cumprimento deste chamado não está rendendo tanto dinheiro assim, ou não está trazendo tantos momentos prazerosos como esperado. Essa superação ocorre, pois o vocacionado conhece quem o vocacionou e sabe que sua missão última está longe de idolatrar dinheiro e prazeres como deuses usurpadores, mas em glorificar, obedecer e adorar o Único que deve ser glorificado, obedecido e adorado.

O chamado é para todos

Todavia, não devemos confundir ou restringir a vocação à atividades megalomaníacas, grandiosas, estruturais, ou com alta visibilidade. Nada mais distante da vocação cristã do que isso. Existem os chamados às missões com estes perfis? Claro. Mas não são todos, e nem são a maioria.

A beleza da teologia da vocação desenvolvida a partir da Reforma, é o resgate do valor que Deus confere à todas as atividades da vida, desde as mais suntuosas até as aparentemente mais desimportantes e simples. Não existe mais aquela ideia dividida de mundo, onde determinadas atividades e lugares – como cultos e ritos religiosos, templos ou mosteiros – são mais importantes para Deus. A ideia dos reformadores é de que para o cristão não existe mais vida secular. Ou a vida pertence totalmente a Deus, ou Deus de fato não é Senhor sobre toda a vida.

Deus é Senhor e dono de todas as coisas, e como tal, se interessa de forma absoluta tanto com o que acontece nas altas cortes governamentais das nações e nas altas cúpulas das lideranças eclesiásticas que pastoreiam Seu povo, como com o trabalho que um gari está desenvolvendo no quarteirão que está sob sua responsabilidade. Diante de Deus, todos os ofícios possuem valor, importância e beleza intrínsecos, e tanto o político, o ministro ou o gari prestarão contas do trabalho que fizerem, pois, em última instância, estão prestando um serviço primeiro a Deus, depois aos homens.

Este senso de vocação, certamente transformaria sensivelmente a forma das pessoas pensarem a escolha de uma profissão. Apenas como exercício hipotético, imaginem só uma nação inteira operando nestas bases, ou então, apenas os mais de 40 milhões de cristãos protestantes vivendo fielmente a partir destes princípios. Ou seja, que cada um de nós está cumprindo uma missão designada pelo próprio Deus, que deve ser encarada com alegria e esperança, na certeza de que somos privilegiados cooperadores dEle na construção de uma nova realidade, que aponta para a consumação de Seu Reino entre nós. Isto, inequívoca e naturalmente, faria com que nos tornássemos um país menos corrupto, menos desigual, mais bem educado, mais organizado, mais seguro, mais justo e até mesmo, mais rico.

É tempo de pensarmos nossa vocação em oração diante do Senhor. Se, porventura, você ainda não tem certeza, ou sequer, ideia do que foi chamado por Deus para fazer, precisa voltar sua atenção seriamente para isso. Precisa olhar seriamente para si mesmo e buscar identificar quais são seus dons e habilidades, perceber onde você sente-se útil, o que te comove, te indigna, te inspira, te impulsiona, enfim, precisamos tomar alguma atitude na direção de iluminarmos este caminho.

Todavia, ainda que você não tenha certeza absoluta de seu chamado vocacional, não se desespere. Mantenha-se em oração e sensível à realidade ao seu redor, e lembre-se de que certo ou não de sua vocação, é nosso dever honrar a Deus onde Ele nos plantou, aqui e agora. Não temos de esperar uma certeza vocacional inquestionável para, então, encararmos a vida como tendo de ser vivida na sua totalidade para a glória de Deus.

Se você ainda não está no trabalho que considera ideal, não importa, encare-o como um passo, como parte do caminho do seu objetivo, e cumpra-o da melhor forma possível, pois foi ali que Deus te colocou, e, pelo menos por hora, é ali que você deve honrá-lO. Talvez Ele esteja te presenteando com uma grande oportunidade de amadurecimento, crescimento e poder de adaptação, que você jamais teria se não estivesse exatamente onde está.

O chamado gera esperança inigualável

Não existe fórmula mais poderosa para subverter, ou pelo menos aplacar o avanço do caos no mundo, do que um ser humano consciente de sua vocação diante de Deus. Não existe empreendimento mais certo para promoção do bem e da justiça do que homens e mulheres cônscios de suas responsabilidades individuais e vocacionais perante o Senhor, e que, com base nesta ética, educam seus filhos e os filhos de seus filhos.

