É preciso que se tenha bastante maturidade para tratar deste tema – tolerância e intolerância – tão sensível sem que deixemos a sobriedade e o bom senso de lado, e transformemos o debate num campo de batalhas onde sobeja o ódio e o destempero emocional. Todavia, é preciso também, que tenhamos coragem para encarar a realidade da reflexão proposta no texto a respeito da mensagem que encontramos nos evangelhos, sobre quem é Jesus e sobre o que Ele realmente significa para a humanidade.

Politicamente incorreto

O fato é que a mensagem de Jesus, como veremos, em vários momentos, não foi e não é nada democrática ou tolerante. A fé cristã possui inúmeros paradoxos e um deles é este: ela resguarda o direito à liberdade de crença, mas no cerne de sua mensagem apresenta-se a si mesma como a única crença verdadeira.

Você jamais verá qualquer ensinamento bíblico que pregue a imposição da fé em Jesus, seja por violência, coerção ideológica, militar ou qualquer outro método. A fé em Cristo é um dom de Deus, concedido por graça através do Espírito Santo, é assim que a Trindade sempre agiu e é assim que sempre agirá. Coerção não tem nada que ver com fé cristã, jamais será evangelho de Deus. Entretanto, ao mesmo tempo, você vai encontrar o próprio Cristo e todos os seus sucessores no Novo Testamento ensinando consequências horríveis para os que livremente negarem a fé apregoada por eles mesmos registrada nas Sagradas Escrituras.

O argumento indiscutível

O maior e mais impressionante argumento que os cristãos têm a favor deste exclusivismo, são as próprias palavras de Jesus. Não fossem as palavras dEle tão contundentes, a exclusividade da fé cristã estaria seriamente abalada. Mas Jesus não deu brechas, em vários momentos Ele próprio fez alegações seríssimas a respeito de si mesmo e do que sua pessoa significava e significa para a existência, passado, presente e futuro da raça humana.

Jesus afirma, por exemplo, que no início de todas as coisas viu a queda de Satanás (Lc 10.18); aos pecados que homens e mulheres cometiam diante de Deus, ele fornecia perdão (Mc 2.5); Ele chega a dizer na cara de judeus fariseus e mestres da Lei que antes que Abraão existisse, Ele já era (Jo 8.58); afirmou sobre si mesmo ser o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6); disse as irmãs Marta e Maria ser ele mesmo a ressurreição e a vida (Jo 11.25); quando Tomé lhe adorou chamando-o de Senhor e Deus aceitou prontamente a adoração sem se opor a tal; estes são apenas alguns dentre os inúmeros outros testemunhos bíblicos a respeito da exclusividade e divindade da pessoa de Jesus.

Ele e ninguém mais

Jesus não disse ser um ente espiritual com poderes sobrenaturais capazes de nos levar a Deus, Ele simplesmente diz: venham até mim, eu sou o caminho, não existe outro, em mim está a redenção que vocês precisam, somente eu tenho o perdão dos pecados que vocês cometeram, não acreditem em mais ninguém, pois eu sou a verdade que liberta vocês. Ora, estivesse Jesus nos tempos atuais, Ele seria bombardeado de todos os lados como sendo um grande intolerante religioso fundamentalista, um ignorante retrógrado de quinta categoria. Mas pasmem, o discurso de Jesus é exatamente esse, Ele arroga ser a grande solução do problema da humanidade. Ele diz ser a fonte de águas vivas que sacia o insaciável coração humano. Jamais nenhuma figura na história humana afirmou isso de si mesma. O que nós temos aos montes são homens e mulheres apontando um caminho para Deus, e não agindo verdadeiramente como se fossem o próprio Deus.

O Jesus que temos pintado hoje na grande mídia, nos filmes, nas séries, nas propagandas, na literatura e nos documentários trata-se de uma grande fábula, uma distorção, é, na verdade, um Jesus que nunca existiu. Temos hoje muita gente falando sobre Jesus que, ao que parece, jamais leu o que Jesus de fato falou. Muita gente inventando um Jesus conveniente e propenso a concordar com seus interesses, que não se parece em absoluto com o Jesus revelado nas Escrituras.

A dúvida que resta é saber se isso é feito por ignorância ou desonestidade intelectual, de fato. Parece não haver o mínimo de pesquisa para se conhecer o básico das ideias de Jesus encontradas explicitamente nos evangelhos. Talvez exista, além do desinteresse evidente na verdade, um certo receio de se descobrir algo que não seja assim tão agradável para os padrões ideológicos atuais dos formadores de opinião do mundo moderno.

O trilema

O reverendo presbiteriano John Duncan no século XIX propôs um trilema, que um século depois seria popularizado sobremaneira pelo escritor anglicano C. S. Lewis. O trilema é simples: ou Jesus foi um louco, ou foi um grande mentiroso, ou Jesus é exatamente quem disse ser. Toda mente humana honesta consigo mesma, deverá se posicionar diante deste trilema em algum momento na vida. O que não é possível é que se adote uma posição neutra diante da questão. Não é possível que se sustente um discurso pacifista do estilo daqueles que dizem: “Jesus foi um bom homem, um líder exemplar, um grande Mestre de sabedoria inigualável, que muito contribuiu para a evolução da humanidade e para a espiritualidade do ser humano como um todo”, mas que sempre relega Jesus como apenas mais um sábio na história, e sua mensagem como apenas mais uma corrente ideológica a ser debatida e analisada no mundo. A mensagem de Jesus não deixa espaço para isso!

A questão a ser encarada é: ou Jesus é exatamente quem disse que era e sua mensagem tem absoluta proeminência sobre todas as outras ou ele não é digno de ser nem lido ou ouvido, pois não passa de um charlatão ou um desequilibrado.

Jesus não divide seu lugar com ninguém, e isso é inadmissível no mundo de hoje! Você tem até o direito de não crer, mas o que Jesus dirá a você é que se você não se arrepender dos seus pecados e colocar sua fé nEle, o seu destino será padecer no inferno sobre a ira santa de um Deus Justo que não pode deixar pecados e pecadores sem suas devidas punições. Trata-se de uma mensagem altamente radical, mas que não mudou e jamais mudará.

A falsa paz

Em tempos como os nossos, temos presenciado certas tentativas de sincretismo entre o cristianismo bíblico e outras mensagens e cosmovisões, tudo em nome de uma falsa paz e do politicamente correto. Mas não podemos abrir mão da própria pessoa de Jesus em nome de uma pretensa paz com o mundo. Com Jesus, a tolerância a outros caminhos e cosmovisões não é bem-vinda. Ele se coloca de forma contumaz como o único caminho e a única verdade, e nós como cristãos devemos ter coragem para sustentarmos essa mensagem frente ao mundo secularizado e hostil a qualquer ideologia que arrogue para si exclusividade.

O desafio que fica é: como respondemos ao trilema proposto pelo Reverendo Duncan? Temos coragem de responder? Se sim, temos coragem de assumir as consequências de nossa resposta? Os dias são maus e, como sempre, a porta continua estreita. Que o Senhor nos capacite a mantermos sua mensagem viva e intacta tal qual ele nos legou, e que tenhamos fé de que tudo que Ele disse a respeito de si mesmo é a mais linda verdade com a qual o homem pode ter contato em toda sua história. Que diante destas afirmações nosso coração se encha de esperança e certeza que temos um futuro, um Salvador e um Senhor que tudo sabe e tudo faz para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância. Coragem seja dada do alto a todos nós!

Por último, não nos esqueçamos que a lógica do politicamente correto é frágil e falsa: tolerância para com tudo e para com todos, exceto para com aqueles que pensam diferente.

Sustentar a viabilidade de se afirmar a veracidade de cosmovisões que são frontalmente antagônicas e negam-se mutuamente é o caminho daqueles que tem preguiça ou medo de irem, de fato, mais fundo em busca da verdade. Para estes o caminho mais fácil é a ridicularização da religião e a criação de um novo ídolo: o relativismo. Que além de irracional, não deixa de ser uma espécie de nova religião.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil, na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil e no CTM Centro de Treinamento Missionário da Igreja Presbiteriana do Brasil.


Todavia seja a tua vontade […] Lc 22.42

Somos filhos do nosso tempo e isso nos impõe algumas tarefas e desafios que creio serem exclusivamente nossos e de mais nenhuma outra geração. A igreja, ao longo de sua história, teve de desenvolver meios de ser sal da terra e luz do mundo, de acordo com o tipo de apodrecimento e escuridão causados pelos pecados predominantes naquelas respectivas gerações. Não é diferente conosco.

Peculiaridades de nossa geração

O fato é que hoje temos nossas peculiaridades, e temos de estar sensíveis para identificá-las e tratá-las à luz das Escrituras. Vivemos o tempo em que homens não são mais homens, mulheres não são mais mulheres, o certo não é mais certo, o errado não é mais errado, o belo não é mais belo e o feio não é mais feio.

Estamos numa era esquizofrênica em que a realidade e a verdade já não importam quase mais nada. Os sentimentos e a imagem tomaram de assalto o lugar da verdade e valem tanto ou até mais que a própria realidade, e este, sem dúvida, é um grande desafio para os que professam que a fé vem pelo ouvir e é a prova das coisas que não se veem.

Claro que a fé cristã contempla os sentimentos, a beleza e a imagem, mas nenhum destes aspectos da criação deve tomar o lugar do Criador. Eles são um meio que aponta para o fim de todas as coisas que é o Senhor, e não fins em si mesmos que devem ser adorados no lugar do Criador.

Idolatrias escolhidas, objetivos definidos.

Ocorre que uma das formas preferidas de idolatria escolhida por nossa geração, é, justamente, a de glorificar os sentimentos e a imagem, colocando-os no lugar de Deus, como senhores de nossa existência e mentores de nossa maneira de olhar o mundo.

O bombardeio de recursos como fotos, vídeos, clipes, músicas, artes, séries, filmes, novelas, redes sociais, espetáculos, e tudo mais que fale intensamente conosco através da visão e toque profundamente nossos sentimentos, gerando prazer e bem-estar, é onipresente e inesgotável.

Este arsenal de recursos afetivos e audiovisuais pouco a pouco vai minando nossas convicções, tirando-nos da realidade e nos transportando para um mundo fantasioso e relativista, de forma que não nos apercebamos disso, até que cheguemos finalmente ao ponto de questionarmos se, de fato, existe verdade; ou que ressignifiquemos nossas certezas, transformando-as em conceitos politicamente corretos, que sejam aceitos sem maiores problemas por quem dita as regras do que é certo e errado na atualidade, e de quebra, se adaptem convenientemente ao nosso coração idólatra e pecaminoso. É um processo lento de conformação, porém, altamente eficaz. E a igreja, infelizmente, não está imune a ele.

Os resultados desta estratégia já podem ser percebidos claramente hoje por quem quer que seja, basta que se observe os caminhos que temos tomado como sociedade, em algumas das questões mais estruturais de nossas vidas, que estão sendo entregues abertamente à idolatria do sentimentalismo. Questões que dizem respeito a gênero, casamento, aborto, paternidade, maternidade, educação, direito, política e tantos outros aspectos éticos cardiais da nossa existência, têm sido avaliados sob o escrutínio final da afetividade. Em linhas gerais, o que detém a palavra final em nossos dias são os sentimentos.

Problemas vitais com a idolatria do sentimentalismo.

O problema, ou um dos inúmeros problemas de se adotar o parâmetro sentimentalista como juiz final da realidade, é que existirão momentos em que nossos sentimentos não estarão em sintonia com o que é correto. A Bíblia Sagrada nos adverte recorrentemente que nosso coração é enganoso e dele procedem os maus desígnios, palavras do próprio Cristo estas últimas.

Existirão momentos onde nossos desejos terão de ser controlados, onde nossa vontade idólatra de trair, roubar, olhar, humilhar, se orgulhar, mentir, fraudar, corromper, ofender, esconder, deverá ser refreada e esmagada.

Não somos chamados a ser idólatras de nós mesmos e de nossos sentimentos, mas a servir em humildade e inteireza de coração aquele que é por definição, Rei e Senhor, sobre tudo e sobre todos. Por mais que pensemos estar destronando-O com nossa arrogante e tola idolatria, Ele jamais deixará de ser o que é.

Um antídoto.

É exatamente este o cenário onde nós cristãos estamos plantados como igreja de Jesus. E por isso, corremos o risco todos os dias de nos deixar levar por esta incontrolável idolatria dos sentimentos, e acabemos, ou por nos aproximar da igreja com as motivações erradas, ou por promover ações como igreja com as motivações erradas.

A música boa, o layout lindo da igreja, as mensagens encorajadoras e inspiradoras, as pessoas legais, os espetáculos promovidos de alta qualidade, nosso círculo social construído todo ali, a igreja promovendo inúmeras ações sociais na comunidade, enfim, todas estas coisas podem ser positivas, mas não são elas que legitimam a igreja, e podem perigosamente se transformar em ações focadas exclusivamente no prazer e na exaltação humana, afinal, se observarmos bem, todas elas podem ser encontradas facilmente em diversos outros tipos de organizações, principalmente naquelas promotoras de entretenimento.

A igreja, todavia, sempre teve e continuará, até a vinda do Senhor, tendo um papel muito específico e intransferível na historia da humanidade: ela é a portadora da mensagem mais poderosa que já existiu.

Temos de continuar firmes na certeza de que sobre nossas mãos está a mensagem de Deus aos homens, é isto que faz da igreja, igreja. A mensagem que carregamos é capaz de atingir o coração humano de forma muito mais profunda e transformadora que qualquer recurso audiovisual ou sentimental que já existiu ou existirá. Esta mensagem, e somente ela, é capaz de tocar e redimir o âmago da idolatria do coração humano, seja em que época ou contexto for, por isso estamos tratando-a como algo tão central, especial e que deve ser tão bem discernido e resguardado. Estamos tratando da chave de tudo. A pedra sobre a qual devemos construir nossa existência sob hipótese alguma deve ser nossos próprios e inconstante sentimentos, antes, a rocha da nossa existência deve ser sempre e de uma vez por todas, Cristo e seu magnífico evangelho!

