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A coragem feminina

Uma estranha firmeza de alma ante o perigo e misturada numa perseverança rumo a um objetivo é o que comumente chamamos de “coragem”. Uma palavra latina cuja raiz é a mesma da palavra “coração”, isso porque em épocas remotas, acreditava-se que o coração era o órgão responsável por desenvolver este sentimento heroico.

Eu peço licença aos meus amigos e amigas leitores/as para afirmar que em se tratando de tipos de coragem, se é que podemos fazer tal separação, existe uma a qual a profundidade é desenvolvida em graus mais extremos, a saber, a coragem feminina.

Ao nos depararmos com a narrativa do nascimento do grande líder Moisés, encontrada no livro de Êxodo, podemos perceber que o seu nascimento, e, consequentemente sua vida de liderança, só se tornou viável pela coragem feminina, ou seja, pela dedicação e perseverança de mulheres que tomaram decisões difíceis frente a determinadas situações de perigo e ameaças reais.

No livro de Êxodo em seu primeiro capítulo, o rei do Egito é claríssimo em ordenar as parteiras Sifrá e Puá que matassem todos os bebês recém-nascidos do sexo masculino. Trata-se, portanto, de uma ordem de morte, provinda do Estado, agressiva e mortal, a saber: o infanticídio. Então duas mulheres, as principais administradoras de uma espécie de organização de parteiras, se veem diante de um dilema ético.

É incrivelmente empolgante perceber que elas decidem desobedecer uma ordem do governo para assumir o preço da liberdade ética da escolha. Mas o que estava por trás de tudo isso? A coragem feminina!

A coragem de olhares delicados, de uma profissão intrinsecamente ligada a outras mulheres que geravam vidas, mulheres que estavam diariamente diante da essência da vida. E é exatamente esta coragem única, a coragem feminina, que desperta em Sifrá e Puá a certeza de que naquele momento elas precisavam agir em desobediência ao rei do Egito.

É sobre essa coragem que te convido a refletir, uma coragem fundamentada no temor a Deus, o que significa estar enraizada no Deus da Vida, no Eterno Criador, Aquele que vocacionou essas mulheres a participarem e auxiliarem nos momentos onde a vida é revelada e não para serem agentes de um crime de infanticídio.

O que percebemos é que no coração destas mulheres estava um princípio simples e profundo, elas eram sujeitas ao governo do Egito, mas antes disso elas temiam o Eterno! Temor a Deus é o princípio de vida para estas heroínas e assim, ao desobedecerem o comando do rei do Egito, elas deixaram viver os meninos.

Todo ato de desobediência civil, obviamente, é questionado pelo Estado e no caso delas não foi diferente, ao serem questionadas pelo rei do Egito, tais mulheres mantiveram a coragem e posicionamento.

A beleza de toda essa narrativa é que o Eterno derramou a sua bondade sobre as parteiras Sifrá e Puá, e então, a coragem feminina fundamentada no temor a Deus colheu bênçãos e frutos na vida destas duas mulheres.

Olhar com atenção para esta narrativa nos faz refletir que por trás do grande líder Moisés, existem figuras femininas fundamentais que se estivessem ausentes, sua vida não teria sucesso algum, podemos até dizer que nem uma brevíssima duração.

A coragem feminina se revela na vida de toda mulher. A coragem da mãe de Moisés que desafia a lei daquele governo a fim de manter seu filho vivo; também se revela na filha do faraó que recebe o bebê e cuida como se seu filho fosse, sabendo que era um Hebreu, também desafia seu próprio pai; a coragem feminina também está na irmã de Moisés, Miriã, que vigia o bebê flutuando no cesto do rio. Porém toda essa sequencia de heroínas parte de Sifrá e Puá, as quais desafiam a ordem do rei do Egito se recusando a matar os meninos hebreus.

O que podemos aprender com tudo isso? Que talvez, nós homens não tenhamos a profundidade deste tipo de coragem a qual eu, particularmente, chamo de “coragem feminina”; trata-se de um olhar feminino para a vida e que através desse poder e perseverança, tais mulheres formaram e ainda formam grandes homens e grandes líderes; e por fim, que a bondade de Deus sempre é derramada sobre a vida de mulheres corajosas que, diante de desafios, dores e sofrimentos, nunca desistem.

Creio ser válido deixar um lembrete especial a nós homens: que possamos ler as narrativas da Bíblia e da vida com honestidade, louvando a Deus pelas heroínas cristãs as quais abençoam e edificam nossas vidas com um tipo de coragem exclusiva e profunda reservada apenas a elas.

E que o Eterno nos abençoe na mais absoluta certeza de que em Cristo Jesus todas as coisas ficarão bem.

Lacy Campos é casado com Junia e pai da Bella Hadassa, pastor na Igreja Presbiteriana de Leme/SP; graduado em Direito; Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul; Mestrando em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Um discípulo trilhando a jornada espiritual e que acredita que, em Cristo Jesus, todas as coisas ficarão bem.