É a partir desta perspectiva, que não rouba de Deus seu lugar de Senhor e Redentor da história, que devem emergir todas as iniciativas de promoção de paz, educação, beleza, justiça, saúde, fraternidade, equidade, bem-estar e alegria no mundo.

Minha expectativa é de que deixemos para trás dois dos grandes ídolos do mundo moderno – dinheiro e prazer –, e compreendamos a relevância intrínseca e histórica de nossa fé, para que assim, passemos a ensinar, contínua e convictamente, nossos filhos, netos, e irmãos em Cristo, como a nossa vocação diante do Senhor, constitui um dos verdadeiros e mais frutíferos pilares da vida de alguém que se confessa um seguidor de Jesus, aqui e agora.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.

 



Uma estranha firmeza de alma ante o perigo e misturada numa perseverança rumo a um objetivo é o que comumente chamamos de “coragem”. Uma palavra latina cuja raiz é a mesma da palavra “coração”, isso porque em épocas remotas, acreditava-se que o coração era o órgão responsável por desenvolver este sentimento heroico.

Eu peço licença aos meus amigos e amigas leitores/as para afirmar que em se tratando de tipos de coragem, se é que podemos fazer tal separação, existe uma a qual a profundidade é desenvolvida em graus mais extremos, a saber, a coragem feminina.

Ao nos depararmos com a narrativa do nascimento do grande líder Moisés, encontrada no livro de Êxodo, podemos perceber que o seu nascimento, e, consequentemente sua vida de liderança, só se tornou viável pela coragem feminina, ou seja, pela dedicação e perseverança de mulheres que tomaram decisões difíceis frente a determinadas situações de perigo e ameaças reais.

No livro de Êxodo em seu primeiro capítulo, o rei do Egito é claríssimo em ordenar as parteiras Sifrá e Puá que matassem todos os bebês recém-nascidos do sexo masculino. Trata-se, portanto, de uma ordem de morte, provinda do Estado, agressiva e mortal, a saber: o infanticídio. Então duas mulheres, as principais administradoras de uma espécie de organização de parteiras, se veem diante de um dilema ético.

É incrivelmente empolgante perceber que elas decidem desobedecer uma ordem do governo para assumir o preço da liberdade ética da escolha. Mas o que estava por trás de tudo isso? A coragem feminina!

A coragem de olhares delicados, de uma profissão intrinsecamente ligada a outras mulheres que geravam vidas, mulheres que estavam diariamente diante da essência da vida. E é exatamente esta coragem única, a coragem feminina, que desperta em Sifrá e Puá a certeza de que naquele momento elas precisavam agir em desobediência ao rei do Egito.

É sobre essa coragem que te convido a refletir, uma coragem fundamentada no temor a Deus, o que significa estar enraizada no Deus da Vida, no Eterno Criador, Aquele que vocacionou essas mulheres a participarem e auxiliarem nos momentos onde a vida é revelada e não para serem agentes de um crime de infanticídio.

O que percebemos é que no coração destas mulheres estava um princípio simples e profundo, elas eram sujeitas ao governo do Egito, mas antes disso elas temiam o Eterno! Temor a Deus é o princípio de vida para estas heroínas e assim, ao desobedecerem o comando do rei do Egito, elas deixaram viver os meninos.

Todo ato de desobediência civil, obviamente, é questionado pelo Estado e no caso delas não foi diferente, ao serem questionadas pelo rei do Egito, tais mulheres mantiveram a coragem e posicionamento.

A beleza de toda essa narrativa é que o Eterno derramou a sua bondade sobre as parteiras Sifrá e Puá, e então, a coragem feminina fundamentada no temor a Deus colheu bênçãos e frutos na vida destas duas mulheres.

Olhar com atenção para esta narrativa nos faz refletir que por trás do grande líder Moisés, existem figuras femininas fundamentais que se estivessem ausentes, sua vida não teria sucesso algum, podemos até dizer que nem uma brevíssima duração.