Um (o) exemplo final.

O maior exemplo de que as sensações, os sentimentos e as imagens, não devem ser o fator decisivo das nossas ações é o encontrado no Jardim do Getsêmani. Ali Cristo experimentou a maior aflição de todas! Ali Ele quis parar. Jamais homem ou mulher alguma poderá experimentar algo minimamente parecido com o que Cristo experimentou naquele momento. Sua vontade era de que o Pai, se possível fosse, passasse dEle aquele cálice. Tudo que poderia e poderá haver de mais aterrorizante na história, concentrado num momento só, bem diante da face de Jesus! O Filho de Deus estremeceu.

Mas qual foi Sua atitude mesmo diante de tamanha aflição? Ceder às suas vontades? Seguir seus sentimentos? Não! Cristo resistiu, e por um amor inexplicável a seu Pai e a nós, Ele enfrentou o que deveria enfrentar, venceu a morte e nos deixou a promessa de que se estivermos nEle, teremos vida eterna e faremos coisas ainda maiores do que as que Ele fez.

É necessário que submetamos nossa fé a uma avaliação honesta no que diz respeito aos fundamentos sobre os quais ela está firmada. Que tipo de fé temos construído? Trata-se de uma fé bíblica ou sentimental? Está firmada na inabalável pessoa e obra de Cristo Jesus ou em minhas sensações e arrepios passageiros? Como cristãos, possuímos absolutos claros e inegociáveis ou temos sido levados por quaisquer ventos de ideologias, teologias ou doutrinas modernas? Estamos preparados para defender nossos postulados custe o que custar num mundo hostil e avesso ao cristianismo bíblico e seus defensores? São perguntas necessárias que farão com que nos olhemos no espelho francamente em busca de conserto e arrependimento diante do Senhor.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil.


Infelizmente, uma parcela considerável da igreja cristã contemporânea, através da superestimação do entretenimento e até mesmo da bajulação, está contribuindo para que nossos jovens tornem-se imaturos, irrelevantes, infantis, descompromissados com Deus e Sua palavra, e a terem uma percepção da realidade da vida cristã um tanto quanto fantasiosa e até mesmo, banal.

Grande parte da liderança cristã passou a enfatizar e a ensinar que a relação entre o homem e sua comunidade de fé é algo muito mais pautado na busca por sensações, emoções, bênçãos individuais, diversão, relacionamentos e prazeres temporais. O importante hoje é a promoção de um ambiente ‘cool’ para chamar a atenção do jovem e segurá-lo na igreja custe o que custar.

Para tanto, negocia-se a mensagem, a forma de culto, o conteúdo das músicas, a centralidade de Cristo, e tudo mais que possa compor a experiência da pessoa que estará presente na igreja. O problema é que quando subestimamos a eficiência da pregação da mensagem do evangelho e passamos a buscar complementos que, supostamente, venham suprir as expectativas daqueles que frequentarão nossos cultos, estamos assumindo, ainda que inconscientemente, a insuficiência da cruz de Cristo e sua mensagem, para redenção de todas as necessidades da vida humana.

Fazendo mal na ilusão que estão fazendo o bem

Atualmente, inúmeras são as iniciativas por parte das igrejas de se reproduzir dentro de suas quatro paredes, programas outrora considerados ‘mundanos’. É possível se encontrar baladas, festas, música eletrônica, raves, filmes, comilança, danças e uma infinidade de artimanhas que, para poderem ser colocadas em prática com a consciência limpa, vêm devidamente aprovadas com o ‘selo gospel de qualidade’.

Estas iniciativas, a priori, podem parecer saudáveis, mas no fundo são tentativas de proteger a juventude do embate com o mundo real. Ao invés de estarmos forjando homens e mulheres a partir do evangelho bíblico, que terão consistência e capacidade para enfrentar os difíceis desafios que encontrarão na realidade da vida, estamos, infelizmente, cooperando para a produção e promoção de uma subcultura autocentrada, que não tem poder real de influência algum dentro da sociedade, e que gera pessoas que sabem viver apenas em seu próprio gueto, aspecto este completamente contrário a universalidade da fé cristã histórica.

É pertinente dizer que não há nada de errado em se promover atividades para jovens dentro das igrejas. Entretanto, temos de ter o cuidado de não trabalharmos na perspectiva de que estas atividades devam ser uma espécie de blindagem oferecida ao jovem em relação ao que ele encontra no ‘mundo’. Se não ensinarmos a estes moços e moças a beleza e a contundência da fé cristã para todos os lugares e aspectos da vida, teremos de continuar alimentando-os com a subcultura gospel que insiste em continuar fazendo paródia do showbiz em seu campo de atuação na sociedade.

Por quê?

Raras são as igrejas que incentivam os estudos, o aprofundamento teológico e filosófico, que indicam boa literatura e promovem discussões realmente relevantes para o público jovem cristão. Enquanto isso, em outros ambientes secularizados da sociedade como universidades, cursinhos e movimentos estudantis, jovens acumulam alto volume de leitura de autores ateus como Marx, Engels, Nietzsche, Gramsci, Freud, e a mais recente safra de neoateístas, que embora sejam muito mal aceitos na academia, têm balançado a fé de muita gente, como Christopher Hitchens, Sam Harris, Richard Dawkings e Daniel Dannett.

Esse tipo de prática atrasada da igreja resulta, por exemplo, na debandada de inúmeros jovens cristãos quando chegam à universidade. Como eles nunca foram alimentados consistentemente, e seus pastores e líderes nunca se preocuparam em lhes apresentar as grandes questões da vida a partir do prisma da fé cristã histórica, eles se rendem à primeira ideologia que lhes parece mais interessante e rompem quase que de uma vez por todas com toda aquela cortina de fumaça religiosa que habitava suas mentes.

É grave admitir, mas por que tanta gente dentro da igreja é irresponsável, é desorganizada, é displicente, tem senso estético pobre? Por que tanta gente trai, por que nossos políticos são os mais ausentes da câmara federal e nossos artistas sofrem preconceito dentro de suas comunidades quando cantam, pintam ou escrevem algo que não seja gospel?

Quando foi a última programação que você participou que incentivou a juventude cristã a pensar a ciência como sendo parte do senhorio de Cristo sobre todas as coisas, a fim de oferecer a comunidade científica contrapontos teóricos e técnicos fundamentados na fé cristã? Quando foi que incentivamos nossos estudantes de direito a lutarem por leis mais justas? E nossa reflexão política diante da infinidade de acontecimentos que tem sacudido a nossa república, a quantas anda? Quando foi a última vez que promovemos dentro de nossas igrejas, conversas, encabeçadas por especialistas cristãos, sobre homossexualidade, ideologia de gênero, perseguição dos cristãos no oriente médio ou a influência da psicologia no pensamento cristão do século XXI? Onde estão nossos professores que não se renderam ao ensino de ideologias anticristãs em sala de aula? Poderíamos enumerar uma imensidão de outras atividades, porém, indago algo ainda mais central: onde estão nossos pastores comprometidos e submetidos ao ensino fiel das Escrituras Sagradas, fundamento de toda ação cristã bem sucedida seja em que ramo da vida for? Enfim, por que o número de evangélicos é cada vez maior, mas ainda não conseguimos perceber nenhuma mudança real na atuação da igreja no Brasil?

Repensando o caminho

Todas as situações apontadas acima se devem, em grande parte, a falha da liderança da igreja na educação dos cristãos, principalmente quando ainda são jovens. Ao contrário do que muitos podem pensar, as atividades promovidas pela igreja não são intrinsecamente boas, elas podem muito bem ser destrutivas, negativas, mundanas e defraudarem a mensagem e abrangência do evangelho. Não podemos continuar incentivando a alienação e a busca desenfreada por entretenimento nas atividades que promovemos.

É momento de arrependimento, de busca por maturidade, de repensarmos as nossas bases teológicas e filosóficas. É momento de voltarmo-nos de todo coração a um compromisso firme com Cristo Jesus e sua Palavra. Blindar a juventude com ‘atividades legais’ dentro da igreja não é o caminho, nossa fé histórica exige que nossa proposta para o mundo vá muito além disso.

A igreja cristã não deve ensinar seus jovens a relativizarem o estudo e o aprendizado de boa teologia. A igreja cristã não deve subestimar o potencial de seus próprios jovens ensinando-os a subestimarem a mensagem genuína do evangelho de Cristo substituindo-a por crendices e métodos mundanos a fim de promover bem-estar e distração para gente que não está preocupada com mudança de vida, muito menos com a glória de Deus. Pelo contrário, com os pés fundamentados na rocha, a igreja deve andar na verdade que redime o pecado e promove transformação efetiva do coração do homem. Só assim estaremos contribuindo, de fato, para o crescimento, formação e fortalecimento da nossa juventude tão carente de referenciais, o que culminará, inevitavelmente, numa concreta e bíblica sinalização do Reino de Deus nos mais diversos campos da nossa existência. Seja Cristo, nossa força, nossa única esperança.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil.

 



Por séculos, os cristãos têm sido chamados por filósofos incrédulos de irracionais, ilógicos ou contraditórios. Isto se deve ao fato de afirmarmos a crença em doutrinas que nos são misteriosas. Uma destas doutrinas é a doutrina da Trindade Santíssima. A doutrina da Trindade é fundamental a todo o cristianismo, pois reflete o ser do único e verdadeiro Deus. Se não cremos na Trindade, cremos em outro deus, inventado pelos homens ou por demônios. Por isso, afirmamos crer em Um só Deus bendito, o qual subsiste em três Pessoas Santíssimas. É impossível ser chamado de cristão e negar esta santa doutrina. Afinal, como diz o Credo Atanasiano: “Todo aquele que quiser ser salvo, é necessário acima de tudo, que sustente a fé universal. […] a fé universal é esta, que adoremos um único Deus em Trindade, e a Trindade em unidade.”

Desde já, quero deixar claro que não estou propondo que entendamos todos os mistérios que há em Deus, e nem mesmo que isto seja “pré-requisito” para a salvação. De forma alguma. Creio que nem mesmo em toda eternidade entenderemos todos os mistérios Divinos. Isto não significa que temos uma fé irracional; apesar de nossa crença conter mistérios – e nós os aceitamos pela fé – ela é, em todo momento, racional. A ignorância não é um lugar onde podemos nos refugiar. É óbvio que tentar fazê-lo é pecaminoso. Devemos conhecer Aquele a quem dizemos amar. De outra forma, como poderíamos afirmar amá-lO se não O conhecemos? O que o Senhor nos revelou pelo Seu Espírito em Sua Palavra, portanto, deve ser conhecido, estudado e crido com muito temor e tremor, com máximo de empenho e disciplina.

Destarte, quero poder, com este pequeno texto, ajudar os irmãos a desconstruir a falácia da contradição, bem como fortalecer a crença na fé cristã ortodoxa. Não tenciono abordar, aqui, o que é a doutrina da Trindade. Para isto, recomendo aos irmãos que leiam os credos antigos produzidos pelos Pais da Igreja, tal como o Credo Atanasiano, citado acima. Quero aplicar meus esforços em mostrar que em momento algum somos contraditórios ao afirmar nossa crença na Trindade. Como tutor neste desafio, usarei o livro “Defendendo sua Fé: uma introdução à apologética”, do Dr. R. C. Sproul.

O que é contradição?

Embora hoje muitos tratem contradição e paradoxo como sinônimos, os dois termos se referem a algo muito distinto. Contradição vem do latim e tem sentido de “dizer contra” alguma coisa que havia sido dita previamente. Em outras palavras, contradizer é adotar uma fala incoerente e contrária ao que se havia dito anteriormente. É afirmar que “A” é “A” e “não-A” ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Um termo equivalente à contradição, pelo menos na filosofia clássica, é antinomia ­­– literalmente, “contra a lei”.

O que é Paradoxo?

Em nossos dias, até mesmo alguns dicionários conhecidos definem paradoxo como sinônimo de contradição. Ledo engano. Paradoxo tem origem no grego, na junção de duas palavras que significam “o oposto” (para) e “parecer” (dokeo). Literalmente em português, “o oposto do que parece”. Ainda mais importante do que sua definição linguística é seu uso histórico-filosófico. O Dr. R. C. Sproul define corretamente paradoxo como “uma oração que, enquanto verdade, tem aparência de contradição.”[1] Um paradoxo, então, histórica e filosoficamente, é tido como uma idéia profunda e verdadeira, embora, à primeira vista, aparente uma contradição.

Uma explicação mais detalhada sobre paradoxo e contradição.

Consideremos a seguinte frase encontrada nos Evangelhos: “[…] o maior deverá ser o menor” (Lc 22.26). Obviamente, maior e menor são contrários em seus sentidos. Não há como o maior ser o menor. Naturalmente, os dois termos não encaixam devido ao fato de serem antônimos. Entretanto, se assumirmos sentidos distintos e/ou contextos diferentes para as palavras maior e menor, então é totalmente possível que elas nos tragam um sentido muito mais profundo, apesar da aparente contradição.

Se entendermos as palavras exemplificadas acima com seus sentidos corriqueiros e integrando um mesmo contexto, temos, então, uma contradição. Porém, se entendermos que o uso de uma está em um contexto totalmente distinto da outra e que, portanto, as duas formam um sentido profundo, então temos um paradoxo ­– duas idéias (neste caso, palavras), aparentemente contrárias, mas que dão um sentido muito mais profundo à afirmação. É como afirmar que, embora vivos, todos os homens fora de Cristo estão mortos (Ef 2.1-7). Os adjetivos vivos e mortos, aqui, mais uma vez, são utilizados em contextos diferentes – física e espiritualmente, respectivamente.

Os evangelhos contêm uma porção considerável de paradoxos, mas certamente nenhuma contradição. Por exemplo, Mateus relata as palavras de Jesus nestes termos: “Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á.” (Mt 10.39). É evidente que achar e perder são opostos em seus sentidos. No entanto, a diferença de sentido que Jesus dá à palavra vida nestas orações faz com que esta contradição seja somente aparente e que elas se encaixem perfeitamente em um contexto lógico.

Entendemos, portanto, que a chave fundamental para diferenciarmos um paradoxo de uma e contradição é o sentido e/ou o contexto em que as palavras (ou idéias), a princípio contraditórias, assumem na oração. Se Jesus tivesse dito sobre achar a vida e perdê-la no mesmo sentido, isto seria contraditório. No entanto, como dito acima, vida neste contexto tem dois sentidos diferentes, o que torna a frase de Jesus muito lógica e coerente. Enquanto Ele se refere a perder a vida terrena e momentânea, há uma alusão consciente e clara sobre achar a vida eterna. O mesmo se pode dizer de maior e menor, vivos e mortos, supracitados.

Mas, afinal, o que diz a doutrina da Trindade?

A doutrina da Trindade, claramente revelada nas Escrituras, nos ensina que há “um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeições” (CFW II.I). Nossa fé afirma com todas as forças a crença em um só Deus, e não em três deuses – como nos acusam alguns maldosos. Cremos em um só ser Divino. Como disse o próprio Senhor: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.” (Dt 6.4, ênfase acrescentada). Todavia, afirmamos, ainda, conforme as Escrituras, que “na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade – Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo” (CFW II.III).

Há um princípio fundamental ensinado em toda a Escritura que comprova que não há contradição na doutrina da Trindade: nós cremos em um só ser Divino, que subsiste em três Pessoas Santíssimas. A doutrina da Trindade faz uma clara distinção entre ser e pessoas. Enquanto afirmamos crer em um único Ser (natureza, substância ou essência) Divino, igualmente mantemos que há três Pessoas na Divindade. Nas palavras do Credo Atanasiano: “[…] a pessoa do Pai é uma, a do Filho é outra, e a do Espírito Santo outra. Mas no Pai, no Filho e no Espírito Santo há uma mesma divindade [natureza Divina], igual em glória e co-eterna majestade.”

Se disséssemos, pois, que Deus é um e três ao mesmo tempo e no mesmo sentido estaríamos sendo contraditórios. Entretanto, em nenhum momento afirmamos crer em um Deus e em três Deuses. Também não afirmamos que Deus é uma Pessoa e três Pessoas.  Quando professamos nossa fé na Trindade, afirmamos a crença em um único Ser Divino, que subsiste em Três Pessoas distintas. Não há contradição nisto, pois um e três assumem diferentes sentidos nesta afirmação: um Ser Divino; três Pessoas co-eternas e co-iguais.

Conclusão

Sem dúvidas, crer em um Deus Triuno pressupõe fé (Hb 11.6). É impossível compreender total e completamente esta doutrina. Nossa fé contém mistérios que nem mesmo em uma eternidade toda conseguiremos compreender e explicar racionalmente, mas que, não por isso, deixam de ser verdades. E muito embora não tenhamos uma mente perfeita que consiga compreender todas estas verdades, o Senhor nos concedeu fé o suficiente para confessarmos toda a sã doutrina como verdades inegociáveis (Ef 2.8; Tt 2.1; Jd 3). Por isso, estudar, refletir, crer e defender as doutrinas fundamentais do cristianismo, que claramente o Senhor nos revelou em sua santa Palavra, é nosso dever como cidadãos do Reino celestial.

Que o Deus Triuno nos ajude nesta nossa missão!

[1] SPROUL, R. C. Defendendo sua Fé: uma introdução à apologética. 3 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 38.

Rafael Almeida. 24 anos, nascido em Passa Quatro – MG. Formado em Redes de Computadores pela Fatec/Cruzeiro – SP. Coordenador dos trabalhos da Igreja Batista Reformada em Passa Quatro – MG. Tem interesse especial em hermenêutica e exegese. Rafael é casado com Ana Cristina.


Introdução

Um dos principais temas a serem visitados e discernidos em qualquer escopo teológico, seja ele de que matriz for, é o tema da morte de Cristo. Desdobramentos provenientes deste assunto como o significado, eficácia e extensão da expiação[1]; as razões que levaram Deus-Pai a oferecer graciosa e voluntariamente Cristo, O Unigênito, à morte e morte de cruz[2]; as relações da morte de Cristo com as doutrinas da justificação pela fé[3], da união do crente com Cristo[4], da intercessão de Cristo pelos santos[5] e da Trindade[6]; constroem um edifício de motivos fundamentais pelos quais a morte de Cristo e suas consequências são tão importantes para a construção de qualquer teologia, credo ou confissão de fé.

É inquestionável o impacto que a forma como se entende o significado e consequências da morte de Cristo tem sobre todo corpo doutrinário que se constrói tanto individualmente como comunitariamente em nossa experiência de fé cristã. A forma como compreendemos essa doutrina tem ligação direta, por exemplo, com a eclesiologia de uma igreja. Os métodos adotados pela igreja para evangelizar pessoas descrentes e a maneira como deve apresentar constantemente a mensagem do evangelho aos crentes já pertencentes à comunidade e engajados em seus cultos e serviços podem ser dramaticamente distintos, dependendo da visão que se adota da morte de Cristo.

É possível, também, a partir do que se entende da morte de Cristo, que se construa visões divergentes e até mesmo antagônicas quanto a assuntos concernentes, por exemplo, ao que verdadeiramente são os decretos de Deus, ou em até que ponto a Trindade agiu em harmonia, coerência e até mesmo racionalidade no tocante à concepção, aplicação e consumação do plano trinitariano de salvar pecadores.

É possível, ainda, formular diferentes posicionamentos a respeito da veracidade ou não da morte substitutiva e penal de Cristo em lugar de pecadores, questão tão central que acabaria também por tocar fundamentalmente na doutrina da justificação pela graça mediante a fé. Dependendo da forma como se olha a obra de Cristo na cruz, abre-se, ainda, margem para distintos posicionamentos no tocante ao sacerdócio de Cristo e sua posição de intercessor dos crentes à destra do Pai, e de nossa união mística com Cristo através da pessoa do Espírito Santo.

Entende-se que todas as subdivisões e temáticas apresentadas acima como tendo alta importância para a vida da igreja como comunidade e do cristão como indivíduo temente a Deus, de forma que não é saudável que temáticas de tamanha centralidade e relevância para o bom desenvolvimento da fé estejam imersas em controvérsias que podem afetar cabalmente o valor positivo e insubstituível que a compreensão bíblica de tradição reformada confere a cada um desses pontos.

Compreender o real motivo, significado e consequências da morte de Cristo é tema central para qualquer cristão que teme ao Senhor e tem as Escrituras Sagradas como regra de fé e prática. A tradição cristã reformada possui um robusto e mui coerente ensino a respeito desse tema, que deve ser ensinado constantemente aos crentes em Cristo de toda ordem, pois compreender a morte de Cristo, em suma, é compreender o coração do evangelho, de modo que compreender o evangelho de forma correta ou equivocada refletirá severamente em práticas frutíferas ou não na vida de cada cristão.

Apresentando as principais perspectivas doutrinárias

Talvez aqui estejamos diante do cerne do problema, como disse o proeminente teólogo americano do século XIX, A. A. Hodge: a doutrina da Expiação é evidentemente o elemento central e principal da doutrina da Justificação[7]. Compreender o real significado do que é o ato de fazer expiação pelos pecados de outrem pode fundamentar de maneira cabal as nossas conclusões sobre o poder e as consequências inerentes à morte de Cristo, nosso Senhor. Claro que não temos a pretensão de esgotar um assunto tão denso e glorioso em nossa breve abordagem, o intuito da presente argumentação é lançar mais luz a um tema tão controverso ao longo da história da igreja, que deve ser sempre alvo de extensas pesquisas para ser melhor compreendido pelos cristãos da igreja de Jesus do século XXI[8].

Predominantemente, na teologia contemporânea duas formas de compreender a morte de Cristo e seus efeitos sobre nós são consideradas: a primeira trata-se de uma morte substitutiva, um preço pago a Deus-Pai pela redenção dos pecados de alguém, o que consequente e infalivelmente liberta uma pessoa da pena que deveria pagar, ou seja, não apenas possibilita a salvação, mas de fato expia a culpa do pecador e o redime para glorificação na eternidade, mediante o selo do Espírito Santo, aplicado ao respectivo pecador como penhor de sua salvação[9]. A segunda trata-se de uma morte não substitutiva, aquilo que R.C. Sproul vai chamar de “teoria governamental”, que sugere que Cristo não pagou na cruz o preço real pelo pecado da humanidade, mas que sua morte foi um substituto significativo da punição dos homens. A morte de Cristo teria sido apenas algo pelo qual Deus demonstrou seu desprazer para com o pecado para que posteriormente pudesse estender perdão aos homens[10].

É importante dizer que não estamos estabelecendo nenhuma ligação formal entre qualquer corrente apresentada abaixo e a teoria governamental descrita há pouco. Entretanto, é necessário ressaltar que uma das correntes apresentadas a seguir, na prática, embora não na teoria, acabará corroborando a ideia de que a cruz não é garantia irrevogável de redenção para o pecador. Abaixo apresentaremos uma breve introdução ao pensamento arminiano e quais as relações que esta linha de interpretação traça entre a morte vicária de Cristo e a vida do pecador, e também uma breve abordagem do pensamento reformado clássico e sua compreensão das relações entre a morte expiatória de Cristo e a vida cotidiana do crente em Cristo.

  • Breve introdução ao arminianismo clássico

Com base no documento datado de 1609, intitulado Remonstrância, que representava uma tradição contrária à posição clássica da época, que hoje é conhecida como reformada ou calvinista, e nos escritos do reconhecido teólogo arminiano Roger Olson, apresentamos a mais conhecida posição dentro do arminianismo, que defende a expiação como sendo universal nos seguintes moldes: Jesus ofereceu-se na cruz a fim de propiciar a salvação ao mundo inteiro. Os arminianos dessa matriz acreditam que a morte de Cristo na cruz concedeu possibilidade de salvação a todos; mas ela é, de fato, concretizada quando os seres humanos a aceitam por intermédio do arrependimento e fé[11].

Para a teologia arminiana, existe uma condicional entre o fato de Cristo ter entregado sua vida por todos e todos possuírem a vida eterna. A condicional existente nada mais é do que a fé que se é depositada em Cristo Jesus. Deus concede vida eterna aos que creem. É por isso que, no sistema arminiano, muitos não são salvos. Sobre isso, Roger Olson comenta: Os arminianos, de fato, acreditam que Cristo morreu por todos, mas o benefício de sua morte (colocando de lado a condenação por pecados reais, em contraste ao pecado adâmico) é aplicado por Deus apenas aos que se arrependem e creem[12]. Ele continua:

Se a morte de Cristo satisfez a justiça de Deus para todos, por que todos não são salvos? Armínio responde: ‘Pois os pecados dos que por quem Cristo morreu estavam de tal maneira condenados na carne de Cristo, que eles, por este fato, não estão livres da condenação, a menos que, de fato, creiam em Cristo.’ Em outras palavras, Deus decidiu que os pecados de todas as pessoas fossem expiados pela morte de Cristo, de tal maneira que somente se as pessoas acreditarem em Cristo os seus pecados serão, de fato, perdoados[13].

Roger Olson, abaixo, segue explanando mais detalhadamente como creem os arminianos, especialmente Jacó Armínio:

“Armínio explicou sua própria visão da expiação em seu tratado ‘Examination of. Dr. Perkins’s Pamphlet of Predestination’ (Exame do Panfleto do Dr. Perkins Sobre a Predestinação). No documento ele defendeu que, de acordo com as Escrituras, Cristo morreu por todas as pessoas sem lesar uma única pessoa sequer e que sua morte satisfez as exigências de justiça para os que creem. Ele deu muita atenção a 2 Coríntios 5.19, onde Paulo escreveu que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Armínio também escreveu sobre muitas outras passagens onde ‘mundo’ é mencionado como objeto de amor e vontade de redenção de Deus em Cristo: João 1.29; 3.16; 4.42; 1 João 2.2; 4.14.”[14].

Com a morte de Armínio, quarenta e seis ministros e leigos holandeses respeitados redigiram um documento que ficou conhecido como “Remonstrância”, que resumia a rejeição, por Armínio e por eles mesmos, do calvinismo clássico de cinco pontos. Vejamos o que diz o artigo II da Remonstrância:

Em concordância com isso, Jesus Cristo, o Salvador do Mundo, morreu por todos e por cada um dos homens, de modo que obteve reconciliação e remissão dos pecados por sua morte na cruz; porém, ninguém é realmente feito participante dessa remissão exceto os crentes, segundo a palavra do Evangelho de João 3.16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna” e Primeira Epístola de João 2.2:” E ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas pelos de todo o mundo”[15].

Compreende-se, portanto, a partir da tese arminiana apresentada, que não existe uma ligação inequívoca e inseparável entre a morte de Cristo e a garantia da salvação dos pecadores, uma vez que a consumação deste fato depende de uma ação humana que pode ou não acontecer no tempo e na história.

A posição arminiana é de que Deus estabeleceu essa forma, ou método, para expiar pecados. Essa forma ou método compreende uma correlação inseparável entre o sacrifício vicário e a ação livre do pecador para garantia da salvação. A redenção dos pecados estará garantida de uma vez por todas apenas se atrelada a uma ação de fé e arrependimento tomada pelo pecador de forma livre. Caso contrário, ninguém poderá ser salvo.

  • Breve introdução ao pensamento reformado clássico

A tradição reformada clássica compreende que o termo expiação por si só já ilumina muito do que de fato significou a morte de Cristo no madeiro. Expiar tem como significado primário a remoção da culpa[16], se alguém expia a culpa de outrem é como se tivesse oferecido um pagamento substitutivo suficiente e adequado para a extinção da culpa do respectivo culpado. Ao se fazer um breve exame do drama das Escrituras, o preço estabelecido pelo próprio Deus através de sua Lei como pena justa para aqueles que viessem a pecar seria a morte[17], de modo que a única forma de qualquer ser humano livrar-se da justa condenação diante de Deus seria viver uma vida perfeita e isenta de pecados, desde o momento em que se nasce até o momento em que se expira pela última vez.