A coragem feminina se revela na vida de toda mulher. A coragem da mãe de Moisés que desafia a lei daquele governo a fim de manter seu filho vivo; também se revela na filha do faraó que recebe o bebê e cuida como se seu filho fosse, sabendo que era um Hebreu, também desafia seu próprio pai; a coragem feminina também está na irmã de Moisés, Miriã, que vigia o bebê flutuando no cesto do rio. Porém toda essa sequencia de heroínas parte de Sifrá e Puá, as quais desafiam a ordem do rei do Egito se recusando a matar os meninos hebreus.

O que podemos aprender com tudo isso? Que talvez, nós homens não tenhamos a profundidade deste tipo de coragem a qual eu, particularmente, chamo de “coragem feminina”; trata-se de um olhar feminino para a vida e que através desse poder e perseverança, tais mulheres formaram e ainda formam grandes homens e grandes líderes; e por fim, que a bondade de Deus sempre é derramada sobre a vida de mulheres corajosas que, diante de desafios, dores e sofrimentos, nunca desistem.

Creio ser válido deixar um lembrete especial a nós homens: que possamos ler as narrativas da Bíblia e da vida com honestidade, louvando a Deus pelas heroínas cristãs as quais abençoam e edificam nossas vidas com um tipo de coragem exclusiva e profunda reservada apenas a elas.

E que o Eterno nos abençoe na mais absoluta certeza de que em Cristo Jesus todas as coisas ficarão bem.

Lacy Campos é casado com Junia e pai da Bella Hadassa, pastor na Igreja Presbiteriana de Leme/SP; graduado em Direito; Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul; Mestrando em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Um discípulo trilhando a jornada espiritual e que acredita que, em Cristo Jesus, todas as coisas ficarão bem.


A pergunta que é o fio condutor desta breve reflexão é a seguinte: o que me faz querer estar em um relacionamento com Deus e engajado em Seu Reino? Explico: quais são os motivos reais que me levam a querer estar em uma igreja, trabalhando em algum ministério local, liderando algum grupo pequeno, tocando, cantando, dando aulas, pregando? O que me leva a estar numa missão cristã? O que me faz apoiar a plantação de uma nova igreja? Enfim, dentro de um imenso leque de atividades realizadas pelas igrejas locais atualmente, qual a verdadeira razão que nos impulsiona a estarmos envolvidos em alguma destas atividades?

Conversão genuína ou adesão egoísta?

É muito comum encontrarmos igrejas que para segurarem as pessoas em seus arraiais, acabam de forma, por vezes, inocente, por vezes, irresponsável, dando a estas pessoas diversas atividades e responsabilidades a serem cumpridas, quando, na verdade, o que elas mais precisam é de acolhimento, cuidado e discipulado, pois mal chegaram ao ambiente da igreja e pouco ou nada sabem ainda sobre a fé cristã e suas implicações.

Notem por exemplo, o famoso movimento religioso de igreja em células, que apesar de bastante diversificado, em linhas gerais, valoriza demasiadamente a velocidade do crescimento da igreja e estipula metas a serem batidas por seus líderes, adotando uma metodologia quase como se a igreja fosse um tipo de indústria da salvação. Existe ainda, uma grande pressão para que os liderados se tornem líderes, e multipliquem o trabalho, gerem “filhos na fé” e cooperem para a “expansão do Reino de Deus”.

Isso pode comprometer gravemente a qualidade daquilo que se é ensinado, pois é muito provável que o processo de formação de líderes e multiplicadores não seja o adequado. Muitas vezes a pressão é tão grande que os envolvidos com o trabalho precisam estar na igreja quase que a semana toda e muitos deles ainda não estão preparados para isso, aliás, acredito que nem deveriam estar preparados para isso.

Abordagens com estas por parte da igreja, certamente serão nocivas para a vida dos envolvidos, pois não representam sob hipótese alguma a cosmovisão bíblica de discipulado e vida cristã no mundo criado por Deus. Nestes tempos em que cada vez mais raros são os momentos onde podemos desfrutar de um pouco de paz, descanso e tempo de qualidade com a família e com os amigos, a escolha da igreja de sobrecarregar sua membresia em trabalhos exaustivos intramuros, definitivamente, não é a melhor opção.

Existe nestes tipos de movimentos certa medida descabida de empreendedorismo mercadológico, que não está de acordo com a ideia de que salvação não é algo provocado por homens e seus sistemas, mas que é pela graça mediante a fé, e em última instância, diz respeito à ação do Espírito Santo que sopra onde quer e convence quem quer e quando quer, do pecado, da justiça e do juízo.