O fato é que nenhum ser humano ao longo de toda a história da humanidade assim viveu, pelo contrário, as Escrituras atestam que todos os homens pecaram e carecem da glória de Deus[18], que não há ser humano que possa dizer de si mesmo que não possui pecado[19] e que em pecado literalmente fomos concebidos[20]. Isso levanta uma questão de fundamental importância para a compreensão do papel basilar desta doutrina da expiação e também do escopo da mensagem do evangelho como um todo: se para sairmos ilesos da justa condenação daqueles que pecam diante de Deus temos de viver uma vida perfeita, justa e reta, como faremos para alcançar redenção dos nossos pecados já que, como atestado pelas Escrituras, ninguém é justo, todos se extraviaram e carecem da glória de Deus[21]?

As próprias Escrituras nos fornecem o caminho proposto misericordiosa, soberana e graciosamente por Deus-Pai, em compaixão para com seres humanos de todas as eras, tribos, etnias, línguas e nações que, como claramente podemos perceber biblicamente, nada poderiam, podem ou poderão fazer para expiarem suas próprias culpas.

Ele colocaria em prática seu plano de redenção, forjado desde antes da fundação do mundo, oferecendo seu Filho Unigênito como oferta sacrificial e substitutiva em favor daqueles que nele cressem para que assim não perecessem, antes obtivessem vida eterna[22]. Mas o que seria essa oferta? Seria ela penal, sacrificial e substitutiva? Como vimos, a remissão de pecados depende do cumprimento de uma pena como estabelecido pela legislação do próprio Deus, sangue deveria ser derramado, e o significado de sangue nas Escrituras é vida. O pecado cobra como salário a extirpação da vida, ou seja, a morte, de modo que para o cumprimento da pena e satisfação do Legislador Supremo, ofendido, alguém deveria morrer[23].

E este é exatamente o ponto nevrálgico e mais significativo da doutrina da expiação: apenas uma pessoa em toda a história da humanidade seria capaz de cumprir as exigências do Legislador e satisfazê-lo em vida e em morte, e esta pessoa é Jesus, o Homem-Deus, o Cristo Unigênito que cumpre toda a tipologia veterotestamentária que apontava para ele próprio, e aglutina em seu sacrifício vicário na cruz, na plenitude dos tempos, com base numa natureza e vida perfeita que não conheceu pecado algum[24], o papel de sacerdote, ofertante e oferta.

Ele, como sacerdote e ofertante em nosso lugar, oferece a si mesmo, a sua vida e o seu sangue como oferta e pagamento substitutivo da nossa pena. Trata-se de um sacrifício pessoal real, oferecido no lugar de pessoas reais, que garante a essas pessoas reais que pelo sangue de Jesus vertido no calvário, a redenção de seus pecados está garantida[25]. Os papéis dessas dívidas foram cabalmente pagos e cravados no madeiro[26], os pecados estão terminantemente expiados e o sacrifício vicário do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo[27] fez Deus-Pai propício aos eleitos de todas as eras, que formaram, formam e formarão a Noiva Imaculada e Adornada de Cristo, o Noivo perfeito.

Toda essa argumentação reflete fielmente a abordagem clássica reformada da doutrina da expiação encontrada na Confissão de Fé de Westminster, que, como transcrito abaixo, chancela a ideia de que a ação vicária e expiatória de Cristo tem como finalidade os eleitos de Deus antes da fundação do mundo:

O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, sacrifício que pelo Eterno Espírito ele ofereceu a Deus uma só vez, satisfez plenamente a justiça do Pai, e para todos aqueles que o Pai lhe deu adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no Reino dos Céus[28].

Assim como assegurado pela CFW, o Sínodo de Dort, que foi o primeiro conselho ecumênico realizado pelas Igrejas Reformadas, ocorrido entre Novembro de 1618 e Maio de 1619, na cidade holandesa de Dordrecht[29], também assevera posição uniforme em relação à extensão e eficácia da expiação, como podemos ver abaixo:

Pois este foi o soberano conselho, a vontade graciosa e o propósito de Deus o Pai, que a eficácia vivificante e salvífica da preciosíssima morte de seu Filho fosse estendida a todos os eleitos. Daria somente a eles a justificação pela fé e por conseguinte os traria infalivelmente à salvação. Isto quer dizer que foi da vontade de Deus que Cristo por meio do sangue na cruz (pelo qual Ele confirmou a nova aliança) redimisse efetivamente de todos os povos, tribos, línguas e nações, todos aqueles e somente aqueles que foram escolhidos desde a eternidade para serem salvos, e Lhe foram dado pelo Pai. Deus quis que Cristo lhes desse a fé, que Ele mesmo lhes conquistou com sua morte, junto com outros dons salvíficos do Espírito Santo. Deus quis também que Cristo os purificasse de todos os pecados por meio do seu sangue, tanto do pecado original como dos pecados atuais, que foram cometidos antes e depois de receberem a fé. E que Cristo os guardasse fielmente até ao fim e finalmente os fizesse comparecer perante o próprio Pai em glória, “sem mácula, nem ruga” (Ef 5:27)[30].

Entende-se, com base na CFW e nos Cânones de Dort, que a perspectiva reformada aponta uma relação intrínseca e inquebrável entre a expiação vicária de Cristo e a redenção final do pecador, de modo que a ação de fé e arrependimento do pecador não são autônomas ou descoladas do ato salvífico de Cristo no calvário, antes, e de forma cabalmente antagônica à posição arminiana, dependem invariavelmente deste ato vicário para que possam ocorrer de fato no tempo e na história.

É importante que se perceba que a nomenclatura e até mesmo a estrutura da doutrina utilizadas pelas duas linhas apresentadas são basicamente bem parecidas, nota-se que ambas defendem um processo salvífico com base numa ação conjunta do sacrifício vicário de Cristo na cruz, somado a uma ação de arrependimento e fé do pecador neste Cristo crucificado. Entretanto, existe uma diferença sutil, mas determinante para uma crassa diferença no processo de consumação da salvação em Cristo.

Enquanto o arminianismo defende a ausência de uma ligação inseparável entre o sacrifício vicário de Cristo e o ato de arrependimento e fé do pecador, que são apresentados como iniciativas livres do ser humano; o pensamento reformado, ao mesmo tempo em que defende a salvação com base na morte de Cristo, pela graça, mediante o arrependimento e a fé, defende também que essa graça de se arrepender e crer é algo que só se alcança por causa do sangue derramado por Cristo no Calvário. Em suma, é pelo fato de Cristo ter morrido e nos lavado de nossos pecados que nossa salvação nos é garantida e aplicada pelo Espírito Santo no tempo e na história.

Ligações inequívocas da doutrina da expiação a outras doutrinas centrais da fé cristã.

Existem diferentes nuances que podem ser adotadas ao longo da pesquisa e do estudo desta tão robusta doutrina, uma das principais é a chamada extensão da expiação, entretanto faz-se necessário ressaltar que não é esta exatamente a vertente principal que temos como objetivo em nossa abordagem. Nosso foco primeiro, então, é apontar quão incoerente e danosa é para inúmeras doutrinas centrais da fé cristã a sustentação de uma doutrina da expiação que não seja a doutrina da expiação definida[31].

A Bíblia Sagrada assume como inseparável do sacrifício vicário expiatório de Cristo na cruz, alguns vitais benefícios e aplicações destes benefícios na vida real de todos aqueles que creem no Filho de Deus. Citaremos brevemente alguns: o benefício da justificação pela graça mediante a fé[32], o benefício da reconciliação do pecador com Deus[33], o benefício da purificação e santificação do pecador[34], o benefício da adoção do pecador por Deus-Pai[35] e o benefício da segurança do pecador até a segunda vinda de Cristo[36].

Tudo isso torna um tanto quanto complexa a aceitação de uma doutrina da expiação onde Cristo, ao que parece, não removeu pecado real algum de pessoa real alguma, não substituiu de fato e de verdade pecador algum em seu sacrifício penal e vicário no Calvário; onde o sacrifício de Cristo não confere a absolutamente ninguém a garantia de salvação, antes provê apenas a possibilidade de salvação, que será obtida ou não, em última instância, pela decisão de um duvidoso livre-arbítrio humano[37]; onde a justificação pela graça mediante fé tem seu mecanismo central que diz respeito à imputação da vida e morte perfeitas de Cristo sobre a cabeça do pecador eleito, tenazmente ferido, pois é mediante o sacrifício substitutivo de Cristo que temos garantida nossa justificação que se nos é imputada pela graça mediante a fé[38]; onde a reconciliação não depende mais do ato gracioso e salvífico de Cristo no Calvário; onde a purificação, santificação, adoção e glorificação do pecador eleito não estão mais garantidas pelo decreto do Pai, por Cristo mediante seu sacrifício e pelo Espírito Santo como penhor de nossa salvação, antes, tudo isso repousa na performance e na capacidade humana de cumprir determinadas tarefas, a fim de alcançar por si mesma a salvação do homem que, a bem da verdade, elege-se a si mesmo para salvação.

O significado e desdobramentos da doutrina da expiação, também podem ser encontrados e fundamentados sobre terminologias recorrentemente encontradas nos textos bíblicos, que são usadas para explicar este significado e desdobramentos, respectivamente. Citaremos algumas das mais significativas:

Redenção: trata-se de um termo que significa comprar de volta[39]. É abundantemente utilizado nas Escrituras neotestamentárias para atestar que Deus-Pai em Cristo nos redimiu pra si, nos comprou de volta de nosso estado caído de trevas e morte espiritual. Por exemplo, o apóstolo Pedro escreveu:

Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; e por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre[40].

O Apóstolo Paulo, por sua vez, disse: Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro[41]. Por fim, o Apóstolo João em Apocalipse diz: porque foste morto, e com o teu sangue nos compraste para Deus de toda a tribo, e língua, e povo, e nação;[42]. Fica evidente que a linguagem bíblica atesta a ligação inseparável entre o sangue de Cristo vertido no calvário e a redenção de seu povo eleito antes da fundação do mundo.

Propiciação: propiciação é um termo religioso que significa desviar a ira[43]. A ideia da propiciação revela a ira de Deus contra o pecador, mas também revela como outra pessoa pode carregar essa ira sobre si em lugar do culpado. A doutrina da propiciação nos garante como o sacrifício expiatório de Cristo desviou a ira de Deus dos pecadores diretamente para a cabeça de Cristo no calvário, de modo a fazer Deus-Pai propício a pecadores indignos, porém graciosamente amados e justificados pela Trindade. Montgomery Boyce e Grahan Ryken na obra As Doutrinas da Graça – Resgatando o Verdadeiro Evangelho, nos lembram que o apóstolo Paulo usa o termo propiciação em Romanos 3.25a NVI, quando diz: Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. A expressão “sacrifício para propiciação” é a tradução da palavra grega hilasterion que significa propiciação[44]. O fato é que aquele que confessa Cristo como Senhor e arrepende-se de seus pecados, não tem mais sobre si a ira justa de Deus, mas pela morte de Cristo, tem agora um Deus propício, que garante sua redenção de uma vez para sempre.

Reconciliação: reconciliar significa unificar ou estabelecer paz entre partes em conflito[45]. O Apóstolo Paulo faz uso desta terminologia ao dizer em II Co 5.18-19 NVI: E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. A linguagem bíblica, mais uma vez, não deixa dúvida sobre o poder e eficácia do sangue de Cristo vertido no madeiro agora no que diz respeito a reconciliar as partes que estavam em guerra. Não é razoável pensarmos que Deus nos reconciliou consigo mesmo em Cristo, mas ainda assim continuamos em guerra com Ele. Se temos a reconciliação com o Pai em Cristo, e assim como o apóstolo falou, a estes reconciliados foi dado o ministério da reconciliação, é impossível que outra realidade que não a da paz esteja em vigor. Uma reconciliação que não reconcilia nada poderia ser considerada como algo que merecesse crédito? Aliás, poderia ser considerada uma doutrina bíblica séria e confiável?

Estabelecendo contrapontos e apontando incoerências

Compreende-se que teologias reformada e arminiana muito provavelmente encontrem seu ponto de discordância mais agudo exatamente na questão abordada pelo presente artigo, ou seja, a doutrina da expiação, suas causas, significado e desdobramentos. As formas como cada vertente percebe a doutrina são significativamente opostas, de modo que as consequências de se crer de uma forma ou de outra são igualmente bastante divergentes, até mesmo antagônicas. O Brasil é um país em sua maioria formado por igrejas são de tradição arminiana: pentecostais, neopentecostais, metodistas, batistas em sua maioria, formam grande parte da tradição evangélica em nosso país, e todos eles predominantemente adotam o arminianismo como sistema teológico vigente. Nossa tese no presente artigo é de que existem problemas robustos que são gerados para a teologia de qualquer igreja quando esta adota uma doutrina da expiação que não compreende a perspectiva histórica reformada como premissa em seu corpo confessional de doutrinas. Detalharemos a partir deste momento alguns destes principais problemas apresentando doutrinas cardiais da fé cristã que são terminantemente solapadas ou transmutadas de seus significados clássicos:

  • Desarmonia e incoerência intratrinitariana

Para a Teologia Reformada o ato salvífico trinitário é uma construção harmônica planejada e executada em comum acordo pelas três pessoas da Trindade em direção a um só objetivo, que é o de salvar pecadores. O Pai não propõe algo que o Filho ou o Espírito Santo estariam em desacordo, o Filho não executa qualquer ação onde Pai e o Espírito estariam em desacordo e o Espírito, concordando com a simplicidade[46] e harmonia trinitariana, tampouco aventurar-se-ia a agir isolada ou descompromissadamente do conselho intratrinitariano[47].

Ocorre, porém, que ao adotar-se o sistema arminiano apresentado, para interpretação da doutrina da expiação, uma fenda nessa harmonia entre as três pessoas da Trindade é gerada, pois, independentemente da forma como se compreende a doutrina da predestinação, arminianos e reformados concordarão com o conceito bíblico de que serão os predestinados antes da fundação do mundo que serão salvos[48], seja isto com base na presciência ou no eterno decreto de Deus.