Percebendo a amplitude do chamado

Outra dificuldade é a promoção do conceito de missão cristã ou do chamado do Senhor restritos apenas aos limites das quatro paredes da igreja. Quase não se ensina sobre o senhorio de Cristo sobre todas as atividades da vida. A membresia da igreja acaba envolvida em tantas atividades intramuros que, muitas vezes, fica sem forças e sem tempo para enxergar, discernir e exercer sua vocação no mundo para glória de Deus.

Claro que não seria sábio generalizar, existem trabalhos nos lares que são desenvolvidos de forma saudável e piedosa, transformando-se assim, em grandes ferramentas de apoio para o povo de Deus e a igreja local, entretanto, acredito que todos os pontos levantados acima merecem atenção e reflexão de nossa parte.

Engajamento nocivo e desequilibrado

Mas as dificuldades não param por aí. Muitas são as pessoas que acabam sendo inseridas em outros contextos da igreja, como por exemplo, os contextos musicais, infantis, artísticos e outros mais, sem que saibam absolutamente nada do evangelho, sem que saibam a razão da esperança que têm, e após serem inseridas nestes contextos, continuam sem aprender e sem interesse em aprender, pois estão comprometidas não com o Jesus das Escrituras, mas com as atividades e tarefas que encontraram no círculo social que a igreja lhes proporcionou.

Elas ouviram quase nada sobre Cristo, não entenderam ainda porque precisam crer Nele, não entenderam o significado do pecado, da graça e da justiça de Deus, não entenderam o motivo pelo qual Jesus teve de morrer numa cruz, não entenderam o que é a igreja, sua peculiaridade e importância, não sabem quem são os profetas, os salmistas, os apóstolos, mas já estão em nossos púlpitos dando testemunhos de conversão, tocando suas guitarras, vestidas com suas camisetas gospel, cantando, pulando e chorando de emoção.

É duro admitir, mas por vezes, muitas destas pessoas estão comprometidas apenas consigo mesmas, com suas necessidades relacionais, com seus anseios por algo ou alguém que lhes tire do tédio em que vivem. Estão deslumbradas com o palco, com as luzes, com a música, com as cores, com a evidência que terão e com a oportunidade de viverem novas experiências que lhes trarão novas sensações de bem estar e ego saciado.

Estão amando o novo círculo social, as novas amizades e as novas possibilidades que elas trazem, mas ainda não têm convicção profunda dos pecados que as acometem todos os dias, não amam o Cristo de Deus e seu evangelho subversivo, que faz desmoronar em nós o egoísmo de nossas caprichosas necessidades caídas, para no lugar delas fazer jorrar o verdadeiro amor, que ama a Deus e somente a Ele sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

Pensando e repensando o caminho

Somos evangélicos que amam ao evangelho e ao Cristo do evangelho, ou apenas seguidores de uma mera religião? Somos de fato convertidos de todo coração ou apenas aderimos a um novo modismo de vida? Você já parou pra se perguntar se faz o que faz e está onde está no Reino de Deus por amor a Deus ou a si mesmo? Seu engajamento no Reino de Deus tem lhe custado algo? Você tem descoberto semana após semana, quão perversos e profundos são os seus pecados e quão gigante é o amor de Deus, que mesmo diante de tamanha afronta cometida contra Ele insiste em te amar todos os dias? Seu coração tem queimado na direção de compartilhar com seus amigos e amigas estas verdades incomparáveis e preciosíssimas do evangelho de Jesus, ou você está interessado apenas num tempo bacana de descontração e risadas com os amigos da igreja?

Você já parou pra pensar que talvez a sua missão na igreja, por hora, seja passar um tempo apenas sentado, ouvindo, sendo discipulado, pensando, repensando, fundamentando seus conceitos e refletindo na Palavra de Deus, pedindo pra que Ele molde seu caráter de acordo com o que ela diz, para que você possa servi-lO no mundo como testemunha fiel, com cada vez mais excelência, dedicando a Ele seus talentos e aptidões na área da vida em que Ele te colocar?

É claro que não estou falando que você não deve se envolver vigorosamente na igreja do Senhor, apenas estou ponderando que seu envolvimento deve ser feito de forma consciente e fundamentado numa profunda convicção de quem é o Deus a quem você serve, como Ele pensa e o que Ele requer de você.