Pois bem, se os dois grupos compreendem que todos os indivíduos sem exceção, de todos os lugares, de todas eras, não serão salvos por Deus, e que haverá um grupo de salvos e um grupo de não salvos, poderíamos levantar algumas perguntas no tocante a economia da Trindade adotada pelo arminianismo confessado por estes grupos de irmãos evangélicos, são elas:

  • Por que Deus-Pai em seu eterno decreto da predestinação não predestinou todos os homens, de todas as eras, sem exceção, para serem salvos em desarmonia com o que Cristo fez no Calvário mediante sua expiação vicária por todos os homens sem exceção, de todas as eras?
  • Por que Deus-Pai haveria de requerer expiação dos pecados de todos os homens, de todas as eras, sem exceção, se ele mesmo não os predestinou para tal fim?
  • Por que Cristo proveu expiação vicária no Calvário para todos os homens, de todas as eras, sem exceção, se a predestinação de Deus-Pai para a vida eterna não contemplou todos os homens?
  • Por que Cristo proveu expiação vicária para todos os homens sem exceção, de todas as eras, sendo que o Espírito Santo não aplicaria os benefícios desta expiação a todos os homens de todas as eras, sem exceção?
  • Por que o Espírito Santo, em desarmonia com o que fez Cristo, não aplicou as bênçãos da expiação vicária em todos os homens, sem exceção, de todas as eras, concedendo-lhes graciosamente o arrependimento e o dom da fé, convencendo-os do pecado da justiça e do juízo, se foi exatamente esta a vitória alcançada na cruz do Calvário através da morte de Cristo Jesus?
  • Por que homens e mulheres ainda serão condenados por Deus Pai ao inferno sendo que Cristo expiou os pecados de todos os homens, sem exceção, de todas as eras, tendo em vista que a incredulidade humana também é um pecado que fora expiado por Cristo no Calvário?

Todas estas perguntas suscitam uma problemática desarmonia entre as três pessoas da Trindade. É como se Cristo não estivesse de acordo com os decretos de Deus Pai e com a atitude redentora de aplicação de salvação do Espírito Santo nos seres humanos. É como se Deus Pai não estivesse em harmonia com o planejamento de Cristo Jesus em prover expiação dos pecados de todos os homens, e é como se o Espírito Santo não estivesse em harmonia com a morte substitutiva de Cristo em favor de toda a raça humana efetuada na cruz de uma vez para todo sempre.

Essa desarmonia é um grande problema, pois pode suscitar uma ideia perniciosa de supostos desacordos entre as três pessoas da Santíssima Trindade. Pode também colocar em cheque o poder expiatório do sacrifício vicário de Cristo no Calvário, e mais, podemos dar oportunidade a antigas heresias que surgiram na história da igreja como arianismo, gnosticismo ou o triteísmo. Justamente no combate a possibilidades como estas, Robert Leftahm diz:

A doutrina da expiação definida afirma que em concordância com o amoroso decreto eterno do Deus triúno, Cristo, o Filho, assumiu a natureza humana na encarnação e se ofereceu ao Pai através do Espírito Santo para fazer expiação por seu povo eleito. Vinculado a isto está uma conexão indestrutível entre a Santa Trindade, a encarnação do Filho e a expiação. No cerne dessa conexão está a doutrina da indivisibilidade do ser e atos do Deus triúno[49].

Resta-nos para evitarmos tamanhos inconvenientes doutrinários no tocante a harmonia e união da Santíssima Trindade, que podem trazer grandes danos à igreja como comunidade e aos crentes como indivíduos, adotarmos o antigo conceito reformado a respeito da expiação vicária de Cristo encontrado nos Cânones de Dort e nas Confissões de Fé Reformadas.

  • O significado do termo expiação é esvaziado em seu âmago

O termo expiação por si só significa remoção da culpa e unificação, ou reconciliação, ou união[50]. O ato de expiar os pecados dos pecadores levado adiante cabalmente por Cristo na cruz, implica em que Ele tomou estes pecados sobre si, morreu a morte que estes pecados exigiam, no lugar destes pecadores, ou seja, substituindo-os e pagando em seus lugares a pena que eles mereciam. Em suma, o caráter da expiação é penal e substitutivo. Cristo Jesus absorve sobre si a culpa e a pena vindicada pelo legislador de modo a livrar o expiado de qualquer dívida perante o tribunal, daquele momento em diante ele está livre.

Ao assumir-se este pressuposto, existem dois caminhos: ou Cristo fez expiação por todos os homens sem exceção de todas as eras, ou seja, removeu a culpa e promoveu a reconciliação destes homens com o Criador; ou Cristo fez expiação por todos os homens eleitos de todas as eras. O que torna-se impossível, ilógico e incoerente é aceitar-se uma expiação vicária nos termos bíblicos do Antigo e do Novo Testamento e ainda assim desejar-se manter a ideia de que Cristo expiou os pecados de todas as pessoas, sem exceção, de todas as eras, mas nem todas as pessoas, sem exceção, de todas as eras, tiveram suas dívidas pagas, seus pecados apagados e sua redenção garantida.

Além de ilógico e incoerente, sustentar que Cristo expiou os pecados de toda humanidade, mas que esta expiação não foi suficiente e poderosa para expiar os pecados, de uma parcela incontável de pessoas na história da humanidade tendo sido sobrepujada pela vontade humana é no mínimo temerário, resultado de uma reflexão superficial do que realmente quer dizer esta doutrina[51]. Diante de tal argumentação, algumas perguntas precisam ser feitas:

  • Se Cristo expiou os pecados de todas as pessoas, sem exceção, em todas as eras, por que algumas pessoas tiveram seus pecados apagados e a salvação garantida, ao passo que outras foram condenadas tendo sendo alvo do mesmo sacrifício expiatório vicário?
  • Se é a incredulidade humana o motivo da condenação, teria sido então, o pecado da incredulidade o único pecado não expiado por Cristo no madeiro?
  • Se é o ato de crer, partindo do pressuposto que a fé não é um dom dado por Deus, o que diferencia quem será ou não salvo, poderíamos dizer que o ato humano autogerado de crer é mais poderoso do que o ato divino da Trindade de salvar?
  • Se Cristo já expiou os pecados de todos os homens, sem exceção, em todas as eras, é plausível afirmar que os pecadores que serão condenados terão de pagar uma pena que supostamente já fora expiada, pela segunda vez?
  • Se a morte expiatória de Cristo não garante a salvação de nenhum ser humano, podemos afirmar então que ela não é penal, tampouco substitutiva? Sendo assim, biblicamente, de que espécie de expiação vicária estamos falando?

 

  • Jesus Cristo falha em sua missão sacerdotal e intercessora

Um outro aspecto vital da fé cristã histórica que é aviltado temerariamente pela a abordagem clássica arminiana da doutrina da expiação é a doutrina de Cristo como nosso Sumo Sacerdote[52]. A doutrina compreende o papel sacerdotal de Cristo não apenas como aquele que se oferece a si mesmo como oferta sacrificial, mas garante que a oferta oferecida, ou seja, sua própria vida, cumprirá o papel a que foi designada: garantir a vida eterna de todos aqueles pelos quais Cristo verteu seu sangue no madeiro, Stephen J. Wellun, diz:

O papel de Cristo como sumo sacerdote é um todo. É um só movimento unificado da graça para com a humanidade pelo qual ele assume nosso lugar em obediência ao Pai, no ato de fazer expiação por nossos pecados e conduzir-nos a Deus. Ele deixa bem claro que ora por nós, além de morrer por nós. Esse é um tema dominante em sua oração como sumo sacerdote ao Pai em João 17. Nessa oração, ele diz ao Pai que não ora pelo mundo, mas por aqueles a quem o Pai lhe deu… sua intercessão é limitada. Ele ora pelos seus, e não pelo mundo. Segue-se que sua morte expiatória visa aos que o Pai lhe deu, e não a todos de forma indiscriminada. Se vemos a intercessão como particular e a cruz como universal, estamos postulando uma ruptura no coração da obra de sumo sacerdote de Cristo[53].

Existe uma multiplicidade interna de papéis e ações em Cristo, que são planejadas, coerentes, interdependentes e imutáveis. Cristo é a oferta, o ofertante, o sumo sacerdote, mas também o mediador e intercessor que assunto aos céus faz com que a obra que Ele mesmo começou possa ser completada diante de Deus-Pai, por meio do Espírito Santo. Mais uma vez, temos um problema de isolacionismo das ações de Cristo como se elas tivessem sido pensadas de forma separada e não dentro de um todo. Enquanto que a primeira incoerência apontada por este artigo compreende uma desarmonia intratrinitariana, esta em questão, compreende um aspecto que diz respeito unicamente à pessoa de Cristo.

Existe uma falha na missão sacerdotal de Cristo, onde além de sua oferta não ter sido plenamente aceita em favor de todos aqueles pelos quais ele ofertou, sua intercessão por aqueles a quem ele se entregou também não terá o efeito desejado, seja pelo fato de Cristo ter morrido por todos sem exceção e intercedido por todos sem exceção e nem todos terem sido salvos, ou, seja por Cristo ter morrido por todos sem exceção e intercedido apenas por alguns o que apontaria uma incoerência em sua obra sacerdotal, e isto tudo por algum motivo desconhecido, já que Deus-Pai não julgou suficientes as súplicas e o propósito salvífico oferecidas e planejado, respectivamente, por Seu Filho Ressurreto e Vencedor.

  • Nossa união mística com Cristo é questionável

Uma das mais belas e revigorantes doutrinas que tem seus fundamentos altamente abalados a partir de uma visão arminiana da expiação é a doutrina da União Mística com Cristo[54]. Por sua obra na cruz, Jesus garante-nos que por meio do seu Espírito em nós, ele viveria também em nós. O Novo Testamento se utiliza recorrentemente da expressão “em Cristo”[55], que aponta para uma união misteriosa efetuada pelo Espírito Santo entre Cristo Jesus e cada membro da família divina convertido pela ação salvífica da Trindade. Estar unido a Cristo é tê-lo vivo e atuante em si mesmo e desfrutar de todos os benefícios que ele tem para dar. É a vida do próprio Cristo em nossa vida que nos garante o duplo benefício da justificação e da santificação, se não estamos em Cristo, nada do que foi feito no madeiro pode, de fato, ter alguma validade para nós. Bem por isso, Cristo garante-nos que sua união mística conosco se dará infalivelmente por intermédio da ação do Espirito Santo, completando assim todo o processo necessário para que tomemos posse dos fundamentais benefícios de sua morte vicária para nossa redenção.

Como visto, a ação expiatória de Cristo possui desdobramentos intrínsecos e inseparáveis de modo que se descolamos estes desdobramentos uns dos outros, como se fossem ações independentes que não possuem influência e consequências vitais umas nas outras e umas para com as outras, literalmente solapamos a lógica estabelecida pela própria Trindade para o processo de salvação da igreja.

Se a expiação não tem um valor efetivo sobre a vida do pecador eleito e pode ser adquirida ou perdida dependendo da crença ou ausência da crença do pecador, como podemos sustentar a União Mística do crente com Cristo? Ficaria ele a unir-se e desunir-se do crente mediante o Espírito Santo de acordo com o bel-prazer da vontade humana? Como fica o papel do próprio Espírito Santo nesse processo? Em harmonia com a vontade humana ou com o intento intratrinitariano? E todos os benefícios que o próprio Cristo provê aos seus quando unidos a eles, qual fim disso? Perdem-se? Por fim, uma pergunta importante: quem tem a palavra final no que tange a esta sublime união, quem a garante, Cristo ou a vontade humana?

  • A doutrina da justificação pela fé é ferida em seu cerne

Chega-se, aqui, a um dos pontos mais críticos e cruciais de nossa argumentação, uma vez que ao desconectarmos a morte expiatória de Cristo de seus eventos subsequentes inseparáveis da vida do pecador, estaremos comprometendo o cerne da doutrina mais importante da igreja[56]. É pelo sangue de Cristo que somos justificados e temos a redenção de nossos pecados[57]. A Escritura Sagrada é clara em afirmar que “temos a redenção” e não que temos “a possibilidade de redenção e perdão dos pecados”. Cristo no Calvário sofre a morte que os pecadores mereciam e satisfaz a justiça requerida pelo Legislador em favor destes mesmos pecadores, efetuando assim, de uma vez por todas, a mais bela e graciosa troca, onde o Justo se fez maldito para que o injusto, mediante a fé somente, pudesse ser acolhido como filho. A justiça de Cristo é imputada sobre o pecador de modo que este agora é visto como justo diante de Deus-Pai, sua dívida foi cravada no madeiro e sua salvação foi de uma vez por todas garantida pelos méritos de Cristo.

Este é o poder vicário da expiação de Cristo. Esta é a esperança sobre a qual podemos descansar. Se esvaziamos o significado justificador da morte de Cristo, que segurança temos de que somos de fato contados como justos? E com base na justiça de quem?

Conclusão

É muito possível que um sem número de práticas antibíblicas que têm sido implementadas e apregoadas pelas igrejas evangélicas brasileiras como comunidades e seus crentes como membros e líderes, desde as menos chamativas até aquelas que fazem corar de vergonha, sejam fruto de uma falta de compreensão mais aprofundada do significado da morte de Jesus. Compreender o que Jesus fez na cruz, como já dissemos, é compreender o coração do evangelho, seu poder e consequências sobre a vida daqueles que creem. Não compreender é o grande problema que buscamos levantar e abordar durante nossa argumentação.

Como demonstrado, existem basicamente, no meio ortodoxo da teologia evangélica, duas formas de compreender a doutrina da expiação e existe, também, uma inter-relação inseparável e fundamental entre esta doutrina da morte de Cristo e doutrinas centrais da fé cristã que se desdobram visivelmente na vida cotidiana do crente. Não estamos falando de questões secundárias da teologia que nada têm a ver com a realidade que se vive. Antes, é a partir do sacrifício vicário de Cristo que temos os benefícios mais importantes como filhos de Deus cabalmente garantidos. É pelo fato de Cristo verter seu sangue na cruz que o pecador é reconciliado, adotado, santificado, justificado e glorificado. É com base na expiação que podemos ter uma visão privilegiada da obra redentora da Trindade e do ofício sacerdotal de Cristo. É completamente questionável que coloquemos em cheque todos esses aspectos vitais para uma sadia compreensão e vivência da fé cristã. Isso compromete terminantemente a mensagem do evangelho e depõe frontalmente contra a Bíblia Sagrada.

A presente argumentação propôs-se a defender e recuperar urgentemente o valor e a atemporalidade do ensino e da proclamação desta doutrina central da fé cristã, ao mesmo tempo em que aponta sérios danos causados à doutrinas centrais da fé cristã, que são absolutamente inadmissíveis. Quanto mais a igreja compreender o significado, a importância e os desdobramentos da morte de Cristo, mais edificada e preparada ela estará para evangelizar com confiança, superar os momentos de desesperança e exaltar, acima de tudo e de todos, o Deus de toda glória, por seu amor insondável, por sua obra redentora, soberana e graciosa, nas pessoas de Cristo, o Filho Unigênito, e do Espírito, O Consolador.

Soli Deo Gloria.

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é bacharel em teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil.

Referências:

[1] R.C. Sproul, Somos Todos Teólogos, 234 (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2017)

[2] Hermisten Maia, Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo (São José dos Campos,SP, Editora Fiel 2014)

[3] John Murray, Redenção Consumada e Aplicada, 107 (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2010)

[4] Burk Parsons, editor, João Calvino Amor à Devoção Doutrina e Glória de Deus, 213 (São José dos Campos, SP, Editora Fiel 2010)

[5] Jonathan Gibson e David Gibson, Do Céu Cristo Veio Buscá-la, 626 (São José dos Campos, SP, Editora Fiel 2017)

[6] Franklin Ferreira e Allan Myatt, Teologia Sistemática, uma análise histórica, bíblica e exegética para o contexto atual (São Paulo, SP, Edições Vida Nova, 2007)

[7] Franklin Ferreira e Allan Myatt, Teologia Sistemática, uma análise histórica, bíblica e exegética para o contexto atual (São Paulo, SP, Edições Vida Nova, 2007).

[8] Ver David Gibson e Jonathan Gibson, Do Céu Cristo Veio Buscá-la, (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2017).

[9] John Owen, Por Quem Cristo Morreu, 6, (São Paulo, SP: Editora PES, 2011).

[10] R.C. Sproul, Somos Todos Teólogos, 234 (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2017).

[11] Roger Olson, Teologia Arminiana – Mitos e Realidades (São Paulo, SP, Editora Reflexão 2013).

[12] ibid 289

[13] ibid 294

[14] ibid 293

[15] Wellington Mariano, O Que é Teologia Arminiana, 19 (São Paulo, SP. Editora Reflexão 2015).

[16] Ibid. 242

[17] Ez 18.20; Rm 6.23; Gn 2.17, Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[18] Rm 3.23 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[19] I Jo 1.8 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[20] Sl 51.5 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[21] Rm 3.23 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[22] Is 53.10; Jo 3.16 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[23] R.C. Sproul, Somos Todos Teólogos, 242 (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2017)

[24] II Co 5.21 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[25] Ef 1.7 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[26] Cl 2.14 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[27] Jo 1.29 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[28] Confissão de Fé de Westminster, capítulo 8, parágrafo 5

[29] Jonathan Gibson e David Gibson, Do Céu Cristo Veio Buscá-la, 169 (São José dos Campos, SP, Editora Fiel 2017)

[30] Os Cânones de Dort, capítulo 2 parágrafo 8. (São Paulo, SP, Editora Cultura Cristã).

[31] [-] para um estudo mais aprofundado da extensão da expiação ver John Murray, Redenção Consumada e Aplicada, 53 (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2010).

[32] [-] Rm 3.24 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[33] [-] Rm5.1 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[34] [-] Hb 9.14 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[35] [-] Gl 4.45 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[36] [-] Hb 9.15ibid, [-] John Owen, Por Quem Cristo Morreu, 9, (São Paulo, SP: Editora PES, 2011).

[37]  [-] para um aprofundamento do conceito teológico reformado do livre-arbítrio ver Martinho Lutero, Nascido Escravo (São José dos Campos, Editora Fiel, 2014).

[38] [-] Rm 3.24 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[39] James Montgomery Boice e Philip Graham Ryken, As Doutrinas da Graça – Resgatando o Verdadeiro Evangelho, 136 (Rio de Janeiro, Editora Anno Domini, 2014).

[40] I Pe 4.18 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[41] Gl 3:13 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[42] Ap 5:9 Bíblia Sagrada Almeida Século 21, 1ª edição, São Paulo, Vida Nova, 2010

[43] James Montgomery Boice e Philip Graham Ryken, As Doutrinas da Graça – Resgatando o Verdadeiro Evangelho, 136 (Rio de Janeiro, Editora Anno Domini, 2014).

[44] ibid. 137

[45] ibid. 138.

[46] Jonathan Gibson e David Gibson, Do Céu Cristo Veio Buscá-la, 531 (São José dos Campos, SP, Editora Fiel 2017).

[47] para mais ver John Murray, Redenção Aplicada e Consumada, (São Paulo, SP, Editora Cultura Cristã, 2010).

[48]  [-] Thiago Titillo, Eleição Condicional, 22 (São Paulo, SP, Editora Reflexão 2015).

[49] Jonathan Gibson e David Gibson, Do Céu Cristo Veio Buscá-la, 527 (São José dos Campos, SP, Editora Fiel 2017).

[50] Bíblia de Genebra, Notas Teológicas, 1322 (São Paulo, SP, Editora Cultura Cristã).

[51] para ver mais sobre a natureza da expiação consultar: John Murray, Redenção Consumada e Aplicada, 22 (São Paulo, SP, Editora Cultura Cristã, 2010)

[52] Jonathan Gibson e David Gibson, Do Céu Cristo Veio Buscá-la, 652 (São José dos Campos, SP, Editora Fiel 2017).

[53] Ibid 626.

[54] Burk Parsons, editor, João Calvino Amor à Devoção Doutrina e Glória de Deus, 213 (São José dos Campos, SP, Editora Fiel 2010).

[55] 2 Co 5.17, Jo 15.4, I Jo 4.13, Gl 2.20 – Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional, Edição Bíblica Inc, Editora Vida, 2000.

[56] Timothy George. Teologia dos Reformadores (São Paulo, SP: Edições Vida Nova; 1994, p. 64).

[57] Rm 3.24 NVI, Ef 1.7 NVI – Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional, Edição Bíblica Inc, Editora Vida, 2000.



Em outubro deste ano comemoramos 500 anos de Reforma Protestante. E se há um movimento para o qual as igrejas evangélicas precisam voltar seus olhos imediatamente é este. A Reforma parece ter abordado cada questão da vida, principalmente aquelas que dizem respeito à eternidade. Uma das questões levantadas pelos reformadores é a de que o pecado afetou todas as faculdades humanas. Não há homem que não esteja radicalmente corrompido pelo pecado. Isso significa que todas as áreas de nossas vidas foram profundamente depravadas. Por isso, neste texto abordaremos três aspectos de nossas vidas que foram afetados pelo pecado, mais precisamente quanto ao uso que fazemos deles no culto a Deus.

Como dito acima, três aspectos, ou elementos, legítimos ameaçam constantemente a Igreja do Senhor devido à pecaminosidade do homem. São eles: a tradição, a emoção e a razão. Se usados corretamente, esses elementos são saudáveis a uma comunidade local, que deveria lançar mão deles. Não há igreja que seja saudável e que, ao mesmo tempo, exclua, por exemplo, a razão de seus cultos, ou então que não considere os concílios históricos sobre os quais a Igreja está firmada. Todavia, há um perigo enorme em fazer de qualquer um desses elementos, que são legítimos, algo digno de culto ou elevá-los ao nível das Escrituras Sagradas. Nenhum dos elementos listados acima é digno de tais coisas. Somente a Palavra de Deus tem a autoridade suprema e total sobre a Igreja de Deus.

  • A TRADIÇÃO

A tradição é um excelente elemento, sem o qual nenhuma igreja que não a considere permanecerá saudável por muito tempo. Olhar para o que os pais da Igreja, os reformadores, os puritanos e tantos outros milhares de homens piedosos escreveram é reconhecer a graça de Deus ao dar mestres à Igreja. Por outro lado, ignorar toda a História da Igreja e o que nela foi produzido é pura demonstração de orgulho e soberba. Em todo tempo, devemos olhar com humildade para aqueles que caminharam a mesma caminhada que nós e reconhecer o que eles nos deixaram como legado. Saber sobre a tradicional confessionalidade da Igreja Evangélica é saber o que é, de fato, ser participante dela.

E se há um problema urgente nas igrejas ditas evangélicas no Brasil hoje é justamente sua falta de confessionalidade. Cada dia mais as igrejas têm se esquecido daqueles documentos tão valiosos que nos foram deixados por nossos pais. A igreja evangélica hoje é muito mais anticatólica do que propriamente filha da Reforma. Em nossos arraiais já não se conhece os antigos credos, confissões de fé, catecismos e sínodo produzidos com tanta força e clareza por homens que caminharam com Cristo. E é de extrema importância para a saúde de nossas igrejas que ponderemos sobre esses documentos, pois eles já passaram pelo crivo do tempo e da História e, ainda assim, permanecem de pé, pois foram erguidos sobre o fundamento lançado pelos santos apóstolos e profetas.

O extremo oposto da falta de confessionalidade histórica é quando o uso da tradição é levado às últimas consequências. Neste caso já não se fala mais em tradição, e sim em tradicionalismo. O tradicionalismo é a degeneração da tradição. Ao contrário da tradição, o tradicionalismo não tem sua fundação na santa Palavra de Deus, sua origem está nas superstições humanas. Enquanto a tradição é a fé viva daqueles que já morreram, o tradicionalismo é a fé morta daqueles que ainda estão vivos. No tradicionalismo, não há vida. No tradicionalismo, o que importa é a forma, não o conteúdo. Por inúmeras vezes, Jesus se depara com homens tradicionalistas e denuncia sua podridão espiritual com aparência externa (Mt 15.3,6,9; Mt 23.23-33). A consequência imediata e final do tradicionalismo é o clericalismo – erro que pode ser visto mais claramente na Igreja Católica Romana, que o cometeu no passado e continua a cometê-lo.

  • A EMOÇÃO

O segundo elemento que deve ser considerado é a emoção. A emoção é um elemento muitíssimo piedoso do qual a Igreja deve lançar mão. As Escrituras estão permeadas de momentos em que emoções legítimas se apresentam, e por muitas vezes elas são manifestas por sinais exteriores (Jn 3.5-8; 2Sm 1.11; Mt 5.4). Aliás, a Bíblia não nos proíbe de exteriorizar de forma piedosa um sentimento que, interiormente, é verdadeiro. O que as Escrituras condenam é o ato exteriorizar o que não é verdadeiro, ou fazê-lo por motivos escusos (Is 29.13; Ml 2.13,14; Mt 15.8). O problema de todos os homens, e consequentemente da Igreja neste mundo, é que o pecado nos afetou por completo, e nossas emoções não ficaram de fora.

Embora seja absolutamente saudável o uso da emoção no meio do povo de Deus, há um perigo enorme de se corromper esse elemento santo. Quando corrompida, a emoção deixa de ser útil e passa a ser desastrosa. É o que chamamos de emocionalismo. O emocionalismo é justamente o que foi dito acima: a exteriorização de um sentimento ilegítimo ou o seu uso por motivos ilícitos. O emocionalismo é a elevação da importância sentimental momentânea. O fim último do emocionalismo é trágico: o misticismo – tão presente nas igrejas neopentecostais.

  • A RAZÂO

O terceiro e último elemento a ser considerado é a razão. Obviamente, tudo que nós fazemos, o fazemos como seres racionais. Ao contrário do que muitos pensam, a razão não é o oposto da fé; nossa fé é racional. Paulo, por exemplo, nos convoca a prestarmos um culto racional a Deus (Rm 12.1). Entender as nuances que cercam a fé cristã e as implicações de crer em Cristo é nosso dever como cidadãos do Reino celestial (Lc 14.26-33; 1Pe 3.15; Jd 3). Inclusive, somos chamados a amar a Deus de todo nosso coração, mente, força e entendimento (Mt 22.37). O uso de nossa racionalidade é bom e agradável a Deus, pois reflete nosso Criador, que é racional.

O problema reside em quando esse elemento tão sadio é deturpado, pois, assim como todo o ser humano, a razão também foi corrompida pelo pecado. A deturpação da razão é o que chamamos de racionalismo. Enquanto fazer o uso da razão é fazer o uso da nossa capacidade (ainda que imperfeita) de entendimento lógico, filosófico e teológico, racionalismo é elevar a mente ao status de deus. Os racionalistas excluem de sua fé tudo aquilo que a mente não pode compreender. Eles possuem uma crença totalmente racionalista, excluindo, assim, os mistérios da fé cristã que não conseguimos compreender, mas que são cruciais ao Cristianismo – como a Trindade ou a união hipostática.

O racionalismo é a tentativa inútil de racionalizar Deus. É impossível colocar Deus dentro de nossas mentes. Nem mesmo em toda a eternidade entenderemos perfeitamente Aquele que é “infinito em Seu ser e Suas perfeições” (CFW II.I; 1Co 2.10; Jó 11.7-9; Jó 26.14). É necessário convivermos com a tensão de que sermos racionais não nos torna entendedores de todas as coisas, mas, nem por isso, tais coisas deixam de serem verdades. O racionalismo é um caminho fatal para o materialismo. No materialismo, tudo que é matéria, provável e real aos sentidos humanos pode ser crido. O que não se encaixar nisso deve ser excluído – como, por exemplo, a ressurreição literal e corpórea de Jesus dentre os mortos. Esse foi o principal erro no qual as igrejas históricas que se tornaram liberais caíram no passado e caem ainda hoje.