Seu engajamento na igreja não deve ser um fardo, nem uma prisão, tampouco uma espécie de entretenimento barato que serve apenas para suprir suas necessidades relacionais ou segurar pessoas nos círculos sociais que criamos. Antes, deve ser fruto de uma madura compreensão de qual trabalho o Senhor realmente te chamou para fazer para Ele, seja dentro ou fora da igreja, com ricos ou pobres, crentes ou incrédulos, jovens ou idosos.

Até porque a igreja somos nós, cristãos devotados ao Senhor Jesus, espalhados pelo mundo de Deus, com a responsabilidade de sinalizar com obras e palavras que há redenção pelo sangue de Cristo para todos os problemas e mazelas da humanidade, a começar por nosso coração caído, idólatra de nós mesmos e constantemente rebelde diante do Senhor. Seja Ele nossa luz e nosso discernimento em todos os momentos, sonhos e empreendimentos que estão por vir.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.


A fé em Jesus é uma fé intimamente ligada ao coração. Mas o que exatamente quero dizer por coração? Coração na abordagem de Jesus é o nosso centro existencial, é o âmago do nosso ser. É aquele lugar onde residem todas as nossas motivações, angústias, alegrias, medos, tristezas, euforias e intenções.

O coração tanto cobiça indevidamente aquilo que não lhe pertence, como é, também, a residência dos mais sublimes sentimentos que nutrimos pelas pessoas. É o lugar que só você e Deus chegam. É onde podemos testemunhar sem mentiras o quão maus somos e o quão restaurados estamos, ou não, sendo pelo Espírito Santo. O coração é o centro de tudo, é o lugar mais íntimo da nossa existência, e também o lugar mais delicado de se mexer na história de um ser humano.

Curioso é que Jesus fala, que do coração é de onde procedem os maus desejos, e é exatamente aí onde temos uma sonora confusão. O pecado e a maldade são intrínsecos ao seres humanos. Nossa maldade é voluntária, e desde o nascimento até o fim da vida não paramos de pecar. Somos desobedientes por natureza, somos miseráveis criaturas que precisam desesperadamente da intervenção de Jesus para que saiamos do lamaçal de rebeldia contra Deus no qual nos encontramos.

Por isso, a conversão não pode ser confundida com algo raso, banal ou fácil demais. Estamos falando de um processo de proporções estruturais na vida de uma pessoa. Não podemos confundir a conversão bíblica com um levantar de mãos ou com uma oração na frente de uma congregação.

Conversão não pode se resumir a apresentação de números estratosféricos pela liderança das igrejas ao término de seus eventos, onde não poucas vezes, nem mesmo o evangelho de Jesus foi pregado. Como podemos alegar que diante da inexistência da pregação do evangelho existam verdadeiros novos convertidos?

Conversão é muito mais do que tornar-se membro da igreja da moda que tem o movimento do momento. É mais do que procurar a denominação com o melhor louvor, a melhor luz, o melhor som ou com a galera mais ‘descolada’. Não que estas coisas sejam erradas em si mesmas, todavia, conversão real está anos-luz disso tudo.

Conversão implica em uma radical transformação do coração. É uma vida inteira de idolatrias e equívocos deixada para trás e a adoção de um novo modo de vida completamente diferente, com base única e exclusiva nos ensinamentos e nas palavras de Jesus. É um processo dolorido de troca de mentalidade, pressupostos, cosmovisão, e isso, não é nada simples.

É nesse ponto que eu queria te desafiar a refletir seriamente se tem sido verdadeiramente o Senhor Jesus que tem dominado o seu coração. Você está em busca de Jesus ou das coisas que você pode arrancar dEle? Queria te desafiar a sondar seu coração e examinar francamente o que tem te motivado, e exatamente porque você tem vivido e feito tudo que vive e faz, seja dentro ou fora da igreja.

Infelizmente, é possível que passemos anos e anos frequentando cultos, retiros, evangelismos, shows e toda sorte de ambientes religiosos, mas ao mesmo tempo completamente distantes de Deus e de um relacionamento verdadeiro com Jesus. O fato é que você não sabe cuidar tão bem de si mesmo quanto Deus nosso Pai o sabe, e se você está procurando qualquer outra coisa na vida pra suprir seus sonhos e desejos que não o próprio Senhor, você precisar se arrepender e abandonar a vida idólatra e egoísta em que você está afundado. Acredite, Cristo é suficiente!