Vale ressaltar que, enquanto esses elementos santos mantêm uma comunhão perfeita entre si, a degeneração deles é mutuamente excludente, isto é, onde há um, não há o outro. Por exemplo, onde o misticismo faz morada não se tem mais o uso piedoso da tradição. A razão, também, não se faz presente ali por motivos óbvios. Poderíamos, ainda, tomar como exemplo o materialismo. Onde ele se faz presente, há arrogância. Não se pode sentir nada. Todo sentimento (ainda que legítimo) é inferiorizado, humilhado e reprimido. A tradição também não se abriga nesses ambientes; há apenas um amor morto por aquilo que também já morreu. Não se constrói nada a partir da tradição; pelo contrário, destroem o que foi construído por amor a uma suposta racionalidade exaltada (cf. 1Co 1.19-31).

Concluo, portanto, dizendo o que eu disse no início: todos esses elementos são legítimos e devem ser partes integrantes do culto a Deus. Devemos fazer o uso correto da tradição. Nossas emoções devem ser santas, bem como nossa racionalidade deve ser levada cativa à Palavra de Deus (2Co 10.5). O mau uso que se tem feito de qualquer um dos aspectos aqui apresentados torna o culto impuro, idólatra, profano e irreverente, pois toma da Palavra o status de fonte única autoritativa para a Igreja. Cabe a nós nos arrependermos profundamente diante do Senhor por todas as vezes que permitimos que essas coisas tivessem abrigo em nossas igrejas e em nosso coração.

Rafael Almeida. 24 anos, nascido em Passa Quatro – MG. Formado em Redes de Computadores pela Fatec/Cruzeiro – SP. Coordenador dos trabalhos da Igreja Batista Reformada em Passa Quatro – MG. Tem interesse especial em hermenêutica e exegese. Rafael é casado com Ana Cristina.


Somos a geração do amor livre. Nós o transformamos até mesmo num dogma como pregado, cantado e demonstrado nessa edição do Rock in Rio, e ai de quem opor-se a ele. Ele é dogma no sentido de que todos têm total liberdade para escolher o que quiserem quanto a sua sexualidade, contudo, entretanto, todavia, porém, não se alguém quiser iniciar um processo para deixar de ser gay, se assim for, a liberdade tão apregoada já não será mais tão prezada.

O problema com a ideia dogmática do amor livre é que ela carrega em seu cerne uma contradição essencial: o amor não pode ser medido apenas pelo seu grau de liberdade, pois amar não é um ato que constitui-se apenas de liberdade. Liberdade elevada à última potência atende pelo nome de anarquia, não amor.

Dentro das relações de amor existem muitos outros fatores que vão além da liberdade, existe comprometimento, responsabilidade, sacrifício, resignação, renúncia. Estamos com a falsa impressão de que nos libertamos da opressão da família patriarcal tradicional, quando na verdade estamos apenas trocando o suposto e famigerado agente opressor, que agora atende por outro nome: impulsos afetivos. Nossa geração rendeu-se ao sensorial, ao afeto como senhor sobre todas as coisas.

Na esteira do mesmo pensamento, transformamos o Estado numa máquina cada vez maior e mais reguladora de nossas vidas. Entregamos nas mãos dessa distinta, eficiente e altamente estimada instituição a prerrogativa de definidor das relações afetivas humanas. Pergunto, diante disso: o que nos espera ali adiante? A legalização do poliamor, da pedofilia, do ecoamor, do canibalismo, da zoofilia? Tudo em nome do amor, não é? Afinal, consideramos justa toda forma de amor, diria o poeta, não? O Estado falou? Tá falado! Ou seria tá lacrado?

Se nossa geração agnóstica secularizada que cita inúmeras vezes muito seletivamente as palavras de Jesus quando ele versa sobre amar ao próximo como a ti mesmo, soubesse, verdadeiramente, a respeito de qual amor Jesus estava se referindo, não se utilizaria de forma tão equivocada das palavras do Cristo para justificar tais práticas. O amor sobre o qual Jesus está falando – e basta olhar sua vida e obra que isso ficará evidente – tem muito mais a ver com a renúncia cabal de si mesmo para o cumprimento e obediência da vontade de Deus em humilde resignação, do que com uma liberação ilimitada de todos os impulsos carnais humanos sob o pretexto de uma irracional e ensandecida liberdade.

O homem pensa ter assumido o Trono de Deus e ter realocado o próprio Deus para o banco dos réus, mas só pensa. Pobre homem, um sopro nas mãos do Criador, um vento passageiro que ousa todos os dias rebelar-se contra o Senhor de Toda Criação. Não enganem-se, meus amigos! Deus continua reinando e chamando os homens a arrependerem-se de seus maus caminhos e tornarem-se para Ele. Muito em breve todos os pingos serão colocados nos is e toda língua tremulará dizendo em alto e bom som que Jesus Cristo é o Senhor de todas as coisas.

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. Atualmente cursa o oitavo semestre de teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP.

 

 



Rodrigo Hilbert, famoso ator e galã da TV Globo, recentemente virou um fenômeno na internet por causa de sua peculiar disponibilidade em servir e ajudar sua família – em especial, sua esposa. O rapaz parece gostar de cozinhar, arrumar, consertar e prestar todo tipo de auxílio necessário dentro de casa. Ao que parece, ele faz muita coisa e tudo que faz, faz muito bem feito.

Obviamente, o fato de Rodrigo ser uma pessoa pública, exposto nas televisões de todo país e ainda ser marido de Fernanda Lima, certamente faz com que todo esse frisson ganhe ainda mais volume, contudo, mesmo assim, gostaria de propor um motivo mais estrutural e profundo para todo esse barulho.

Por que atitudes cotidianas e cuidados comuns de homens para com suas esposas e famílias há 20 ou 30 anos atrás, em certo sentido, transformaram-se em algo absolutamente raro atualmente? Por que as mulheres identificaram-se tanto com o jeito de ser de Rodrigo Hilbert? Será mesmo apenas uma identificação com os dotes físicos e com a conta bancária do galã ou existe algo a mais por trás desse movimento todo?



Há uma verdade que precisamos nos recordar constantemente: “nada há de novo debaixo do sol” (Ec 1.9) – apesar de que as circunstâncias atuais não nos tem deixado esquecê-la. Esta verdade antiga deve estar cravada em nossas mentes de tal forma que nos lembremos dela em cada texto lido e em cada mensagem pregada, pois nos ajudará a combater as falsas doutrinas, que falsos mestres têm ensinado na Igreja de Deus. Ao olhar uma doutrina surgindo no meio da Igreja, saiba: “já sucedeu nos séculos passados, que foram antes de nós” (Ec 1.10).

O Diabo é sagaz. Desde o Éden ele age sempre da mesma maneira: deturpando a Palavra de Deus. A sua sagacidade, porém, não está em fazer sempre a mesma coisa; mas sim em dar uma embalagem nova às velhas mentiras. E a datar do nascimento da Igreja, há uma heresia terrível (dentre muitas outras) que, vez ou outra, resolve aparecer para nos assolar: a tentativa de judaização da Igreja. Esta é a mentira contada por Satanás, através de seus servos, de que precisamos resgatar os elementos cerimoniais do culto judeu do Antigo Testamento, prescrito na Lei de Moisés.

Já nos dias do Novo Testamento, o apóstolo Paulo lutou bravamente contra homens que insistiam em levar o culto veterotestamentário para dentro do seio da igreja cristã. Dentre muitas outras coisas, aqueles homens queriam estabelecer na igreja o calendário judaico, o cardápio deles e a circuncisão (Cl 2.11-16). Paulo sempre ergueu sua voz contra estes homens (Gl 2; Tt 1.10,11). Não há razão para restabelecer estas coisas na Igreja, pois elas mesmas são sombras daquelas que já vieram (Cl 2.17; cf. Hb 8.5; Hb. 10.1). Estes homens, o apóstolo conclui para Tito, afirmam conhecer a Deus, mas são abomináveis, desobedientes e réprobos em toda boa obra (Tt 1.16).

Os judaizantes, como são chamados os adeptos desta heresia, tentam sempre resgatar de alguma maneira os objetos de culto prescritos na Lei e introduzi-los no culto cristão. A arca da aliança, a pia de bronze, o incenso de ouro e o candelabro, por exemplo, são todos objetos do culto judaico que tais homens tentam reviver e trazer para a Igreja. Apesar da aparência de piedade, estas coisas são vazias de poder (2Tm 2.5). Paulo trata estes homens com muita firmeza, ordenando a Tito novamente que os repreendesse “severamente, para que sejam sãos na fé, não dando ouvidos a fábulas judaicas, nem a mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tt 1.14, ênfases acrescentadas).

O grande e verdadeiro objetivo dos judaizantes é sepultar a Nova Aliança, mesmo que isto seja totalmente reprovado pela Palavra de Deus – tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Isto se torna claro pelo fato de o Antigo Testamento clamar o tempo todo por uma nova aliança, superior àquela (Jr 31.31-34; Ez 36.22-30). Assim, a tentativa de reconstrução de um templo terreno ou a restauração do ofício de um sumo sacerdote em uma igreja dita cristã é realmente uma blasfêmia diante do Senhor. Uma análise mais profunda de todo o Novo Testamento nos permite perceber que estas ações são deturpações de homens insubordinados, faladores vãos, enganadores e cheios de torpe ganancia (Tt 1.10,11).

No Antigo Testamento, uma vez por ano, o sumo sacerdote adentrava o Santo dos Santos, ou Santíssimo Lugar, para fazer expiação pelo pecado do povo (Lv 16.34). O Santo dos Santos ficava separado do restante do Templo por um espesso e alto véu (Lv 16.2,12,15). Dentro do Santíssimo Lugar, estava a Arca da Aliança, que representava a presença de Deus com o povo (Nm 10.33-36; cf. Hb 9.4). Já no Santo dos Santos, com o sangue de um novilho e de um bode sacrificado, o sumo sacerdote espargia o sangue sobre a tampa da Arca da Aliança, que se chamava propiciatório, para expiar os seus próprios pecados e os pecados que o povo cometera durante aquele ano (Lv 16. 6.14, 15, 16, 34).

Muitos séculos passaram desde a instituição destes sacrifícios. Milhares de animais haviam sido oferecidos no Templo como oferta pelos pecados do povo. Então, na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, sob a Lei, para resgatar aqueles que viviam debaixo da Lei (Gl 4.4). Em outras palavras, Jesus veio para fazer aquilo que a antiga Lei não tinha poder para fazer: salvar pecadores (Hb 7.19; cf. Rm 3.20; Rm 7.7, Gl 3.23,24). Se a Lei tivesse poder para salvar pecadores e os sacrifícios de outrora fossem de fato eficazes não haveria a necessidade de Deus enviar Seu único Filho para nos salvar (Hb 7.11).

Na cruz, então, Jesus é o sumo sacerdote que oferece a si mesmo como oferta pelo pecado do povo. Ele é o sumo sacerdote que adentra o Santo dos Santos com seu próprio sangue, expiando os pecados do Seu povo de uma vez por todas (Hb 7.27). Não há mais necessidade de outro sumo sacerdote na Igreja, pois o sacrifício oferecido por Cristo é eterno em Seu poder. O véu do templo se rasgou de alto a baixo (Mt 27.51), simbolizando que aquele antigo sistema de sacrifícios perdera sua eficácia e que agora podemos nos achegar com confiança ao trono de Deus, sem a intercessão de nenhum outro homem, pois Jesus Cristo é o nosso grande sumo sacerdote (Hb 4.14, 16).

O autor aos Hebreus, aliás, é cirúrgico na sua explicação deste ofício para a Igreja. Ao longo de sua carta, ele faz uma correta conexão entre aquilo que é sombra e o seu cumprimento, entre o tipo e o seu antítipo (Hb 8.5; 10.1). Sua análise começa pela comparação do ofício sacerdotal da linhagem de Levi e o sacerdócio da ordem de Melquisedeque, que não tem princípio de dias, nem fim de vida, semelhante ao Filho de Deus (Hb 7.3). A conclusão óbvia que o autor da carta aos Hebreus chega é que o sacerdócio segundo Melquisedeque é infinitamente superior ao sacerdócio levítico (Hb 7.15,16,22). E Jesus, complementa o autor, é “sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7.17).

É evidente, então, que diante de tamanho sacrifício oferecido por Jesus, que é sumo sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque, “o mandamento anterior”, isto é, do sacerdócio levítico, “é ab-rogado por causa da sua fraqueza e inutilidade” (Hb 7.18), pois a antiga lei não aperfeiçoou a nada, mas o Filho é para sempre aperfeiçoado (Hb 7.19,28). Ademais, o autor tece mais uma comparação fatal ao antigo sistema de sacrifícios: um sumo sacerdote segundo a Lei tem seu sacerdócio limitado, pois a morte o impede de continuar; mas Aquele que não tem fim de dias tem seu sacerdócio perpetuamente e intercede por seu povo para sempre (Hb 7.23-25).

A nossa salvação, portanto, só está segura se o nosso sumo sacerdote vive para sempre, pois só assim Ele pode nos salvar perfeitamente, intercedendo diante de Deus (Hb 7.25). Qualquer sumo sacerdote eleito no meio da Igreja hoje não tem poder para interceder por nós, muito menos para nos salvar. Nenhum homem pode tomar este ofício hoje (1Tm 2.5). O nosso sumo sacerdote é Jesus Cristo “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime que os céus” (Hb 7.26). Toda tentativa de representação de um sumo sacerdote hoje é querer viver pela Lei que foi ab-rogada devido à sua fraqueza e inutilidade.

A Igreja de Jesus tem “um sumo sacerdote tal, que se assentou nos céus à direita do trono da Majestade, ministro do santuário, e do verdadeiro Templo, que o Senhor fundou, e não o homem” (Hb 8.1,2). Só mesmo mentes diabólicas, como a dos judaizantes, tentariam anular o sumo sacerdócio de Alguém que está à direita do Pai no Templo celestial, a fim de instaurar o sumo sacerdócio de um pecador miserável aqui na Terra. Voltar a viver pela Antiga Aliança depois de tamanha revelação de Deus, adverte o autor da carta aos Hebreus, é crucificar novamente o Filho de Deus, expondo-O ao vitupério, e para estes já não há mais esperança (Hb 6.4-6).