Transformaram uma parte significativa da igreja em um supermercado da fé e Jesus em um multi-produto que atende a todas as nossas fúteis aspirações narcisistas e diabólicas. Tudo isso é fruto da nossa natureza caída e do nosso coração pecador que rompeu com os valores do Reino de Deus e com o próprio Deus. E o que é pior, nós cristãos caímos nessa mentira, nós a alimentamos, nós mesmos a divulgamos.

Todavia, há esperança! Jesus redime corações, ressignifica motivações, traz novo sentido para nossa existência e faz novas, consistentes e verdadeiras conversões para glória de Seu Santo nome.

Minha reflexão é fruto da preocupação de estarmos vivendo domingo após domingo, retiro após retiro, louvorzão após louvorzão, uma mentira travestida de religião cristã. De estarmos buscando êxtases e arrepios espirituais em lugar do evangelho do contrito de coração, ou de estarmos buscando satisfação e contentamento em outros lugares, quando na verdade Aquele que é tudo em todos, e que é o único que pode verdadeiramente suprir os mais íntimos desejos e necessidades de nossas almas, quer apenas uma única coisa de nós: o nosso coração.

Oro pra que sua conclusão ao examinar-se a si mesmo não seja de que sua conversão é na verdade uma grande confusão, porém se o for, alegre-se, ainda há tempo para verdadeira conversão, arrependa-se, mude sua forma de ver o mundo, faça isso todos os dias. É a ordem do Mestre!

Que Deus nos cubra com suas misericórdias e nos alcance com seu infinito amor, e que nossas consciências sobre a profundidade e seriedade do que significa converter-se ao Senhor, seja mais apurada e séria, de modo a que nossas vidas estejam cada vez mais rendidas aos pés da cruz, para honra e louvor de Cristo, nosso Senhor!

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.


Pode soar um tanto radical, mas de um modo geral, essa ideia jamais será encontrada nos ensinos da Bíblia Sagrada. A mensagem da verdadeira religião cristã ali exposta, nunca departamentalizou a vida humana. No ensino bíblico, a fé nunca está à parte das obras, o conhecimento nunca está à parte das ações e as afeições nunca estão à parte da concretude da vida cotidiana.

O domínio de Cristo deve se fazer realidade em todos os meandros da nossa existência, inclusive e de forma bastante destacada, em nossas afeições e sentimentos, de modo que se você apenas age como quem ama mas seu coração não está em consonância com sua ação, você tem um problema de coerência com o qual vai ter que lidar. A Bíblia é muito clara no que tange a necessidade de harmonia entre nossos afetos e nossas ações. Segundo o apóstolo Paulo, por exemplo, podemos entregar nossos corpos para serem queimados vivos, todavia, até mesmo nossa morte em favor de alguém ou de alguma causa, sem amor, de nada valeria. Complexo, não?

O que as Escrituras estão nos ensinando é que amor com atitude mas sem afeição, na verdade, não é amor, e que existe sim a possibilidade de nossas ações, por mais positivas que sejam, estarem sendo completamente em vão. Para Deus o que está em jogo é muito mais do que uma atitude correta, mas o coração no lugar certo.

Só os puros verão a Deus

É incrível como Jesus sempre vai no âmago das questões. Jesus está sempre se importando com a raiz, com o radical, com o que há de mais verdadeiro e profundo no ser humano, em suma, com o nosso coração. Ele mesmo disse que felizes serão aqueles que são puros de coração, estes e apenas estes verão a Deus.

Não adianta você apenas agir como quem ama se na verdade seu coração não está em harmonia com a sua ação. Jesus é Senhor de tudo, não apenas do campo prático ou do campo afetivo da vida. É sim, verdade que afetos nada são se não vierem acompanhados de ação, contudo, é verdade também, que ações nada são se não vierem regadas de verdadeiros afetos. Na união do coração e da ação reside o segredo do verdadeiro amor cristão.

Seja o Senhor o fundamento de todo nosso afeto e de toda nossa ação, e que possamos viver e compartilhar o verdadeiro amor que brota no coração enternecido daquele que só ama e só pode amar porque primeiro foi amado verdadeiramente por aquele que nada mais é do que o próprio amor.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.