“Porque se voluntariamente continuarmos no pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma expectação terrível de juízo, e um ardor de fogo que há de devorar os adversários” (Hb 10.26,27). Desprezar a Nova Aliança é pisar o Filho de Deus, e ter por profano o sangue do pacto e ultrajar o Espírito da graça. Em outras palavras, desprezar o sumo sacerdócio de Jesus é um pecado contra o Pai, que enviou a Jesus, contra Jesus, que morreu por nós, e contra o Espírito Santo (Hb 10.29). Certamente, tais pessoas não escaparão do juízo vindouro, pois Deus é vingador do mal e, por isso, “horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.30,31).

A Igreja não pode se calar. Não podemos tratar tais coisas com leviandade. Diante de tal afronta a Deus, nossa obrigação como cristãos é levantar a nossa voz e denunciar tal blasfêmia. “E quando alguma pessoa pecar, ouvindo uma voz de blasfêmia, de que for testemunha, seja porque viu, ou porque soube, se o não denunciar, então levará a sua iniquidade” (Lv 5.1). Que Ele use esta denúncia para trazer arrependimento e quebrantamento sobre a Igreja Brasileira. Que Deus tenha misericórdia de nós!

Rafael Almeida. 24 anos, nascido em Passa Quatro – MG. Formado em Redes de Computadores pela Fatec/Cruzeiro – SP. Coordenador dos trabalhos da Igreja Batista Reformada em Passa Quatro – MG. Tem interesse especial em hermenêutica e exegese. Rafael é casado com Ana Cristina.


Defendo que é, no mínimo, uma incoerência lógica sustentar um discurso como esse no cotidiano da vida real. Ao que parece, o ser humano atualmente não pode mais corrigir e contestar, ao passo que também não pode ser contestado ou corrigido, e a razão para isso é o fato de que temos de ‘amar mais e julgar menos’. O fato é que a possibilidade de existir amor, afeto, bondade e piedade em um ato de correção parece ser nula nos dias atuais, e isso, de fato, é um caos!

O cenário é caótico

Discernir, julgar, tomar decisões, escolher entre um caminho e outro, uma opção e outra, corrigir, retomar, rejeitar, são atitudes inerentes à vida, fazem parte do desafio de existir desde quando o mundo é mundo. Estão querendo, então, pintar uma realidade em que o discernimento entre o bom e o ruim, o justo e o injusto, é algo dispensável e desprezível? Estão querendo que rasguemos nosso senso crítico como uma folha de papel rascunho e o atiremos na lata do lixo? Como assim, minha gente? Negar isso é privar o ser humano da construção sadia da sua própria personalidade e de seus próprios valores, negar esse processo crítico inerente a personalidade de cada um e todas as suas implicações seria o cúmulo da relativização. Se formos privados do direito e, por que não, do dever de julgar, cairemos num completo suicídio existencial, pense comigo, como poderiam se sustentar as relações e a convivência humana diante de tal quadro?

Temos fortes sinais deste tipo de pensamento, que é chamado de liberalismo moral, já presentes no seio da sociedade atual. Impunidade escancarada, multiculturalismo em prol do “bem comum”, relativização de inúmeros valores inegociáveis pela sociedade até então, flerte, pelo menos no ocidente, com a legalização de práticas como o aborto, zoofilia, pedofilia, canibalismo, e a máxima “o corpo é meu faço dele o que eu quiser” proclamada aos quatro cantos, gostem ou não.

Tudo em nome da liberdade e da autonomia do ser humano. A mentira da vez é que o ser humano é livre, mesmo sendo claramente, escravo de suas próprias vontades, por mais bizarras que elas sejam. Não existe mais errado, tudo é relativo, cada um constrói a sua verdade e ninguém mais julga ninguém. Pergunta honesta: qual pessoa com o mínimo de senso crítico realmente acredita num discurso como esse? Então, quer dizer que todas estas pessoas que exigem que se pare com julgamentos também não julgam mais nada e ninguém? Isso não faz sentido!

Estamos sendo imbecilizados, estão querendo impor sobre nós um consciente coletivo onde todo mundo deve pensar dentro de uma determinada caixa que abrange certas ideologias e aquele que não o fizer, automaticamente é considerado fundamentalista, retrógrado, mente fechada, ridículo, burro, ignorante, ditador e por aí vai. Querem nos tirar a capacidade de entender e discernir a realidade até o ponto que nos transformemos em seres de pensamento monotemático e acrítico.

O perigo irreversível

Deixar de exercer juízo sobre as pessoas e seus comportamentos em sociedade é escancarar as portas para que em pouquíssimo tempo coisas que hoje, ainda, são absolutos inquestionáveis tornem-se questionáveis, combatidos e vencidos. Imagine dentro de poucos anos, pedófilos com aval da sociedade para agirem livremente, como já tem sido amplamente discutido em países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Ou então que o canibalismo seja legalizado mediante consenso mútuo dos envolvidos. O que você pensaria? Ah não! Vamos com calma, não podemos julgar! Percebem onde isso pode parar?

Se o ser humano excluiu Deus de sua agenda e trabalha numa velocidade cada vez maior para extinguir todos os valores judaico-cristãos extraídos da Escritura Sagrada que ajudaram a construir toda a moral do ocidente, o que vai nos restar? Qual balança iremos usar? A qual absoluto iremos recorrer? Amigos e amigas, se cada um tem a sua verdade, pensa o que quer, faz o que quer, se não existe absoluto moral algum porque ninguém pode julgar ninguém em nome do amor, quem poderá falar com propriedade sobre o que é certo ou errado? Não existe autoridade. A alegação de um pedófilo será, por exemplo, que se envolver sexualmente com uma criança é uma forma que ele tem de demonstrar amor por ela. Se tudo é relativo e cada um tem sua verdade, quem, legitimamente, poderá contestar o argumento deste homem? Conseguem compreender que se aprofundarmos um pouco mais as implicações desse discurso politicamente correto no cotidiano da vida poderemos estar comprometendo a nossa ordem como humanidade?

Obviamente, esse texto não tem por objetivo esgotar a discussão, mas o argumento que o ser humano é autônomo e pode fazer o que quiser, contanto que não desrespeite a existência do outro é perigosíssimo. O ser humano não é autônomo, antes, é formado por inúmeros fatores que o afetam desde criança; família, ambientes, crenças, sejam religiosas ou não, atividades, criação, escolaridade, tudo isso compõe uma gama enorme de influências sobre a mente de um indivíduo. O ser humano não pode conceber sua existência como uma ilha, esse argumento é falho, fomos criados para viver em comunidade, tudo que fizermos reverberará direta ou indiretamente no nosso próximo. Amigos, o que seria do “eu” sem o “tu”? Em última instância, não estaríamos nem aqui, não haveria raça humana. O indivíduo achar que aquilo que ele faz, seja de bom ou de ruim, repercute apenas e exclusivamente nele mesmo é, no mínimo, inocência.

E o que Jesus tem a ver com tudo isso?

Por tudo isso, o exercício do discernimento e do julgamento tão combatido atualmente, é e sempre foi fundamental para o bom andamento da convivência e da ordem das coisas. No entanto, a ideia aplaudida e reverenciada nos dias atuais é o franco combate ao ato de se julgar, esta ideia, na grande maioria das vezes, tem sido fundamentada erradamente sobre os ensinos de Cristo registrados na Escritura Sagrada, e a este ponto gostaria de me dedicar neste momento. Vejamos o principal texto utilizado para sustentar essa posição:

Não julguem os outros para vocês não serem julgados por Deus. Porque Deus julgará vocês do mesmo modo que vocês julgarem os outros e usará com vocês a mesma medida que vocês usarem para medir os outros. Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: “Me deixe tirar esse cisco do seu olho”, quando você está com uma trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão. (Mt 7.1-5 NTLH)

O julgamento que agrada a Deus

Claro que a prática de se julgar indiscriminada e levianamente é combatida de forma contundente por Cristo! Isso é óbvio! Nós como seres humanos falhos, temos de nos policiar em todo o tempo, pois, para nós é natural criticar e denegrir o outro com muito mais facilidade do que a nós mesmos. Esse posicionamento é desprezível e aquele que age assim é chamado pelo próprio Cristo de “hipócrita”. O julgamento hipócrita é feito por aqueles que não têm autoridade alguma para julgar o assunto que estiver em questão. O ensinamento de Cristo nesse caso é “tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão”. Notem que ele diz “tire a trave do olho para que, então, esteja apto para tirar o cisco do olho do seu irmão”. Jesus não condena o ato de tirar o cisco do olho do irmão, e sim, a atitude hipócrita, desprovida de amor, de condenar alguém sem que tenhamos autoridade alguma para fazê-lo.

O julgamento cristão nunca deve ser desprovido de compaixão e amor por aquele que está sendo julgado. O próprio Deus “corrige a quem ele ama e castiga a quem ele aceita como filho” (Hb 12.6-7). Dizer que Jesus condena todo e qualquer julgamento é infantilidade mimada de quem busca um espaço inexistente nos ensinos bíblicos para avalizar suas práticas erradas. O próprio Cristo combate a postura infantil dos judeus de sua época e ordena: “julguem segundo a reta justiça”, leiam João 7 e tirem suas próprias conclusões. O mesmo Jesus que diz “não julgueis”, agora diz “julgai segundo a reta justiça”? Está Cristo se contradizendo ou somos nós que não estamos o entendendo? Fico com a última resposta. Basta uma busca honesta e corajosa pela Escritura e veremos que somos ordenados a combater falsos mestres, falsos ensinos, dominar, administrar e sujeitar a terra como bons mordomos, trata-se de uma tarefa grandiosa e para cumprimos estas coisas julgar é e sempre será imprescindível.

Com esse discurso politicamente correto de “não julgueis” estamos barateando o sacrifício de Jesus Cristo na cruz do calvário, como se todo seu sofrimento e morte fossem o passe-livre que precisávamos para viver uma vida promíscua e despreocupada com a santidade. As vezes tenho a impressão que em certas ocasiões a expressão “não julgueis” significa muito mais um “deixe-me pecar em paz” do que qualquer outra coisa.

Sinceramente, esse pensamento me assusta. Todo o plano de Deus não é e nunca foi sacrificar o seu Filho para que o homem pudesse ficar livre e tranquilo para praticar seus pecados sentido-se perdoado, não! Deus penalizou-se a si mesmo, matando seu Filho amado, para que pudéssemos, enfim, nos livrar do jugo do pecado! Por mais formoso que possa parecer aos nossos olhos, o pecado é mau e nos afasta de Deus. Parece que estamos tentando arrumar uma desculpa para trilhar exatamente o caminho oposto.

O ser humano é pecador e vai cair, sim! Vai pecar, sim! E justamente nesta hora temos de ser ainda mais amorosos e gentis com aquele que cai, estendo-lhe mãos de socorro, perdão e correção. No entanto, não é porque temos de ser amorosos, que faremos vistas grossas e seremos condescendentes com o erro. Se você quer saber o quanto o pecado é detestável para Deus, olhe para a cruz, veja o que Ele fez Cristo, seu Único Filho, padecer por causa do seu e do meu pecado! Se você quer saber o quanto Deus ama o ser humano e quer que ele se livre do salário do pecado, olhe para cruz! A cruz é o cenário mais estonteante da história!

Deixemos a imaturidade do discurso fácil e leviano

Muitos pregam o maravilhoso evangelho do “eu também não a condeno” de João 8.11, mas, se esquecem de pregar o não menos maravilhoso evangelho do “agora vá e abandone sua vida de pecado” do mesmo João 8.11. É preciso entender que esta segunda afirmação também é carregada de amor, bondade e cuidado de Deus. Cristo só pôde dizer àquela mulher “eu também não a condeno” porque sabia que muito em breve ele padeceria horrores numa cruz em pagamento dos pecados dela, alguém teria de pagar aquela conta.

O Filho de Deus ofereceu sacrifício alto demais para que vivamos conformados à lama do pecado. É importante refletir que na grande maioria das vezes crescemos e aprendemos muito mais com as dificuldades e tempestades da vida do que com os momentos de bonança. Correção é dádiva! Seguir a Cristo implica em constante luta contra nossa natureza pecaminosa. Foi sempre assim, o apóstolo Paulo já dizia aos coríntios: “esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado”. Vejo muita gente falando por aí que Deus é amor, mas quase ninguém dizendo com a mesma ênfase que Ele também é santo, do mesmo jeito e na mesma essência. Permitam-me uma ousadia teológica, se fôssemos examinar ao longo de toda Escritura, o único atributo de Deus que é repetido três vezes é o atributo de sua santidade. Em nenhum lugar vemos Deus sendo chamado de justo, justo, justo, ou, amor, amor, amor.

Servimos a um Deus que é Santo, Santo, Santo e seu amor não existe e nunca existiu em detrimento de sua santidade. Portanto, por mais dolorido que seja, que nos alegremos nos momentos em que formos julgados “segundo a reta justiça”, este será sempre um grande sinal de que Deus nos ama e quer o melhor para nós.

Que combatamos sim, em nosso meio, a prática leviana do julgamento hipócrita, desprovido de amor que não aponta para glória de Deus e para recuperação do próximo, tal comportamento deve ser banido do nosso coração e da nossa prática. Mas, que também nos posicionemos de modo a trazer maior lucidez e coragem para este tema que tem sido grosseiramente manipulado em detrimento de interesses que não atendem em absoluto a agenda do Reino de Deus.

Que não transformemos o evangelho do Cristo Bendito em uma ideologia barata, ou numa espiritualidade a la carte onde cada um se serve daquilo que bem entende e julga ser correto e mais confortável para si.

Aliás, já perceberam que todos nós julgamos todo mundo e todas as coisas o tempo todo, e exigir que alguém pare de julgar é uma contradição lógica e ao mesmo tempo uma hipocrisia? Que tenhamos maior profundidade, coragem e maturidade em encarar as questões sérias que compõem a nossa realidade, sempre em amor, para glória de Deus e zelosos pelo próximo. As vezes é bem difícil, mas nunca foi tão necessário.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. Atualmente cursa o oitavo semestre de teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã em Pindamonhangaba/SP.